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O Ingazeiro

Novembro 28, 2008

Era julho e o vento soprava poderoso, fazendo redemoinhos avermelhados em torno das árvores, deixando os olhos dos viajantes apertados. Estavam com sede e Jeremias pensava no córrego, mas aí eu me adianto.

– Quanto já?

– Arre! Mais de sete léguas.

– É muito!

A ventania sibilava nos ouvidos de modo que mal se ouvia o barulho dos cascos dos animais na terra arenosa. A natureza implacável mostrava sua força em cada elemento: As curvas indecentes das árvores, como almas condenadas que pedem clemência aos céus. Aquela região parecia um pedaço do inferno, onde a penitência de cada alma é passar a eternidade de braços abertos, angustiados, suplicantes, mãos que procuram alento nas nuvens, sem nunca chegar próximas ao céu. O sol audacioso compunha também o quadro desesperador, queimando, inexoravelmente onipresente, mas suficientemente brando para não secar o suor.

A boca seca, olhos lacrimejantes e o vento: rajadas que se sobrepõem, às vezes leves, enganadoras, às vezes médias, néscias, mas na maior parte do tempo inconstantemente poderosas, inexpugnáveis. E este vento sem direção seguia todas as direções: oblíquas, perpendiculares, hiperbólicas em vários momentos. Vento que faz curva, vai e volta. Vento que sacode o pó e enche de pó o que era pó e para o pó voltará.

Carcará voou. Bem-te-vi, bem-te-vi. Sabiá. Assum preto, curió, curioso. Carcará. Imagens que se sobrepõem entre um abrir e outro dos olhos. Pássaros que domam o vento ou povoam o vento de cantos. Cantam com o vento de suplícios.

A terra coberta em quase toda sua extensão de uma vegetação rasteira, era entrecortada por erosões poderosoas que evidenciavam a terra vermelha. Vermelho-sangue, como se as almas-árvores fossem alimentadas, piedosamente, pela seiva sanguinolenta da terra. E o vento, claudicante, levantava a terra, subindo-a aos céus, às árvores, folhas, pássaros, cavalos e viajantes, cobrindo tudo da seiva-sangue da terra implacável do cerrado.

Tudo era desolação e abandono. A natureza resistia à passagem, mostrava-se evidente que era. O vento, o sol e a terra dançavam num ritmo inconsciente e sagaz, uma ciranda entre os elementos, causada pelo desequilíbrio das forças oniróides da natureza.

Mas então o buriti aparece no horizonte e como um marco, um símbolo, enche de esperança os olhos cansados. Junto a ele vários outros que se sobrepõem. O ar fica mais leve, límpido, o sol ainda mais brando e a terra antes arenosa e infértil, fica maleável. Os cavalos erguem as orelhas, andam mais depressa, alegres. As árvores espaçadas desaparecem e são substituídas pelos densos troncos retos de árvores nobres. O som poderoso do vento é substituído por um outro, mais palatável, sereno: som de água que corre. Chegaram a um córrego.

Os viajantes descem, soltam os cavalos e abastecem-se de água fresca e limpa e começam a contar alegremente vários causos de suas terras, histórias coroadas de suspiros e saudades. Mas as histórias raream e todos se entregam à melhor das tarefas do dia: o merecido descanso.

E este foi o erro de Jeremias, mas aí eu me adianto. Ele deitou-se sob a sombra de um ingazeiro grande e florido, fechou os solhos sob o chapéu velho de palha e dormiu tranqüilamente. O vento implacável se transformou em brisa leve, amena, embalando o sono do capiau. E foi assim por uma boa meia hora.

*********

E os cavalos estavam assustados. Relinchos entrecortados com coices no ar. Os viajantes levantaram sobressaltados, tentando acalmá-los:

– Eia! Eia…

– Ôa, ôa, alazão!

Jeremias observava a cena ainda deitado.

– Arre! Praga dos infernos! Valei-me nossa senhora!

Para aqueles homens o súbito enlouquecimento dos cavalos só poderia ser obra de alguma entidade sobrenatural. Por isso eles se benziam e faziam simpatias enquanto tentavam acalmar os animais. Jeremias continuou deitado e este foi o seu erro.

Indolentemente, ele sentou-se, encostou as costas no ingazeiro e acendeu seu cigarro de palha. Os cavalos continuavam empinando, dando coices e relinchando alto. Mas apesar de toda esta confusão, Jeremias parecia ouvir um barulho característico, familar. Que seria? Os cavalos pareciam querer dizer alguma coisa.

– Nunca vi coisa assim. Eles não se acalmam de jeito nenhum.

Jeremias tragou com força, brincando com a fumaça nos pulmões, ainda tentando descobrir que tipo de barulho era aquele. Era ritmado, constante. Muito parecido com o barulho da água que corria no córrego perto dali. Mas seria…

E Jeremias percebeu muito tarde que se tratava de um chocalho. A cascavel fitava-o nos olhos, hipnotizando-o. Então era isso, uma cascavel. A audição dos cavalos, muito mais desenvolvida, tinha percebido o som do chocalho antes de todos.

Ele não havia o que fazer. A cobra estava a menos de um metro do seu rosto, perigosamente preparada para o bote. Jeremais não respirava, não fazia qualquer som. Seu braço direito movia-se sorrateiramente na direção da cobra.

Olhos nos olhos. O homem e a cobra estavam empenhados numa briga surda pela sobrevivência. O braço movia-se milimetricamente na direção da cabeça da cobra. Olhos nos olhos.

E Jeremias percebeu seu erro tarde demais. Em vez de fazer o bote no braço, a cobra avançou sobre o rosto dele, entre os olhos. Jeremias gritava assustado. Seus colegas, empenhados em acalmar os cavalos, nem perceberam a cena se passando até que fosse muito tarde. Correram para ajudar o amigo que já tinha se livrado da cobra, mas gritava de dor.

Jeremias agonizou dois dias antes de morrer. Foi enterrado em Crixás, sem reza e sem discurso, sem caixão, sem cigarro, sem nada.