O começo da revolução

Continuando com a política de distribuição de pequenas partes do livro, aí vai mais um pedaço. Espero que vocês gostem.

 

 

 

Juvêncio e Onésimo bebiam animadamente no bar, já vazio no começo da madrugada. Juvêncio tinha passagem de volta marcada para o dia seis e aquela seria sua despedida do amigo. Também chamara Antônio, que estava de serviço nesta noite e não veio, e Pedro Emílio, que chegou lá pelas dez da noite. Os três jogavam cartas e contavam piadas. O relógio de pêndulo do bar marcava por volta da meia-noite quando Juvêncio sugeriu ir dar uma volta na praia, que ele nunca tinha visto à noite.

Solidários e meio embriagados, os amigos foram com ele. Andaram um pouco, na direção da Praia do Leme, quando Juvêncio sugeriu sentar-se na areia. Tudo estava calmo e na noite sem estelas podiam ver as luzes de um pequeno barco se afastando para o mar aberto. Ainda animados, os rapazes faziam troça uns com os outros.

Juvêncio ficou um bom tempo acompanhando o barco até que ele sumisse. Teria saudades daquele lugar, assim como agora tinha saudades de Chico Preto, do Tobias, Espiridião, Valentim e de Maria. Seria bom voltar, para casa, assim como foi bom encontrar estes amigos, meio que por acaso. Amanhã estaria no trem, de volta a Goiás.

Um pouco mais sóbrio, ele se levantou, chamando os amigos para voltar ao hotel. Andavam juntos, ainda animados pela bebida, quando…

 

Por acaso estavam virados para o Forte de Copacabana, quando ouviram a gigantesca explosão. A princípio não conseguiram perceber o que acontecera e, por instinto, Juvêncio se jogou no chão. O bairro inteiro acordou. As luzes dos quartos da Avenida Atlântica acenderam-se quase simultaneamente. Cachorros latiam em uníssono, vários homens se debruçavam das janelas tentando entender o que acontecia.

– Mas que… – Pedro terminou a frase com um palavrão.

– Não sei, não sei, foi uma explosão.

– Veio do Forte? – Era Onésimo que perguntava.

Os três lembraram ao mesmo tempo do amigo Antônio. Correram em direção ao forte o mais rápido que podiam.

Foi apenas uma explosão, depois o silêncio. Nenhum sinal de incêndio ou de acidente, nada de fumaça que justificasse o barulho. A princípio, nenhum dos três amigos percebeu que estavam prestes a ver a História ser escrita.

 

Dentro do forte, Antônio, ou melhor dizendo, o tenente Siqueira Campos, ouvia com atenção, observando o relógio de bolso, ao lado do canhão de artilharia. Em sua sala, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do ex-presidente Hermes da Fonseca e comandante do Forte, também ouvia atento. Esperavam um sinal.

As ordens tinham sido dadas, o forte estava cercado de trincheiras recém-escavadas, onde os soldados bem municiados esperavam as próximas ordens. As areias estavam cheias de minas. Os minutos passavam e todos estavam tensos. Nenhum som, nenhuma resposta.

 

Os amigos pensaram primeiro em um acidente. Talvez alguém tivesse disparado o canhão por acaso, ou explodido uma das bombas da artilharia. Dizem que isso já tinha acontecido antes. Porém, minutos depois, quando chegaram ao forte, foram surpreendidos pelo grande aparato militar montado na praia. Armas engatilhadas se voltaram para eles.

Foram os primeiros civis a chegar. Momentos depois vieram vários outros, principalmente curiosos. De dentro da trincheira, um soldado gritou:

– Alto, quem vem lá?

Sem pensar, Onésimo respondeu:

– Amigos do tenente Siqueira Campos.

Seguiu-se um breve momento de silêncio, onde os soldados conversaram entre si.

– O que está acontecendo? Houve um acidente? – gritou Juvêncio.

Os soldados sorriram. Um deles, em outra trincheira, gritou:

– É a revolução! – e seguindo este grito, altos brados de ordem foram entoados pelos soldados. Alguns civis responderam entusiasmados, outros entreolharam-se, surpresos, e voltaram às suas casas.

Finalmente veio uma resposta:

– O tenente Siqueira Campos está ocupado agora, na sala de canhões.

– Pois diga a ele que há um gaúcho aqui querendo se juntar a ele! – a esta afirmação, vários soldados bradaram, entusiasmos. Sem nem pensar, Juvêncio respondeu:

– E diga que há um goiano aqui também, disposto a morrer!

E os soldados foram à loucura!

Quando olharam para os lados, Pedro Emilio havia sumido.

 

De sua sala, o capitão Hermes da Fonseca ouviu o barulho e foi correndo ver o que estava acontecendo, quando viu os dois jovens imprudentes, perigosamente próximos do campo minado.

– Alto! O que é isso? – perguntou.

– Viemos nos juntar ao tenente Siqueira Campos!

– E quem são vocês?

– Eu sou Onésimo Lisboa, gaúcho, filho do deputado Aleixo Lisboa, que lutou na revolução federalista do Rio Grande do Sul e neto de Júlio Lisboa, revolucionário farroupilha e comandante na Guerra do Paraguai. Vim para lutar.

– E o seu amigo?

– Sou Juvêncio Pitanga, goiano.

O capitão Hermes da Fonseca tinha ouvido fala de Juvêncio Pitanga, na noite anterior, pelo próprio tenente Siqueira Campos e ficara impressionado. Não pensava que ele fosse tão jovem. Além disso, Aleixo Lisboa era amigo de seu pai e tinha assinado uma carta pedindo, com outros parlamentares, a imediata soltura do Marechal. O avô dele e o seu haviam lutado juntos no Paraguai. Mesmo assim, estava indeciso se devia arriscar a vida de civis neste conflito.

Foi quando houve a segunda explosão. Mesmo com tudo planejado, era assustador e excitante ouvir o canhão trabalhando. Isso significava que o tempo já havia passado e que ninguém mais respondera. Estavam sozinhos, os outros destacamentos não haviam se insurgido. Eram bons soldados e, afinal de contas, era para o povo que estavam lutando. Nada mais justo que o povo participasse. Mandou um soldado guiá-los para dentro das trincheiras e municiá-los. Ambos estavam na revolução.

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