Archive for the ‘Não classificado’ Category

Janeiro 25, 2011

– Tem certas coisas que você faz – ela disse – que têm um poder sobre mim maior do que eu sou capaz de explicar.

Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos lisos. Era um tique dele, passar a mão na cabeça quando estava envergonhado ou nervoso. Ela achava lindo isso que ele tinha de ser tímido nas horas convenientes. Ele levantou-se de cama, ainda nu e perguntou se ela queria alguma coisa da cozinha. Ela disse que não e ele saiu.

Ela deitou na cama com as mãos cruzadas sob a nuca e ficou lembrando dos detalhes da noite. Detalhes, nisso ele era bom, ele sabia preparar cada coisa nos mínimos detalhes. E sabia improvisar também, o que era uma baita qualidade. “Cara, qual é o problema desse homem?”, disse consigo mesma. Mas ela no fundo sabia que o problema era ela tentando achar problema em tudo que era coisa. Ele era o primeiro em muita coisa e isso deixava ela assustada. Ficava assustada das coisas que ela dizia pra ele, da maneira como ela se entregava pra ele livremente, com não tinha feito com nenhum outro. Aos outros homens ela se deixava tocar. A ele, ela se deixava conduzir.

E ele a conduzia, fazendo dela o que quisesse. Tinha dias que a xingava de puta, de vagabunda e a deixava toda roxa nos pulsos, nas pernas e nos seios. Tinha dias que ele fazia amor a olhando nos olhos e ela ficava assustada de perceber como ele conseguia dominá-la também de olhos abertos enquanto se mexia bem devagar, por horas. E tinha dias que ele não fazia absolutamente nada a noite inteira, só ficava sentado vendo um filme chato com ela até dormir, e isso era absurdamente bom.

“É a paixão, Iasmim, você sabe…”. “Mas você sabe que não pode, Ele não pode. Ele não quer você…”

E quando ele voltou, ela estava triste. Ele sorriu, deitou do lado dela mansinho e a beijou na testa. Ela se aninhou no peito dele e ficou sentindo o coração bater bem tranqüilo. E entendeu que perfeição se faz nos detalhes…

 

 

foto da manu

Janeiro 12, 2010

Fenômeno pendular

Dezembro 8, 2008

Tudo está sempre em trânsito. Tudo muda, vertiginosamente, na velocidade inebriante do suspiro, do sono, do sonho. A terra, as casas, as pessoas, os sotaques, influenciados pela estranha política: construir, transformar, mudar a natureza, implantar o novo, mostrar o modernismo em todas as suas formas, em todas as partes, em todos os cantos. Decibéis e megabytes, motéis e boates, multidões que se movem, dia após dia, noite após noite, sem descanso, sem pátria, sem terra, mas com lote.

Empregos que se transformam: leiteiro vira marceneiro, que vira padeiro, que ganha dinheiro, que vai pro estrangeiro, perder seu dinheiro, sem se sustentar. Mineiro, filho de sapateiro, vira concurseiro, passa em primeiro sem estudar. Bacana de vida cigana, sai de copacabana, mudar de lugar. Dança de cadeiras, de concursos, de recursos nos tribunais. Assessor, promotor, desembargador, ministro de tribunal superior, vira então militar? Subindo, descendo, andando de ônibus: homens e mulheres em construção, reforma, implantação.

Espaços urbanos, levemente humanos, quase nunca suburbanos. Highways que cortam o planalto, rios de asfalto que se cruzam sem se encontrar. É o viaduto. É o prostituto a rebolar, ganhar seu sustento.

Os homens e mulheres que passam, apressados, sempre bem-educados, mas sem se importar com desvios. Com o céu. Com o precipício. Com o suplício diário da solidão. Tudo moderno, tudo incessantemente sincero. Tudo combinado, jurado, sacramentado, firmado em cartórios civis. O tempo é outro. Tempo de desperdício, de ilusão.

E por cima de tudo o céu de ilusão sem nuvens, natural, selvagem, desconhecido, azul e desolador. A pequenês ambivalente,

E a vida anda com as pessoas, rápido demais. Rápido como a vida, como o tempo que sucede o orgasmo da secretária, o arrumar do vestido, o beijo estalado, o farfalhar metódico das pernas que se sucedem.

Toc

Toc

Toc

Saltos que ferem o cimento, revelam a sinestesia amniótica entre a mulher e o chão.

E antes que se perceba, a chuva toma tudo, transgride o ritmo, lava as almas dos passantes, que apressados tomam seus lugares entre as marquises dos edifícios. E se entreolham atônitos. Do que serve tanta modernidade se não se consegue domar o céu?

Poderosamente, este se renova em plúmbeas revoluções, mais forte que a vontade de mover, obriga todos a um particular sofrimento: a imobilidade.

E nestas horas, nada mais belo do que a solidariedade passageira:

– E então, topa um chope?

– Só se for agora!

Augustos

Dezembro 1, 2008

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. A rua tinha sido asfaltada há pouco tempo e eu adorava o cheiro forte de piche saindo do chão. Não fazia frio naquele dia, mas o céu estava nublado. Era novembro e eu ia pegar o ônibus para a escola. Sozinho. Eu tinha nove anos.

Acabara de amanhecer. Eu sempre odiei o horário de verão porque tinha de acordar ainda mais cedo que de costume. Mal tomei café e comecei a andar em direção à parada. Era perto e o ônibus não ia demorar muito.

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. Algumas casas eram de madeirite mas a maioria era de alvenaria. E eu via a cidade crescer, rapidamente. Mas era tudo igual: cinza do cimento e das telhas de amianto misturado com o vermelho dos tijolos e da poeira que insistia em cobrir tudo.

Eu via as casas como um quebra-cabeças, onde as peças eram tão  parecidas que dava um grande trabalho diferenciar um casa da outra. A pobreza é assim: massificante. As casas se uniam em sua feiúra e se misturavam em sua falta de opulência. Todas unidas em sua tarefa de esconder as tristezas de seus moradores.

Mas eles não aparentavam ser tristes. As casas eram feitas para ser resistentes, sabe? Aquelas pessoas podiam fazer apenas isso: resistir. E embora cada uma delas carregasse um mar de desaventuranças dentro de si, era visível que todas tinham grandes esperanças de dias melhores.

Eram altivos, mas não tinham orgulho. Eram como aquelas casas, seguras, por fora, mas vazias por dentro. Mas embora vazias de móveis, eram carregadas de algo muito mais poderoso: sentimentos verdadeiros. Tristezas, alegrias, esperanças. Braços que se abraçavam fraternalmente e mãos que se ajudavam.

O orgulho é um luxo caro demais para aquelas pessoas e por isso elas se divertiam vendo o orgulho de outras na televisão. Era a alegria pasteurizada, sendo entregue gratuitamente em todas as casas. E, quando passava pelos bares da região eu via outro tipo de alegria: falsa, destilada ou fermentada, que se mostrava nos cuspes verborrágicos daqueles infames senhores. E o preço daquela alegria talvez fosse alto demais.

A vida se mostrava assim: inconstante e implacável como o sopro do vento que carregava as pipas dos meninos pelo céu. E quando uma delas voava, eles corriam como este mesmo vento inconstante, atrás de sua alegria: o arremedo do vôo, a essência da liberdade. Não uma liberdade comprada, vigiada, como a dos prédios com porteiro. Era outro tipo a que eles almejavam. A de dizer a que veio, quem era. A liberdade de sonhar e correr atrás de seus sonhos.

E eu sonhava muito quando meus passos se sucediam na direção da escola. Era preciso ousar para ser diferente. Era preciso ser igual na diferença, como aquela casa de esquina pouco antes da parada de ônibus. Também era de cimento, tijolo e amianto. Mas tinha uma coisa que só ela e nenhuma outra casa tinha: vasos e vasos de flores coloridas, destoantes, orgulhosas.

O Ingazeiro

Novembro 28, 2008

Era julho e o vento soprava poderoso, fazendo redemoinhos avermelhados em torno das árvores, deixando os olhos dos viajantes apertados. Estavam com sede e Jeremias pensava no córrego, mas aí eu me adianto.

– Quanto já?

– Arre! Mais de sete léguas.

– É muito!

A ventania sibilava nos ouvidos de modo que mal se ouvia o barulho dos cascos dos animais na terra arenosa. A natureza implacável mostrava sua força em cada elemento: As curvas indecentes das árvores, como almas condenadas que pedem clemência aos céus. Aquela região parecia um pedaço do inferno, onde a penitência de cada alma é passar a eternidade de braços abertos, angustiados, suplicantes, mãos que procuram alento nas nuvens, sem nunca chegar próximas ao céu. O sol audacioso compunha também o quadro desesperador, queimando, inexoravelmente onipresente, mas suficientemente brando para não secar o suor.

A boca seca, olhos lacrimejantes e o vento: rajadas que se sobrepõem, às vezes leves, enganadoras, às vezes médias, néscias, mas na maior parte do tempo inconstantemente poderosas, inexpugnáveis. E este vento sem direção seguia todas as direções: oblíquas, perpendiculares, hiperbólicas em vários momentos. Vento que faz curva, vai e volta. Vento que sacode o pó e enche de pó o que era pó e para o pó voltará.

Carcará voou. Bem-te-vi, bem-te-vi. Sabiá. Assum preto, curió, curioso. Carcará. Imagens que se sobrepõem entre um abrir e outro dos olhos. Pássaros que domam o vento ou povoam o vento de cantos. Cantam com o vento de suplícios.

A terra coberta em quase toda sua extensão de uma vegetação rasteira, era entrecortada por erosões poderosoas que evidenciavam a terra vermelha. Vermelho-sangue, como se as almas-árvores fossem alimentadas, piedosamente, pela seiva sanguinolenta da terra. E o vento, claudicante, levantava a terra, subindo-a aos céus, às árvores, folhas, pássaros, cavalos e viajantes, cobrindo tudo da seiva-sangue da terra implacável do cerrado.

Tudo era desolação e abandono. A natureza resistia à passagem, mostrava-se evidente que era. O vento, o sol e a terra dançavam num ritmo inconsciente e sagaz, uma ciranda entre os elementos, causada pelo desequilíbrio das forças oniróides da natureza.

Mas então o buriti aparece no horizonte e como um marco, um símbolo, enche de esperança os olhos cansados. Junto a ele vários outros que se sobrepõem. O ar fica mais leve, límpido, o sol ainda mais brando e a terra antes arenosa e infértil, fica maleável. Os cavalos erguem as orelhas, andam mais depressa, alegres. As árvores espaçadas desaparecem e são substituídas pelos densos troncos retos de árvores nobres. O som poderoso do vento é substituído por um outro, mais palatável, sereno: som de água que corre. Chegaram a um córrego.

Os viajantes descem, soltam os cavalos e abastecem-se de água fresca e limpa e começam a contar alegremente vários causos de suas terras, histórias coroadas de suspiros e saudades. Mas as histórias raream e todos se entregam à melhor das tarefas do dia: o merecido descanso.

E este foi o erro de Jeremias, mas aí eu me adianto. Ele deitou-se sob a sombra de um ingazeiro grande e florido, fechou os solhos sob o chapéu velho de palha e dormiu tranqüilamente. O vento implacável se transformou em brisa leve, amena, embalando o sono do capiau. E foi assim por uma boa meia hora.

*********

E os cavalos estavam assustados. Relinchos entrecortados com coices no ar. Os viajantes levantaram sobressaltados, tentando acalmá-los:

– Eia! Eia…

– Ôa, ôa, alazão!

Jeremias observava a cena ainda deitado.

– Arre! Praga dos infernos! Valei-me nossa senhora!

Para aqueles homens o súbito enlouquecimento dos cavalos só poderia ser obra de alguma entidade sobrenatural. Por isso eles se benziam e faziam simpatias enquanto tentavam acalmar os animais. Jeremias continuou deitado e este foi o seu erro.

Indolentemente, ele sentou-se, encostou as costas no ingazeiro e acendeu seu cigarro de palha. Os cavalos continuavam empinando, dando coices e relinchando alto. Mas apesar de toda esta confusão, Jeremias parecia ouvir um barulho característico, familar. Que seria? Os cavalos pareciam querer dizer alguma coisa.

– Nunca vi coisa assim. Eles não se acalmam de jeito nenhum.

Jeremias tragou com força, brincando com a fumaça nos pulmões, ainda tentando descobrir que tipo de barulho era aquele. Era ritmado, constante. Muito parecido com o barulho da água que corria no córrego perto dali. Mas seria…

E Jeremias percebeu muito tarde que se tratava de um chocalho. A cascavel fitava-o nos olhos, hipnotizando-o. Então era isso, uma cascavel. A audição dos cavalos, muito mais desenvolvida, tinha percebido o som do chocalho antes de todos.

Ele não havia o que fazer. A cobra estava a menos de um metro do seu rosto, perigosamente preparada para o bote. Jeremais não respirava, não fazia qualquer som. Seu braço direito movia-se sorrateiramente na direção da cobra.

Olhos nos olhos. O homem e a cobra estavam empenhados numa briga surda pela sobrevivência. O braço movia-se milimetricamente na direção da cabeça da cobra. Olhos nos olhos.

E Jeremias percebeu seu erro tarde demais. Em vez de fazer o bote no braço, a cobra avançou sobre o rosto dele, entre os olhos. Jeremias gritava assustado. Seus colegas, empenhados em acalmar os cavalos, nem perceberam a cena se passando até que fosse muito tarde. Correram para ajudar o amigo que já tinha se livrado da cobra, mas gritava de dor.

Jeremias agonizou dois dias antes de morrer. Foi enterrado em Crixás, sem reza e sem discurso, sem caixão, sem cigarro, sem nada.

Isaías

Novembro 22, 2008

O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. Decerto nem sabiam do fim da escravidão. Falavam um dialeto estranho, cantado, nem parecia português. Isaías já tinha ouvido histórias horríveis de negros que mutilavam meninos para fazer rituais satânicos.
A paisagem estava tomada de árvores baixas e tortas e mostrava uma grande desolação. Toda aquela região tinha sido queimada semanas antes e no meio das cinzas aparecia aqui e ali uma flor colorida. Mato estranho, terra estranha. Apesar de ser setembro fazia frio. Parecia que ele poderia sem muito esforço tocar as nuvens, de tão alto que estava. Nenhum sinal de água. Ao longe, Isaías viu um jatobá. Descansaria ali por alguns instantes antes de continuar a viagem rumo ao norte.
O cavalo estava estenuado e sedento. Água ia demorar pra ver. Ele não conhecia bem aquela região, nem sequer estava seguindo uma estrada. Caminhava se orientando pelo sol e pelos pontos de referência no caminho. Mas ora, porquê raios o velho Matias tinha de inventar de confinar gado tão longe? Ouvira que além das montanhas haviam terras férteis, campos limpos entre os rios Tocantins e Araguaia. Lá ele exportava sua produção para o Maranhão e Piauí.
Acariciou a crina do cavalo. Era branco e por isso se chamava Coalhada. Bom cavalo, bonito, apesar de um pouco velho. “Já está ficando tarde” pensou Isaías “talvez fosse melhor montar acampamento aqui”.
Era uma decisão prudente. Quem sabe onde mais poderia arrumar um lugar tranqüilo para descansar? Se bem que ele tinha um certo medo das histórias que contavam sobre aquela região. Ah, moras ora! Quem daria bola para estas histórias?
Fez um pequena fogueira e comeu o que tinha: rapadura e farinha. Coalhada ficou solto, tentando comer o pouco de mato verde que encontrava. Isaías encontrou ainda alguns jatobás e comeu bem satisfeito. Estava ficando frio muito rápido e ele apressou em se agasalhar. As nuvens vieram rapidamente e pintaram tudo de branco. Eram por volta das cinco da tarde.
– Coalhada? – O cavalo tinha sumido. Não se ouvia nem o seu tropel ritimado. E essa agora? Pra onde teria ido? Isaías preferiu continuar perto da fogueira. Logo o cavalo deveria voltar.
Ele devia tê-lo deixado peado. Agora era tarde. Isaías agasalhou-se e ficou quieto, tremendo de frio. A brancura do nevoeiro começou a se tornar escuridão. Apenas bem perto da fogueira poderia se ver alguma coisa. Além disso, apenas breu.
A noite foi se aprofundando e o vento ficando cada vez mais forte. Ventava muito ali em cima, a ponto de fazer a fogueira trepidar perigosamente. Isaías jogou mais madeira ao fogo para torná-lo mais forte. Sem sucesso, um vento mais forte e a fogueira se apagou.
Escuridão completa. Nenhuma estrela, nada, apenas o barulho ensurdecedor do vento tomando tudo.
– Coalhada?
Isaías estava tremendo e não era só frio. O vento agora era acompanhado de gotículas de água que tornaram a sensação térmica insuportável. Não adiantava querer acender a fogueira de novo. Restava esperar que amanhecesse ou que o vento diminuísse. E onde diabos estaria este cavalo?
De repente, ouviu os primeiros trovões, bem longe.
– Noite amaldiçoada!
Já podia ver os relâmpagos.
– Valei-me minha Nossa Senhora!
Mais perto.
– Ave Maria cheia de graça o sinhô é convosco…
Não deu tempo de terminar a oração. Um raio caiu sobre o jatobá, a poucos metros, com grande estrondo. Isaías desmaiou.
***********
Continua…

Pedro Demo

Outubro 29, 2008

Pedro Demo

– Que é de Pedro?

– Que Pedro, muié?

– O Pedro, irmão de Malaquias?

– E cumé qu’eu vô sabê?

– Andei sonhando cum ele.

– Arre! – e o velho Tobias cospiu barulhentamente no chão, um misto de fumo mascado e catarro. O velho tinha tuberculose há muitos anos – Faz tempo que ele foi pro norte, pro Garimpo. Quem vai pro garimpo num vorta não, Zuleide!

– Arre! Meu coração tá apertado. Alguma coisa deve de tê havido cum Pedro.

– Se há de haver, haverá. Que nossa sinhora se cumpadeça deste menino.

E o Pedro corria a trote solto. Era noite, a mata fechada, mas ele tinha pressa. O cerrado em noites sem lua é assustador. As árvores tortas pareciam braços imensos de almas penadas querendo levar a gente pro inferno. Pedro Demo se benzeu. Era preciso chegar rápido e em segurança. O cavalo, muito suado pela trote resfolegava alto. Lágrimas frias rolavam pelo rosto áspero do mulato. Seria tarde, meu Deus? Quanto tempo ainda restaria?

O cavalo tropeçou num tronco caído no caminho, assustando cavaleiro e cavalo. Pedro rolou várias vezes antes de cair no chão, de bruços, a boca cheia de terra, o corpo maltratado de feridas. Respirava forte, revolvendo a terra vermelha. De sua testa saía um filete de sangue grosso. A alguns metros dali, o cavalo gritava desesperdado, tentando ficar de pé. Só quem viu um cavalo assim consegue imaginar a dor imensa que o cavalo demonstrava. Relinchos agudos, súplices, cortando a noite escura de um céu sem estrelas. Pedro virou-se e olhou para cima. Nuvens grossas anunciavam que a chuva vinha, depois de mais de dois meses. Pedro respirava forte, tremia. Não era dor, era impotência. Então estava tudo consumado, agora ele não podia fazer nada.

Pedro sentou-se, olhou para o cavalo. Olhos nos olhos. O cavalo estava deitado no chão, entregue. Ainda relinchava, mas sem forças. Uma imensa poça de sangue cobria o chão em volta dele. Pedro arrastou-se até ele e colocou sua cabeça sobre o colo. Olhos nos olhos. Pedro acariciava a crina do amigo, observando aquela triste cena.

– Sabe amigo? Agora eu preferia ser você… Seria mais fácil.

Olhos nos olhos. O cavalo sabia, era como se pedisse desculpas. Agora era muito tarde, tudo estava consumado.

Pedro deu um tiro na cabeça do cavalo, entre os olhos. Depois da bala, o silêncio da noite no cerrado. E Pedro começou a chorar, fraco, sozinho. Gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite.

Agora era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos, olhos nos olhos. E Pedro apontou o revólver para a própria cabeça. E gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite. Respirou fundo, olhou para o horizonte e apertou o gatilho.

– E como era o sonho?

Tobias olhava para os olhos vazios da velha. Ela era cega e ele tinha um prazer imenso em ver aqueles olhos azuis, inexpressivos, olhando para não sei onde.

– Era São Migué. Eu sei pruquê me alembro dele lá da Igreja do Pilar. Ele desceu do céu e tinha uma grande espada que cortava o chão, por onde Pedro tava passando. O menino ia tão aperreado… Era escuro, eu não vi muito. Só lembro do choro sentido dele e depois o silêncio.

– Cumé que tu sabe que era ele? Tu nunca viu o Pedro!

– Era ele sim, tenho certeza. Pedro irmão do Malaquias.

Pedro abriu os olhos. Estava vivo ainda? Ele não se lembrava de ter ouvido o barulho do tiro. Olhou para o revólver: o cão estava travado. Será que nem para morrer ele servia?

E a chuva veio forte e insesperada, tomando tudo de uma vez. Pedro jogou o revólver longe e bateu os dois punhos no chão. A noite era iluminada pelos clarões dos relâmpagos cortando a noite.

– E o que aconteceu depois?

– Aí caiu uma grande chuva. São Migué mandou um monte de truvão que clareô tudo. E Pedro ainda chorava.

Tobias tossiu forte. A velha levantou para bater-lhe as costas. Ele estava muito vermelho, meio sufocado. Depois de uns instantes ele consegiu se recompor, tomou um gole de água.

– Tô mió! Quero saber o fim do sonho.

Pedro deitou-se de costas. As gotas grossas de água lavavam as feridas em seu corpo. Era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos. E ele lembrou-se da menina de olhos claros que ele tinha visto em Pilar anos antes. Pedro sorria e ela também. Mas era tarde, tudo estava consumado.

– Arre! Quem tá aí quieto no meio da chuva? Tá tudo certo?

Pedro não viu o carro de boi chegando. Era João da Farinha que estava atravessando com carga para Pilar.

– Pedro! Que há contigo?

– Aí que apareceu Jesus e eu acordei.

– São João?

– São João Evangelista ou São João Batista?

– O Batista.

– Ah, então Pedro tá bem, num tinha que se preocupar, véia. São João Batista é o santo da mãe dele. Proteje eles até em sonho.

João da Farinha desceu e ajudou o amigo a subir a carroça. Sentou o ao seu lado. Pedro continuava muito calado. João não fez qualquer pergunta. Viu o cavalo morto no chão, a cara do amigo. Andar de cavalo ali, no meio da noite, só podia ser coisa muito séria.

– Ocê passou por Crixás?

– Passei sim, faz pouco mais de hora – respondeu João.

– E tá tudo certo lá?

– É, tá, agora tá.

– Ué, que tinha acontecido?

– Teve uma confusão danada lá. O velho Tarcísio morreu.

– Morreu?

– Morreu, morte morrida. Teve um piripaque, caiu durinho. Foi hoje à tarde. Enterraram hoje mesmo. Eu fui lá assistir, por isso tô voltando agora, no meio da noite. Teu irmão mandou lembranças procê.

Pedro sorriu docemente. O velho Tarcísio era o dono do garimpo onde ele trabalhava. Ele ia matar o Malaquias se a dívida de Pedro não fosse paga hoje. Ela estava indo pra lá justamente para evitar que isso acontecesse. A notícia ainda não tinha chegado em Pilar.

– Só não entendo uma coisa. A última coisa que ele disse foi São Migué! Estranho, né?

– Estranho.

E ambos se benzeram e seguiram silenciosos o resto do caminho.

Vivendo para sempre

Abril 1, 2008

Perseguição III

Março 12, 2008

Goiás, 1923

Os três galoparam em silêncio por três dias. Atravessaram córregos e rios, andaram por planícies compridas, chapadões perigosos e, principalmente por mares de morros baixos, cobertos de árvores retorcidas do cerrado. Eram acompanhados de perto pelos barulhos familiares de socós, seriemas, catitus, veados e dezenas de outros animais. Esta fauna, muito mais rica do que hoje em dia, servia de alimento para os viajantes, assim como diversas frutas que encontravam pelo caminho, como jatobás, ingás, etc.

Andavam pelo meio do mato pois temiam que, indo pela estrada, pudessem ser encontrados pelos jagunços, tanto dos Andrade como dos Pitanga. Arimatéia e Florinda não foram ingênuos de acreditar terem seqüestrado Juvêncio fosse empecilho para que continuassem sendo perseguidos.

Na noite do terceiro dia, sob um céu estrelado de lua nova, Arimatéia foi o responsável por quebrar o silêncio, enquanto Florinda dormia, extenuada da viagem.

– Você me chamou de filho… Naquele dia, na beira do córrego, me chamou de filho.

Juvêncio permaneceu calado. Mexia no seu bigodes e pitava um cigarro de palha que tinha acabado de fazer. Esse silêncio fez Arimatéia, conhecido pela sua serenidade, explodir em fúria.

– Porque isso? Você nunca admitiu que tivesse dormido com minha mãe! Nunca me deu um só palavra de amor, carinho! Agora vem me chamar de filho!

– É isso que você é, não? – Juvêncio continuava calmo, deliciando-se com o cigarro. – Sabe, Arimatéia, quer dizer, filho, quando a gente é jovem faz muita coisa no impulso. Eu desejava muito sua mãe, mas já era casado com Leontina há cinco anos. Maria, sua mãe era bonita, envolvente e nunca tinha cedido a meus caprichos. Leontina que trouxe Maria com ela, quando nos casamos e me deu um filho que nasceu morto. Um filho homem, um Pitanga que eu sonhava que ia acabar de vez com a guerra com os Andrade. Chamei ele de Miguel de propósito, pois queria que ele fizesse que nem o Arcanjo São Miguel, levando os Andrade pro inferno. Mas Deus não quis dar esse destino pra ele. Deus é sábio, filho, sangue só traz mais sangue. A gente não consegue paz com guerra.

– E foi nesse dia – Juvêncio continuou – que tomei sua mãe pela primeira vez, contra a vontade dela. – Arimatéia fez menção de se levantar, mas Juvêncio levantou a mão, pedindo que ele esperasse. – Não foi exatamente isso que você fez com a filha do Andrade? Como disse, quando a gente é jovem faz coisas sem pensar. Me arrependo muito de ter feito o que fiz, não nego. Além disso, fiquei apaixonado por sua mãe, cego de desejo. Em todos esses anos, desde que cuido da Imperatriz, a única vez que chorei foi no dia em que tomei sua mãe. Eu estava disposto a largar tudo a fazenda, a guerra, minha esposa, tudo pra ficar com uma preta, filha de escravos do Rio de Janeiro. Ela me negou, me esnobou totalmente, dia após dia, mês após mês. E foi quando descobri que ela estava grávida de você.

Arimatéia começou a chorar. Pensava no sofrimento da mãe, preta, sem ter com quem dividir toda aquela angústia.

– Me enchi de fúria, pensei que ela me evitava pois estava com outro homem. Nunca me passou pela cabeça que o filho pudesse ser meu. Enxotei-a de casa.

Foi a vez das lágrimas saírem dos olhos de Juvêncio.

– Eu só queria que alguém me amasse. – a voz continuava seca, sem emoção – Queria que fosse ela. Na minha vida inteira ninguém nunca me amou de verdade. Nem a Leontina jamais disse que me amava. E, quando sua mãe foi embora levando você na barriga, eu me senti sozinho como nunca. Procurei ela por todos os lados, corri o sertão com meus cabras atrás dela, sem nenhum sinal. Até que me falaram de uma preta bonita que tinha chegado grávida em Crixás.

– Chegando lá, depois de dias, você tinha nascido. Eu tomei você dos braços de sua mãe, ainda muito pequeno. Ela nem chorou, nem implorou por você. Eu te trouxe de raiva! Deus nunca vai me perdoar! Levar o filho de alguém por raiva…

Juvêncio colocou as mãos entre os olhos e chorou novamente, do mesmo jeito que tinha feito no dia em que Miguel morreu. Soluçava que nem criança.

– A vontade que tenho é de lhe matar! Mas você não merece nem o meu desprezo, seu desalmado.

Juvêncio conteve a emoção e olhou para Arimatéia, tranqüilamente.

– Deixe-me tentar reparar um pouco dos meus erros. Não por mim, filho, mas por você. Sei que estamos indo para Pirenópolis, conheço bem o caminho para lá. Melhor seria ir para Crixás de Goiás. Tenho negócios por lá, posso arranjar dinheiro para que vocês dois construam uma vida nova em outro lugar. E podemos encontrar sua mãe.

– Eu nunca tive nada seu! Porque você acha que vou querer ter o seu dinheiro?

– Eu sei o que você pensa nas noites. Sei que olha para esta mulher e pensa em como você vai conseguir dar a ela tudo o que ela merece. Não aceite o dinheiro por você e sim por ela. Quando a gente é jovem tem esse orgulho besta de quem não sabe que todo mundo sempre dependeu de alguém. Nesse mundo, Arimatéia, o dinheiro fala mais alto que cor de pele, que passado. Dinheiro compra até o silêndio das pessoas. E, além disso, você é meu filho. Deixe-me cuidar de você, mesmo que agora seja tarde demais para conseguir o teu perdão.

– Eu mereço morrer, filho, por tudo o que fiz. Mas você também merece por ter roubado a filha do Andrade, nós dois sabemos disso. Sua vida pela minha. Meu dinheiro pelo seu passado. É uma troca justa.

Os dois abraçaram-se longamente. Juvêncio se sentia muito mais leve. Todos estes anos se arrependendo de ter feito essas coisas. Deus tinha dado a ele a chance de mostrar que podia ser uma pessoa melhor. Ele sabia que não merecia, sabia de todos os seus pecados, mas mesmo assim tinha recebido uma segunda chance. Faria tudo para não desperdiçá-la

Arimatéia secou as lágrimas com o braço e disse:

– Vamos a Crixás…

Não, eu não morri

Fevereiro 29, 2008

Desculpem o silêncio de rádio…

Foi dengue…

Mas eu estou melhor…

Não devo bater as botas tão cedo…

Fim de semana tem mais histórias

Redemoinho Machadiano

Janeiro 20, 2008


 

Expansão do Setor O, Ceilândia, Distrito Federal, Anos 90

 

Ao contrário do que possa vir a parecer, eu não tenho muito controle sobre minhas crônicas. Elas transitam pelas décadas, uma história atrás da outra, sem muita razão. O grande problema é que tenho muitas coisas para contar e, em cada crônica, resolvi limitar meu espaço para que cada um dos meus poucos, porém fiéis leitores, possa ler sem se cansar muito. Mas eu fico tentado a contar tudo ao mesmo tempo, até pra que quem queira começar a ler num momento qualquer consiga se perder nos labirintos das palavras sem muita dificuldade. Então, sem pedir licença a ninguém e sem perguntar se era uma boa idéia ou não, resolvi falar sobre minha infância.

Mas aí temos problema: por onde começar? Se começasse pela minha concepção certamente me perderia em floreios inúteis sobre a filosofia do que é o amor, colocaria anjos e fadas na cama de meus pais e outras coisas que não combinam nem com o ato em si, nem com o produto do ato, que é esse matemático que vos fala. Podia também falar de minhas mais antigas lembranças, sensações que ficaram em minha cabeça, mas é tudo tão confuso e intrincado que, provavelmente, ficaria bem melhor num compêndio de fábulas fantásticas ou num livro infantil do que num livro de crônicas sobre a morte.

Porém, caros leitores, lembro que este blog é sobre a dualidade entre a vida e a morte. Portanto, se a crônica não for falar sobre estes assuntos ou se não fizer parte de um caminho que, uma hora ou outra, descambará para um deles, não vale a pena fazer parte deste blog. Assim as lembranças, sensações, gostos e cheiros de minha infância ficarão para outro livro que os meus poucos e fiéis leitores, por educação ou gosto, não cometerão a indelicadeza de não ler…

Bem, a primeira coisa que me lembra a Vida é algo que meu pai me disse há muito tempo, quando morávamos num lugar muito pobre, chamado Expansão do Setor O. Bem, o nome pode parecer meio ridículo, mas diz absolutamente tudo sobre o lugar: é a expansão do setor O, ou seja, é um conjunto de casas que colocaram ao lado do setor O. O setor se chama O por causa da letra O mesmo. Existe o setor QNA (o centro), QNB, e assim sucessivamente.

Quando eu era criança, o último deles era o QNO, donde veio o O de setor O. Logo, a Expansão do Setor O era, o lugar mais longe que o lugar mais longe do centro que havia na época.

Para minha imensa tristeza, o setor O não goza mais da qualidade de ser o útimo. Já inventaram o QNP, QNQ, QNR, QNS e, dizem as más línguas, que o governador já pensa em criar o QNAA…

Cidade planejada é outra coisa, né? Se esse fosse um livro comum, sobre uma cidade comum, eu diria que na minha infância eu morava na rua tal, no número tal, perto da avenida tal. Ao contrário, morava na QNO 18 Conjunto 61 Casa 18, na cidade-satélite de Ceilânida, o lugar em Brasília mais parecido com favela, na época.

Não posso dizer que era fácil ser criança na Expansão do Setor O. As ruas não tinham calçamento, era uma poeirada danada… Lembro que quando a gente mudou pra lá não tinha nem água. Vinham uns caminhões-pipa ou a gente ia num chafariz ali por perto carregar água em baldes. Mas isso não durou muito, pois a água, a luz e, por conseguinte, o IPTU chegaram bem rápido.

Na época da seca (que chegava a durar três meses), a umidade do ar era tão baixa e minha pele ressecava tanto que meus dedos, calcanhar, lábios e canela sangravam. Isso sem falar do nariz, óbvio. Nos dias ruins de agosto (o pior mês da seca) a gente desejava a chuva mais do que dinheiro. Mas não podia vir muita chuva, pois quando vinha com vento os telhados dos vizinhos saíam voando. Eu tinha medo de granizo, eu lembro, porque ele batia nas telhas de amianto com tanta força que parecia que ia quebrar. E às vezes quebrava mesmo…

A gente rezava pra Deus dar tanto a seca quanto a chuva na medida certa e que ele tivesse piedade dos mais pobres que nós, que não tinham sorte de ter uma casinha pequena, pobre, com um cachorro mirrado. A gente agradecia cada coisa que vinha, pois sabia que era tudo muito difícil de se conseguir.

E meu pai mandava a gente pra escola. Gente pobre sabe que estudar é importante, pra ter futuro. E eu quase não saía de casa, pois minha mãe tinha medo de que eu me misturasse com bandido. Isso não faltava mesmo, desde João de Santo Cristo a Ceilândia tinha essa fama.

Eram dias de tiroteios, sobreviver era uma bênção. Os poucos policiais que arriscavam entrar na Expansão do Setor O de madrugada eram heróis, burros ou corruptos. E ouvíamos histórias macabras de mortes e de fantasmas. A primeira pessoa que me lembro de ter visto morta era uma loira de cabelo pintado. Por descuido de alguém, o vento levou o jornal que tapava seu rosto e pude ver a ferida profunda e seca da faca que a degolara. Eu devia ter uns oito anos…

E esse era um dia anormamente quente, cercado de redemoinhos que me deixavam sujo da poeira vermelha de Brasília. Eu tinha medo de que aquele pó todo fosse pintado de sangue.

– Pai!

– Que foi, filho?

– Porquê a gente morre?

Ele pensou bastante antes de me responder. Então disse:

– A gente morre, filho, porque a gente vive. E a gente vive esperando que Deus tenha piedade da gente na nossa morte. E Deus só vai ter piedade da gente se a gente for bom, acreditar n`Ele, fizer o bem pra todo mundo. A vida leva a gente que nem leva a poeira no redemoinho. A gente roda pra cá e pra lá, de vez em quando está em cima, de vez em quando está embaixo, mas nunca sabe onde vai cair, onde vai parar. A gente tem de viver com coragem, filho, estando preparado pra tudo. Só assim a gente pode merecer a vida.

Não sei se esse é o tipo de coisa que se fala pra uma criança de oito anos, mas eu lembro que na época entendi tudo. Profundamente.