O dia do perdão…

Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui bom com as palavras e em convencer as pessoas, mas só usava isso quando necessário.

Eu tinha entre quinze e dezesseis anos. Era 1999 e a música do capital estourava nas rádios. Eu gostava, principalmente pq conhecia o trabalho antigo deles, que era absurdamente bom. Ouvia discos de vinil na casa de amigos: Joy Division, The Clash, The Smiths, Ramones.

Tocava violão, mas não muito. Compunha uma ou outra canção, despretensiosamente. Algumas eu me lembro até hoje. Não esqueci nenhuma melodia.

Era punk. Não usava drogas porque sabia de onde elas vinham e sabia o que elas faziam com as pessoas, principalmente com os inocentes. Continuo limpo. Mas nessa época nem álcool eu usava. Aprendi a beber vinho no mestrado (canção, branco suave, hj acho pior do que remédio). Aprendi a beber cerveja na UnB (hj eu sou chato, só bebo bohemia e original). Aprendi a beber uísque no mestrado (ok, continuo nessa fase, mas tenho medo do que vou aprender a beber no doutorado).

Eu tinha poucos amigos. Era solitário. Andava sozinho para todos os lugares, principalmente de noite. Me metia em confusões, mas não muito. Era um anarquista que acreditava em Deus. Continuo sendo, os dois, mas na época eu não ia à Igreja. Achava absurdo ir a um lugar encontrar com um ser onipresente. Hoje vou à igreja, pq sei que Ele pode ser encontrado com mais força em certos lugares. Mas isso não é importante pra essa história.

Eu era um tipo especial de anarquista. Odiava o Estado pois sabia que ele era fonte de toda desigualdade. Mas não achava que as pessoas estavam prontas para viver sem ele. Logo, a opção era sabotá-lo. A democracia é um erro. O comunismo também é, já que nega o indivíduo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões por si e transformar o coletivo. Não acho que a opção à democracia seja uma ditadura de um só partido. Só o anarquismo daria liberdade total, para pensar e fazer o que sua consciência mandasse. Eu era um anarquista que acreditava na humanidade. Ainda sou, na verdade, acho que o lance é mudar a humanidade antes de mudar o estado e destruí-lo.

Bem, é isso. Disse essas coisas para dar um perfil psicológico para o personagem. Ou não, é só um desabafo mesmo. A idade vai chegando e a gente começa a pensar no que a gente fez no passado. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Foram as circunstâncias, sabe?

Na verdade, Brasília era uma cidade muito escrota. Muito mais do que é hoje, certamente. Havia pouco a se fazer. O que existia era caro ou inacessível. Os jovens não tinham espaço não porque fossem perigosos, mas porque Brasília nunca teve juventude e, portanto, não se sabia o que se esperar dela. Eu sou da primeira geração de brasilienses nascidos lá. Os começos são difíceis.

Havia vários colégios públicos grandes. Eram como grandes prisões, resquícios da ditadura. Porém eram espaços de política e “subversão”. Era o governo de Fernando Henrique Cardoso, o pior presidente da Nova República e o Brasil vivia crise atrás de crise. Era fim de ano e Roriz tinha ganho a eleição para governador, de uma forma que sempre foi vista como fraudulenta. Os sindicatos eram muito vigiados e boa parte dele era vendida ao governo. Dessa forma, era das escolas secundaristas e da UnB que vinham os focos de resistência à política existente.

E o estado se mostrava para nós. Alunos eram expulsos e desapareciam. Éramos obrigados a usar um uniforme e não ter nenhum símbolo para nos identificar: brincos, pulseiras, anéis, coturnos, lenços, era tudo proibido. As reuniões políticas não eram proibidas diretamente, mas era perigoso participar delas. Era perigoso ser filiado a partidos políticos. Mas eles existiam: o PT Jovem, a União da Juventude Socialista, entre outros. Eu não era de nenhum, já que era anarquista. Os colégios se dividiam entre eles. Eu era da (…) uma das mais tradicionais escolas públicas de Brasília. Fui pra lá por escolha, já que meu pai poderia pagar uma escola pra mim se quisesse.

E era uma escola efervescente. Era um barril de pólvora. Enquanto estive lá houve quatro grandes rebeliões de alunos. Quando acontecia, os alunos deixavam suas salas, invadiam as áreas públicas da escola e gritavam palavras de ordem até serem ouvidos. Ou até chegar a polícia. Sim, havia um batalhão da polícia do lado da escola.

E então quebrávamos os portões e fechávamos as ruas, em protesto. Sempre por motivos políticos. Éramos odiados pelo diretor da escola, pelo comandante do quartel da polícia e pelo administrador da cidade. Mas as putas que trabalhavam ali por perto gostavam da gente. Éramos jovens e ninguém é culpado pelo que faz aos quinze, dezesseis anos.

E nos metíamos em brigas, muitas. Como éramos perseguidos, nos organizávamos em pequenas gangues. Claro, isso tinha seu preço. Eu era da grande gangue dos punks, particularmente da confraria da (…) muito famosa nesses tempos. Digamos que aparecíamos muito nas colunas policiais dos jornais. Isso porque, além dos punks existiam os grupos neonazistas, gangues também organizadas, de pessoas que tinham ódios raciais contra todas as minorias, como nordestinos, homossexuais, deficientes físicos e negros.

Nós odiávamos os neonazistas com todo nosso coração. Era mútuo. Na verdade, a mentalidade punk é pelas minorias, pela contracultura, pelo protesto. Havia muitos homossexuais entre nós, muitos negros. O que valia era o que vc pensava, sua identidade e não o que você fazia de sua vida. Dessa forma, éramos vistos pelos skinheads como o lixo do mundo. E era assim que nos víamos e, por isso, nos achávamos fortes.

Mas, bem, a história começa por acaso. Era dia (…) e fomos surpreendidos pela notícia de que T., um famoso travesti de perto da escola tinha morrido, espancado até a morte. Isso não era incomum, mas nesse caso, particularmente, foi pessoal. Ele era um cara maneiro, de idéias avançadas. Fazia parte de movimentos LGTBT e era muito politizado. Ainda fazia ponto por ali.

A notícia se espalhou muito rápido. Logo, os três maiores colégios de Taguatinga estavam em pé de guerra. Eram outros tempos, quase ninguém tinha telefone celular e as coisas se resolviam no boca-a-boca. A indignação foi crescendo. Nenhum jornal noticiou. Nenhuma palavra, nada. O crime nem foi investigado.

E começou a acontecer. Primeiro um, depois outro. Os encontros entre os punks e skinheads estavam ficando sangrentos. Todos já sabiam o grupo responsável pela morte de T. e eles deixavam isso bem claro quando nos encontravam. Falavam de como foi bom ver os miolos “daquela bicha escrota” espalhados no asfalto. As brigas eram constantes. Depredávamos as ruas, pichávamos os muros exigindo justiça. E nada…

Então resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Era novembro e chovia. Ia ter um grande show de rock em Taguatinga. Sabíamos que eles iriam. Mas dessa vez nos preparamos. Paus, pedras, estilingues, socos ingleses. Meu sangue fervia. Foi a primeira vez que eu usei um soco inglês. Eu sentia aquele ferro frio roçando na minha perna, escondido. Todos estávamos tensos. Sabíamos que podíamos ser presos. Mas o T. merecia. O T. era foda. E eles precisavam de uma lição.

Lá pelas dez da noite eles chegaram. Todos juntos. E não eram só eles, havia mais quatro grandes gangues de skinheads, pelo menos umas cem pessoas. Não sei ao certo quantos éramos, mas havia representantes de movimentos punks de oito cidades do DF. O público sentiu a tensão. Algumas pessoas foram embora imediatamente. Todos sabíamos o que fazer. Ninguém levou nenhuma identificação. Eu tinha cortado o cabelo rente no dia anterior. Muitos traziam duas, três blusas para poderem se perder na multidão. Eu também trazia um lenço comprido pra tampar o rosto.

Foi muito rápido. Antes que eles pudessem se desagrupar, um rapaz tão franzino quanto eu, gritou o nome de T. bem alto. Foi o caos. Uma multidão de punks saiu do meio do público do show e avançou sobre os skinheads. Eles estavam preparados e reagiram na mesma medida.

Eu também entrei no bolo. Soco inglês na mão, os dentes muito unidos, os óculos escondidos no bolso de trás da calça. Corri como um desesperado pro meio do bolo. Paus, pedras, galhos de árvores, tudo era arremessado na gente. E eu socava tudo o que eu via de careca na minha frente. Eles recuaram. Nós não deixamos, nós os cercamos. Queríamos sangue, queríamos morte. Eu vi, pela primeira vez, a face do medo.

Os carecas tremiam. A lama do chão era uma mistura nojenta de sangue e corpos de adolescentes. Havia meninas também e homossexuais se chutando, se espancando, mordendo. Foi a desforra de tudo o que sofremos nos meses anteriores. A polícia estava presente, sempre está, mas eles assistiram tudo quietos. Não chegou a dois minutos, mas eu estava exausto. Meu corpo todo tremia, minhas mãos doíam. As minhas costas e barriga estavam machucadas. Eu mal me agüentava em pé.

Então chegou a cavalaria. Eles vieram como um raio, passando por cima de tudo. Nas mãos eles carregavam grandes cassetetes que podiam acertar pessoas no chão, mesmo estando sobre os cavalos. “Estou perdido”, pensei. Mas não. Eles passaram pela gente e foram com tudo pros skinheads. E a partir daí tudo ficou confuso.

Dispersamos. Cada um correu para um lado. Tirávamos as blusas de cima enquanto corríamos, e corríamos, e corríamos. Era a sobrevivência MESMO. Ir para o CAJE – o centro de correção de jovens infratores – era a morte certa para todos os punks. Quando a coisa ficou preta, eu me escondi atrás de um container de lixo. Podia ouvir o barulho das balas de borracha e das bombas de efeito moral muito próximas. A cavalaria continuava avançando e batendo, batendo, batendo…

E eu ali, molhado de chuva, escondido, ainda com o soco inglês na mão. Foi quando vi, ali na minha mão, um pedaço de algo que era carne e sangue, que provavelmente veio da cara de alguém. Joguei aquilo no contêiner e fugi dali, muito rápido.

Esse dia nunca foi esquecido.

Aquele foi conhecido entre todos os punks como o dia do perdão, porque mostramos como se perdoa neonazista.

 

 

Minhas mãos ficaram inchadas por muitos dias. Eu não conseguia esquecer o soco inglês sujo de sangue. Mas tive orgulho de estar ali. Como disse antes, não se pode culpar uma pessoa pelo que ela faz aos dezesseis anos. Se fosse hoje eu faria? Dificilmente. O que sei é que todos os dias morrem pessoas vítimas de discriminação racial e social nesse país. Há vários T.’s anônimos em toda parte. Fiz o que achava certo então.

O dia da morte de T. é celebrado por nós todos os anos. Na confraria de (…), que ainda existe, é chamado o dia do Martírio.

E se escrevo isso agora, depois de todos esses anos é por saber que sou o que sou hoje por causa dessa e de outras pequenas coisas. E isso carrego em mim todos os dias.

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3 Respostas to “O dia do perdão…”

  1. O dia do perdão… « Poeta Matemático Says:

    […] Quer ler mais? Clique aqui!!! […]

  2. alinestone Says:

    Não consigo achar palavras pra descrever o que eu senti lendo esse texto, sério. Te falar a verdade, eu nunca conheci um punk (ou alguém que já foi um) de verdade. Hoje o que eu vejo por aí são só pessoas que ouvem Ramones, usam moicano e se acham punks. E essa história, essa coisa punk vs skinhead é muito surreal sabe? E saber que isso fez parte da tua vida… Cara, você deve ser uma pessoa muito foda (porque não consigo achar outro adjetivo) pra se conversar e tal. E tipo, eu li esse texto e fiquei tentando montar uma imagem de você sabe, fazendo doutorado e tal. Haha, cara, paguei um pau agora. Detesto essa expressão, mas foi exatamente isso! E, hm, faz mestrado em que? na verdade, você fez faculdade de que? Tenho minhas suspeitas sobre o curso, mas… Jornalismo me passa uma imagem muito socialista e não anarquista, mas isso pode depender do ângulo em que se vê, não? De qualquer modo, o seu texto ficou maravilhoso, sério… “porque mostramos como se perdoa neonazista. “

  3. alinestone Says:

    Digo, mestrado! Eu juro que ia escrever mestrado, mas saiu doutorado, haha. Mas do mestrado pro doutorado é um passo…

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