Archive for the ‘Ceilândia’ Category

Amores Brutos – Parte 2 de 2

Fevereiro 9, 2008

Ceilândia, 1997

 

Havia um rapaz chamado David. Cabelo raspado, o uniforme impecavelmente limpo, a mochila jeans gasta pelo uso e sua imensa solidão que o precedia. David era silencioso até nos passos. Não discutia, não falava com ninguém. Ficava parado em sua cadeira olhando o vazio. Não era um aluno bom, nem ruim. Passava sempre nas matérias, mas não fazia trabalhos em grupo. Não se misturava com ninguém…

Todos os que tentavam falar com ele se decepcionavam. Era arredio, sorumbático. Olhos profundos e penetrantes substituiam as palavras. Ele dava medo, às vezes. Mas eu tinha pena, muita pena, dele. Eu olhava para ele e me via, via minha tristeza. O olhar profundo me lembrava de meu próprio desespero, de todos os gritos de socorro que eu tinha dado nos dois anos anteriores e ninguém tinha ouvido.

De vez em quando, no intervalo, eu não saía. Era quando eu me sentia triste. Ficava também como ele, olhando para o quadro negro, vendo significado por trás das palavras. Esperava um gesto dele, uma abertura para que eu me aproximasse. Um comentário sequer que significasse um desejo de ajuda. Nada. David era tão solitário nas suas idéias que se tornava impenetrável. E então aparecia um amigo meu, com alguma coisa interessante para fazer e David ficava ali, sozinho na sala vazia. Não adiantava chamá-lo, David ficaria na sua solidão de cemitério.

Num destes dias a garota que eu amava me chamou para ir com ela à lanchonete, só pra passar o tempo. Ela sentia minha tristeza. Queria me oferecer o braço para que eu saísse. Receei um pouco, mas disse que sim. Quando eu me levantava, o Ricardo chegou, com sua gangue.

– Aí, vamo dançar com o carequinha hoje!

– Carequinha! Carequinha!

Eram quatro ou cinco e puxaram o garoto da cadeira, levantando-o do chão. Jogavam-no para um lado e para o outro, empurrando para que batesse nas carteiras. Foi quando o Ricardo disse:

– Segura aí o Carequinha! Vamo dançar balé!

– Como balé, pô! A gente é macho, tá estranhando?

– Vamo dançar sim. Vai ser o quebra-nozes.

– Huahuhuahuahuahuahua! Quebra-nozes, quebra-nozes!

A sala se encheu rapidamente. Alguém ficou na porta pra evitar que o bedel chegasse e acabasse com a farra.

– Vamo ensinar esse povo a dançar balé!

Dois seguravam o David pelos braços. Ricardo puxou a cueca de David por trás, fazendo com que ele ficasse na ponta dos pés, por causa da dor.

– Ah, ele tá de ponta! Parece uma bailarina! Bailarina Carequinha!

Doía em mim aquilo tudo. Podia ser eu. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia como. No auge do desespero, eu me mexi para ir em direção deles. Ela segurou meu braço. Desvencilhei-me.

– Pára com isso, caralho! Tá machucando ele! Larga o muleque!

– Que foi? A namoradinha do carequinha quer dançar também?

Risos generalizados.

– Pega ele também.

Eu tava cercado. Soltaram o David e vieram na minha direção. Eram três contra um. Nenhum dos meus amigos estava perto. Nem podia correr pela porta, pois estava fechada. Um deles me segurou pelo braço. Puxei com força para me libertar dele.

– Se não for o quebra-nozes vai ser o balé do bilau! Você quem sabe.

– Porra de bilau o caralho. Vá pro diabo que o carregue.

– Briga! Briga! Briga!

– Ah que eu te soco a cara, seu muleque!

– Vai ter de passar por cima de mim!

Silêncio. Era a voz do Wagner. Ele era um monstro, quinze anos e já tinha mais de um metro e oitenta. Era forte como um touro.

– Que tal um três contra três? – Wagner socava um punho contra a mão aberta e estalava os dedos. Todos sabiam da força dele. Não sei donde ele tinha aparecido para me ajudar. Tensão na sala. Todos estava curiosos pra saber onde isso tudo ia parar. Wagner nunca tinha entrado numa briga. O David veio e ficou do nosso lado.

– Bando de bichinha! Vão ficar por trás do montanhão? – Ricardo riu sozinho. Ninguém mais achou graça. Wagner deu um passo em sua direção. Os olhos de Ricardo exalavam medo.

– Quem é montanhão e quem é bichinha?

O sinal tocou, alto e forte. Ninguém se movia.

– O sinal te salvou dessa vez. – Ricardo e sua gangue saíram da sala. Suspirei profundamente. As pernas bamberam, eu estava todo suado, morrendo de medo.

– Se eles mexerem contigo de novo tu fala comigo. Faz tempo que eu quero dar uma lição nessa cambada. – Wagner foi se sentar na cadeira dele, no fundo da sala. David se sentou na sua cadeira, do lado da porta, de onde ele podia ver o mundo lá fora, o sol.

A menina me puxou pelo braço. Não sei se o olhar dela era de repulsa ou admiração. O fato é que eu era sortudo pra burro. Antes de sentar eu ainda pude ver como, pela primeira vez, o David sorria. E ninguém entendeu quando ele começou a gargalhar convulsivamente na aula de matemática.

 

 

 

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Internação

Fevereiro 3, 2008

InternaçãoCeilândia, 1990 

Não sei por quê exatamente meus pais tinham me dado aqueles antibióticos, mas a combinação de Keflex com Hiconcil tinha sido bem danosa pra mim.  Eu me coçava todo, meus lábios inchados, rasgando a pele de tão grandes, os olhos fechando de tão inchados. O problema era a garganta. Tinha de conseguir atendimento antes que ela se fechasse.

Minha mãe correu comigo para um posto de saúde. Me lembro de seu desespero. Quem nunca viu um ataque de alergia deve ficar assustado mesmo, ainda mais quando é com o filho. Fila, fila, fila, crianças catarrentas soltado os bofes pra fora. E eu piorando.

Me coçava com gosto, mas não melhorava. Alguém me trouxe um pouco de álcool para passar nas costas, mas não era muito eficaz. O geladinho do álcool até que era gostoso.

Nenhum alergista, corre comigo pro hospital. A coisa tava ficando feia. Eu via pela cara da minha mãe e das pessoas no ônibus. Pela maneira que eles me olharam, eu devia estar com mais feio que o ET.

Hospital superlotado. Dificuldade para respirar. Minha mãe me arrastava pelos corredores. Ouvia os gritos das pessoas, tosses, gente vomitando. Mas o que mais me tocou foi a absoluta falta de humanidade ao redor. Sabe aquela história de que quando a farinha é pouca, o meu angu primeiro? Então, parecia que todo mundo achava o seu caso de extrema gravidade e urgência, portanto, todo mundo queria prioridade. O problema é que, a menos que se estivesse sangrando ou inconsciente, ninguém era prioridade. Um menino catarrento com cara de ET era a coisa mais normal do mundo nesse meio.

Comecei a tossir. A garganta tava fechando, melhor não falar nada pra minha mãe. Hominho sofre calado, ficar reclamando de gargatinha é coisa de menina. Na verdade, eu não tinha idéia nenhuma da gravidade da situação. Eu podia morrer em poucas horas se nada fosse feito e não parecia que isso fosse fazer alguma diferença pra ninguém ali.

Aquela era a Ceilândia, terra de migração nordestina. Portanto, para todos os efeitos, eram todos uma sub-raça que era útil para conseguir votos e construir cidades. Questões como direitos fundamentais do ser humano não se aplicavam a migrantes. Embora eu fosse cidadão nativo e minha família não fosse nordestina, isso não significava um atendimento melhor. Gente morrendo na fila de hospital era muito mais comum no começo da década de 90 do que agora. Qualquer um que tenha ido num hospital público naquela época sabe disso… e, por incrível que pareça, a coisa tem melhorado. Não por mérito do PSDB, óbvio…

Não tinha alergista, nem pediatra, vai no clinico mesmo. Ele me olhou rapidamente, abriu minha garganta e me mandou pra internação.

– Tu é homem, menino?

– Sou, uai! – o uai dos goianos eu ainda cultivava nessa época.

– Então tu não vai reclamar do soro, vai?

– O que é soro, mãe?

Minha mãe, coitada, todo espevitada, nem entendeu minha pergunta. Corre comigo pra internação. Os enfermeiros me colocam numa maca, no corredor, com uma bolsa de soro que minha mãe segurou, por falta de suporte. É, a coisa tava feia. Mas Deus não ia me deixar morrer sem terminar o mestrado… tomara…

****

Passei uma semana no hospital, recebendo poucas visitas e comendo comida sem sal. Não posso reclamar do tratamento que tive lá dentro. As enfermeiras era, no geral, gentis e solícitas e me tratavam como eu devia ser tratado, ou seja, como uma criança.

Não sei se sou capaz de falar aqui sobre minhas sensações naqueles dias. Foi doloroso, isso eu me lembro, não por dor física, mas por sentir tanta dor em volta, tanto desespero. Mas eu era forte. Aprendi a lutar muito cedo. E também não podia deixar minha mãe perceber que eu compreendia tão bem aquilo tudo.

Só sei que depois de sete dias eu voltei pra casa e minha vida voltou ao normal. Exceto talvez pelo fato de não voltar a tomar antibióticos. Por 17 anos…

***

Rio, novembro de 2007. 

– Que eu tenho, doutor?

– Pneumonia.

– Ih, ferrou, não posso tomar antibiótico.

– Não tem outro jeito. Você teve uma crise com Hiconcil e Keflex. Vou te passar esse aqui, levofloxacino.

Compra o remédio na farmácia. Aquilo podia me matar. Todos os meus outros médicos foram unânimes em dizer isso. Inclusive esse. Como eu jamais tinha tomado nenhum outro antibiótico em todos estes anos, não sabia se era alérgico a outra classe de medicamentos.

Li a bula inteira. Entre os efeitos colaterais, a droga estava associada ao rompimento de tendão patelar. Devia ter falado pro médico que tenho tendinite. Odeio médicos, pra ele não faz a menor diferença se me tendão rompe ou não. Pra mim fazia, eu não era o Ronaldo do Milan. E outra, esse negócio de ler bula devia ser proibido. Elas deviam ser escritas em letra de médico, para que só eles entendessem o que tá lá. Pra mim era desesperador ler certas coisas e entender inteiramente o que eles estavam querendo me dizer.

Tirei o comprimido da cartela. Olhei bem praquele remedinho rosado. Caralho, tava morrendo de medo. Sozinho em casa, teria de andar até o hospital. Guardei dinheiro para um táxi, se precisasse. Liguei pro meu pai, pra tomar coragem.

Pensei em fazer um testamento, mas isso era ridículo, não tinha nenhum bem de valor, senão minhas poesias, e, a partir do momento que elas estavam publicadas no blog, passavam a ser patrimônio da humanidade. Não tinha nenhum direito sobre elas. Também, a probabilidade de dar merda era mínima e, mesmo dando, eu podia ir pro hospital e passar uma semana internado de novo.

Mas o que mais me desesperava era saber que ia ter de sofrer aquilo tudo sozinho. Se fosse pro hospital, seria sozinho. Se fosse pra internação, idem. E nem ia poder falar muito pra família, pois não queria deixá-los preocupados. Continuava hominho, mesmo aos vinte e três anos.

Bebi o remédio e deitei. O peito doía muito por causa da pneumonia. Não conseguia posição na cama. Não conseguia nem mudar de posição, porque doía. Depois de muito me revirar, adormeci.

Acordei com o telefone. Era meu pai.

– Você tá bem?

– Estou.

– Alguma coceira?

– Não.

– Sua mãe tá te deixando um abraço.

– Manda outro pra ela. Bença?

– Deus te abençoe.

É. Não foi dessa vez…

E os diálogos com meu pai continuavam rápidos.

   

Outubro Negro

Janeiro 31, 2008

 

Outubro

Ceilândia, 11 de outubro de 1996

 

O ano de 1996 já tinha sido difícil o suficiente antes de ouvirmos aquela notícia inesperada. Eu sempre chamei aquele ano de o Ano da Grande Depressão, pois sofri aquela que foi a maior, a mais demorada, a mais intensa e dolorosa de minhas crises de depressão. Talvez por isso eu considere que este tenha sido o ano mais decisivo de minha vida, pois as reflexões que tive ao longo dele moldaram para sempre meu caráter, minha maneira de ver o mundo. Considero o ano de 1996 o último ano de minha infância e o começo doloroso de minha adolescência. Ao longo deste ano tinha sido batizado com fogo diversas vezes por motivos que contarei num momento oportuno.

Resolvi começar minhas histórias de adolescência por aquele que talvez seja o mais decisivo acontecimento. Da mesma forma que as religiões contam os seus anos a partir de algum evento importante (como o nascimento de Cristo, a Hégira ou a criação do mundo) decidi começar a contar as histórias destes dias pela morte de Renato Russo.

O dia 11 de outubro foi inesquecível. As rádios tocaram as músicas dele o dia inteiro. As ruas estavam vazias de jovens que preferiram ficar ouvindo os k7’s (quase ninguém tinha dinheiro pra comprar CD’s) no volume máximo. A Tempestade (ou o Livro dos Dias) foi o canto de meus colegas por vários meses. O CD azul (com força semelhante ao Blue Album dos Beatles) era ouvido como uma prece. “A Via Láctea” era cantada nas ruas como uma despedida merecida.

Muitos dos meus colegas que tinham ido para a escola mostravam os olhos vermelhos de lágrimas. No recreio, Roberta, uma de minhas colegas, escreveu a letra de Faroeste Caboclo no quadro negro, até onde pôde. Depois disso passou a cantar o resto, triste, quando começou a chorar. Foi quando o velho professor de geografia do Brasil chegou. Um sorriso cruel transparecia no seu rosto.

– Bom dia a todos.

E aproveitou o começo de sua aula para proferir um discurso patético sobre a influência dessas bandas de rock na ploriferação de delinqüentes na juventude. Fez menções claras ligando o homossexualismo ao uso de drogas e à AIDS. Seu preconceito e completa falta de tino para lidar com a situação transpareciam. Sentia algo estranho no ar. Ia acontecer logo…

Acho que foi quando o professor chamou a AIDS de “câncer gay”. Aquilo doeu em todo mundo. Foi quando Ricardo não agüentou. Jogou seus livros nas janelas de metal, com grande estardalhaço.

– Basta! Cale a sua boca! – A turma assustou-se – Não diga mais uma só palavra! – metade da turma levantou. Sabíamos dos rompantes do Ricardo. Esperávamos para ver a reação do professor.

– Viram? É disso que eu falo. O senhor tem de aprender a se conter, mocinho, a ouvir a voz da experiência!

– Voz da experiência é uma pinóia! – Ricardo interrompeu com fúria – Olhe o mundo que a sua experiência nos deixou! Você o odeia tanto porque nas letras das músicas ele joga a incompetência da sua geração na sua cara! Porque ele grita contra o preconceito de gente como você!

– Basta! Vou chamar a direção! – a menção de chamar a diretora nos deixou desesperados. Ricardo não se fez de rogado.

– Pra quê? Pra que eu diga pra diretora que o senhor chamou a AIDS de “câncer gay”? Quem é o senhor pra falar uma mentira dessas? Quem é o senhor pra, com esse discurso pronto de elite decadente, tentar nos assustar? Quem é o senhor pra jogar adiante todo esse preconceito?

***

É claro, a conversa não transpareceu exatamente nesses termos. Palavrões aqui e ali fizeram parte do discurso do Ricardo. Também ele não saiu impune dessa discussão, sendo suspenso por três dias. Nem o professor, que foi transferido para outra escola dias depois.

Eu e Ricardo sempre tivemos nossos problemas, mas naquele dia ele ganhou muitos pontos comigo. Eu jamais tinha pensado por este lado, que o discurso dos preconceituosos e dos que cerceam a liberdade dos mais jovens serve apenas para repetir a estrutura deficiente da sociedade. Tampouco foi o Ricardo quem disse isso. Foi Russeau, ao definir o Contrato social. Russeau, de onde vem o Russo de Renato Russo.

Mas naquele dia o Ricardo me ensinou uma coisa muito útil. A gente não pode se calar. Na maior parte das vezes, a única coisa que a gente tem pra nos ajudar é a nossa voz. Às vezes, o discurso dos que nos dominam só é passado adiante pela nossa passividade frente os acontecimentos. Às vezes, é nossa obrigação nos expor, falar alto, gritar se for preciso para que nossas idéias sejam ouvidas, senão por aqueles que efetivamente podem transformar as coisas, pelo menos pelos que nos cercam.

O grito de Ricardo ecoou na minha mente por muitos anos depois disso. Seu exemplo, sua força, seu total desprendimento frente à ameaça do professor de chamar a direção e, principalmente, seu caráter pra defender o que era justo e certo, me martelaram a cabeça pelos três dias em que ele foi suspenso. E então, quando ele voltou, eu lhe apertei a mão.

Aquele aperto de mão foi um pedido de perdão. Ricardo não era um santo. Ele era responsável por pelo menos metade dos acontecimentos ruins que me atribularam ao longo de 1996. Mas, apesar de tudo isso, ele me ensinou muito em algumas palavras.

– Obrigado por aquilo.

– Só fiz o que achava certo.

E, naquele dia, viramos, senão amigos, pelo menos nos respeitávamos, mutuamente. Era o começo do fim da Grande Depressão. Eram as sementes da minha vida de punk…

 

 

Prece de Setembro

Janeiro 27, 2008

Expansão do Setor O, Setembro de 1992

Era uma mês de setembro anormalmente quente. Passou o mês de agosto inteiro sem chuvas e estávamos na segunda semana de setembro, no meio da seca. Tudo parecia coberto de poeira vermelha, quando eu e minha mãe andávamos sobre um céu cheio de grandes nuvens brancas. Ela me arrastava pela rua, pois eu parava a cada segundo para ver um detalhe, apontar uma planta ou uma pessoa e enchê-la de perguntas. Foi quando vimos, longe, nas colinas do Goiás, uma nuvem gigantesca, negra e assustadora.

– Vai chover, com a graça de Deus.

Tínhamos de nos apressar. Ainda faltava muito para chegarmos em casa. Eu carregava uma sacola de verduras, que me era desproporcionalmente grande. Eu tropeçava em minhas próprias pernas pelo peso. Minha mãe já estava irritada. O céu escurecia. A nuvem negra estava muito próxima. O vento carregava sacolas de supermercado e fazia bater as portas e janelas das casas. Todos andavam apressados nas ruas. Os cachorros ganiam, os periquitos faziam uma tremenda algazarra. Eu já estava ficando assustado. Seria uma grande chuva.

– Te apressa, menino! O mundo vai se acabar em água daqui a pouco!

E como se apressa? Já não ia mais dar tempo. Podia divisar, muito perto, as gotas grossas d’água que caíam no chão, levantando lama. Nos escondemos embaixo do toldo de um supermercado.

– Mas mãe, o padre não disse que Deus não ia mais acabar o mundo em água?

– É modo de dizer menino…

Não foi possível entender o resto da frase. A chuva veio como uma onda de choque de explosão. Totalmente inesperada, ela tomou tudo num instante. Dos telhados empoirados, a água caía avermelhada, manchando as paredes. A rua sem asfalto tornou-se em segundos um rio de lama. Não podia ver muito longe e, por isso, eu tive medo.

– E se o padre estiver errado, mãe?

– Quem disse isso não foi o padre, foi Deus! E Ele não erra.

O barulho piorou. Era granizo que caía em pedras do tamanho de bilocas, quicando no chão, branco. Ouvia o barulho das placas dos comércios e das telhas de amianto voando por ali. Uma mulher desesperada tentava se cobrir como podia no meio do temporal quando o seu guarda-chuva quebrou, sendo levado pelo ar. O vento era tão forte que fazia os fios elétricos cantarem e balancarem.

Árvores trincavam pelo vento. Pessoas gritavam. Seria o fim do mundo mesmo? Deus teria mesmo piedade das crianças como eu?

Eu estava totalmente molhado e minha mãe me abraçou. A coisa tava feia. A chuva caía em ondas, levada pelo vento, batendo com força nos portões das casas. Vi um cachorrinho sendo levado pelas águas. Tentei correr pra salvá-lo. Minha mãe me segurou.

– É um cachorrinho, mãe, salva ele! Me deixa salvar o cachorrinho, mãe, me deixa!

Eu gritava desesperado. O cachorro nadava com todas as suas forças, tentando se salvar, quando o mais inesperado aconteceu. A tampa do bueiro explodiu, liberando uma água imunda, alta como um gêiser e repleta de baratas. O cachorrinho, no alto do seu desespero, tomou um susto com a grande onda que se formou em volta dele, afundando na água imunda. Nunca mais o vi.

E a chuva foi embora como veio, num pulo. Fomos embora dali, apressados. Minha mãe queria ver como nossa casa tinha ficado. Eu só queria saber do cachorrinho, pobre cachorrinho…

 

 

 

A Arte da Queda – Ou as Feridas da Alma

Janeiro 21, 2008

Ceilândia, Distrito Federal, 1992

Não sei porque, mas parecia que nesse época o tempo corria mais devagar. Dias e noites se sucediam num duelo de eternidades. Pra mim, que vivia enfurnado dentro de casa, essa sucessão parecia ser muito mais evidente. A televisão que a gente tinha era velha e mal pegava a Globo e o SBT. Ia para a escola de manhã, bem cedo, junto de meu pai e irmã. A gente saía de casa no meio da poeira (ou lama, depende da época do ano) e ia andando até a parada de ônibus. Invariavelmente, eu e minha irmã chegávamos imundos ao colégio.

À tarde, ia para o judô, na mesma escola (o SESI). Eu era um judoca péssimo, mas acho que o que é mesmo interessante no judô não é se você é bom ou ruim, quantas lutas você ganha ou qual é o seu ranking na federação. O legal do judô é a primeira coisa que você aprende, logo depois de colocar aquela roupa branca engraçada: você aprende a cair.

A gente não começa dando golpe, pegando no judo-gui, nem disputando quem é mais forte. O judoca fica sozinho, treinando num canto pra não atrapalhar os outros o jeito certo de cair. E cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta…

Quando a gente já sabe cair direitinho, o professor testa a gente. Coloca uma fila com uns dez ou doze judocas mais experientes e a gente é derrubado por cada um deles. Um a um cumprimenta, derruba, espera a gente levantar, cumprimenta de novo, derruba de novo e aí a gente troca de parceiro.

É um saco isso. A maior parte desiste nesse comecinho, porque parece que a gente vai passar a vida inteira caindo. Mas, se você for um judoca de coração, você vai ver o sentido mágico de tudo isso. O cara te cumprimenta, te derruba e te cumprimenta pra te derrubar de novo. Ele não é seu inimigo. Ele não tá lá pra te machucar, nem pra puxar seu tapete. Ele está lá pra te ensinar a cair direito. E, a melhor parte, ele espera você levantar pra repetir a lição. Não há raiva, não há maldade. Os olhos dos judocas costumam estar assim. Não há nervosismo, dor, nada. Tranqüilidade total…

Só alguns poucos conseguem ver isso. O aprendizado é um ciclo de descobertas. Cada parte, cada etapa da vida é uma repetição mais ou menos regular de um ciclo de cair e levantar. O que guardo de bom dessa época foi ter aprendido a ter paciência e perseverança. O aprendiz costuma ter pressa, quer aprender logo as manhas pra se tornar um vencedor. Porém, a vitória está dentro de você antes mesmo de começar a luta. Só é possível vencer conhecendo a si mesmo com profundidade, ignorando seus medos, superando os maiores desafios.

Principalmente, só é possível vencer abrindo mão de alguma coisa: tempo, lembranças, amores. Não é possível chegar à vitória estando nervoso, excitado, com um desejo ardente de vingar-se do mundo. Vence o mais tranqüilo, o que mais mantêm-se frio e racional, o que tem o coração mais puro, o que sabe que a vitória é certa.

E, quando a esperada vitória vem, todo o semblante muda. De uma tranqüilidade silenciosa, a garganta se enche de um grito escancarado. É justamente por ser esperada que a vitória é surpreendente. É por ser certa que se torna emocionante. A vitória é o espetáculo maior da vida, um momento mágico e precioso onde esquecemos dos nossos passos longínquos no Vale da Morte e sabemos que a vida, mesmo monótona ou dolorida, é sobrevivente.

E então, com tudo isso em mente, você entende o sentido da luta. Ela não está lá pra decidir quem é mais forte, quem está mais certo. A luta é uma repetição da vida. A luta, principalmente quando vale a vida, é uma anunciação do que é a glória. Vencer é muito mais profundo do que superar o outro. Vencer é superar-se, transformar-se. Vencer é depender do outro para conhecer a si mesmo.

E eu, quando solitário nas depressões intermináveis dos meus primeiros anos, era nessas poucas, erráticas e comemoradas vitórias que baseava minha vida. Aprendi a lutar desde cedo. Aprender a vencer demorou bastante. Mas tudo isso me tornou um grande lutador, me ensinou a não desistir nunca e, principalmente, a conhecer a mim mesmo.

Foi aí, nesses primeiros anos que nasceu o meu lado punk. Mas isso é assunto pra outra crônica, o espaço dessa acabou.

Abraços a todos…