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O dia do perdão…

Agosto 7, 2010

Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui bom com as palavras e em convencer as pessoas, mas só usava isso quando necessário.

Eu tinha entre quinze e dezesseis anos. Era 1999 e a música do capital estourava nas rádios. Eu gostava, principalmente pq conhecia o trabalho antigo deles, que era absurdamente bom. Ouvia discos de vinil na casa de amigos: Joy Division, The Clash, The Smiths, Ramones.

Tocava violão, mas não muito. Compunha uma ou outra canção, despretensiosamente. Algumas eu me lembro até hoje. Não esqueci nenhuma melodia.

Era punk. Não usava drogas porque sabia de onde elas vinham e sabia o que elas faziam com as pessoas, principalmente com os inocentes. Continuo limpo. Mas nessa época nem álcool eu usava. Aprendi a beber vinho no mestrado (canção, branco suave, hj acho pior do que remédio). Aprendi a beber cerveja na UnB (hj eu sou chato, só bebo bohemia e original). Aprendi a beber uísque no mestrado (ok, continuo nessa fase, mas tenho medo do que vou aprender a beber no doutorado).

Eu tinha poucos amigos. Era solitário. Andava sozinho para todos os lugares, principalmente de noite. Me metia em confusões, mas não muito. Era um anarquista que acreditava em Deus. Continuo sendo, os dois, mas na época eu não ia à Igreja. Achava absurdo ir a um lugar encontrar com um ser onipresente. Hoje vou à igreja, pq sei que Ele pode ser encontrado com mais força em certos lugares. Mas isso não é importante pra essa história.

Eu era um tipo especial de anarquista. Odiava o Estado pois sabia que ele era fonte de toda desigualdade. Mas não achava que as pessoas estavam prontas para viver sem ele. Logo, a opção era sabotá-lo. A democracia é um erro. O comunismo também é, já que nega o indivíduo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões por si e transformar o coletivo. Não acho que a opção à democracia seja uma ditadura de um só partido. Só o anarquismo daria liberdade total, para pensar e fazer o que sua consciência mandasse. Eu era um anarquista que acreditava na humanidade. Ainda sou, na verdade, acho que o lance é mudar a humanidade antes de mudar o estado e destruí-lo.

Bem, é isso. Disse essas coisas para dar um perfil psicológico para o personagem. Ou não, é só um desabafo mesmo. A idade vai chegando e a gente começa a pensar no que a gente fez no passado. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Foram as circunstâncias, sabe?

Na verdade, Brasília era uma cidade muito escrota. Muito mais do que é hoje, certamente. Havia pouco a se fazer. O que existia era caro ou inacessível. Os jovens não tinham espaço não porque fossem perigosos, mas porque Brasília nunca teve juventude e, portanto, não se sabia o que se esperar dela. Eu sou da primeira geração de brasilienses nascidos lá. Os começos são difíceis.

Havia vários colégios públicos grandes. Eram como grandes prisões, resquícios da ditadura. Porém eram espaços de política e “subversão”. Era o governo de Fernando Henrique Cardoso, o pior presidente da Nova República e o Brasil vivia crise atrás de crise. Era fim de ano e Roriz tinha ganho a eleição para governador, de uma forma que sempre foi vista como fraudulenta. Os sindicatos eram muito vigiados e boa parte dele era vendida ao governo. Dessa forma, era das escolas secundaristas e da UnB que vinham os focos de resistência à política existente.

E o estado se mostrava para nós. Alunos eram expulsos e desapareciam. Éramos obrigados a usar um uniforme e não ter nenhum símbolo para nos identificar: brincos, pulseiras, anéis, coturnos, lenços, era tudo proibido. As reuniões políticas não eram proibidas diretamente, mas era perigoso participar delas. Era perigoso ser filiado a partidos políticos. Mas eles existiam: o PT Jovem, a União da Juventude Socialista, entre outros. Eu não era de nenhum, já que era anarquista. Os colégios se dividiam entre eles. Eu era da (…) uma das mais tradicionais escolas públicas de Brasília. Fui pra lá por escolha, já que meu pai poderia pagar uma escola pra mim se quisesse.

E era uma escola efervescente. Era um barril de pólvora. Enquanto estive lá houve quatro grandes rebeliões de alunos. Quando acontecia, os alunos deixavam suas salas, invadiam as áreas públicas da escola e gritavam palavras de ordem até serem ouvidos. Ou até chegar a polícia. Sim, havia um batalhão da polícia do lado da escola.

E então quebrávamos os portões e fechávamos as ruas, em protesto. Sempre por motivos políticos. Éramos odiados pelo diretor da escola, pelo comandante do quartel da polícia e pelo administrador da cidade. Mas as putas que trabalhavam ali por perto gostavam da gente. Éramos jovens e ninguém é culpado pelo que faz aos quinze, dezesseis anos.

E nos metíamos em brigas, muitas. Como éramos perseguidos, nos organizávamos em pequenas gangues. Claro, isso tinha seu preço. Eu era da grande gangue dos punks, particularmente da confraria da (…) muito famosa nesses tempos. Digamos que aparecíamos muito nas colunas policiais dos jornais. Isso porque, além dos punks existiam os grupos neonazistas, gangues também organizadas, de pessoas que tinham ódios raciais contra todas as minorias, como nordestinos, homossexuais, deficientes físicos e negros.

Nós odiávamos os neonazistas com todo nosso coração. Era mútuo. Na verdade, a mentalidade punk é pelas minorias, pela contracultura, pelo protesto. Havia muitos homossexuais entre nós, muitos negros. O que valia era o que vc pensava, sua identidade e não o que você fazia de sua vida. Dessa forma, éramos vistos pelos skinheads como o lixo do mundo. E era assim que nos víamos e, por isso, nos achávamos fortes.

Mas, bem, a história começa por acaso. Era dia (…) e fomos surpreendidos pela notícia de que T., um famoso travesti de perto da escola tinha morrido, espancado até a morte. Isso não era incomum, mas nesse caso, particularmente, foi pessoal. Ele era um cara maneiro, de idéias avançadas. Fazia parte de movimentos LGTBT e era muito politizado. Ainda fazia ponto por ali.

A notícia se espalhou muito rápido. Logo, os três maiores colégios de Taguatinga estavam em pé de guerra. Eram outros tempos, quase ninguém tinha telefone celular e as coisas se resolviam no boca-a-boca. A indignação foi crescendo. Nenhum jornal noticiou. Nenhuma palavra, nada. O crime nem foi investigado.

E começou a acontecer. Primeiro um, depois outro. Os encontros entre os punks e skinheads estavam ficando sangrentos. Todos já sabiam o grupo responsável pela morte de T. e eles deixavam isso bem claro quando nos encontravam. Falavam de como foi bom ver os miolos “daquela bicha escrota” espalhados no asfalto. As brigas eram constantes. Depredávamos as ruas, pichávamos os muros exigindo justiça. E nada…

Então resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Era novembro e chovia. Ia ter um grande show de rock em Taguatinga. Sabíamos que eles iriam. Mas dessa vez nos preparamos. Paus, pedras, estilingues, socos ingleses. Meu sangue fervia. Foi a primeira vez que eu usei um soco inglês. Eu sentia aquele ferro frio roçando na minha perna, escondido. Todos estávamos tensos. Sabíamos que podíamos ser presos. Mas o T. merecia. O T. era foda. E eles precisavam de uma lição.

Lá pelas dez da noite eles chegaram. Todos juntos. E não eram só eles, havia mais quatro grandes gangues de skinheads, pelo menos umas cem pessoas. Não sei ao certo quantos éramos, mas havia representantes de movimentos punks de oito cidades do DF. O público sentiu a tensão. Algumas pessoas foram embora imediatamente. Todos sabíamos o que fazer. Ninguém levou nenhuma identificação. Eu tinha cortado o cabelo rente no dia anterior. Muitos traziam duas, três blusas para poderem se perder na multidão. Eu também trazia um lenço comprido pra tampar o rosto.

Foi muito rápido. Antes que eles pudessem se desagrupar, um rapaz tão franzino quanto eu, gritou o nome de T. bem alto. Foi o caos. Uma multidão de punks saiu do meio do público do show e avançou sobre os skinheads. Eles estavam preparados e reagiram na mesma medida.

Eu também entrei no bolo. Soco inglês na mão, os dentes muito unidos, os óculos escondidos no bolso de trás da calça. Corri como um desesperado pro meio do bolo. Paus, pedras, galhos de árvores, tudo era arremessado na gente. E eu socava tudo o que eu via de careca na minha frente. Eles recuaram. Nós não deixamos, nós os cercamos. Queríamos sangue, queríamos morte. Eu vi, pela primeira vez, a face do medo.

Os carecas tremiam. A lama do chão era uma mistura nojenta de sangue e corpos de adolescentes. Havia meninas também e homossexuais se chutando, se espancando, mordendo. Foi a desforra de tudo o que sofremos nos meses anteriores. A polícia estava presente, sempre está, mas eles assistiram tudo quietos. Não chegou a dois minutos, mas eu estava exausto. Meu corpo todo tremia, minhas mãos doíam. As minhas costas e barriga estavam machucadas. Eu mal me agüentava em pé.

Então chegou a cavalaria. Eles vieram como um raio, passando por cima de tudo. Nas mãos eles carregavam grandes cassetetes que podiam acertar pessoas no chão, mesmo estando sobre os cavalos. “Estou perdido”, pensei. Mas não. Eles passaram pela gente e foram com tudo pros skinheads. E a partir daí tudo ficou confuso.

Dispersamos. Cada um correu para um lado. Tirávamos as blusas de cima enquanto corríamos, e corríamos, e corríamos. Era a sobrevivência MESMO. Ir para o CAJE – o centro de correção de jovens infratores – era a morte certa para todos os punks. Quando a coisa ficou preta, eu me escondi atrás de um container de lixo. Podia ouvir o barulho das balas de borracha e das bombas de efeito moral muito próximas. A cavalaria continuava avançando e batendo, batendo, batendo…

E eu ali, molhado de chuva, escondido, ainda com o soco inglês na mão. Foi quando vi, ali na minha mão, um pedaço de algo que era carne e sangue, que provavelmente veio da cara de alguém. Joguei aquilo no contêiner e fugi dali, muito rápido.

Esse dia nunca foi esquecido.

Aquele foi conhecido entre todos os punks como o dia do perdão, porque mostramos como se perdoa neonazista.

 

 

Minhas mãos ficaram inchadas por muitos dias. Eu não conseguia esquecer o soco inglês sujo de sangue. Mas tive orgulho de estar ali. Como disse antes, não se pode culpar uma pessoa pelo que ela faz aos dezesseis anos. Se fosse hoje eu faria? Dificilmente. O que sei é que todos os dias morrem pessoas vítimas de discriminação racial e social nesse país. Há vários T.’s anônimos em toda parte. Fiz o que achava certo então.

O dia da morte de T. é celebrado por nós todos os anos. Na confraria de (…), que ainda existe, é chamado o dia do Martírio.

E se escrevo isso agora, depois de todos esses anos é por saber que sou o que sou hoje por causa dessa e de outras pequenas coisas. E isso carrego em mim todos os dias.

O Viaduto

Novembro 10, 2008

Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda pior.

Não chovia há dois meses e os gramados de Brasília estavam secos, acinzentados e eu tinha muita sede. Era o governo do PSDB e, não é necessário dizer, não estávamos muito satisfeitos.

Mas a coisa tava feia. Uma bomba de efeito moral tinha estourado perto dali, minutos antes, ferindo uma menina bonita, de uns desesseis anos. Ela saiu de ambulância, ensangüentada. A organização da manifestação precisava fazer uma assembléia urgente, pois o confronto era iminente. Já via, no alto dos prédios do Setor Comercial Sul os policiais militares se aprontando. Um helicóptero sobrevoava os manifestantes, bem baixo.

O governo PSDB teve ampla maioria no congresso e, nessas horas era preciso ir às ruas para lugar pelos nossos ideais. Esta manifestação era organizada pelas CONCLUTAS, mas contava com a participação de vários movimentos organizados, como gays, sindicatos autônomos, cooperativas, MLST, entre outros. Claramente, nós punks não estávamos de fora.

– E as armas? – O Pedro perguntava excitado. Era a primeira vez dele numa manifestação tão grande. As CONLUTAS estavam começando a crescer neste momento e era a primeira manifestação de porte que eles organizavam. A gente tinha ido ali para fazer peso e oferecer ajuda. Eu já tinha visto várias manifestações como esta e, por isso mesmo, sentia medo. O PT não estava junto da gente, nem o MST, pois tinham fechado um acordo político com o PSDB. As disputas partidárias estavam enfraquecendo o movimento perigosamente. Fugi da pergunta do Pedro, fazendo outra.

– Eles estão posicionados? – Havia alguns de nós infiltrados nos prédios vizinhos. Queríamos saber se o batalhão de choque estava próximo.

– Estão. Parece que os hômi vão meter o pau.

– É, estou vendo. Talvez precisemos agir.

O lenço preto que cobria meu rosto me fazia respitar mal, mas ele seria muito útil em breve.

– Tomem o asfalto – eu disse – precisamos nos posicionar melhor para resisitir.

Não havia tempo para assembléias, era preciso agir rápido. No horizonte, via os homens da PATAMO que batiam com cacetetes nos seus escudos transparentes. Eles dominavam a pista no sentido norte. Nos posicionamos a sul, logo em frente. Era hora de expor meu plano. Os meus colegas me ouviram pacientemente.

– Precisamos furar o cerco para que os manifestantes cheguem à rodoviária. Lá podemos nos reorganizar e continuar a marcha, rumo ao Congresso. Eles não querem que cheguemos à Esplanada dos Ministérios. Vamos ter de enfrentá-los.

Nessa época ninguém tinha celular, era artigo de luxo. Se fosse hoje, provavelmente teria ligado para o PT e ver se eles intercediam para evitar o confronto. Mesmo nessa época o PT era muito forte. Agora era preciso agir por nossa própria conta. E estavam todos ávidos por confronto. Era inevitável.

– Vai ser difícil. O alvo principal é o viaduto. Tomando o viaduto, tomamos a rota que leva à rodoviária e de lá à Esplanada. Não quero ninguém com a gente que não seja profissional. – Eu me referia aos meninos mais novos que estavam entrando nas fileiras por esses dias. Eu sabia que a coragem deles sumia rápido nessas horas.

Os diversos movimentos punks estavam representados naquele dia, principalmente o MEPR. Meninos de preto, cabelos moicanos, socos ingleses e calças de couro. Mas eram meninos. Eu, com 17 anos, era já veterano. Apesar de ser um movimento anarquista, nessas horas era preciso alguma liderança. Éramos uns cem punks, ao todo. Pelo menos dois policiais pra cada um. A coisa tava feia.

Nos unimos, num círculo. Era preciso decidir se enfrentaríamos a polícia ou não. Os olheiros da polícia observavam tudo, do alto dos prédios vizinhos.

– Enfrentamos?

O Darth, velho de outros movimentos estava tão cauteloso quanto eu. Os outros queriam barulho, sangue.

– Eles têm uma boa fileira e uma boa posição. – disse Darth – Além disso, têm vantagem numérica e, possivelmente, o apoio da cavalaria. É uma luta muito difícil.

Não sabíamos a opinião dos líderes do CONLUTAS. Naquela hora, eles que se fudessem. Punk não aceita ordem de ninguém, mas seria interessante saber se o resto da multidão oporia alguma resistência conosco se necessário. Muitas variáveis. Eu estava com medo.

– Que porra de fileira, que nada! Vamo meter o pé na bunda desses pé-de-bota, filhos da puta! – um garoto que eu não conhecia gritava em alto e bom som.

– Cacetete no rabo deles! Morte ao Estado, viva a Anarquia!

– VIVA!

Olhei pro Darth, cocei a barba rala e re-observei a posição do batalhão da polícia. Os outros manifestantes estavam apreensivos, mas entoavam o “Fora já, Fora daqui! O FHC e o FMI!” a plenos pulmões. Olhei para o horizonte, depois para o céu do planalto. Uma grande abóboda azul, sem nuvens. É, era hora de agir.

– Mantenham a fileira posicionada, temos de tomar terreno o mais rápido que der. Permaneçam unidos até minha ordem de dispersar. Depois é cada um por si. Somos soldados na luta por um mundo de iguais, onde reine uma justiça de homens, sem a interferência do Estado. Esse Estado nos oprime, lutemos contra ele. PUNK!!!!!

– Punk!!!

– Fora FHC!!!!!

– Fora!!!!

E gritamos num uníssono, como um batalhão daqueles filmes de guerra da idade média. Nesse ínterim, abrimos nossas mochilas e tiramos de lá os Molotovs preparados de véspera. As fileiras da polícia avançaram rápido em nossa direção, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral. A multidão se dispersava, mas muitos resistiam bravamente.

Molotovs acessos, a polícia a menos de vinte metros.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E corremos como loucos na direção da polícia. O que aconteceu depois foi difícil de descrever. Os policiais se uniram em três grandes fileiras de pelo menos oitenta homens em cada e atiravam livremente nos manifestantes e em nós. Eu usava um sobretudo grosso e tentava desviar das balas de borracha. Os meninos mais novos corriam na frente, excitados.

– Mantenham a formação! – Eles nos esperaram. Marchávamos unidos, como uma fila. Podíamos ver a cor dos olhos dos policiais. Eles preparavam os cacetetes e firmavam posição com os escudos fazendo uma grande fila.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu pude perceber um leve sorriso nos guardas à nossa frente. Três passos. Dois passos. Um passo. Pulei com uma voadora no meio do mar de escudos e cacetetes. A fila da polícia resistia bem, era uma tropa bem disciplinada. Sinto que eles também estavam gostando daquilo.

– Molotov!!!!!!!!!!!!!!!

Afluiu uma chuva de garrafas de gasolina e óleo díesel. Elas queimavam entre os policiais que foram obrigados abrir a fila em um ponto. Estávamos conseguindo dividir a fileira. Uma parte considerável da multidão nos seguira, bravamente, carregando paus e pedras. Eu sorri. Esses CONLUTAS tinham futuro. Estava sendo divertido.

Eu fugia dos cacetetes, animandos os meus a continuarem lutando. Os policiais mantinham posição, mas a chegada dos manifestantes fez com que eles recalculassem o risco. Ainda ouvi a ordem do comandante para reorganizar a tropa.

Os meninos resistiam. Bravos, pareciam guerreiros de verdade. Vi um menino novo, uns quinze anos, com a cara toda empapada de sangue. Paus e pedra sendo jogados para todos os lados.

– Permaneçam unidos! Unidos!

Tinha medo de nos dispersarmos antes da hora. Quem sobrasse ia apanhar muito, talvez até a morte. Eles eram meninos.

Ouvi o tropel da polícia montada. Fudeu!

– BOLAS DE GUDE!!!!!!!!!

Uma grande horda de homens e cavalos corria ordenadamente, vinda do leste, em nossa direção. Os cacetetes deles eram maiores, como espadas. Retrocedemos um pouco, dando espaço para a polícia reorganizar a fila. Era melhor avançarmos contra a polícia montada e deixar os manifestantes com os políciais comuns.

– Pau no cu dos pé-de-bota!!!!!!!!!!!

E quando eles chegaram muito perto, jogamos milhares de bolas de gude no asfalto, fazendo com que alguns cavalos deslizassem, derrubando cavaleiros no chão. Corríamos na direção deles.

– Dispersar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eram duas frentes da polícia. Podíamos ficar cercados se continuássemos lutando como um bolo. Melhor nos infiltrar entre os manifestantes e lutar com eles. A ordem foi seguida pela maioria. Um grupo pequeno, com uns vinte, decidiu permanecer lutando unido. A polícia montada se reorganizou e partir para cima deles. Coitados, foram trucidados.

– Concentrem-se na fileira! Na fileira!

A fileira agora era mais compacta. Eles jogavam gás de pimenta para dispersar a multidão. A coisa tava feia. Mas a multidão era grande e nós punks éramos poucos. Os policiais precisavam se concentrar em várias partes da rua ao mesmo tempo. A fileira estava se abrindo, só mais alguns segundos e tomaríamos o viaduto. Mas aí veio a nossa desgraça.

Vieram mais policiais, de outros destacamentos, totalmente despreparados para este tipo de situação. Começaram a atirar para cima, com pistolas e escopetas de verdade. Eu tive medo, muito medo.

– Recuar!

Eles apontavam as armas em nossa direção.

– RECUAAAAAAAARRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A multidão ensandecida agia por conta própria. Eles não notaram a nova movimentação da polícia, concentrados que estavam na fileira. Caralho, muito foda, puta que pariu!

Parei. A coisa tinha ido longe demais. Iam começar a matar pessoas. Senti uma pancada muito forte no rosto e desmaiei ali, na linha de frente.

***********

Me arrastavam pela perna, meu tronco raspava no chão. Sentia o sangue grosso escorrer do rosto. Tinha sido uma bomba de efeito moral a bater no rosto, soube depois. Pelo menos não tinha explodido, senão estaria desfigurado. Eu ainda estava grogue. Eram o Darth e o Pedro a me puxar. Eles tinham ouvido a ordem de recuo e me puxaram do meio dos policiais.

Eu ainda ouvia os tiros sendo disparados, em cima do viaduto e pude contemplar o céu azul sem nuvens, enquanto era arrastado pelo chão. Outros punks vieram e ajudaram a me carregar até um lugar seguro, longe da polícia.

Jogaram-me atrás de um container de lixo. O Darth olhava pra mim, pupilas dilatadas, rosto suado e também sujo de sangue.

– Vencemos? – perguntei, minha voz era um fio.

– Não. Mas foi lindo mesmo assim.

– Estamos em extinção, meu amigo, em extinção.

– Mas o que importa é que ainda não estamos extintos.

E eu fechei os olhos, ardidos pelo gás de pimenta, passando o lenço preto pelo rosto ferido. Tudo estava ensangüentado. Soltei uma grande, retumbante gargalhada e antes de perder de novo os sentidos ainda pude ouvir o coro da multidão pedindo a cabeça do FHC.

Bons tempos aqueles, bons tempos. Tempos de uma história que não foi contada, pois os vencedores não participaram dela. E nós, os vencidos, sobreviventes, guardamos as cicatrizes e a certeza de que lutamos para mudar o nosso tempo, contra a tirania dos neo-liberais. Mas lutamos e isso importa. Muito.

Maria Lúcia

Fevereiro 16, 2008

Maria Lúcia

 

Asa Norte, Brasília, março de 1997

 

Malu parecia que ia soltar fogo pelas ventas. Andava de um lado para o outro no quarto. Fazia um calor anormal em Brasília e ela, após muito remoer seus pensamentos sozinha no quarto, decidiu ir para a varanda, onde a casa era mais ventilada. De lá ela ficou olhando o meio da superquadra, pontuado de árvores espaçadas e algumas crianças que jogavam na quadra de futebol.

Dia de calor, naquela cidade perdida no meio do país. A visão das pessoas lá embaixo não a animou nem um pouco. Ela queria barulho, movimento, luz, que nem no Rio de Janeiro. Desde sempre ouvindo o som das buzinas na avenida Nossa Senhora de Copacabana, acostumada a ir à praia todos os dias, ao jeito xavequeiro dos meninos, aos ritmos, bailes, ao povo que sorri na rua. Não se conformava em viver naquele ilha no meio do Goiás.

Estava ali há dois meses e não tinha feito um amigo sequer. Até então, ninguém na escola tinha puxado papo com ela. Os meninos muito sérios, muito contidos, olhavam-na de olhos baixos e não esboçavam sequer um sorriso. Será que ela não chamava a atenção de ninguém? Não achavam-na bonita?

Ah, ela não entendia essa mudança repentina para Brasília. Violência há em todo lugar, não era motivo para mudar sua vida em mais de mil quilômetros. Seu pai, funcionário público de carreira, tinha batalhado muito para conseguir esta nova posição na Capital.

Malu pensava que esta cidade precisava de vibração, movimento. Tudo era monumental, distante da realidade: Palácios suntuosos cercados de áreas verdes gigantescas, fontes de água jorrando no meio de vazios, torres de aço perfurando o céu constantemente azul.

A solidão ali não era com vista para o mar, mas para aquele céu imóvel. Solidão de cemitério, de pesadelo, de plenitude. Malu pensava que era loucura inventar de criar uma cidade assim tão diferente. Coisa de homem, como seu pai. Só homens pra inventar uma cidade erguida do chão. Mulher quer proximidade, envolvimento, contato. Os homens que são assim, arredios. Por isso fizeram uma cidade de homem, mas deram a ela um nome de mulher: Brasília. Ela precisava sair, ver gente, sentir ar fresco, fugir desse marasmo, da solidão.

– Pra onde você vai, menina? – a Matilde, empregada já velha e com os dentes falhados perguntava.

– Ora, me deixe! – e saiu batendo a porta.

– Menina rebelde…

Malu apertou o botão do elevador. Esperou um tempo no corredor vazio e silencioso. Silêncio demais, ela odiava isso. Onde estava o barulho, as pessoas? Perdida nos seus pensamentos, nem percebeu que a porta se abria.

– Vai entrar? – era um rapaz que perguntava. Jeans e roupa preta, um cavanhaque horroroso cheio de falhas. Camisa de banda e piercing na orelha. Malu torceu o nariz.

Entrou no elevador.

– Como você aguenta viver aqui? Nesse marasmo todo? – perguntou, puxando papo.

Ele olhou-a de solsaio. Não respondeu. Ela odiava isso, essa mania que as pessoas dali tinham de ignorar a existência das outras quando achavam conveniente.

A porta abriu-se. Malu saiu pisando duro. Já o rapaz saiu calmamente, andou alguns passos, parou e acendeu um cigarro.

– Isso mata, você sabia?

Mais uma vez ele não respondeu nada. Continuou fumando calmamente. Andou alguns passos e sentou na calçada do bloco, olhando para as crianças que jogavam bola.

– Sabe o que é? – Ele disse isso sabendo que Malu o observava. Não havia nenhum sotaque em sua voz firme, de homem bem mais velho– Esse é um mal de vocês de fora, querer empurrar o lado de vocês para tudo. A gente só pode odiar o que não conhece se for por ignorância.

Malu teve uma vontade de ignorá-lo, mas não conseguiu:

– Quem é você pra falar de mim?

– Carioquinha, você fuma?

– Não, eu odeio cigarro.

– Hum…

– O que foi? Porquê esse “hum”? – A voz dela saiu com um misto de orgulho incontido e marra. Ele viu nela uma certa semelhança com o Romário. Uma questão de atitude. De que bairro ela seria? Pelo sotaque, Copacabana.

Ele apagou o resto do cigarro e guardou o toco num saquinho que tinha dobrado no bolso. O que mais a irritava era a calma dele. Gestos contidos, parecia tudo muito calculado. Ele respirou fundo e falou:

– Deixe-me dizer algumas coisas sobre você, carioquinha. Você acorda de manhã cedo, muitas vezes irritada, gasta vários minutos no banho arrumando este seu cabelo, passa batom, creme, se arruma toda. Depois disso come muito pouco no café da manhã, com medo de engordar. Muitas vezes nem come. Seus pais levam você para o colégio, provavelmente o Marista ou o Galois, e você morre de vergonha que alguém os veja. Vive achando que os outros têm de falar com você, pois você é de fora, é diferente e sabe muitas coisas interessantes sobre o mundo, coisas que não existem aqui e você viu e viveu. Nunca toma a iniciativa de você mesma falar com as pessoas. Sai dali no começo da tarde, sua mãe ou seu pai te pegam na porta do colégio, almoça uma saladinha e vai para a academia ou o curso de inglês. Depois disso tudo fica em casa tentando sintonizar uma rádio que toque samba e pagode e não acha nenhuma. Só rock e sertanejo. Passa o resto da tarde remoendo pequenas coisas, roendo as unhas e se lembrando da vida que você tinha lá no Rio de Janeiro. Por fim, chega a noite e você quer sair e não tem ninguém. Fica até alta madrugada conectada no MSN, querendo saber das amigas que você deixou, mas provavelmente elas saíram para uma festa interessante em algum lugar da Lapa ou em Ipanema e a última coisa que elas querem é entrar na internet para falar contigo. Por isso, você fica pensando que elas são más amigas, chora escondido antes de dormir, agarradinha com seu urso de pelúcia com nome engraçado e adormece com vontade de se matar. Seus dias são monótonos e tristes e você vive maldizendo as pessoas que te cercam, responsabilizando-as pela merda que é a sua vida.

Parou para ver a reação que as palavras tinham produzido. Malu estava prestes a estourar de raiva. Ele viu que tinha acertado senão tudo, pelo menos a maior parte.

– Quer um conselho, carioquinha? Se mate. Você é a única responsável pela sua tristeza. Ninguém tem de ficar aturando sua cara de cu o dia inteiro. Ela ia ficar muito mais interessante no seu funeral.

Doeu. A vontade que tinha era de arranhar o rosto dele até tirar sangue. Respondeu com fúria.

– Pare de me chamar de carioquinha.

– Ah, sim, esqueci deste detalhe. Seus pais te deram um nome desses que dá pra ter apelido. Então em vez de Tatiana, Daniela ou Luciana, todos te chamam de Tati, Dany ou Lulu. Você abomina que alguém te chame pelo seu nome de verdade.

– Eu não pedi os teus conselhos!

– É, pelo visto não é nenhum dos três. Talvez Juju ou Malu – ele viu que acertara – Malu, não é? Então, Malu, sabe porque as pessoas não falam com você? Porque à primeira olhada a gente não vê que, apesar de toda essa sua marra, você não passa pra ninguém absolutamente nada de interessante. Você é vazia, oca. Suas experiências foram todas de menina burguesa, que não conheceu nada de mundo. Você é mimada, orgulhosa, falsa. Eu só converso contigo por pena e por pensar que o que eu digo poderá te ajudar a ser alguém melhor com os outros. Desculpe a franqueza, mal de candango. Agora deixe-me ir, o sol vai se pôr.

Ele levantou-se. Ela tentou segurar o mais que pôde, mas as lágrimas rolaram abundantes. Não era mais raiva, era humilhação também. Que direito ele tinha de dizer essas coisas, de falar a verdade assim, sem nenhum limite ou controle?

– Por que vocês são assim?  – a voz saiu como um fio, em meio às lágrimas. Não tinha mais nenhum controle sobre seus olhos. Começou a chorar baixinho, entre soluços.

– Por que eu te machuco tanto? Foi você que começou. Falou que minha cidade era “um marasmo”, me julgou da cabeça aos pés só pela forma que eu me visto e implicou com meu cigarro, se metendo na minha vida. Você mereceu cada palavra. Não pense que eu tenho pena de ver você chorando. Pode chorar até ficar desidratada. Você faz isso porque quer, porque escolheu ficar com esses olhos de lágrimas, como se fosse dona de toda dor do mundo, olhando a vida da sacada de seu apartamento. Mas saiba que o mundo é muito grande, não cabe no seu umbigo, nem pode ser visto apenas com os olhos. O mundo, Malu, também tem de ser sentido com o tato, com o olfato, o paladar. O mundo é mundo por ser de todos os sentidos.

Ele continuou andando, vagarosamente. As pessoas passavam por Malu e a ignoravam. Ela sentiu abandono, solidão, desamparo. Já não queria mais esconder o choro. Como as pessoas dali podiam deixar que sua dor continuasse assim? Ninguém tinha coração? Ninguém ia parar pra perguntar o motivo das lágrimas, oferecer um colo, dizer uma palavra de carinho?

Verdade solta assim, na cara da gente, dói. Ninguém nunca tinha falado desse jeito com ela, nem seus pais. Um moleque de camiseta de banda tinha feito um estrago tremendo no coração dela. Apesar disso, ela não queria deixá-lo ir embora.

– Pra onde você vai?

– Andar.

– Me leva com você? – Fungou o nariz, segurando o choro. Tentava parecer mais forte do que era.

– …

– Por favor, não tenho pra onde ir.

– E por quê eu faria isso? Por quê eu me preocuparia com você?

– Porque estou pedindo. – Respirou fundo, contendo o choro de vez – Só quero companhia, nada mais.

Ele olhou para o tempo, depois para o céu de final de tarde. Deviam ser umas cinco e meia. Olhou para o rosto dela. Ainda não tinha parado para fazer isso. Olhos negros e grandes, agora vermelhos e inchados. Seria bonita se não exibisse essa marra toda.

– É, não ia dar mesmo, vai chover daqui a pouco…

– Como chover? – Malu não via uma nuvem cinza no céu. – Nesse céu claro?

– Vai por mim, vai chover. – Ele pensou um pouco, parecia se decidir – Quer saber? Venha comigo. Vou te mostrar uma coisa pra alegrar o seu dia. Mas prometa parar de chorar, senão não tem negócio.

Ele pegou-a pela mão. Voltaram ao prédio, subindo o elevador até o sexto (e último) andar. Tinha ali do lado uma pequena porta que dava para uma escada para o terraço. Malu ficou receosa em subir.

– Vem, mulher! Deixa de doce.

Ela subiu com ele. Quando finalmente olhou em volta, não pôde conter a admiração. Como tudo era lindo! Ela podia ver muito longe, todo o círculo do horizonte, parecia que a gente podia ver a curvatura do horizonte. Parou um bom tempo olhando a nordeste, onde reconheceu Congresso Nacional, branco e brilhante. Ele então mostou-a, a sudeste, a Torre de TV, negra e alta, riscando o céu.

– Olhe para lá. – Ele apontava para o leste, onde o lago Paranoá era visto em toda extensão, abraçando a cidade, acinzentado e tranqüilo. Atrás dele, viam-se colinas muito baixas, parecendo um mar verde, de ondas delicadas. Muito perto, ao norte, ela podia ver um parque, incrustado no meio da Asa Norte, coberto de árvores retorcidas do cerrado.

– Que lugar é esse?

– Não é o Jardim Botânico do Rio, mas já é alguma coisa. É o Parque Olhos d’água. É lá que nasce um dos principais afluentes do lago. É muito bonito. Vou muito lá, quando estou disposto. Ia hoje, mas não deu. Como disse, vai chover. Você ainda não conhecia?

– Não. Não deu tempo de andar muito, de conhecer quase nada.

E ele apontou para uma nuvem escura que se formava a leste que vinha muito rápida, tomando tudo. Era engraçado olhar longe e saber que lá já chovia. Podia até ver o clarão dos relâmpagos que cortavam o céu. No Rio a chuva avisava, vinha sempre do mesmo lado. Era o famoso Sudoeste.

– É, Malu, talvez você esteja com sorte. Acho que vai dar tempo de você ver.

– O quê?

– Isso. – o sol estava quase tocando o horizonte. Era possível ver uma grande variedade de cores, não só o vermelho e arroseado, muito comuns. Tons de amarelo, azul, até verde, podiam ser notados, uma paleta incrível de cores que tomavam o horizonte e enchiam tudo de cor. Era muito bonito aquele horizonte imenso, sendo coberto de cores pelo sol.

– Nossa, me lembra o Arpoador – Malu não conseguiu disfarçar um pouco de saudade na voz.

– É, o Arpoador é bonito sim, eu gosto do sol se pondo nos Dois Irmãos. Mas sei lá, gosto de terra. Do por do sol na Chapada dos Veadeiros, dele desaparecendo no meio das árvores em Manaus.

– Você parece ter viajado muito!

– Como disse, para conhecer o mundo, é preciso entrar nele, experimentá-lo. Não se vê o mundo do computador. Mas deixe-me falar porque eu acho esse o melhor pôr-do-sol de todos. – eles se sentaram sobre um banco de madeira que parecia ter sido colocado lá só para isso. – olhe para os outros prédios – ela viu e, em alguns deles, outras pessoas faziam a mesma coisa, olhando o sol indo embora – No Arpoador umas cem, no máximo duzentas pessoas podem ver isso por dia. Aqui não. Todo mundo na cidade pode subir nos seus prédios e ver o sol se despedindo. Como todos eles são do mesmo tamanho e baixos, basta subir até aqui e olhar. Não vai ter nenhum prédio mais alto atrapalhando a vista.

– É, mas é preciso morar aqui, em Brasília, para ver isso.

– Ao contrário do Rio, o céu é de todos. Nas satélites também se respeita o gabarito. Não é só o dono da cobertura em Ipanema que pode ver o sol se despedir. Todos podem. É só querer olhar. É só esquecer a realidade e viver o sonho, por alguns instantes. E, às vezes, a gente pode ver isso ali. – e ele pediu para que ela olhasse para trás.

Era um arco-íris enorme. Ela podia ver exatamente onde ele começava e  terminava, muito nítido e forte. A grande nuvem ia se aproximando e ela sentia aquele cheiro gostoso de chuva, de terra que vai se molhando. Como ela nunca tinha parado pra ver isto? Já estava lá há tanto tempo e nem tinha visto o pôr-do-sol de Brasília que ela já tinha ouvido falar.

Eles ficaram em silêncio, olhando tudo aquilo. Malu estava maravilhada com tanta beleza e também com aquele rapaz misterioso que podia ser tão rude e tão delicado. Como este menino sabia tantas coisas sobre o mundo? Falava com tanta certeza, segurança, bem diferente de qualquer pessoa que ela tivesse conhecido.

– É Maria Luíza?

– Maria Lúcia.

– Maria Lúcia! Ah, que pena…

– Por quê pena?

– Meu nome não é João de Santo Cristo…

Eles dois riram.

– Sou Lucas. Irmão mais novo de Mateus e Marcos.

Riram mais uma vez. Ela reparou no sorriso dele, bonito, de dentes muito brancos e tortos.

– Se fosse o quarto filho, talvez me chamasse João…

Ela não riu mais. Procurou os olhos dele, tentando decifrá-los, entender um pouco seus mistérios. De certo modo, também queria retribuir a “gentileza” e falar tudo da vida dele, mas não tinha esse dom.

Lucas. Soava bem, mas não combinava nem um pouco com ele.  Ele não era bonito, mas se portava de um jeito tão atraente, mas natural. Não via vaidade ou soberba no seu semblante. Os movimentos contidos, calculados, cronometrados, eram como parte de uma dança, de um ritmo individual que a cativava. E ela se sentia insegura, vulnerável. Não conseguia também disfarçar seu desejo.

Caíram as primeiras gotas de chuva e eles se levantaram rápido. Ela queria ficar, não queria acabar assim, voltar pra solidão. Tomou-o pela mão, sentindo um arrepio.

– Eu gosto de banho de chuva…

– De banho eu até gosto. Ruim é gripe. Ficar gripado é um saco… Preciso mesmo ir, moro longe, além das colinas verdejantes. – disse isso rindo. Apreciava a piada.

– Você não mora aqui no prédio?

– Não, moro longe. Ceilândia.

– E quando nos vemos de novo? – a separação doía. Qual era o problema dele? Porque não ficar mais um pouco? Será que ele também não sentia aquele momento?

– A gente se encontra, güapa. Dizem que Brasília é um ovo de codorna, as pessoas sempre estão se vendo. Quem sabe a gente se esbarra um dia desses? – ia sumindo atrás da porta, quando voltou – Ah, sim! Vou te chamar de Maria Lúcia, é muito mais bonito e combina com você.

E se foi. Quando Maria Lúcia decidiu segui-lo, era muito tarde pois ele já descia no elevador. Só restou voltar a seu apartamento, onde ainda pôde vê-lo correr na chuva, na direção da parada de ônibus.

Vendo-a olhar pela janela, a empregada Matilde ficou olhando para Malu, admirada.

– Que foi, Matilde?

– Tava só olhando.

– Olhando o quê?

– A chuva batendo nas janelas, que nem lágrima escorrendo. Chuva é bom, dona Malu, chuva lava a alma. É que nem chorar de verdade, faz bem, faz a gente ficar mais forte. Quando a gente chora com o coração, tudo fica mais leve, melhor.

E nem ela, nem Maria Lúcia tocaram mais no assunto. E nessa noite a menina carioca dormiu sossegada, como se as palavras do rapaz tivessem tirado toda a angústia e solidão do seu peito. Se era pra morar ali, ela tentaria ser feliz e olhar o mundo com os seus sentidos, com os seus sonhos. Menina sonhando numa cidade com nome de mulher.

A Arte da Queda – Ou as Feridas da Alma

Janeiro 21, 2008

Ceilândia, Distrito Federal, 1992

Não sei porque, mas parecia que nesse época o tempo corria mais devagar. Dias e noites se sucediam num duelo de eternidades. Pra mim, que vivia enfurnado dentro de casa, essa sucessão parecia ser muito mais evidente. A televisão que a gente tinha era velha e mal pegava a Globo e o SBT. Ia para a escola de manhã, bem cedo, junto de meu pai e irmã. A gente saía de casa no meio da poeira (ou lama, depende da época do ano) e ia andando até a parada de ônibus. Invariavelmente, eu e minha irmã chegávamos imundos ao colégio.

À tarde, ia para o judô, na mesma escola (o SESI). Eu era um judoca péssimo, mas acho que o que é mesmo interessante no judô não é se você é bom ou ruim, quantas lutas você ganha ou qual é o seu ranking na federação. O legal do judô é a primeira coisa que você aprende, logo depois de colocar aquela roupa branca engraçada: você aprende a cair.

A gente não começa dando golpe, pegando no judo-gui, nem disputando quem é mais forte. O judoca fica sozinho, treinando num canto pra não atrapalhar os outros o jeito certo de cair. E cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta…

Quando a gente já sabe cair direitinho, o professor testa a gente. Coloca uma fila com uns dez ou doze judocas mais experientes e a gente é derrubado por cada um deles. Um a um cumprimenta, derruba, espera a gente levantar, cumprimenta de novo, derruba de novo e aí a gente troca de parceiro.

É um saco isso. A maior parte desiste nesse comecinho, porque parece que a gente vai passar a vida inteira caindo. Mas, se você for um judoca de coração, você vai ver o sentido mágico de tudo isso. O cara te cumprimenta, te derruba e te cumprimenta pra te derrubar de novo. Ele não é seu inimigo. Ele não tá lá pra te machucar, nem pra puxar seu tapete. Ele está lá pra te ensinar a cair direito. E, a melhor parte, ele espera você levantar pra repetir a lição. Não há raiva, não há maldade. Os olhos dos judocas costumam estar assim. Não há nervosismo, dor, nada. Tranqüilidade total…

Só alguns poucos conseguem ver isso. O aprendizado é um ciclo de descobertas. Cada parte, cada etapa da vida é uma repetição mais ou menos regular de um ciclo de cair e levantar. O que guardo de bom dessa época foi ter aprendido a ter paciência e perseverança. O aprendiz costuma ter pressa, quer aprender logo as manhas pra se tornar um vencedor. Porém, a vitória está dentro de você antes mesmo de começar a luta. Só é possível vencer conhecendo a si mesmo com profundidade, ignorando seus medos, superando os maiores desafios.

Principalmente, só é possível vencer abrindo mão de alguma coisa: tempo, lembranças, amores. Não é possível chegar à vitória estando nervoso, excitado, com um desejo ardente de vingar-se do mundo. Vence o mais tranqüilo, o que mais mantêm-se frio e racional, o que tem o coração mais puro, o que sabe que a vitória é certa.

E, quando a esperada vitória vem, todo o semblante muda. De uma tranqüilidade silenciosa, a garganta se enche de um grito escancarado. É justamente por ser esperada que a vitória é surpreendente. É por ser certa que se torna emocionante. A vitória é o espetáculo maior da vida, um momento mágico e precioso onde esquecemos dos nossos passos longínquos no Vale da Morte e sabemos que a vida, mesmo monótona ou dolorida, é sobrevivente.

E então, com tudo isso em mente, você entende o sentido da luta. Ela não está lá pra decidir quem é mais forte, quem está mais certo. A luta é uma repetição da vida. A luta, principalmente quando vale a vida, é uma anunciação do que é a glória. Vencer é muito mais profundo do que superar o outro. Vencer é superar-se, transformar-se. Vencer é depender do outro para conhecer a si mesmo.

E eu, quando solitário nas depressões intermináveis dos meus primeiros anos, era nessas poucas, erráticas e comemoradas vitórias que baseava minha vida. Aprendi a lutar desde cedo. Aprender a vencer demorou bastante. Mas tudo isso me tornou um grande lutador, me ensinou a não desistir nunca e, principalmente, a conhecer a mim mesmo.

Foi aí, nesses primeiros anos que nasceu o meu lado punk. Mas isso é assunto pra outra crônica, o espaço dessa acabou.

Abraços a todos…