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Augustos

Dezembro 1, 2008

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. A rua tinha sido asfaltada há pouco tempo e eu adorava o cheiro forte de piche saindo do chão. Não fazia frio naquele dia, mas o céu estava nublado. Era novembro e eu ia pegar o ônibus para a escola. Sozinho. Eu tinha nove anos.

Acabara de amanhecer. Eu sempre odiei o horário de verão porque tinha de acordar ainda mais cedo que de costume. Mal tomei café e comecei a andar em direção à parada. Era perto e o ônibus não ia demorar muito.

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. Algumas casas eram de madeirite mas a maioria era de alvenaria. E eu via a cidade crescer, rapidamente. Mas era tudo igual: cinza do cimento e das telhas de amianto misturado com o vermelho dos tijolos e da poeira que insistia em cobrir tudo.

Eu via as casas como um quebra-cabeças, onde as peças eram tão  parecidas que dava um grande trabalho diferenciar um casa da outra. A pobreza é assim: massificante. As casas se uniam em sua feiúra e se misturavam em sua falta de opulência. Todas unidas em sua tarefa de esconder as tristezas de seus moradores.

Mas eles não aparentavam ser tristes. As casas eram feitas para ser resistentes, sabe? Aquelas pessoas podiam fazer apenas isso: resistir. E embora cada uma delas carregasse um mar de desaventuranças dentro de si, era visível que todas tinham grandes esperanças de dias melhores.

Eram altivos, mas não tinham orgulho. Eram como aquelas casas, seguras, por fora, mas vazias por dentro. Mas embora vazias de móveis, eram carregadas de algo muito mais poderoso: sentimentos verdadeiros. Tristezas, alegrias, esperanças. Braços que se abraçavam fraternalmente e mãos que se ajudavam.

O orgulho é um luxo caro demais para aquelas pessoas e por isso elas se divertiam vendo o orgulho de outras na televisão. Era a alegria pasteurizada, sendo entregue gratuitamente em todas as casas. E, quando passava pelos bares da região eu via outro tipo de alegria: falsa, destilada ou fermentada, que se mostrava nos cuspes verborrágicos daqueles infames senhores. E o preço daquela alegria talvez fosse alto demais.

A vida se mostrava assim: inconstante e implacável como o sopro do vento que carregava as pipas dos meninos pelo céu. E quando uma delas voava, eles corriam como este mesmo vento inconstante, atrás de sua alegria: o arremedo do vôo, a essência da liberdade. Não uma liberdade comprada, vigiada, como a dos prédios com porteiro. Era outro tipo a que eles almejavam. A de dizer a que veio, quem era. A liberdade de sonhar e correr atrás de seus sonhos.

E eu sonhava muito quando meus passos se sucediam na direção da escola. Era preciso ousar para ser diferente. Era preciso ser igual na diferença, como aquela casa de esquina pouco antes da parada de ônibus. Também era de cimento, tijolo e amianto. Mas tinha uma coisa que só ela e nenhuma outra casa tinha: vasos e vasos de flores coloridas, destoantes, orgulhosas.