Archive for the ‘Velho Pitanga’ Category

O começo da revolução

Junho 18, 2010

Continuando com a política de distribuição de pequenas partes do livro, aí vai mais um pedaço. Espero que vocês gostem.

 

 

 

Juvêncio e Onésimo bebiam animadamente no bar, já vazio no começo da madrugada. Juvêncio tinha passagem de volta marcada para o dia seis e aquela seria sua despedida do amigo. Também chamara Antônio, que estava de serviço nesta noite e não veio, e Pedro Emílio, que chegou lá pelas dez da noite. Os três jogavam cartas e contavam piadas. O relógio de pêndulo do bar marcava por volta da meia-noite quando Juvêncio sugeriu ir dar uma volta na praia, que ele nunca tinha visto à noite.

Solidários e meio embriagados, os amigos foram com ele. Andaram um pouco, na direção da Praia do Leme, quando Juvêncio sugeriu sentar-se na areia. Tudo estava calmo e na noite sem estelas podiam ver as luzes de um pequeno barco se afastando para o mar aberto. Ainda animados, os rapazes faziam troça uns com os outros.

Juvêncio ficou um bom tempo acompanhando o barco até que ele sumisse. Teria saudades daquele lugar, assim como agora tinha saudades de Chico Preto, do Tobias, Espiridião, Valentim e de Maria. Seria bom voltar, para casa, assim como foi bom encontrar estes amigos, meio que por acaso. Amanhã estaria no trem, de volta a Goiás.

Um pouco mais sóbrio, ele se levantou, chamando os amigos para voltar ao hotel. Andavam juntos, ainda animados pela bebida, quando…

 

Por acaso estavam virados para o Forte de Copacabana, quando ouviram a gigantesca explosão. A princípio não conseguiram perceber o que acontecera e, por instinto, Juvêncio se jogou no chão. O bairro inteiro acordou. As luzes dos quartos da Avenida Atlântica acenderam-se quase simultaneamente. Cachorros latiam em uníssono, vários homens se debruçavam das janelas tentando entender o que acontecia.

– Mas que… – Pedro terminou a frase com um palavrão.

– Não sei, não sei, foi uma explosão.

– Veio do Forte? – Era Onésimo que perguntava.

Os três lembraram ao mesmo tempo do amigo Antônio. Correram em direção ao forte o mais rápido que podiam.

Foi apenas uma explosão, depois o silêncio. Nenhum sinal de incêndio ou de acidente, nada de fumaça que justificasse o barulho. A princípio, nenhum dos três amigos percebeu que estavam prestes a ver a História ser escrita.

 

Dentro do forte, Antônio, ou melhor dizendo, o tenente Siqueira Campos, ouvia com atenção, observando o relógio de bolso, ao lado do canhão de artilharia. Em sua sala, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do ex-presidente Hermes da Fonseca e comandante do Forte, também ouvia atento. Esperavam um sinal.

As ordens tinham sido dadas, o forte estava cercado de trincheiras recém-escavadas, onde os soldados bem municiados esperavam as próximas ordens. As areias estavam cheias de minas. Os minutos passavam e todos estavam tensos. Nenhum som, nenhuma resposta.

 

Os amigos pensaram primeiro em um acidente. Talvez alguém tivesse disparado o canhão por acaso, ou explodido uma das bombas da artilharia. Dizem que isso já tinha acontecido antes. Porém, minutos depois, quando chegaram ao forte, foram surpreendidos pelo grande aparato militar montado na praia. Armas engatilhadas se voltaram para eles.

Foram os primeiros civis a chegar. Momentos depois vieram vários outros, principalmente curiosos. De dentro da trincheira, um soldado gritou:

– Alto, quem vem lá?

Sem pensar, Onésimo respondeu:

– Amigos do tenente Siqueira Campos.

Seguiu-se um breve momento de silêncio, onde os soldados conversaram entre si.

– O que está acontecendo? Houve um acidente? – gritou Juvêncio.

Os soldados sorriram. Um deles, em outra trincheira, gritou:

– É a revolução! – e seguindo este grito, altos brados de ordem foram entoados pelos soldados. Alguns civis responderam entusiasmados, outros entreolharam-se, surpresos, e voltaram às suas casas.

Finalmente veio uma resposta:

– O tenente Siqueira Campos está ocupado agora, na sala de canhões.

– Pois diga a ele que há um gaúcho aqui querendo se juntar a ele! – a esta afirmação, vários soldados bradaram, entusiasmos. Sem nem pensar, Juvêncio respondeu:

– E diga que há um goiano aqui também, disposto a morrer!

E os soldados foram à loucura!

Quando olharam para os lados, Pedro Emilio havia sumido.

 

De sua sala, o capitão Hermes da Fonseca ouviu o barulho e foi correndo ver o que estava acontecendo, quando viu os dois jovens imprudentes, perigosamente próximos do campo minado.

– Alto! O que é isso? – perguntou.

– Viemos nos juntar ao tenente Siqueira Campos!

– E quem são vocês?

– Eu sou Onésimo Lisboa, gaúcho, filho do deputado Aleixo Lisboa, que lutou na revolução federalista do Rio Grande do Sul e neto de Júlio Lisboa, revolucionário farroupilha e comandante na Guerra do Paraguai. Vim para lutar.

– E o seu amigo?

– Sou Juvêncio Pitanga, goiano.

O capitão Hermes da Fonseca tinha ouvido fala de Juvêncio Pitanga, na noite anterior, pelo próprio tenente Siqueira Campos e ficara impressionado. Não pensava que ele fosse tão jovem. Além disso, Aleixo Lisboa era amigo de seu pai e tinha assinado uma carta pedindo, com outros parlamentares, a imediata soltura do Marechal. O avô dele e o seu haviam lutado juntos no Paraguai. Mesmo assim, estava indeciso se devia arriscar a vida de civis neste conflito.

Foi quando houve a segunda explosão. Mesmo com tudo planejado, era assustador e excitante ouvir o canhão trabalhando. Isso significava que o tempo já havia passado e que ninguém mais respondera. Estavam sozinhos, os outros destacamentos não haviam se insurgido. Eram bons soldados e, afinal de contas, era para o povo que estavam lutando. Nada mais justo que o povo participasse. Mandou um soldado guiá-los para dentro das trincheiras e municiá-los. Ambos estavam na revolução.

Tenório

Abril 24, 2008

Quando Tenório chegou à praça da Matriz já passava das quatro da tarde. Era preciso tomar cuidado para que o acampamento estivesse bem escondido antes de sair. Além disso, ele precisava conhecer o terreno. Para isso, achar a Negra Maria era indispensável. Começaram pelo lugar mais óbvio, a venda da D. Lindoca.

– Arre D. Lindoca, quanto tempo.

– Mas que faz tempo mesmo, seu Tenório. Quié que o sinhô tem feito de bão da vida?

– Arrumei trabaio de capataz duma fazenda lá em Pilar.

– Mas se achegue, cês qué bebê arguma coisa?

– Bão, já que a sinhora insiste, nóis vai de amargosa mesmo, é ou não é, cambada?

Tenório tomou um trago da cachaça com raízes, especialmente produzida na região. Estalou a garganta e disse:

– Ê trem bão, d. Lindoca. E como vai as pessoas? O padre, a D. Flor?

– Todo mundo bão, na paz de Deus.

– E a Maria Preta?

– Que Maria Preta?

– A que veio lá de Pilar, que trabalhava na Fazenda Imperatriz?

– Ah, ela tá muito bem. Inclusive eu vi ela aqui hoje mesmo. Tava acompanhada dum homem bem-vestido. Devia de ser arguém importante.

– É mermo, d. Lindoca?

– E adonde qu’eu posso incontrá ela?

– Mas é facim-facim. Dêxa qu’eu insino o sinhô.

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Lindoca nem tinha percebido que eles estavam armados. Em poucos minutos eles rumaram apressadamente para o bairro pobre ao lado do rio, onde Juvêncio e os outros tinham almoçado. Tenório mandou um dos dois ir ao acampamento urgentemente avisar os outros do local da emboscada. Estavam muito próximos de cumprir sua missão.

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Eram menos de cinco horas. O sol estava já bastante baixo no horizonte. Tenório e o seu acompanhante desciam sorrateiramente na direção dos fundos da casa de Maria, com as armas em punho. Silêncio total, portas fechadas. “Eles poderiam ter percebido a movimentação”, pensou Tenório, “se assim fosse, era melhor esperar o reforço”. Porém era muito improvável, tinham sido muito cuidadosos até então. Seria uma grande surpresa para todos quando o avistassem ali.

Passou por baixo da pequena janela, esforçando-se para que ninguém na rua denunciasse sua posição. Fez um sinal para o capanga, que derrubou a porta. A casa estava vazia.

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Os outros capangas chegaram quase imediatamente, com grande barulho nos seus cavalos. Tenório já tinha achado a pista deles, atravessando o rio.

Faroeste – parte 1

Abril 13, 2008

Arimatéia e Florinda começavam a ficar preocupados quando viram duas pessoas virem na sua direção. Já passava do meio-dia e eles Arimatéia e Florinda tinham sido vistos por várias pessoas que passavam por ali, indo e voltando da Cidade de Goiás. Não era mais seguro continuar por ali, ambos sabiam.

De longe Arimatéia reconheceu o pai, que andava ao lado de uma senhora negra. Só podia ser ela. Maria…

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Laurentino levantou por volta do meio-dia, acordado pela Filoca, dona da pensão. Almoçou tranqüilamente e saiu para ver o movimento na rua. Passou pela igreja matriz, as pontes em torno do rio Vermelho. Era uma bonita cidade, sem dúvida, e que ele visitava com pouca freqüência.

O povo goiano era predominantemente simples, gente pobre, principalmente negros e mestiços. Carregavam baldes d’água, sacos de cereais, tijolos etc. Goiás era uma cidade em movimento. Alguns poucos habitantes estavam da sacada de suas casas, olhando o movimento. Laurentino foi rapidamente acordado de seus devaneios.

– Sinhozim Laurentino Pitanga, a que devo a graça da vossa presença? – era o Coronel Pedro Miranda que tinha-no avistado de dentro de sua carruagem – Como vai o compadre Juvêncio?

– Ora, que bom vê-lo. O senhor sabe das novidades da Imperatriz?

Laurentino entrou na carruagem e pôs-se a conversar com ele, animadamente.

****

Arimatéia estava visivelmente emocionado, mas não se movia. Sentia uma grande vontade de abraçar aquela mulher negra, mas ao mesmo tempo se sentia contido. Maria disse.

– Bonito o sinhô. Um homem de verdade. Graças a Deus nosso sinhô… – Depois, falando aos outros – Cês são tudo meus convidado pro armoço.

Juvêncio sabia que era arriscado continuar andando por aquela cidade sem proteção. Precisava encontrar-se com o Coronel Pedro Miranda o quanto antes, pois não sabia se tinham sido seguidos até ali. Mas seu coração estava balançado. Maria continuava atraente, envolvente, forte. Depois de todos estes anos ele ainda era incapaz de seguir a razão perto daquela mulher. Era paixão, aquele fogo que queima a gente e deixa de lado o entendimento. Por causa disso que ele não pôde deixar de segui-la.

Maria morava numa parte mais afastada da cidade, onde predominavam casas baixas de pau-a-pique e sem caiamento, telhados de palha. O esgoto passava por uma calha cavada na rua. Podiam ver muitos garotos de todos os tamanhos correndo pelos matos ali perto.

A casa de Maria era muito simples com apenas dois cômodos, uma cozinha e um quarto. Maria dormia numa cama velha de madeira, coberta apenas com alguns panos. Havia poucos móveis, panelas gastas e sujas de fuligem penduradas nas paredes, além de um velho fogão de lenha e um oratório de Santa Luzia, todo enegrecido pela fumaça das velas.

O almoço estava pronto: angu e peixe, tirado ali da beira do rio.

– Nhá Maria, nóis tava tudo preocupado cocê! Demorô! Sua bença… – era o Bonfim.

– Deus te abençoe, meu fio! Fique com a graça de nosso sinhô. Ocês se achegue. A comida é simples, mas é muito boa.

E os visitantes almoçaram. Arimatéia, por si mesmo quase que não se cabia de tão contente. Era o primeiro almoço dele com a mãe.

*****

Laurentino e Pedro Miranda estavam na casa deste, numa sala grande, com vista para a praça da Matriz.

– E o senhor só teve notícia disso através dessa carta?

– Exatamente coronel. Estou muito preocupado com o que pode ter acontecido com meu pai. Arimatéia é um bom homem, um dos melhores peões da Imperatriz, gente de confiança. O problema é a menina, pois ela é uma Andrade. Não podemos confiar nela. Como o senhor sabe, ela quem teve a idéia de seqüestrar meu pai.

O coronel fumava um cachimbo fedorento, fazendo bolas de fumaça com a boca. Ele tinha uma barba longa e encaracolada, cabelos grisalhos que denunciavam seus muitos anos.

– Este estado é muito grande. A peonada da Imperatriz também deve estar atrás dele, sem muito sucesso, pelo visto. Notícia ruim corre depressa.

– Conheço a longa amizade dos senhores, imaginei que talvez ele pudesse ter vindo procurá-lo.

– Não. Tive notícias difusas sobre isso. Todos sabem que seu pai foi seqüestrado, a notícia correu rapidamente, mas ninguém sabe nada de concreto. Temos apenas de rezar para os capangas do Andrade já não terem encontrado ele. Quanto ao senhor, não saia daqui por enquanto. Vou mandar buscar suas coisas na pensão da Filoca. Providenciarei uma escolta para que o senhor chegue em segurança à Imperatriz. Além disso, ficarei de olho nos desconhecidos que chegarem à cidade. Temos de ter todo o cuidado possível.

*****

– É a Cidade de Goiás!

Os peões da Cascavel comemoravam em altos brados. Tinham chegado cedo, era perto das três horas da tarde. Montaram acampamento a mando de Tenório, que juntou dois peões e seguiu para a cidade. Precisavam saber se Juvêncio tinha mesmo ido para lá. Para isso, precisava encontrar a mucama Maria…

A Mucama

Abril 9, 2008

Juvêncio tentou parecer incógnito, mas era difícil um homem como ele, branco e bem vestido, não ser notado naquela igreja onde predominavam os pobres. Recendia no ar um cheiro forte de suor, misturado com o das velas que queimavam incessantemente. Fazia calor, apesar de ser dezembro.
No burburinho da igreja os fiéis rezavam silenciosos. Cada um com sua prece, sua cruz, buscando uma forma de arrepender-se dos seus pecados. Pecado… A preta Maria estava tão perto dele e isso trouxe à tona uma série de lembranças do passado. Ajoelhou-se como um cristão que era e rezou solitário. Talvez só com Deus, Juvêncio Pitanga se permitisse pensar na vida assim, arrepender-se, lembrar de tudo o que ele tinha feito no passado. Na igreja todos era iguais, pecadores, tentando seguir os mandamentos de Cristo. Enquanto rezava ele ouvia a voz fina e dolora de uma viúva: véu negro, vestido velho, mas bem cortado, rosto entristecido. “No céu/ no céu/ Com minha mãe estarei…”.
A missa começou. No cântico de entrada o padre veio trazendo uma pequena procissão de coroinhas, carregando a cruz e os paramentos. Juvêncio decidiu esperar até o fim da missa para falar com Maria. Fazia tempo que ele precisava encontar-se com Deus.

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Arimatéia estava visivelmente irritado. O pai tinha saído do acampamento sem dizer nada. Ele não fazia idéia do que o velho poderia estar aprontando. Sabia que não devia confiar nele. Teve vontade de fugir com Florinda, esquecer e seguir sua vida. Porém, havia naquela cidade algo que não podia nem ser adiado, nem esquecido: a mãe. Devia dar um crédito ao pai por todos estes dias. Esperaria ali com Florinda.
Fez um pouco de café numa caneca e adoçou com rapadura, dando para ela. Comeram alguns biscoitos duros que tinham trazido de Pilar de Goiás. Olharam-se nos olhos. Eram desconhecidos um para o outro, ele sabia. O medo de Arimatéia voltou. “Que vida um vaqueiro poderia dar a esta mulher, meu Deus?”
Como se lesse seus pensamentos, Florinda colocou sua mão sobre a dele, num gesto de ternura. Ele pôs a mão no queixo dela para que pudesse olhar melhor seus olhos.
– Arrependida?
– Nem um pouco…
Beijaram-se sofregamente, como se um tentasse convencer o outro a não escapar, nunca.
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Laurentino estava chegando na Cidade de Goiás. Era preciso ser cauteloso, ele não podia ter certeza se os Andrade sabiam que ele estava voltando dos estudos no Rio de Janeiro. Não podia dar-se o luxo de ser pego desprevenido. Até então, não tinha se aproximado de nenhum companheiro de viagem e carregava sempre o revólver na cintura para não ser incomodado.
Goiás era uma das últimas paradas antes de finalmente chegar em casa. Morria de saudades da mãe, da fazenda, dos peões da Imperatriz, do gado, de banhar-se no Rio São Patrício. Saudades imensas daquele vale enorme, do povo simples, sua terra. Agora faltava bem pouco. Para estar perto de tudo isso…
A manhã estava bonita, olhava para aquelas árvores retorcidas do cerrado, mares de morros sem fim, cobertos de árvores espalhadas, cupinzeiros que apareciam no meio do mato.
Pensava no que teria de fazer dali para frente. A guerra com os Andrade tinha recomeçado. Era preciso pôr um fim nisso. Nem ele, nem o pai, muito menos Ezequiel tiveram a ilusão de que o casamento com Florinda pudesse selar a paz. Maluquice do Padre Cézar, ele bem sabia. Não que Florinda não o interessasse…
Mulher decidida, sabia que ela tinha enfrentado os cabras da Imperatriz, nua em pelo, pego seu pai e levado como refém. Devia ser uma mulher e tanto esta menina com nome de flor. Só não entendia como tinha começado essa história dela com o Arimatéia, como eles se encontravam, se apaixonaram. Principalmente, não entendia o que ela tinha visto naquele vaqueiro simplório. Uma menina branca, sinhá, cria da Cascavel, deitando com aquele mestiço, preto. Pensar nisso lhe dava nojo.
Eram dez horas quando ele chegou à cidade. Rumou para a pensão de D. Filoca, antiga conhecida dele, pegou um quarto, tirou as botas e dormiu tranqüilamente. Era preciso sossegar seus pensamentos. Laurentino precisaria mostrar que homem ele tinha se tornado, em breve…
**********
A missa tinha acabado. Os fiéis se benziam e iam para suas casas. Juvêncio apressou-se em chegar perto de Maria.
– O que qué vassuncê com Maria? – Era um preto enorme, voz arrastada, braços largos.
– Tenho um assunto pra tratar com ela de grande importância.
– Ocê vai tê de falá com eu primeiro. Se o assunto interessa a ela, vai interessá a mim tumém.
O negro cruzou os braços em frente ao corpo. Juvêncio viu-se cercado por seis outros negros que ele desconhecia. Estava começando a achar que essa não tinha sido uma boa idéia. Tentou pegar a arma, mas logo foi parado por um dos homens. Braços seguros, Juvêncio foi rapidamente dominado.
– Agora diz aqui pra eu, pra modi eu ‘scutá bem direito. Quié que ocê qué com Maria? – Os olhos dele pareciam querer fuzilá-lo. Juvêncio suava, mas tentava manter o juízo. Quando o negro chegou bem perto ele lhe desferiu um chute entre as pernas, desvencilhando dos dois pretos que o seguravam.
– Ora, mas nem! Aqui é Juvêncio Pitanga e eu não aceito ordem de preto! Se o assunto é entre mim e Maria, não há quem tenha nada a ver com isso.
O levantou-se do chão feito um tigre. Juvêncio desviou da primeira investida.
– Pitanga nóis tem de colhê é do pé! Vou te mostrá a força do Nêgo Bonfim…
– Pare, Bonfim. Dêxa eu falá com o sinhô da Imperatriz. Se o hôme veio de longe, lá das banda de Pilar, e num trôxe meia dúzia de capanga é que o assunto deve de sê muito sério. Dêxe que ieu me arresovo com ele.
– Mas D. Maria…
– Dêxe de mulecage, lazarento dos inferno. Já falei que ieu trato com ele e ponto finar. E o sinhô, seu Juvêncio, vem comigo que pelo visto nóis tem muito pra prosear.
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Juvêncio seguiu a preta por algum tempo, até que entraram numa venda antiga, cheia de badulaques.
– Arre, d. Lindoca, bom dia procê!
– Bom dia, d. Maria. Hoje tem bolo de fubá!
– Intão vai ser fubá mesmo. E o sinhô seu Juvêncio, que vai querê?
– Nada não, agradecido.
Deixaram a mulher da venda desaparecer no fundo da loja. Juvêncio olhou para a preta que estava ao seu lado. A mesma mulher decidida, o mesmo ar de superioridade, de quem não aceita seguir ordem de ninguém. Mulher e tanto…
– Qual é o assunto, inhô Juvêncio?
– Teu filho Arimatéia. Trouxe ele pra lhe ver.
Maria suspirou profundamente. Os olhos vazios ficaram por um longo tempo perdidos, olhando para o vazio.

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Caros, desculpem o silêncio de rádio…

A coisa tá feia, irmãos, mas as crônicas continuarão…

Abraços a todos

Nos arredores da Cidade de Goiás – Parte 2

Março 30, 2008


A noite tinha sido comprida e silenciosa. Escondidos perto da cidade, Arimatéia e os outros tentavam parecer ingógnitos. Por outro lado, era difícil disfarçar o nervosismo. Juvêncio era muito conhecido por essas bandas, sabia que poderia ser descoberto a qualquer momento. Precisava chegar na casa de seu compadre Pedro Miranda para tratar de nogócios. Ele lhe devia alguns favores. Agora, longe de sua peonada, Juvêncio sabia que estava correndo perigo. Compadre Pedro poderia ser-lhe bastante útil.

Arimatéia, por outro lado, pensava em sua mãe. Como ela seria? Ela deveria ter sofrido tanto durante todos estes anos! Difícil demais saber que se tem um filho e está longe.

Na noite, os vagalumes dançavam em torno da fogueira, se misturando com as brasas que iam subindo para o céu. Arimatéia disse:

– Deu vontade de cantar. Cantar uma moda daquelas bem tristes pra combinar com essa noite de estrelas e sem lua.

Juvêncio pitava o fumo. Já tinha se esquecido do quanto gostava de andar pelo sertão de cavalo, correndo atrás de aventuras, caçando os bichos, dormindo no meio do mato. A vida podia ser boa, longe de todas as responsabilidades da Imperatriz.

– Não tem mais motivo pra tristeza. Agora vocês vão ter uma nova vida. Há de se aproveitar pra serem felizes.

Virou para o lado e dormiu. Florinda já ressonava há algum tempo. Sonhava a sono alto, com um mundo cheio de vaga-lumes brilhantes.

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– Mais um dia. É só o que a gente precisa, um dia!

Era manhã de domingo e os cabras já avistavam o Rio Vermelho.

– Se a gente andar mais rápido chega ainda hoje, de noitinha!

A cabroada do Ezequiel gritou, comemorando. Faltava pouco para o acerto de contas com o Pitanga.

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Arimatéia acordou e não viu o pai ao lado. Nem ao menos o cavalo dele estava por perto. Faltava também uma das espingardas. Ele tinha saído muito cedo, sem fazer qualquer barulho. A essa hora deveria estar na cidade, muito à sua frente.

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Juvêncio Pitanga entrou na cidade na hora que tocavam os sinos na igreja de Nossa Senhora do Rosário. O povo da cidade estava indo em peso para a celebração. Desapeou seu cavalo, tomando o cuidado de olhar bem em volta antes, pra ver se não encontrava algum dos capangas de Ezequiel.

Entrou na igreja, benzeu-se e, olhando para os santos. Era tempo do advento, a espera para o Natal. Olhou bem em volta para ver se encontrava quem ele procurava. Ela estava bem ali, num canto, olhando pra imagem do senhor crucificado.

Ele bem sabia que essa era a igreja do pretos. Não havia lugar melhor para encontrar um certo amor do passado. Maria…

Nos arredores da cidade de Goiás

Março 16, 2008

Goiás, 1923

O viagem até a cidade de Goiás durou quinze dias tranqüilos. No caminho, Juvêncio e Arimatéia acabaram se tornando amigos. Obviamente, nada poderia substituir os longos anos de ausência nem tampouco expiar os erros de Juvêncio. Ambos sabiam disso. Porém, também sabiam que eram grandes as chances de nunca mais se verem de novo. Portanto, era a última oportunidade que tinham de se acertar, por de lado as diferenças e aproveitar estes últimos tempos.

Florinda, por seu lado, aceitava esta situação por amor a Arimatéia e tentava disfarçar o grande ódio que tinha por Juvêncio Pitanga. Ela sabia que seu irmão Teotônio havia sido morto por ordem dele. Ela viu os dias de sofrimento de seu pai, se martirizando pela morte do único filho homem e se contendo para evitar uma nova matança. Ezequiel Andrade nunca mais foi o mesmo.

Em muitas noites na estrada, ela pensava fazer justiça com as próprias mãos e assassinar Juvêncio. Quando ela pensava nisso, fechava bem os olhos e rezava para afastar os maus pensamentos. Que direito ela tinha de rezar? Estava ali, no meio do mato, fugindo com um homem sem consentimento de seu pai. Isto seria realmente pecado? Abrir mão de tudo e seguir um amor impossível? Ela sabia que sim, mas se recusava a crer. Tinha esperanças que Deus entendesse as razões do seu coração e a perdoasse.

Foi com grande alívio que ela viu a pequena cidade de Goiás aparecer entre as colinas. Ali acabaria de vez sua história entre Pitangas e Andrade. Quando Juvêncio partisse, ela seria uma nova mulher, distante do passado conturbado, da guerra de famílias que parecia não ter mais fim. Enfim, poderia ser apenas Florinda, sem o peso de ser Andrade.

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Os jagunços de Ezequiel Andrade esperaram em vão na cidade de Pirenópolis por vários dias. Tinham perdido o rastro deles perto do rio São Patrício, mas sabiam que era mais provável que eles tentassem ir para Pirenópolis. O plano era matar Arimatéia e Juvêncio, trazendo a menina de volta à força.

O problema é que eles sabiam que não se demorava tanto de Pilar até ali. Provavelmente teriam tomado outro caminho. O que diriam ao Coronel Andrade? Será que eles teriam se escondido em algum lugar mais perto? Será que tinham tomado inesperadamente outra rota para fugir?

O que Negro Tenório, capataz da Cascavel, mais detestava era esse marasmo, essa sensação de não saber o que fazer. Teria de esperar ordens do patrão de todo modo. Pudesse ao menos seguir sua intuição… Ei, era isso!

– Junte os cabras, vamos arribar acampamento. Sei pra onde eles foi.

– Mas pr’onde nós vai, nhô Tenório?

– Goiás. O lugar pra onde a mucama Maria fugiu. Arimatéia não vai sumir no mundo sem dar um beijinho de despedida na mamãe…

Os cabras subiram com pressa em seus cavalos e mulas e correram a todo galope para a cidade de Goiás, capital do estado. Se tivessem sorte, ainda poderiam cumprir as ordens do Coronel Ezequiel. Muitos ali teriam prazer em sangrar o Pitanga. Haviam muitos anos de conta serem acertados.

Naquela noite, enquanto descansavam rapidamente antes de continuar viagem, o peão Jocácio, braço direito de Tenório perguntou:

– Seu Tenório, como é que ocê sabe donde tá a mucama Maria? Ela fugiu faz tempo, grávida do Arimatéia, nos mato. Ninguém na Cascavel sabia donde ela tava…

– Ela veio me procurar quando escapuliu. Sabia que eu ia gostar de desagradar o Pitanga, ajudando ela a fugir. Pelo menos isso nos foi útil, agora sabemos pr’onde que ela foi. Achar o Pitanga agora é uma questão de tempo e sorte. Ele tá desacompanhado, sem a sua peonada. É a melhor chance que teremos para acabar com ele.

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Laurentino Pitanga recebeu com assombro a notícia de tudo o que tinha acontecido na fazenda. Claro, nunca tinha lhe agradado a idéia de casar com a filha do Andrade, mas ele sabia que sua vida ia mudar drasticamente a partir de agora. Tinha apenas dezoito anos e estava no último ano de seu internato. Tencionava continuar os estudos para ser advogado. Porém, o dia que menos esperava tinha chegado. Teria de voltar rapidamente para a Imperatriz. A guerra agora era iminente, ele precisava estar pronto para lutar pela sobrevivência de sua família. Se tudo desse certo, poderia estar em casa em aproximadamente um mês. Contando os dias, seria próximo do natal.

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– Vamos acampar aqui, perto da cidade – disse Arimatéia – Temos de ver como está o movimento, se há alguém nos esperando por lá. Não podemos correr o risco de sermos pegos desprevenidos. Amanhã eu mesmo vou até a cidade, também para comprar algum mantimento para nossa viagem. Aí veremos.

Perseguição II

Março 5, 2008

 

Goiás, 1923

 

O Arimatéia tinha percebido a movimentação, mas era tarde. Tinha deixado a espingarda longe e quando viu já estava cercado e nu.

– Corre, Florinda! Corre!

Não deu tempo de mais nada. A jovem, nua como tinha vindo ao mundo, também foi cercada pelos homens de Juvêncio.

– Pegamos os dois bem na hora! – a tropa caiu em gargalhadas – Será que deu tempo do Arimatéia fazer carinho na menina?

Florinda começou a chorar. Os cabras olharam pro Juvêncio, esperando alguma ordem. “Uma menina ainda, meu Deus!”, era o que ele pensava. Realmente, a morena devia ter seus dezesseis anos e tremia que nem vara verde. O quê ele ia fazer nessa situação? Aqueles homens rudes tinham muitas contas a acertar com os Andrade. Perigava deles também quererem “fazer carinho” na menina.

Ela tentava se cobrir com as mãos, sem muito sucesso.

– Seu Juvêncio, eu lhe imploro! Faz o que quiser comigo, me mata, me arrasta até a Imperatriz no seu cavalo. Pode até mandar seus capangas me sangrarem, um a um. Mas não faz nada com o meu Arimatéia. Ele não tem culpa, fui eu que pedi pra fugir com ele. Eu prefiro passar o resto da minha vida sofrendo na Cascavel, sozinha, aceito até casar com seu filho, que eu não amo, mas por favor, não o mate.

Arimatéia, coitado, estava já amarrado num buritizeiro do lado do córrego.

– Pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas, Florinda! Se você morre, eu também morro! É melhor a gente morrer aqui, os dois juntos do que viver o resto da vida separados. – falando agora para Juvêncio – Seu Juvêncio, faça o que tem de fazer, acabe logo comigo. Eu sou um imprestável, filho de uma preta velha. Se lhe virei as costas foi porque meu coração não me permitia outra coisa. O sinhô já amou, seu Juvêncio? Se já amou o senhor me entende. Eu não podia fazer outra coisa, eu não podia mais viver assim. Sei que foi loucura…

Foi interrompido por um soco que lhe feriu a face, proferido pelo Tonico.

– Isso lá é jeito de falar com Seu Juvêncio? Deixa eu capar esse filho de uma puta!

Juvêncio tirou a espingarda do ombro lentamente, engatilhou e acertou um tiro certeiro, no ombro esquerdo de Tonico, deixando a cabroada silenciosa e assustada. Depois disso, recarregou com outro cartucho, mirando nos testículos do cabra, que gemia no chão.

– Puta é a tua mãe, seu desgraçado. Filho meu ninguém sangra! – as palavras saíram com ódio. Tonico estava branco e protegia a matula com a mão. – É, acho que não tenho mira… Gildásio, arranca a roupa desse traste. Quanto à senhora – falando para Florinda enquanto desapeava – arrume um jeito de se cobrir.

– Tem piedade seu Juvêncio! Quanto tempo faz que eu tô trabalhando com o senhor? – Tonico tentava se soltar, mas era inútil. O Gildásio e mais dois cabras seguravam-no com força. Abaixaram as calças dele até os joelhos.

– Tanto tempo e ainda não aprendeu que eu odeio quem fica pedindo piedade? Odeio homem covarde. Tá vendo ali? – virou a cara dele pro Arimatéia – Filho meu. Tá vendo ele implorar pela vida? Ele implora é pela morte, pois sabe que com honra não se brinca e ele desonrou a filha do Andrade – Juvêncio tirou da cinta a faca com cabo de osso que ele usava pra picar fumo. O Tonico tentava se desvencilhar a todo custo – Tu acha que eu tenho cara de quem deita com puta? Covarde a gente corta, não dá tiro. A gente sangra que é pra sofrer bastante.

Os peões estavam assustados. Nunca viram o patrão fazer uma coisa dessas. Sangrar um ajudante assim, com a própria mão? Nunca tinha feito isso nem com um Andrade. Se bem que o Tonico tinha exagerado. Todo mundo bem sabia que Arimatéia era filho de Juvêncio. Sugerir capar o filho do patrão? Mas também era maldade capar o cabra assim, com faca cega. Tonico chorava, balbuciando coisas sem sentido.

– Parem com isso, agora!

Florinda tinha voltado, ainda nua, mas com a espingarda do Arimatéia na mão, apontada pro Pitanga. Na confusão, todos tinham se esquecido dela.

– Todo mundo deitando no chão, menos o Pitanga.

Juvêncio sorria. Agora podia olhar bem para a menina. Era mesmo uma Andrade, esperta como o cão, olhos de onça, respiração alterada de quem está disposta a tudo. Ele ficou imaginando o que daria misturar Andrade com Pitanga. Jogo perigoso esse.

– O senhor sorri muito pra quem vai morrer.

– Se eu morrer mesmo…

– Desamarre o Arimatéia. E não pense em fazer nenhuma besteira que quem me ensinou a atirar foi meu pai.

Ela nem tremia. Nem parecia com a menina que implorara pela vida do namorado minutos antes. Tampouco Juvêncio demonstrava qualquer preocupação. Continuava com a faca com cabo de osso na mão. Com um movimento certeiro, cortou a corda que segurava Arimatéia, deixando-o livre. Ele pegou uma outra espingarda no chão, apontando para os cabras da Imperatriz. Florinda disse:

– O senhor vai com a gente, seu Juvêncio. E é o seguinte, se qualquer um do grupo dos Pitanga ou dos Andrade seguir a gente, o Juvêncio morre. Falem isso com meu pai. E agora, monte no seu cavalo, rápido. – Arimatéia amarrou as mãos do pai na cangalha, depois foi se vestir.

– Quanto ao senhor, seu Tonico, agradeça a mim por ainda ser homem. Se bem que com essa coisinha aí, nem sei se pode se chamar de homem mesmo. – Florinda soltou uma risada alta. Ninguém mais riu.

Ela se vestiu rapidamente. Depois disso, Florinda e Arimatéia pegaram os melhores cavalos e se embrenharam no mato, levando o Juvêncio e todas as armas dos peões.

– E agora, o que a gente faz? – Era o Gildásio que perguntava.

– O jeito é voltar pra Imperatriz. E você, Tonico, suma daqui e não apareça nunca mais…

O Tonico levantou as calças e saiu correndo no mato. Os outros homens voltaram rapidamente na direção contrária, putos de raiva. Tinham sido enganados por uma menina… A filha do Andrade…

Perseguição

Março 2, 2008

Goiás, 1923

O grupo de Juvêncio ia muito na frente, no encalço do casal de fugitivos. Arimatéia tinha levado a filha do Ezequiel. Nunca tinha desconfiado dessa história de amor entre eles. Quanto tempo fazia? Como tinha começado essa loucura? Agora Juvêncio só pensava neles fugindo que nem cães nesse mato brabo. O Arimatéia era esperto, bom rapaz e que sabia andar naquela região de olhos fechados.

Por outro lado, estava com a menina. Filha prendada, criada na sede da Cascavel, quase nunca saía da barra da saia da mãe. Ela não ia aguentar essa correria por muito tempo. Pensando assim, talvez fosse questão de horas até que eles fossem encontrados e essa caçada acabasse.

E o que deveria fazer quando isso acontecesse? Sangrar o menino, era caso de morte. Ninguém desonrava o prefeito Andrade desse jeito. Além do mais, ele não queria começar outra guerra. Agora o Andrade tinha muitos amigos poderosos, influentes, até na capital. Ele não queria a polícia no seu encalço. Não havia jeito, ia ter de matar o Arimatéia.

E a menina? Filha única do Ezequiel. Era uma oportunidade de ouro. Dificilmente ela aceitaria o casamento com o Laurentino, de qualquer maneira. Se ela simplesmente sumisse…

Mas não, matar mulher assim, não. Ele não chegaria a tanto. Ele não queria chegar a tanto.

**********

– Amor, vamos!

Ela o achava tão bonito, tão especial em sua simplicidade. Aquela fuga foi o único jeito, a única chance de viver ao lado do homem que ela havia escolhido para si. Seu homem, era isso que ela ficava repetindo dentro da sua cabeça. Seu homem, Arimatéia. Que importava se fosse mestiço? Que importava se fosse ou não filho do sacripanta do Juvêncio. Estavam ali, seguindo o seu destino, fugindo por amor, fazendo aquilo que sei coração achava certo.

Os dois fugiam a todo galope pelo meio do cerradão. Só ele pra conseguir saber para onde estavam indo agora, onde estavam. Ela estava totalmente perdida, mas se sentia segura, apaixonada. Ele parou.

– Vamos parar por aqui. Os cavalos precisam beber e o próximo córrego está longe. Também vejo que você está bem cansada.

– Precisamos fugir, amor, pra longe, antes que nos encontrem.

Florinda teve um desejo enorme de beijá-lo. Não ouvia nada, simplesmente se perdia em observar a boca de Arimatéia. Ele percebeu isso. Entreolharam-se. Os corpos ardiam de desejo.

Ele levantou-se, andou até o córrego e enfiou a cabeça na água para esfriar os pensamentos. Precisava ser forte. Conhecia um padre em Pirenópolis que poderia casá-los e então aquela mulher seria definitivamente sua. Antes disso, teria de suportar a tentação. Florinda era uma menina direita, não merecia ser deitada no meio do mato como fazem com qualquer cabrita. Ele a amava, bem sabia disso. Só com muito amor para fazerem um loucura dessas.

Ela estava ali, bem próxima. Podia sentir o seu cheiro, imaginar o toque suave da pele. Menina rica, acostumada com o luxo da Cascavel. O que ele poderia lhe dar? Como ele teria conseguido convencê-la a fugir com ele por estes matos fechados? Loucura, ele bem sabia. Mas era a única coisa que seu coração lhe permitia fazer.

– Não…

A palavra veio mais como uma súplica que ordem. Florinda, muito próxima, o calor da respiração, as mãos dela que percorriam seus braços. Isso era irresistível. Arimatéia sucumbiu.

***************

– Patrão, eles entraram por aqui.

O negro Tibúrcio trazia um pedaço de pano branco. Era do vestido da menina, sem dúvida. Estava enrolado num galho de jatobá. Estavam perto, podia sentir. Por isso mesmo Juvêncio precisava decidir logo o que fazer. Mas ele sabia, diabos. Tinha de matar o Arimatéia. Mas o padre estava certo. Era seu filho, seu filho. Fruto do amor dele por Maria. Se ele fugia com a menina era só por ser sangue de seu sangue, um Pitanga não faria diferente. Não podia culpar o menino por isso.

******************

– Maria…

O cheiro da preta estava misturado com o do café. Que horas seriam? O sol já ia alto no céu. Ele ficou olhando pros bicos dos peitos dela, bem escuros e arrebitados pela brisa da manhã. Ela não tinha dito uma só palavra, um gemido em toda a noite. Ele sentia um certo remorso. Não era de tomar as mulheres assim, mas ele se sentia tão fraco, tão inseguro. Queria o calor de uma mulher, pra lhe fazer esquecer a dor.

Tinha acabado de enterrar seu primeiro filho, recém-nascido. Chamava-o de Miguel. Morreu no parto, tão tranqüilo no seu caixãozinho, parecia que dormia.

– Vida ingrata! Vida ingrata!

Começou a chorar, que nem menino. Chorava que tremia, rolando no chão, totalmente esquecido da mucama, nua, ali a seu lado. Era muita dor no coração. Aquela guerra com os Andrade não ia acabar nunca? Tantos mortos e ele conhecia cada um pelo nome. Tantos…

E o menino ali, sozinho, os vermes comendo a carne dele embaixo da terra. Ele não tinha culpa! Não tinha!

– O sinhô tem de ir ver sua esposa. Não tá certo o marido dela sumir assim, a noite toda.

Ele sentiu o ódio na voz dela. Ódio. Todos o temiam. Será que ninguém era capaz de amá-lo? Era o que ele precisava, apenas isso. Deitou-se no colo da negra, sentindo o cheiro de suor que exalava de suas pernas. Era o colo da mãe que ele queria, mas ela jazia morta, há muito tempo. Morreu de pé, lutando contra os Andrade. Quanto tempo demoraria pra ele morrer também? Teria coragem de morrer de pé, que nem sua mãe?

E ele beijou a negra, com volúpia, na marra. Ela não retribuiu o beijo, mantendo-se arredia. Ele se encheu de ódio, ameaçando bater nela.

– Agora é isso? Vai bater também? Não basta me possuir à força?

Ele abaixou o braço e secou as lágrimas.

– Vista-se e me encontre mais tarde na Imperatriz.

**********

– Ali, do lado do córrego!

Juvêncio foi trazido de volta dos seus devaneios. Tinham achado seu filho. Arimatéia…