Archive for the ‘Fragmentos’ Category

Voltando

Junho 14, 2010

Olá a todos,

 
 

Não sei se vocês estão sabendo, mas nos últimos meses voltei a escrever As Crônicas do Vale da Morte. Infelizmente isso não é muito blogável, até porque os capítulos são compridos e a história é bastante densa para ser acompanhada ao longo de muito tempo. Very boring, very boring

 
 

O fato é que estou escrevendo bastante e, para não deixá-los na mão, aí vai um trechinho:

 
 

Juvêncio demorou dez dias para poder finalmente sair de casa. Já não se agüentava mais, principalmente porque na fazenda Imperatriz começavam os preparativos para a partida do gado para Sorocaba. Também não suportava as intermináveis visitas de várias pessoas, boa parte antigos aliados dos Ferreira, que vinham lhe jurar lealdade, em troca de pequenos favores. O fato é que os jovens não gostam de ficar parados e embora gostasse muito da negra Teresa e de sua avó, era na fazenda, entre o gado, que Juvêncio se sentia feliz.

E assim, no dia três de fevereiro, uma manhã de quinta-feira de garoa fina, Tobias foi ao sobrado, com dois cavalos, levar Juvêncio para a fazenda. O jovem teve dificuldades para subir, o ombro e a perna doíam muito, mas estava contente de deixar a cidade para trás. Mas agora, havia uma sensação diferente.

Em novembro, quando ele chegou da viagem de Sorocaba, já sabendo da morte do pai, também foi Tobias quem foi recebê-lo e levá-lo para a fazenda. Ele se lembrava muito bem das janelas fechadas e das pessoas que o evitavam na rua. Agora, ao contrário, os homens que passavam por ele baixavam o chapéu e faziam questão de cumprimentá-lo, muitos orgulhosos e outros com medo. Tobias também não deixou de notá-lo e, em uma das esquinas antes de deixar a cidade, disse:

– Sabe do que andam te chamando, patrãozinho? – Juvêncio encarou-o, interrogativo – Coroné Juvêncio.

Juvêncio não pôde esconder um sorriso. Tobias pitava um cigarro de palha e olhava para a estradinha para a fazenda. “Coronel Juvêncio! Não é que soava bem?”, pensou Juvêncio “se bem que me faz sentir como um velho… um velho de dezessete anos”.

Perdido em seus devaneios, ele só percebeu que Tobias havia parado quando ouviu o barulho da arma dele sendo engatilhada. Estavam na frente do cemitério da cidade onde havia um jovem rapaz de barba rala e chapéu de couro, rosto claro e cheio de sardas. Era Thiago Ferreira, filho de Lino. Estava com a mão na pequena pistola que trazia no cinto.

Mais à frente, podiam ver uma mulher vestida de preto, à porta do cemitério, com o rosto coberto com um véu escuro transparente, mas deixando perceber a pele branca e os cabelos loiros. Como era bonita! Juvêncio já tinha ouvido falar dela, mas nunca tinha visto. Era Luíza, viúva de Alberto Ferreira.

Ela levantou os olhos para ele, olhando-o com raiva e fúria. Juvêncio tocou o cavalo, alguns passos à frente, passando por Thiago e ficando cada vez mais próximo dela. Alguns poucos metros parou. Olho para trás, fazendo sinal para que Tobias abaixasse a arma, sendo obedecido a contragosto.

Juvêncio tirou o chapéu e pôs sobre o peito. Soltou as rédeas do animal e disse:

– A dor que eu lhe fiz sentir é irreparável, senhora. É demais pedir perdão, mas espero que a senhora entenda. Da minha parte, não sinto o menor orgulho do que fiz. Fiz o que era preciso ser feito.

Ela olhou-o, com uma expressão entre consternada e surpreendida. Respirou fundo e entrou no cemitério. Thiago seguiu-a. Antes que ele entrasse no cemitério, Juvêncio disse:

– Thiago, você tem todo o direito de se vingar e eu lhe entendo perfeitamente. Não pense que eu me senti de maneira diferente quando mataram meu pai – recolocou o chapéu e puxou as rédeas do cavalo, indo na direção de Tobias – Mas não é preciso apressar as coisas. Haverá o dia em que finalmente poderemos acertar nossas contas, eu contra você. E, quando esse dia chegar, espero que você esteja pronto.

Dizendo isso, partiu com Tobias.