Pedro Demo

Pedro Demo

– Que é de Pedro?

– Que Pedro, muié?

– O Pedro, irmão de Malaquias?

– E cumé qu’eu vô sabê?

– Andei sonhando cum ele.

– Arre! – e o velho Tobias cospiu barulhentamente no chão, um misto de fumo mascado e catarro. O velho tinha tuberculose há muitos anos – Faz tempo que ele foi pro norte, pro Garimpo. Quem vai pro garimpo num vorta não, Zuleide!

– Arre! Meu coração tá apertado. Alguma coisa deve de tê havido cum Pedro.

– Se há de haver, haverá. Que nossa sinhora se cumpadeça deste menino.

E o Pedro corria a trote solto. Era noite, a mata fechada, mas ele tinha pressa. O cerrado em noites sem lua é assustador. As árvores tortas pareciam braços imensos de almas penadas querendo levar a gente pro inferno. Pedro Demo se benzeu. Era preciso chegar rápido e em segurança. O cavalo, muito suado pela trote resfolegava alto. Lágrimas frias rolavam pelo rosto áspero do mulato. Seria tarde, meu Deus? Quanto tempo ainda restaria?

O cavalo tropeçou num tronco caído no caminho, assustando cavaleiro e cavalo. Pedro rolou várias vezes antes de cair no chão, de bruços, a boca cheia de terra, o corpo maltratado de feridas. Respirava forte, revolvendo a terra vermelha. De sua testa saía um filete de sangue grosso. A alguns metros dali, o cavalo gritava desesperdado, tentando ficar de pé. Só quem viu um cavalo assim consegue imaginar a dor imensa que o cavalo demonstrava. Relinchos agudos, súplices, cortando a noite escura de um céu sem estrelas. Pedro virou-se e olhou para cima. Nuvens grossas anunciavam que a chuva vinha, depois de mais de dois meses. Pedro respirava forte, tremia. Não era dor, era impotência. Então estava tudo consumado, agora ele não podia fazer nada.

Pedro sentou-se, olhou para o cavalo. Olhos nos olhos. O cavalo estava deitado no chão, entregue. Ainda relinchava, mas sem forças. Uma imensa poça de sangue cobria o chão em volta dele. Pedro arrastou-se até ele e colocou sua cabeça sobre o colo. Olhos nos olhos. Pedro acariciava a crina do amigo, observando aquela triste cena.

– Sabe amigo? Agora eu preferia ser você… Seria mais fácil.

Olhos nos olhos. O cavalo sabia, era como se pedisse desculpas. Agora era muito tarde, tudo estava consumado.

Pedro deu um tiro na cabeça do cavalo, entre os olhos. Depois da bala, o silêncio da noite no cerrado. E Pedro começou a chorar, fraco, sozinho. Gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite.

Agora era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos, olhos nos olhos. E Pedro apontou o revólver para a própria cabeça. E gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite. Respirou fundo, olhou para o horizonte e apertou o gatilho.

– E como era o sonho?

Tobias olhava para os olhos vazios da velha. Ela era cega e ele tinha um prazer imenso em ver aqueles olhos azuis, inexpressivos, olhando para não sei onde.

– Era São Migué. Eu sei pruquê me alembro dele lá da Igreja do Pilar. Ele desceu do céu e tinha uma grande espada que cortava o chão, por onde Pedro tava passando. O menino ia tão aperreado… Era escuro, eu não vi muito. Só lembro do choro sentido dele e depois o silêncio.

– Cumé que tu sabe que era ele? Tu nunca viu o Pedro!

– Era ele sim, tenho certeza. Pedro irmão do Malaquias.

Pedro abriu os olhos. Estava vivo ainda? Ele não se lembrava de ter ouvido o barulho do tiro. Olhou para o revólver: o cão estava travado. Será que nem para morrer ele servia?

E a chuva veio forte e insesperada, tomando tudo de uma vez. Pedro jogou o revólver longe e bateu os dois punhos no chão. A noite era iluminada pelos clarões dos relâmpagos cortando a noite.

– E o que aconteceu depois?

– Aí caiu uma grande chuva. São Migué mandou um monte de truvão que clareô tudo. E Pedro ainda chorava.

Tobias tossiu forte. A velha levantou para bater-lhe as costas. Ele estava muito vermelho, meio sufocado. Depois de uns instantes ele consegiu se recompor, tomou um gole de água.

– Tô mió! Quero saber o fim do sonho.

Pedro deitou-se de costas. As gotas grossas de água lavavam as feridas em seu corpo. Era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos. E ele lembrou-se da menina de olhos claros que ele tinha visto em Pilar anos antes. Pedro sorria e ela também. Mas era tarde, tudo estava consumado.

– Arre! Quem tá aí quieto no meio da chuva? Tá tudo certo?

Pedro não viu o carro de boi chegando. Era João da Farinha que estava atravessando com carga para Pilar.

– Pedro! Que há contigo?

– Aí que apareceu Jesus e eu acordei.

– São João?

– São João Evangelista ou São João Batista?

– O Batista.

– Ah, então Pedro tá bem, num tinha que se preocupar, véia. São João Batista é o santo da mãe dele. Proteje eles até em sonho.

João da Farinha desceu e ajudou o amigo a subir a carroça. Sentou o ao seu lado. Pedro continuava muito calado. João não fez qualquer pergunta. Viu o cavalo morto no chão, a cara do amigo. Andar de cavalo ali, no meio da noite, só podia ser coisa muito séria.

– Ocê passou por Crixás?

– Passei sim, faz pouco mais de hora – respondeu João.

– E tá tudo certo lá?

– É, tá, agora tá.

– Ué, que tinha acontecido?

– Teve uma confusão danada lá. O velho Tarcísio morreu.

– Morreu?

– Morreu, morte morrida. Teve um piripaque, caiu durinho. Foi hoje à tarde. Enterraram hoje mesmo. Eu fui lá assistir, por isso tô voltando agora, no meio da noite. Teu irmão mandou lembranças procê.

Pedro sorriu docemente. O velho Tarcísio era o dono do garimpo onde ele trabalhava. Ele ia matar o Malaquias se a dívida de Pedro não fosse paga hoje. Ela estava indo pra lá justamente para evitar que isso acontecesse. A notícia ainda não tinha chegado em Pilar.

– Só não entendo uma coisa. A última coisa que ele disse foi São Migué! Estranho, né?

– Estranho.

E ambos se benzeram e seguiram silenciosos o resto do caminho.

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3 Respostas to “Pedro Demo”

  1. Ma Says:

    Excelente texto!

  2. Darlana Says:

    Viva Viva viva!!!!!

  3. Menina Eva Says:

    Uaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, parece até literatura! 😀

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