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Fenômeno pendular

Dezembro 8, 2008

Tudo está sempre em trânsito. Tudo muda, vertiginosamente, na velocidade inebriante do suspiro, do sono, do sonho. A terra, as casas, as pessoas, os sotaques, influenciados pela estranha política: construir, transformar, mudar a natureza, implantar o novo, mostrar o modernismo em todas as suas formas, em todas as partes, em todos os cantos. Decibéis e megabytes, motéis e boates, multidões que se movem, dia após dia, noite após noite, sem descanso, sem pátria, sem terra, mas com lote.

Empregos que se transformam: leiteiro vira marceneiro, que vira padeiro, que ganha dinheiro, que vai pro estrangeiro, perder seu dinheiro, sem se sustentar. Mineiro, filho de sapateiro, vira concurseiro, passa em primeiro sem estudar. Bacana de vida cigana, sai de copacabana, mudar de lugar. Dança de cadeiras, de concursos, de recursos nos tribunais. Assessor, promotor, desembargador, ministro de tribunal superior, vira então militar? Subindo, descendo, andando de ônibus: homens e mulheres em construção, reforma, implantação.

Espaços urbanos, levemente humanos, quase nunca suburbanos. Highways que cortam o planalto, rios de asfalto que se cruzam sem se encontrar. É o viaduto. É o prostituto a rebolar, ganhar seu sustento.

Os homens e mulheres que passam, apressados, sempre bem-educados, mas sem se importar com desvios. Com o céu. Com o precipício. Com o suplício diário da solidão. Tudo moderno, tudo incessantemente sincero. Tudo combinado, jurado, sacramentado, firmado em cartórios civis. O tempo é outro. Tempo de desperdício, de ilusão.

E por cima de tudo o céu de ilusão sem nuvens, natural, selvagem, desconhecido, azul e desolador. A pequenês ambivalente,

E a vida anda com as pessoas, rápido demais. Rápido como a vida, como o tempo que sucede o orgasmo da secretária, o arrumar do vestido, o beijo estalado, o farfalhar metódico das pernas que se sucedem.

Toc

Toc

Toc

Saltos que ferem o cimento, revelam a sinestesia amniótica entre a mulher e o chão.

E antes que se perceba, a chuva toma tudo, transgride o ritmo, lava as almas dos passantes, que apressados tomam seus lugares entre as marquises dos edifícios. E se entreolham atônitos. Do que serve tanta modernidade se não se consegue domar o céu?

Poderosamente, este se renova em plúmbeas revoluções, mais forte que a vontade de mover, obriga todos a um particular sofrimento: a imobilidade.

E nestas horas, nada mais belo do que a solidariedade passageira:

– E então, topa um chope?

– Só se for agora!

Isaías

Novembro 22, 2008

O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. Decerto nem sabiam do fim da escravidão. Falavam um dialeto estranho, cantado, nem parecia português. Isaías já tinha ouvido histórias horríveis de negros que mutilavam meninos para fazer rituais satânicos.
A paisagem estava tomada de árvores baixas e tortas e mostrava uma grande desolação. Toda aquela região tinha sido queimada semanas antes e no meio das cinzas aparecia aqui e ali uma flor colorida. Mato estranho, terra estranha. Apesar de ser setembro fazia frio. Parecia que ele poderia sem muito esforço tocar as nuvens, de tão alto que estava. Nenhum sinal de água. Ao longe, Isaías viu um jatobá. Descansaria ali por alguns instantes antes de continuar a viagem rumo ao norte.
O cavalo estava estenuado e sedento. Água ia demorar pra ver. Ele não conhecia bem aquela região, nem sequer estava seguindo uma estrada. Caminhava se orientando pelo sol e pelos pontos de referência no caminho. Mas ora, porquê raios o velho Matias tinha de inventar de confinar gado tão longe? Ouvira que além das montanhas haviam terras férteis, campos limpos entre os rios Tocantins e Araguaia. Lá ele exportava sua produção para o Maranhão e Piauí.
Acariciou a crina do cavalo. Era branco e por isso se chamava Coalhada. Bom cavalo, bonito, apesar de um pouco velho. “Já está ficando tarde” pensou Isaías “talvez fosse melhor montar acampamento aqui”.
Era uma decisão prudente. Quem sabe onde mais poderia arrumar um lugar tranqüilo para descansar? Se bem que ele tinha um certo medo das histórias que contavam sobre aquela região. Ah, moras ora! Quem daria bola para estas histórias?
Fez um pequena fogueira e comeu o que tinha: rapadura e farinha. Coalhada ficou solto, tentando comer o pouco de mato verde que encontrava. Isaías encontrou ainda alguns jatobás e comeu bem satisfeito. Estava ficando frio muito rápido e ele apressou em se agasalhar. As nuvens vieram rapidamente e pintaram tudo de branco. Eram por volta das cinco da tarde.
– Coalhada? – O cavalo tinha sumido. Não se ouvia nem o seu tropel ritimado. E essa agora? Pra onde teria ido? Isaías preferiu continuar perto da fogueira. Logo o cavalo deveria voltar.
Ele devia tê-lo deixado peado. Agora era tarde. Isaías agasalhou-se e ficou quieto, tremendo de frio. A brancura do nevoeiro começou a se tornar escuridão. Apenas bem perto da fogueira poderia se ver alguma coisa. Além disso, apenas breu.
A noite foi se aprofundando e o vento ficando cada vez mais forte. Ventava muito ali em cima, a ponto de fazer a fogueira trepidar perigosamente. Isaías jogou mais madeira ao fogo para torná-lo mais forte. Sem sucesso, um vento mais forte e a fogueira se apagou.
Escuridão completa. Nenhuma estrela, nada, apenas o barulho ensurdecedor do vento tomando tudo.
– Coalhada?
Isaías estava tremendo e não era só frio. O vento agora era acompanhado de gotículas de água que tornaram a sensação térmica insuportável. Não adiantava querer acender a fogueira de novo. Restava esperar que amanhecesse ou que o vento diminuísse. E onde diabos estaria este cavalo?
De repente, ouviu os primeiros trovões, bem longe.
– Noite amaldiçoada!
Já podia ver os relâmpagos.
– Valei-me minha Nossa Senhora!
Mais perto.
– Ave Maria cheia de graça o sinhô é convosco…
Não deu tempo de terminar a oração. Um raio caiu sobre o jatobá, a poucos metros, com grande estrondo. Isaías desmaiou.
***********
Continua…

Prece de Setembro

Janeiro 27, 2008

Expansão do Setor O, Setembro de 1992

Era uma mês de setembro anormalmente quente. Passou o mês de agosto inteiro sem chuvas e estávamos na segunda semana de setembro, no meio da seca. Tudo parecia coberto de poeira vermelha, quando eu e minha mãe andávamos sobre um céu cheio de grandes nuvens brancas. Ela me arrastava pela rua, pois eu parava a cada segundo para ver um detalhe, apontar uma planta ou uma pessoa e enchê-la de perguntas. Foi quando vimos, longe, nas colinas do Goiás, uma nuvem gigantesca, negra e assustadora.

– Vai chover, com a graça de Deus.

Tínhamos de nos apressar. Ainda faltava muito para chegarmos em casa. Eu carregava uma sacola de verduras, que me era desproporcionalmente grande. Eu tropeçava em minhas próprias pernas pelo peso. Minha mãe já estava irritada. O céu escurecia. A nuvem negra estava muito próxima. O vento carregava sacolas de supermercado e fazia bater as portas e janelas das casas. Todos andavam apressados nas ruas. Os cachorros ganiam, os periquitos faziam uma tremenda algazarra. Eu já estava ficando assustado. Seria uma grande chuva.

– Te apressa, menino! O mundo vai se acabar em água daqui a pouco!

E como se apressa? Já não ia mais dar tempo. Podia divisar, muito perto, as gotas grossas d’água que caíam no chão, levantando lama. Nos escondemos embaixo do toldo de um supermercado.

– Mas mãe, o padre não disse que Deus não ia mais acabar o mundo em água?

– É modo de dizer menino…

Não foi possível entender o resto da frase. A chuva veio como uma onda de choque de explosão. Totalmente inesperada, ela tomou tudo num instante. Dos telhados empoirados, a água caía avermelhada, manchando as paredes. A rua sem asfalto tornou-se em segundos um rio de lama. Não podia ver muito longe e, por isso, eu tive medo.

– E se o padre estiver errado, mãe?

– Quem disse isso não foi o padre, foi Deus! E Ele não erra.

O barulho piorou. Era granizo que caía em pedras do tamanho de bilocas, quicando no chão, branco. Ouvia o barulho das placas dos comércios e das telhas de amianto voando por ali. Uma mulher desesperada tentava se cobrir como podia no meio do temporal quando o seu guarda-chuva quebrou, sendo levado pelo ar. O vento era tão forte que fazia os fios elétricos cantarem e balancarem.

Árvores trincavam pelo vento. Pessoas gritavam. Seria o fim do mundo mesmo? Deus teria mesmo piedade das crianças como eu?

Eu estava totalmente molhado e minha mãe me abraçou. A coisa tava feia. A chuva caía em ondas, levada pelo vento, batendo com força nos portões das casas. Vi um cachorrinho sendo levado pelas águas. Tentei correr pra salvá-lo. Minha mãe me segurou.

– É um cachorrinho, mãe, salva ele! Me deixa salvar o cachorrinho, mãe, me deixa!

Eu gritava desesperado. O cachorro nadava com todas as suas forças, tentando se salvar, quando o mais inesperado aconteceu. A tampa do bueiro explodiu, liberando uma água imunda, alta como um gêiser e repleta de baratas. O cachorrinho, no alto do seu desespero, tomou um susto com a grande onda que se formou em volta dele, afundando na água imunda. Nunca mais o vi.

E a chuva foi embora como veio, num pulo. Fomos embora dali, apressados. Minha mãe queria ver como nossa casa tinha ficado. Eu só queria saber do cachorrinho, pobre cachorrinho…