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O Viaduto

Novembro 10, 2008

Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda pior.

Não chovia há dois meses e os gramados de Brasília estavam secos, acinzentados e eu tinha muita sede. Era o governo do PSDB e, não é necessário dizer, não estávamos muito satisfeitos.

Mas a coisa tava feia. Uma bomba de efeito moral tinha estourado perto dali, minutos antes, ferindo uma menina bonita, de uns desesseis anos. Ela saiu de ambulância, ensangüentada. A organização da manifestação precisava fazer uma assembléia urgente, pois o confronto era iminente. Já via, no alto dos prédios do Setor Comercial Sul os policiais militares se aprontando. Um helicóptero sobrevoava os manifestantes, bem baixo.

O governo PSDB teve ampla maioria no congresso e, nessas horas era preciso ir às ruas para lugar pelos nossos ideais. Esta manifestação era organizada pelas CONCLUTAS, mas contava com a participação de vários movimentos organizados, como gays, sindicatos autônomos, cooperativas, MLST, entre outros. Claramente, nós punks não estávamos de fora.

– E as armas? – O Pedro perguntava excitado. Era a primeira vez dele numa manifestação tão grande. As CONLUTAS estavam começando a crescer neste momento e era a primeira manifestação de porte que eles organizavam. A gente tinha ido ali para fazer peso e oferecer ajuda. Eu já tinha visto várias manifestações como esta e, por isso mesmo, sentia medo. O PT não estava junto da gente, nem o MST, pois tinham fechado um acordo político com o PSDB. As disputas partidárias estavam enfraquecendo o movimento perigosamente. Fugi da pergunta do Pedro, fazendo outra.

– Eles estão posicionados? – Havia alguns de nós infiltrados nos prédios vizinhos. Queríamos saber se o batalhão de choque estava próximo.

– Estão. Parece que os hômi vão meter o pau.

– É, estou vendo. Talvez precisemos agir.

O lenço preto que cobria meu rosto me fazia respitar mal, mas ele seria muito útil em breve.

– Tomem o asfalto – eu disse – precisamos nos posicionar melhor para resisitir.

Não havia tempo para assembléias, era preciso agir rápido. No horizonte, via os homens da PATAMO que batiam com cacetetes nos seus escudos transparentes. Eles dominavam a pista no sentido norte. Nos posicionamos a sul, logo em frente. Era hora de expor meu plano. Os meus colegas me ouviram pacientemente.

– Precisamos furar o cerco para que os manifestantes cheguem à rodoviária. Lá podemos nos reorganizar e continuar a marcha, rumo ao Congresso. Eles não querem que cheguemos à Esplanada dos Ministérios. Vamos ter de enfrentá-los.

Nessa época ninguém tinha celular, era artigo de luxo. Se fosse hoje, provavelmente teria ligado para o PT e ver se eles intercediam para evitar o confronto. Mesmo nessa época o PT era muito forte. Agora era preciso agir por nossa própria conta. E estavam todos ávidos por confronto. Era inevitável.

– Vai ser difícil. O alvo principal é o viaduto. Tomando o viaduto, tomamos a rota que leva à rodoviária e de lá à Esplanada. Não quero ninguém com a gente que não seja profissional. – Eu me referia aos meninos mais novos que estavam entrando nas fileiras por esses dias. Eu sabia que a coragem deles sumia rápido nessas horas.

Os diversos movimentos punks estavam representados naquele dia, principalmente o MEPR. Meninos de preto, cabelos moicanos, socos ingleses e calças de couro. Mas eram meninos. Eu, com 17 anos, era já veterano. Apesar de ser um movimento anarquista, nessas horas era preciso alguma liderança. Éramos uns cem punks, ao todo. Pelo menos dois policiais pra cada um. A coisa tava feia.

Nos unimos, num círculo. Era preciso decidir se enfrentaríamos a polícia ou não. Os olheiros da polícia observavam tudo, do alto dos prédios vizinhos.

– Enfrentamos?

O Darth, velho de outros movimentos estava tão cauteloso quanto eu. Os outros queriam barulho, sangue.

– Eles têm uma boa fileira e uma boa posição. – disse Darth – Além disso, têm vantagem numérica e, possivelmente, o apoio da cavalaria. É uma luta muito difícil.

Não sabíamos a opinião dos líderes do CONLUTAS. Naquela hora, eles que se fudessem. Punk não aceita ordem de ninguém, mas seria interessante saber se o resto da multidão oporia alguma resistência conosco se necessário. Muitas variáveis. Eu estava com medo.

– Que porra de fileira, que nada! Vamo meter o pé na bunda desses pé-de-bota, filhos da puta! – um garoto que eu não conhecia gritava em alto e bom som.

– Cacetete no rabo deles! Morte ao Estado, viva a Anarquia!

– VIVA!

Olhei pro Darth, cocei a barba rala e re-observei a posição do batalhão da polícia. Os outros manifestantes estavam apreensivos, mas entoavam o “Fora já, Fora daqui! O FHC e o FMI!” a plenos pulmões. Olhei para o horizonte, depois para o céu do planalto. Uma grande abóboda azul, sem nuvens. É, era hora de agir.

– Mantenham a fileira posicionada, temos de tomar terreno o mais rápido que der. Permaneçam unidos até minha ordem de dispersar. Depois é cada um por si. Somos soldados na luta por um mundo de iguais, onde reine uma justiça de homens, sem a interferência do Estado. Esse Estado nos oprime, lutemos contra ele. PUNK!!!!!

– Punk!!!

– Fora FHC!!!!!

– Fora!!!!

E gritamos num uníssono, como um batalhão daqueles filmes de guerra da idade média. Nesse ínterim, abrimos nossas mochilas e tiramos de lá os Molotovs preparados de véspera. As fileiras da polícia avançaram rápido em nossa direção, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral. A multidão se dispersava, mas muitos resistiam bravamente.

Molotovs acessos, a polícia a menos de vinte metros.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E corremos como loucos na direção da polícia. O que aconteceu depois foi difícil de descrever. Os policiais se uniram em três grandes fileiras de pelo menos oitenta homens em cada e atiravam livremente nos manifestantes e em nós. Eu usava um sobretudo grosso e tentava desviar das balas de borracha. Os meninos mais novos corriam na frente, excitados.

– Mantenham a formação! – Eles nos esperaram. Marchávamos unidos, como uma fila. Podíamos ver a cor dos olhos dos policiais. Eles preparavam os cacetetes e firmavam posição com os escudos fazendo uma grande fila.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu pude perceber um leve sorriso nos guardas à nossa frente. Três passos. Dois passos. Um passo. Pulei com uma voadora no meio do mar de escudos e cacetetes. A fila da polícia resistia bem, era uma tropa bem disciplinada. Sinto que eles também estavam gostando daquilo.

– Molotov!!!!!!!!!!!!!!!

Afluiu uma chuva de garrafas de gasolina e óleo díesel. Elas queimavam entre os policiais que foram obrigados abrir a fila em um ponto. Estávamos conseguindo dividir a fileira. Uma parte considerável da multidão nos seguira, bravamente, carregando paus e pedras. Eu sorri. Esses CONLUTAS tinham futuro. Estava sendo divertido.

Eu fugia dos cacetetes, animandos os meus a continuarem lutando. Os policiais mantinham posição, mas a chegada dos manifestantes fez com que eles recalculassem o risco. Ainda ouvi a ordem do comandante para reorganizar a tropa.

Os meninos resistiam. Bravos, pareciam guerreiros de verdade. Vi um menino novo, uns quinze anos, com a cara toda empapada de sangue. Paus e pedra sendo jogados para todos os lados.

– Permaneçam unidos! Unidos!

Tinha medo de nos dispersarmos antes da hora. Quem sobrasse ia apanhar muito, talvez até a morte. Eles eram meninos.

Ouvi o tropel da polícia montada. Fudeu!

– BOLAS DE GUDE!!!!!!!!!

Uma grande horda de homens e cavalos corria ordenadamente, vinda do leste, em nossa direção. Os cacetetes deles eram maiores, como espadas. Retrocedemos um pouco, dando espaço para a polícia reorganizar a fila. Era melhor avançarmos contra a polícia montada e deixar os manifestantes com os políciais comuns.

– Pau no cu dos pé-de-bota!!!!!!!!!!!

E quando eles chegaram muito perto, jogamos milhares de bolas de gude no asfalto, fazendo com que alguns cavalos deslizassem, derrubando cavaleiros no chão. Corríamos na direção deles.

– Dispersar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eram duas frentes da polícia. Podíamos ficar cercados se continuássemos lutando como um bolo. Melhor nos infiltrar entre os manifestantes e lutar com eles. A ordem foi seguida pela maioria. Um grupo pequeno, com uns vinte, decidiu permanecer lutando unido. A polícia montada se reorganizou e partir para cima deles. Coitados, foram trucidados.

– Concentrem-se na fileira! Na fileira!

A fileira agora era mais compacta. Eles jogavam gás de pimenta para dispersar a multidão. A coisa tava feia. Mas a multidão era grande e nós punks éramos poucos. Os policiais precisavam se concentrar em várias partes da rua ao mesmo tempo. A fileira estava se abrindo, só mais alguns segundos e tomaríamos o viaduto. Mas aí veio a nossa desgraça.

Vieram mais policiais, de outros destacamentos, totalmente despreparados para este tipo de situação. Começaram a atirar para cima, com pistolas e escopetas de verdade. Eu tive medo, muito medo.

– Recuar!

Eles apontavam as armas em nossa direção.

– RECUAAAAAAAARRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A multidão ensandecida agia por conta própria. Eles não notaram a nova movimentação da polícia, concentrados que estavam na fileira. Caralho, muito foda, puta que pariu!

Parei. A coisa tinha ido longe demais. Iam começar a matar pessoas. Senti uma pancada muito forte no rosto e desmaiei ali, na linha de frente.

***********

Me arrastavam pela perna, meu tronco raspava no chão. Sentia o sangue grosso escorrer do rosto. Tinha sido uma bomba de efeito moral a bater no rosto, soube depois. Pelo menos não tinha explodido, senão estaria desfigurado. Eu ainda estava grogue. Eram o Darth e o Pedro a me puxar. Eles tinham ouvido a ordem de recuo e me puxaram do meio dos policiais.

Eu ainda ouvia os tiros sendo disparados, em cima do viaduto e pude contemplar o céu azul sem nuvens, enquanto era arrastado pelo chão. Outros punks vieram e ajudaram a me carregar até um lugar seguro, longe da polícia.

Jogaram-me atrás de um container de lixo. O Darth olhava pra mim, pupilas dilatadas, rosto suado e também sujo de sangue.

– Vencemos? – perguntei, minha voz era um fio.

– Não. Mas foi lindo mesmo assim.

– Estamos em extinção, meu amigo, em extinção.

– Mas o que importa é que ainda não estamos extintos.

E eu fechei os olhos, ardidos pelo gás de pimenta, passando o lenço preto pelo rosto ferido. Tudo estava ensangüentado. Soltei uma grande, retumbante gargalhada e antes de perder de novo os sentidos ainda pude ouvir o coro da multidão pedindo a cabeça do FHC.

Bons tempos aqueles, bons tempos. Tempos de uma história que não foi contada, pois os vencedores não participaram dela. E nós, os vencidos, sobreviventes, guardamos as cicatrizes e a certeza de que lutamos para mudar o nosso tempo, contra a tirania dos neo-liberais. Mas lutamos e isso importa. Muito.

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