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O dia do perdão…

Agosto 7, 2010

Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui bom com as palavras e em convencer as pessoas, mas só usava isso quando necessário.

Eu tinha entre quinze e dezesseis anos. Era 1999 e a música do capital estourava nas rádios. Eu gostava, principalmente pq conhecia o trabalho antigo deles, que era absurdamente bom. Ouvia discos de vinil na casa de amigos: Joy Division, The Clash, The Smiths, Ramones.

Tocava violão, mas não muito. Compunha uma ou outra canção, despretensiosamente. Algumas eu me lembro até hoje. Não esqueci nenhuma melodia.

Era punk. Não usava drogas porque sabia de onde elas vinham e sabia o que elas faziam com as pessoas, principalmente com os inocentes. Continuo limpo. Mas nessa época nem álcool eu usava. Aprendi a beber vinho no mestrado (canção, branco suave, hj acho pior do que remédio). Aprendi a beber cerveja na UnB (hj eu sou chato, só bebo bohemia e original). Aprendi a beber uísque no mestrado (ok, continuo nessa fase, mas tenho medo do que vou aprender a beber no doutorado).

Eu tinha poucos amigos. Era solitário. Andava sozinho para todos os lugares, principalmente de noite. Me metia em confusões, mas não muito. Era um anarquista que acreditava em Deus. Continuo sendo, os dois, mas na época eu não ia à Igreja. Achava absurdo ir a um lugar encontrar com um ser onipresente. Hoje vou à igreja, pq sei que Ele pode ser encontrado com mais força em certos lugares. Mas isso não é importante pra essa história.

Eu era um tipo especial de anarquista. Odiava o Estado pois sabia que ele era fonte de toda desigualdade. Mas não achava que as pessoas estavam prontas para viver sem ele. Logo, a opção era sabotá-lo. A democracia é um erro. O comunismo também é, já que nega o indivíduo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões por si e transformar o coletivo. Não acho que a opção à democracia seja uma ditadura de um só partido. Só o anarquismo daria liberdade total, para pensar e fazer o que sua consciência mandasse. Eu era um anarquista que acreditava na humanidade. Ainda sou, na verdade, acho que o lance é mudar a humanidade antes de mudar o estado e destruí-lo.

Bem, é isso. Disse essas coisas para dar um perfil psicológico para o personagem. Ou não, é só um desabafo mesmo. A idade vai chegando e a gente começa a pensar no que a gente fez no passado. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Foram as circunstâncias, sabe?

Na verdade, Brasília era uma cidade muito escrota. Muito mais do que é hoje, certamente. Havia pouco a se fazer. O que existia era caro ou inacessível. Os jovens não tinham espaço não porque fossem perigosos, mas porque Brasília nunca teve juventude e, portanto, não se sabia o que se esperar dela. Eu sou da primeira geração de brasilienses nascidos lá. Os começos são difíceis.

Havia vários colégios públicos grandes. Eram como grandes prisões, resquícios da ditadura. Porém eram espaços de política e “subversão”. Era o governo de Fernando Henrique Cardoso, o pior presidente da Nova República e o Brasil vivia crise atrás de crise. Era fim de ano e Roriz tinha ganho a eleição para governador, de uma forma que sempre foi vista como fraudulenta. Os sindicatos eram muito vigiados e boa parte dele era vendida ao governo. Dessa forma, era das escolas secundaristas e da UnB que vinham os focos de resistência à política existente.

E o estado se mostrava para nós. Alunos eram expulsos e desapareciam. Éramos obrigados a usar um uniforme e não ter nenhum símbolo para nos identificar: brincos, pulseiras, anéis, coturnos, lenços, era tudo proibido. As reuniões políticas não eram proibidas diretamente, mas era perigoso participar delas. Era perigoso ser filiado a partidos políticos. Mas eles existiam: o PT Jovem, a União da Juventude Socialista, entre outros. Eu não era de nenhum, já que era anarquista. Os colégios se dividiam entre eles. Eu era da (…) uma das mais tradicionais escolas públicas de Brasília. Fui pra lá por escolha, já que meu pai poderia pagar uma escola pra mim se quisesse.

E era uma escola efervescente. Era um barril de pólvora. Enquanto estive lá houve quatro grandes rebeliões de alunos. Quando acontecia, os alunos deixavam suas salas, invadiam as áreas públicas da escola e gritavam palavras de ordem até serem ouvidos. Ou até chegar a polícia. Sim, havia um batalhão da polícia do lado da escola.

E então quebrávamos os portões e fechávamos as ruas, em protesto. Sempre por motivos políticos. Éramos odiados pelo diretor da escola, pelo comandante do quartel da polícia e pelo administrador da cidade. Mas as putas que trabalhavam ali por perto gostavam da gente. Éramos jovens e ninguém é culpado pelo que faz aos quinze, dezesseis anos.

E nos metíamos em brigas, muitas. Como éramos perseguidos, nos organizávamos em pequenas gangues. Claro, isso tinha seu preço. Eu era da grande gangue dos punks, particularmente da confraria da (…) muito famosa nesses tempos. Digamos que aparecíamos muito nas colunas policiais dos jornais. Isso porque, além dos punks existiam os grupos neonazistas, gangues também organizadas, de pessoas que tinham ódios raciais contra todas as minorias, como nordestinos, homossexuais, deficientes físicos e negros.

Nós odiávamos os neonazistas com todo nosso coração. Era mútuo. Na verdade, a mentalidade punk é pelas minorias, pela contracultura, pelo protesto. Havia muitos homossexuais entre nós, muitos negros. O que valia era o que vc pensava, sua identidade e não o que você fazia de sua vida. Dessa forma, éramos vistos pelos skinheads como o lixo do mundo. E era assim que nos víamos e, por isso, nos achávamos fortes.

Mas, bem, a história começa por acaso. Era dia (…) e fomos surpreendidos pela notícia de que T., um famoso travesti de perto da escola tinha morrido, espancado até a morte. Isso não era incomum, mas nesse caso, particularmente, foi pessoal. Ele era um cara maneiro, de idéias avançadas. Fazia parte de movimentos LGTBT e era muito politizado. Ainda fazia ponto por ali.

A notícia se espalhou muito rápido. Logo, os três maiores colégios de Taguatinga estavam em pé de guerra. Eram outros tempos, quase ninguém tinha telefone celular e as coisas se resolviam no boca-a-boca. A indignação foi crescendo. Nenhum jornal noticiou. Nenhuma palavra, nada. O crime nem foi investigado.

E começou a acontecer. Primeiro um, depois outro. Os encontros entre os punks e skinheads estavam ficando sangrentos. Todos já sabiam o grupo responsável pela morte de T. e eles deixavam isso bem claro quando nos encontravam. Falavam de como foi bom ver os miolos “daquela bicha escrota” espalhados no asfalto. As brigas eram constantes. Depredávamos as ruas, pichávamos os muros exigindo justiça. E nada…

Então resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Era novembro e chovia. Ia ter um grande show de rock em Taguatinga. Sabíamos que eles iriam. Mas dessa vez nos preparamos. Paus, pedras, estilingues, socos ingleses. Meu sangue fervia. Foi a primeira vez que eu usei um soco inglês. Eu sentia aquele ferro frio roçando na minha perna, escondido. Todos estávamos tensos. Sabíamos que podíamos ser presos. Mas o T. merecia. O T. era foda. E eles precisavam de uma lição.

Lá pelas dez da noite eles chegaram. Todos juntos. E não eram só eles, havia mais quatro grandes gangues de skinheads, pelo menos umas cem pessoas. Não sei ao certo quantos éramos, mas havia representantes de movimentos punks de oito cidades do DF. O público sentiu a tensão. Algumas pessoas foram embora imediatamente. Todos sabíamos o que fazer. Ninguém levou nenhuma identificação. Eu tinha cortado o cabelo rente no dia anterior. Muitos traziam duas, três blusas para poderem se perder na multidão. Eu também trazia um lenço comprido pra tampar o rosto.

Foi muito rápido. Antes que eles pudessem se desagrupar, um rapaz tão franzino quanto eu, gritou o nome de T. bem alto. Foi o caos. Uma multidão de punks saiu do meio do público do show e avançou sobre os skinheads. Eles estavam preparados e reagiram na mesma medida.

Eu também entrei no bolo. Soco inglês na mão, os dentes muito unidos, os óculos escondidos no bolso de trás da calça. Corri como um desesperado pro meio do bolo. Paus, pedras, galhos de árvores, tudo era arremessado na gente. E eu socava tudo o que eu via de careca na minha frente. Eles recuaram. Nós não deixamos, nós os cercamos. Queríamos sangue, queríamos morte. Eu vi, pela primeira vez, a face do medo.

Os carecas tremiam. A lama do chão era uma mistura nojenta de sangue e corpos de adolescentes. Havia meninas também e homossexuais se chutando, se espancando, mordendo. Foi a desforra de tudo o que sofremos nos meses anteriores. A polícia estava presente, sempre está, mas eles assistiram tudo quietos. Não chegou a dois minutos, mas eu estava exausto. Meu corpo todo tremia, minhas mãos doíam. As minhas costas e barriga estavam machucadas. Eu mal me agüentava em pé.

Então chegou a cavalaria. Eles vieram como um raio, passando por cima de tudo. Nas mãos eles carregavam grandes cassetetes que podiam acertar pessoas no chão, mesmo estando sobre os cavalos. “Estou perdido”, pensei. Mas não. Eles passaram pela gente e foram com tudo pros skinheads. E a partir daí tudo ficou confuso.

Dispersamos. Cada um correu para um lado. Tirávamos as blusas de cima enquanto corríamos, e corríamos, e corríamos. Era a sobrevivência MESMO. Ir para o CAJE – o centro de correção de jovens infratores – era a morte certa para todos os punks. Quando a coisa ficou preta, eu me escondi atrás de um container de lixo. Podia ouvir o barulho das balas de borracha e das bombas de efeito moral muito próximas. A cavalaria continuava avançando e batendo, batendo, batendo…

E eu ali, molhado de chuva, escondido, ainda com o soco inglês na mão. Foi quando vi, ali na minha mão, um pedaço de algo que era carne e sangue, que provavelmente veio da cara de alguém. Joguei aquilo no contêiner e fugi dali, muito rápido.

Esse dia nunca foi esquecido.

Aquele foi conhecido entre todos os punks como o dia do perdão, porque mostramos como se perdoa neonazista.

 

 

Minhas mãos ficaram inchadas por muitos dias. Eu não conseguia esquecer o soco inglês sujo de sangue. Mas tive orgulho de estar ali. Como disse antes, não se pode culpar uma pessoa pelo que ela faz aos dezesseis anos. Se fosse hoje eu faria? Dificilmente. O que sei é que todos os dias morrem pessoas vítimas de discriminação racial e social nesse país. Há vários T.’s anônimos em toda parte. Fiz o que achava certo então.

O dia da morte de T. é celebrado por nós todos os anos. Na confraria de (…), que ainda existe, é chamado o dia do Martírio.

E se escrevo isso agora, depois de todos esses anos é por saber que sou o que sou hoje por causa dessa e de outras pequenas coisas. E isso carrego em mim todos os dias.

O Viaduto

Novembro 10, 2008

Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda pior.

Não chovia há dois meses e os gramados de Brasília estavam secos, acinzentados e eu tinha muita sede. Era o governo do PSDB e, não é necessário dizer, não estávamos muito satisfeitos.

Mas a coisa tava feia. Uma bomba de efeito moral tinha estourado perto dali, minutos antes, ferindo uma menina bonita, de uns desesseis anos. Ela saiu de ambulância, ensangüentada. A organização da manifestação precisava fazer uma assembléia urgente, pois o confronto era iminente. Já via, no alto dos prédios do Setor Comercial Sul os policiais militares se aprontando. Um helicóptero sobrevoava os manifestantes, bem baixo.

O governo PSDB teve ampla maioria no congresso e, nessas horas era preciso ir às ruas para lugar pelos nossos ideais. Esta manifestação era organizada pelas CONCLUTAS, mas contava com a participação de vários movimentos organizados, como gays, sindicatos autônomos, cooperativas, MLST, entre outros. Claramente, nós punks não estávamos de fora.

– E as armas? – O Pedro perguntava excitado. Era a primeira vez dele numa manifestação tão grande. As CONLUTAS estavam começando a crescer neste momento e era a primeira manifestação de porte que eles organizavam. A gente tinha ido ali para fazer peso e oferecer ajuda. Eu já tinha visto várias manifestações como esta e, por isso mesmo, sentia medo. O PT não estava junto da gente, nem o MST, pois tinham fechado um acordo político com o PSDB. As disputas partidárias estavam enfraquecendo o movimento perigosamente. Fugi da pergunta do Pedro, fazendo outra.

– Eles estão posicionados? – Havia alguns de nós infiltrados nos prédios vizinhos. Queríamos saber se o batalhão de choque estava próximo.

– Estão. Parece que os hômi vão meter o pau.

– É, estou vendo. Talvez precisemos agir.

O lenço preto que cobria meu rosto me fazia respitar mal, mas ele seria muito útil em breve.

– Tomem o asfalto – eu disse – precisamos nos posicionar melhor para resisitir.

Não havia tempo para assembléias, era preciso agir rápido. No horizonte, via os homens da PATAMO que batiam com cacetetes nos seus escudos transparentes. Eles dominavam a pista no sentido norte. Nos posicionamos a sul, logo em frente. Era hora de expor meu plano. Os meus colegas me ouviram pacientemente.

– Precisamos furar o cerco para que os manifestantes cheguem à rodoviária. Lá podemos nos reorganizar e continuar a marcha, rumo ao Congresso. Eles não querem que cheguemos à Esplanada dos Ministérios. Vamos ter de enfrentá-los.

Nessa época ninguém tinha celular, era artigo de luxo. Se fosse hoje, provavelmente teria ligado para o PT e ver se eles intercediam para evitar o confronto. Mesmo nessa época o PT era muito forte. Agora era preciso agir por nossa própria conta. E estavam todos ávidos por confronto. Era inevitável.

– Vai ser difícil. O alvo principal é o viaduto. Tomando o viaduto, tomamos a rota que leva à rodoviária e de lá à Esplanada. Não quero ninguém com a gente que não seja profissional. – Eu me referia aos meninos mais novos que estavam entrando nas fileiras por esses dias. Eu sabia que a coragem deles sumia rápido nessas horas.

Os diversos movimentos punks estavam representados naquele dia, principalmente o MEPR. Meninos de preto, cabelos moicanos, socos ingleses e calças de couro. Mas eram meninos. Eu, com 17 anos, era já veterano. Apesar de ser um movimento anarquista, nessas horas era preciso alguma liderança. Éramos uns cem punks, ao todo. Pelo menos dois policiais pra cada um. A coisa tava feia.

Nos unimos, num círculo. Era preciso decidir se enfrentaríamos a polícia ou não. Os olheiros da polícia observavam tudo, do alto dos prédios vizinhos.

– Enfrentamos?

O Darth, velho de outros movimentos estava tão cauteloso quanto eu. Os outros queriam barulho, sangue.

– Eles têm uma boa fileira e uma boa posição. – disse Darth – Além disso, têm vantagem numérica e, possivelmente, o apoio da cavalaria. É uma luta muito difícil.

Não sabíamos a opinião dos líderes do CONLUTAS. Naquela hora, eles que se fudessem. Punk não aceita ordem de ninguém, mas seria interessante saber se o resto da multidão oporia alguma resistência conosco se necessário. Muitas variáveis. Eu estava com medo.

– Que porra de fileira, que nada! Vamo meter o pé na bunda desses pé-de-bota, filhos da puta! – um garoto que eu não conhecia gritava em alto e bom som.

– Cacetete no rabo deles! Morte ao Estado, viva a Anarquia!

– VIVA!

Olhei pro Darth, cocei a barba rala e re-observei a posição do batalhão da polícia. Os outros manifestantes estavam apreensivos, mas entoavam o “Fora já, Fora daqui! O FHC e o FMI!” a plenos pulmões. Olhei para o horizonte, depois para o céu do planalto. Uma grande abóboda azul, sem nuvens. É, era hora de agir.

– Mantenham a fileira posicionada, temos de tomar terreno o mais rápido que der. Permaneçam unidos até minha ordem de dispersar. Depois é cada um por si. Somos soldados na luta por um mundo de iguais, onde reine uma justiça de homens, sem a interferência do Estado. Esse Estado nos oprime, lutemos contra ele. PUNK!!!!!

– Punk!!!

– Fora FHC!!!!!

– Fora!!!!

E gritamos num uníssono, como um batalhão daqueles filmes de guerra da idade média. Nesse ínterim, abrimos nossas mochilas e tiramos de lá os Molotovs preparados de véspera. As fileiras da polícia avançaram rápido em nossa direção, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral. A multidão se dispersava, mas muitos resistiam bravamente.

Molotovs acessos, a polícia a menos de vinte metros.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E corremos como loucos na direção da polícia. O que aconteceu depois foi difícil de descrever. Os policiais se uniram em três grandes fileiras de pelo menos oitenta homens em cada e atiravam livremente nos manifestantes e em nós. Eu usava um sobretudo grosso e tentava desviar das balas de borracha. Os meninos mais novos corriam na frente, excitados.

– Mantenham a formação! – Eles nos esperaram. Marchávamos unidos, como uma fila. Podíamos ver a cor dos olhos dos policiais. Eles preparavam os cacetetes e firmavam posição com os escudos fazendo uma grande fila.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu pude perceber um leve sorriso nos guardas à nossa frente. Três passos. Dois passos. Um passo. Pulei com uma voadora no meio do mar de escudos e cacetetes. A fila da polícia resistia bem, era uma tropa bem disciplinada. Sinto que eles também estavam gostando daquilo.

– Molotov!!!!!!!!!!!!!!!

Afluiu uma chuva de garrafas de gasolina e óleo díesel. Elas queimavam entre os policiais que foram obrigados abrir a fila em um ponto. Estávamos conseguindo dividir a fileira. Uma parte considerável da multidão nos seguira, bravamente, carregando paus e pedras. Eu sorri. Esses CONLUTAS tinham futuro. Estava sendo divertido.

Eu fugia dos cacetetes, animandos os meus a continuarem lutando. Os policiais mantinham posição, mas a chegada dos manifestantes fez com que eles recalculassem o risco. Ainda ouvi a ordem do comandante para reorganizar a tropa.

Os meninos resistiam. Bravos, pareciam guerreiros de verdade. Vi um menino novo, uns quinze anos, com a cara toda empapada de sangue. Paus e pedra sendo jogados para todos os lados.

– Permaneçam unidos! Unidos!

Tinha medo de nos dispersarmos antes da hora. Quem sobrasse ia apanhar muito, talvez até a morte. Eles eram meninos.

Ouvi o tropel da polícia montada. Fudeu!

– BOLAS DE GUDE!!!!!!!!!

Uma grande horda de homens e cavalos corria ordenadamente, vinda do leste, em nossa direção. Os cacetetes deles eram maiores, como espadas. Retrocedemos um pouco, dando espaço para a polícia reorganizar a fila. Era melhor avançarmos contra a polícia montada e deixar os manifestantes com os políciais comuns.

– Pau no cu dos pé-de-bota!!!!!!!!!!!

E quando eles chegaram muito perto, jogamos milhares de bolas de gude no asfalto, fazendo com que alguns cavalos deslizassem, derrubando cavaleiros no chão. Corríamos na direção deles.

– Dispersar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eram duas frentes da polícia. Podíamos ficar cercados se continuássemos lutando como um bolo. Melhor nos infiltrar entre os manifestantes e lutar com eles. A ordem foi seguida pela maioria. Um grupo pequeno, com uns vinte, decidiu permanecer lutando unido. A polícia montada se reorganizou e partir para cima deles. Coitados, foram trucidados.

– Concentrem-se na fileira! Na fileira!

A fileira agora era mais compacta. Eles jogavam gás de pimenta para dispersar a multidão. A coisa tava feia. Mas a multidão era grande e nós punks éramos poucos. Os policiais precisavam se concentrar em várias partes da rua ao mesmo tempo. A fileira estava se abrindo, só mais alguns segundos e tomaríamos o viaduto. Mas aí veio a nossa desgraça.

Vieram mais policiais, de outros destacamentos, totalmente despreparados para este tipo de situação. Começaram a atirar para cima, com pistolas e escopetas de verdade. Eu tive medo, muito medo.

– Recuar!

Eles apontavam as armas em nossa direção.

– RECUAAAAAAAARRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A multidão ensandecida agia por conta própria. Eles não notaram a nova movimentação da polícia, concentrados que estavam na fileira. Caralho, muito foda, puta que pariu!

Parei. A coisa tinha ido longe demais. Iam começar a matar pessoas. Senti uma pancada muito forte no rosto e desmaiei ali, na linha de frente.

***********

Me arrastavam pela perna, meu tronco raspava no chão. Sentia o sangue grosso escorrer do rosto. Tinha sido uma bomba de efeito moral a bater no rosto, soube depois. Pelo menos não tinha explodido, senão estaria desfigurado. Eu ainda estava grogue. Eram o Darth e o Pedro a me puxar. Eles tinham ouvido a ordem de recuo e me puxaram do meio dos policiais.

Eu ainda ouvia os tiros sendo disparados, em cima do viaduto e pude contemplar o céu azul sem nuvens, enquanto era arrastado pelo chão. Outros punks vieram e ajudaram a me carregar até um lugar seguro, longe da polícia.

Jogaram-me atrás de um container de lixo. O Darth olhava pra mim, pupilas dilatadas, rosto suado e também sujo de sangue.

– Vencemos? – perguntei, minha voz era um fio.

– Não. Mas foi lindo mesmo assim.

– Estamos em extinção, meu amigo, em extinção.

– Mas o que importa é que ainda não estamos extintos.

E eu fechei os olhos, ardidos pelo gás de pimenta, passando o lenço preto pelo rosto ferido. Tudo estava ensangüentado. Soltei uma grande, retumbante gargalhada e antes de perder de novo os sentidos ainda pude ouvir o coro da multidão pedindo a cabeça do FHC.

Bons tempos aqueles, bons tempos. Tempos de uma história que não foi contada, pois os vencedores não participaram dela. E nós, os vencidos, sobreviventes, guardamos as cicatrizes e a certeza de que lutamos para mudar o nosso tempo, contra a tirania dos neo-liberais. Mas lutamos e isso importa. Muito.

Amores Brutos – Parte 1 de 2

Fevereiro 8, 2008


 

Ceilândia, 1997.

 

A minha mudança pessoal foi abrupta no ano de 1997. Como, felizmente, minha depressão foi embora no fim do ano anterior, meu mundo foi bem mais interessante. Só quem tem depressão sabe como é difícil passar por ela. Todos os nossos esforços em conseguir sair, lutar, são em vão. Parece que tudo é ilusório, tudo é doloroso.

Muitos amigos me ajudaram a sair disso e serei eternamente grato por isso. Dentre eles, lembro do Glauber, do Leandro, do Alex, da Cris. Gente que mesmo sem saber acabou me dando força pra sair de um período de profunda melancolia que já durava quase dois anos. E, aos doze anos, no meio da explosão de hormônios característica deste período, eu começava a oitava série.

O ano era novo, morava numa casa nova, longe da expansão do Setor O – mas ainda na Ceilândia – muito maior, mais iluminada e feliz. O clima de intensa novidade deste ano me deu um otimismo que acabou me fazendo ficar mais próximo dos meus amigos. Foi o ano que aprendi a jogar truco, que eu via revista de mulher pelada no intervalo, que eu pulava o muro do colégio pra jogar futebol. Até no judô foi um ano de vitórias em campeonatos, as últimas antes de ferrar com o joelho.

Também foi o ano de meu segundo amor.

Bem, não sei se posso considerar isso um amor de fato. Era mais aquela coisa de criança, de querer ficar junto de uma pessoa, de fazer tudo junto, de ficar louco quando a gente segura na mão. De ficar pensando no cheiro do cabelo, de se preocupar com a pessoa, de fazer e sentir ciúmes. Ela era sempre minha parceira no truco, a gente estava junto nos trabalhos de escola. Mas nunca passou disso, muito por culpa minha.

Eu sempre soube que era recíproco. Quer dizer, eu acho. Pelo menos não quero acreditar que ela ficava comigo por pena. Talvez por medo disso, jamais tenha dito ou feito qualquer coisa para que ela soubesse dos meus sentimentos. Bem, não na oitava série. Depois a gente acabou se reencontrando, mas tanto eu quanto ela tínhamos mudado muito para que acontecesse qualquer coisa além de um beijo roubado.

Restou um carinho imenso por ela, a quem ligo em todos os aniversários, no dia 27 de março. Provavelmente tenha sido por causa dela que guardei uma fixação pelo número 27, pelo dia 27. Eu e D. Namorada, por exemplo, começamos a namorar no dia 27 de dezembro de 2003. Meu primeiro salário veio num dia 27. Conheci grandes amigos e conquistei grandes coisas em dias 27.

Não direi o nome dela. É pessoal demais. O que importa é que eu me sentia profundamente atraído por ela, inclusive sexualmente. Eu olhava sua boca com um desejo ardente de tomar, beijar, mordicar aqueles lábios. A bermuda e a camiseta branca do colégio acentuavam certos detalhes dela que me deixavam, digamos, aceso.

Talvez isto tenha interferido no meu desenvolvimento. Minha voz mudou em uma semana, ficando grave como a de meu pai. Eu tinha um corpo bem torneado, por causa do judô, pernas grossas e fortes, que a calça de malha do colégio também tinha o dom de, digamos, incrementar. Me sentia desejado, atraente. Os olhares das meninas não eram mais os mesmos de antes. Não entendia ainda o que significavam aqueles olhares de espreita e as conversas sussurradas entre elas nos cantos. Eu era extremamente tímido. Corava com facilidade, suava as mãos, começava a falar um monte de coisas sem sentido.

Não se esqueçam que, para todos os efeitos, eu era só um rapaz de doze anos que estava conhecendo-se, mas estava metido num mundo onde todos tinham catorze, quinze anos. Eles tinham urgências e necessidades que não eram as minhas naquele momento. Porém, o convívio apressou um pouco as coisas.

Crescia numa velocidade estonteante, o que me fazia, por vezes, tropeçar nas próprias pernas, derrubar as coisas. Eu era um desastre ambulante. Não que isso não fosse normal, acho que todo mundo passa por isso. Mas era algo novo, inesperado e completamente confuso que tomava minha cabeça.

E, por causa disso, Também agora via isso com outros olhos. Atrás de meus óculos de lentes de plástico, me sentia suficientemente incólume para observar o mundo sem ser visto. Ver, que sempre foi meu principal passatempo, agora carregava um misto de curiosidade e desejo pelas mulheres. Isto só piorou desde então (rsrsrsrsrsrsrs).

Gastava minha energia no judô. Nunca fui um grande judoca, isso é fato, mas nessa época eu me aplicava nos treinamentos ao máximo. Treinava às vezes em vários horários, sempre com lutadores mais fortes. Treinava a velocidade, variava a intensidade e aumentava sempre a força e o ritmo.

Os treinos da Ordem tomavam o resto dos meus dias. Conhecia meus poderes, as limitações do homem frente o mundo. Lia sobre a Sabedoria e o Bem e me preparava para o futuro que viria. Meu mestre era sábio, paciente e generoso, guardando sempre uma atenção especial por mim e fazia perguntas para ver o que eu compreendia do Amor e da Fraternidade. Me ensinou sobre Humildade e a ter sempre em vista meus limites, para superar os desafios.

E também conheci a música, o rock. Ouvia as bandas de Brasília e as principais bandas estrangeiras da época. A música era outra válvula de escape, um elemento de identidade com minha geração. Cantávamos desafinados as canções, gritando-as aos ventos. Discutíamos os significados das letras, colecionávamos os encartes, imitávamos as vozes. Ríamos muito….

Eram tempos de alegrias e esperanças. Eram tempos de juventude e amadurecimento. Mas não para todos….

Outubro Negro

Janeiro 31, 2008

 

Outubro

Ceilândia, 11 de outubro de 1996

 

O ano de 1996 já tinha sido difícil o suficiente antes de ouvirmos aquela notícia inesperada. Eu sempre chamei aquele ano de o Ano da Grande Depressão, pois sofri aquela que foi a maior, a mais demorada, a mais intensa e dolorosa de minhas crises de depressão. Talvez por isso eu considere que este tenha sido o ano mais decisivo de minha vida, pois as reflexões que tive ao longo dele moldaram para sempre meu caráter, minha maneira de ver o mundo. Considero o ano de 1996 o último ano de minha infância e o começo doloroso de minha adolescência. Ao longo deste ano tinha sido batizado com fogo diversas vezes por motivos que contarei num momento oportuno.

Resolvi começar minhas histórias de adolescência por aquele que talvez seja o mais decisivo acontecimento. Da mesma forma que as religiões contam os seus anos a partir de algum evento importante (como o nascimento de Cristo, a Hégira ou a criação do mundo) decidi começar a contar as histórias destes dias pela morte de Renato Russo.

O dia 11 de outubro foi inesquecível. As rádios tocaram as músicas dele o dia inteiro. As ruas estavam vazias de jovens que preferiram ficar ouvindo os k7’s (quase ninguém tinha dinheiro pra comprar CD’s) no volume máximo. A Tempestade (ou o Livro dos Dias) foi o canto de meus colegas por vários meses. O CD azul (com força semelhante ao Blue Album dos Beatles) era ouvido como uma prece. “A Via Láctea” era cantada nas ruas como uma despedida merecida.

Muitos dos meus colegas que tinham ido para a escola mostravam os olhos vermelhos de lágrimas. No recreio, Roberta, uma de minhas colegas, escreveu a letra de Faroeste Caboclo no quadro negro, até onde pôde. Depois disso passou a cantar o resto, triste, quando começou a chorar. Foi quando o velho professor de geografia do Brasil chegou. Um sorriso cruel transparecia no seu rosto.

– Bom dia a todos.

E aproveitou o começo de sua aula para proferir um discurso patético sobre a influência dessas bandas de rock na ploriferação de delinqüentes na juventude. Fez menções claras ligando o homossexualismo ao uso de drogas e à AIDS. Seu preconceito e completa falta de tino para lidar com a situação transpareciam. Sentia algo estranho no ar. Ia acontecer logo…

Acho que foi quando o professor chamou a AIDS de “câncer gay”. Aquilo doeu em todo mundo. Foi quando Ricardo não agüentou. Jogou seus livros nas janelas de metal, com grande estardalhaço.

– Basta! Cale a sua boca! – A turma assustou-se – Não diga mais uma só palavra! – metade da turma levantou. Sabíamos dos rompantes do Ricardo. Esperávamos para ver a reação do professor.

– Viram? É disso que eu falo. O senhor tem de aprender a se conter, mocinho, a ouvir a voz da experiência!

– Voz da experiência é uma pinóia! – Ricardo interrompeu com fúria – Olhe o mundo que a sua experiência nos deixou! Você o odeia tanto porque nas letras das músicas ele joga a incompetência da sua geração na sua cara! Porque ele grita contra o preconceito de gente como você!

– Basta! Vou chamar a direção! – a menção de chamar a diretora nos deixou desesperados. Ricardo não se fez de rogado.

– Pra quê? Pra que eu diga pra diretora que o senhor chamou a AIDS de “câncer gay”? Quem é o senhor pra falar uma mentira dessas? Quem é o senhor pra, com esse discurso pronto de elite decadente, tentar nos assustar? Quem é o senhor pra jogar adiante todo esse preconceito?

***

É claro, a conversa não transpareceu exatamente nesses termos. Palavrões aqui e ali fizeram parte do discurso do Ricardo. Também ele não saiu impune dessa discussão, sendo suspenso por três dias. Nem o professor, que foi transferido para outra escola dias depois.

Eu e Ricardo sempre tivemos nossos problemas, mas naquele dia ele ganhou muitos pontos comigo. Eu jamais tinha pensado por este lado, que o discurso dos preconceituosos e dos que cerceam a liberdade dos mais jovens serve apenas para repetir a estrutura deficiente da sociedade. Tampouco foi o Ricardo quem disse isso. Foi Russeau, ao definir o Contrato social. Russeau, de onde vem o Russo de Renato Russo.

Mas naquele dia o Ricardo me ensinou uma coisa muito útil. A gente não pode se calar. Na maior parte das vezes, a única coisa que a gente tem pra nos ajudar é a nossa voz. Às vezes, o discurso dos que nos dominam só é passado adiante pela nossa passividade frente os acontecimentos. Às vezes, é nossa obrigação nos expor, falar alto, gritar se for preciso para que nossas idéias sejam ouvidas, senão por aqueles que efetivamente podem transformar as coisas, pelo menos pelos que nos cercam.

O grito de Ricardo ecoou na minha mente por muitos anos depois disso. Seu exemplo, sua força, seu total desprendimento frente à ameaça do professor de chamar a direção e, principalmente, seu caráter pra defender o que era justo e certo, me martelaram a cabeça pelos três dias em que ele foi suspenso. E então, quando ele voltou, eu lhe apertei a mão.

Aquele aperto de mão foi um pedido de perdão. Ricardo não era um santo. Ele era responsável por pelo menos metade dos acontecimentos ruins que me atribularam ao longo de 1996. Mas, apesar de tudo isso, ele me ensinou muito em algumas palavras.

– Obrigado por aquilo.

– Só fiz o que achava certo.

E, naquele dia, viramos, senão amigos, pelo menos nos respeitávamos, mutuamente. Era o começo do fim da Grande Depressão. Eram as sementes da minha vida de punk…

 

 

Brasília Sanguinolenta

Janeiro 25, 2008

Quem vai a Brasília costuma dizer parece que tem alguma coisa fora do lugar. É um lugar feito, planejado, esquematizado, criado para abrigar gente. O problema é que, mesmo os mais metódicos sabem que, frequentemente o que planejamos e esperamos não se cumpre. A cidade criada para evitar o trânsito, pra não ter semáforos, acabou não tendo lugares para o encontro, como praças, esquinas, botequins. Portanto, apesar dos planejadores urbanos pensarem dioturnamente nos aspectos relevantes para uma boa qualidade de vida, a alma, a vida, a essência de uma cidade nasce com o tempo, ao acaso, além das expectativas e planejamentos. Ninguém conseguirá reproduzir a malandragem da Lapa, nem o regionalismo dos gaúchos. Cada região, cada povo, apoiado em sua terra, cria suas expressões, gestos, identidades, figurações culturais para suas realidades cotidianas.

 Ser jovem em Brasília quando era uma cidade ainda mais jovem (este ano completará 48 anos) não era uma tarefa muito fácil. Padecíamos de tedite aguda. O tédio, cantado em todas as bandas dos anos oitenta, era um estilo de vida, uma conseqüência inevitável infância da cidade. Éramos jovens numa cidade criança, que precisava dormir cedo, não tinha opções de entretenimento e que, por ter sido tão planejada para as pessoas, acabou deixando-as de lado.

O problema é que esse tipo de situação, potencialmente, vira um barril de pólvora. Um grande número de jovens desocupados, com os hormônios à solta, no centro político do país, não podia ser uma combinação muito estável. Este foi o grande motor para as diversas gangues do asfalto que se tornaram um retrato típico de Brasília, do fim dos anos 70 até o início dos anos 2000. Algumas eram, inclusive, ligadas a partidos políticos (de DIREITA também) e movimentos sindicais. Os jovens que não viam na cidade nenhuma diversão acabaram tornando-a um imenso playground modernista.

Os punks, skinheads, pagodeiros, evangélicos, metaleiros, góticos (os pré-emos) e os hardcore eram predominantes no final dos anos 90. Claro, não eram os únicos, e essa classificação deixa de lado dezenas de sub-divisões desses movimentos que não tinham sempre suas fronteiras muito claras.

Tínhamos representantes fortes de todas as correntes políticas da época. O grupo dos neo-liberais e de extrema-direita era pouco numeroso, mas poderoso e organizado em torno do PFL e PSDB. Obviamente, eles não sofriam problemas com falta de dinheiro pra suas reuniões. Os grupos de esquerda, muito mais bem-vistos pelos jovens, eram também reconhecidos pelos seus excessos. Marxistas, leninistas, stalinistas, fidelistas e muitos outros “istas” costumavam discutir política com muita emoção e pouco conhecimento de fato. Em certos círculos, a simples menção de Marx era suficiente para começar uma briga. Os anarquistas, o grupo menos coeso de todos, tinha fama de violento e truculento.

As brigas entre estes grupos eram muito comuns. Olhando com os olhos de hoje, sinto neles certas características das torcidas organizadas do futebol. Porém, não pretendo aqui repetir os erros de interpretação, nem as visões pré-concebidas que a sociedade em geral tem sobre eles. Ao contrário, pretendo traçar um retrato, o mais isento e sucinto possível, do interior das tendências que conheci, pessoalmente, durante minha juventude.

É preferível uma juventude violenta que nunca leu Marx com seriedade, mas tem uma vaga noção de suas idéias através da discussão com seus pares, do que uma juventude que abomina todos os indivíduos que se prestam a discutir política e que prefere gastar seu tempo andando em shopping centers. Pode ser preconceito meu, mas acredito seriamente nisso. E, afirmo, a juventude politizada foi uma imensa minoria em Brasília, no fim dos anos 90. Porém, era uma minoria influente e conscientizada de seu papel na construção (ou destruição) da nova democracia brasileira. Acredito que esse poder mobilizatório tenha se perdido, por motivos que ignoro. Acho que hoje em dia a cidade é mais interessante mesmo (rsrsrsrsrsrsrs).

Resolvi incluir nessas crônicas fatos e histórias desse tempo. Batalhas de gangues, brigas com a polícia, destruição de patrimônio público, uso de entorpecentes, festas regadas a música alta e muito sexo e os grandes festivais de rock. Também devo advertir aos poucos, porém fiéis leitores (amo todos vocês de paixão) que esta parte das crônicas terá um caráter muito mais literário que os outros. Nomes, datas, lugares serão mudados para preservar a identidade dos autores. Embora a IMENSA maioria dos fatos seja real, me sinto eticamente obrigado a proteger os autores destes atos dos efeitos, inclusive legais, que estas revelações que puderem vir a ter.

Portanto, encaremos estes relatos como obra de ficção. Desde já me isento da responsabilidade de citar fontes e de ser preciso na descrição dos acontecimentos.

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OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

A partir de agora, estas crônicas avançarão paralelamente em quatro frentes:

·        Segundas: Meus primeiros anos de colégio e a infância na Expansão do Setor O.

·        Quartas: A continuação das histórias do vale do rio São Patrício e adjacências, como de Bertolino, Ariel e outros que ainda não foram citados;

·        Sextas: Histórias da adolescência, do movimento punk e das batalhas políticas da época;

·        Esporadicamente: Postes de interligação entre as frentes, para mostrar os elementos de coesão entre as diversas histórias. A arte da queda é um exemplo, apesar de eu, intencionalmente, não ter explicado porque.

 

Acreditem, tenho idéias claras sobre os rumos das histórias. A confusão com que escrevo é intencional, pois creio que não haja uma ordem lógica para a leitura delas.

No mais é isso..

Abraços..