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Isaías

Novembro 22, 2008

O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. Decerto nem sabiam do fim da escravidão. Falavam um dialeto estranho, cantado, nem parecia português. Isaías já tinha ouvido histórias horríveis de negros que mutilavam meninos para fazer rituais satânicos.
A paisagem estava tomada de árvores baixas e tortas e mostrava uma grande desolação. Toda aquela região tinha sido queimada semanas antes e no meio das cinzas aparecia aqui e ali uma flor colorida. Mato estranho, terra estranha. Apesar de ser setembro fazia frio. Parecia que ele poderia sem muito esforço tocar as nuvens, de tão alto que estava. Nenhum sinal de água. Ao longe, Isaías viu um jatobá. Descansaria ali por alguns instantes antes de continuar a viagem rumo ao norte.
O cavalo estava estenuado e sedento. Água ia demorar pra ver. Ele não conhecia bem aquela região, nem sequer estava seguindo uma estrada. Caminhava se orientando pelo sol e pelos pontos de referência no caminho. Mas ora, porquê raios o velho Matias tinha de inventar de confinar gado tão longe? Ouvira que além das montanhas haviam terras férteis, campos limpos entre os rios Tocantins e Araguaia. Lá ele exportava sua produção para o Maranhão e Piauí.
Acariciou a crina do cavalo. Era branco e por isso se chamava Coalhada. Bom cavalo, bonito, apesar de um pouco velho. “Já está ficando tarde” pensou Isaías “talvez fosse melhor montar acampamento aqui”.
Era uma decisão prudente. Quem sabe onde mais poderia arrumar um lugar tranqüilo para descansar? Se bem que ele tinha um certo medo das histórias que contavam sobre aquela região. Ah, moras ora! Quem daria bola para estas histórias?
Fez um pequena fogueira e comeu o que tinha: rapadura e farinha. Coalhada ficou solto, tentando comer o pouco de mato verde que encontrava. Isaías encontrou ainda alguns jatobás e comeu bem satisfeito. Estava ficando frio muito rápido e ele apressou em se agasalhar. As nuvens vieram rapidamente e pintaram tudo de branco. Eram por volta das cinco da tarde.
– Coalhada? – O cavalo tinha sumido. Não se ouvia nem o seu tropel ritimado. E essa agora? Pra onde teria ido? Isaías preferiu continuar perto da fogueira. Logo o cavalo deveria voltar.
Ele devia tê-lo deixado peado. Agora era tarde. Isaías agasalhou-se e ficou quieto, tremendo de frio. A brancura do nevoeiro começou a se tornar escuridão. Apenas bem perto da fogueira poderia se ver alguma coisa. Além disso, apenas breu.
A noite foi se aprofundando e o vento ficando cada vez mais forte. Ventava muito ali em cima, a ponto de fazer a fogueira trepidar perigosamente. Isaías jogou mais madeira ao fogo para torná-lo mais forte. Sem sucesso, um vento mais forte e a fogueira se apagou.
Escuridão completa. Nenhuma estrela, nada, apenas o barulho ensurdecedor do vento tomando tudo.
– Coalhada?
Isaías estava tremendo e não era só frio. O vento agora era acompanhado de gotículas de água que tornaram a sensação térmica insuportável. Não adiantava querer acender a fogueira de novo. Restava esperar que amanhecesse ou que o vento diminuísse. E onde diabos estaria este cavalo?
De repente, ouviu os primeiros trovões, bem longe.
– Noite amaldiçoada!
Já podia ver os relâmpagos.
– Valei-me minha Nossa Senhora!
Mais perto.
– Ave Maria cheia de graça o sinhô é convosco…
Não deu tempo de terminar a oração. Um raio caiu sobre o jatobá, a poucos metros, com grande estrondo. Isaías desmaiou.
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Continua…