Faroeste – parte 1

Arimatéia e Florinda começavam a ficar preocupados quando viram duas pessoas virem na sua direção. Já passava do meio-dia e eles Arimatéia e Florinda tinham sido vistos por várias pessoas que passavam por ali, indo e voltando da Cidade de Goiás. Não era mais seguro continuar por ali, ambos sabiam.

De longe Arimatéia reconheceu o pai, que andava ao lado de uma senhora negra. Só podia ser ela. Maria…

***********

Laurentino levantou por volta do meio-dia, acordado pela Filoca, dona da pensão. Almoçou tranqüilamente e saiu para ver o movimento na rua. Passou pela igreja matriz, as pontes em torno do rio Vermelho. Era uma bonita cidade, sem dúvida, e que ele visitava com pouca freqüência.

O povo goiano era predominantemente simples, gente pobre, principalmente negros e mestiços. Carregavam baldes d’água, sacos de cereais, tijolos etc. Goiás era uma cidade em movimento. Alguns poucos habitantes estavam da sacada de suas casas, olhando o movimento. Laurentino foi rapidamente acordado de seus devaneios.

– Sinhozim Laurentino Pitanga, a que devo a graça da vossa presença? – era o Coronel Pedro Miranda que tinha-no avistado de dentro de sua carruagem – Como vai o compadre Juvêncio?

– Ora, que bom vê-lo. O senhor sabe das novidades da Imperatriz?

Laurentino entrou na carruagem e pôs-se a conversar com ele, animadamente.

****

Arimatéia estava visivelmente emocionado, mas não se movia. Sentia uma grande vontade de abraçar aquela mulher negra, mas ao mesmo tempo se sentia contido. Maria disse.

– Bonito o sinhô. Um homem de verdade. Graças a Deus nosso sinhô… – Depois, falando aos outros – Cês são tudo meus convidado pro armoço.

Juvêncio sabia que era arriscado continuar andando por aquela cidade sem proteção. Precisava encontrar-se com o Coronel Pedro Miranda o quanto antes, pois não sabia se tinham sido seguidos até ali. Mas seu coração estava balançado. Maria continuava atraente, envolvente, forte. Depois de todos estes anos ele ainda era incapaz de seguir a razão perto daquela mulher. Era paixão, aquele fogo que queima a gente e deixa de lado o entendimento. Por causa disso que ele não pôde deixar de segui-la.

Maria morava numa parte mais afastada da cidade, onde predominavam casas baixas de pau-a-pique e sem caiamento, telhados de palha. O esgoto passava por uma calha cavada na rua. Podiam ver muitos garotos de todos os tamanhos correndo pelos matos ali perto.

A casa de Maria era muito simples com apenas dois cômodos, uma cozinha e um quarto. Maria dormia numa cama velha de madeira, coberta apenas com alguns panos. Havia poucos móveis, panelas gastas e sujas de fuligem penduradas nas paredes, além de um velho fogão de lenha e um oratório de Santa Luzia, todo enegrecido pela fumaça das velas.

O almoço estava pronto: angu e peixe, tirado ali da beira do rio.

– Nhá Maria, nóis tava tudo preocupado cocê! Demorô! Sua bença… – era o Bonfim.

– Deus te abençoe, meu fio! Fique com a graça de nosso sinhô. Ocês se achegue. A comida é simples, mas é muito boa.

E os visitantes almoçaram. Arimatéia, por si mesmo quase que não se cabia de tão contente. Era o primeiro almoço dele com a mãe.

*****

Laurentino e Pedro Miranda estavam na casa deste, numa sala grande, com vista para a praça da Matriz.

– E o senhor só teve notícia disso através dessa carta?

– Exatamente coronel. Estou muito preocupado com o que pode ter acontecido com meu pai. Arimatéia é um bom homem, um dos melhores peões da Imperatriz, gente de confiança. O problema é a menina, pois ela é uma Andrade. Não podemos confiar nela. Como o senhor sabe, ela quem teve a idéia de seqüestrar meu pai.

O coronel fumava um cachimbo fedorento, fazendo bolas de fumaça com a boca. Ele tinha uma barba longa e encaracolada, cabelos grisalhos que denunciavam seus muitos anos.

– Este estado é muito grande. A peonada da Imperatriz também deve estar atrás dele, sem muito sucesso, pelo visto. Notícia ruim corre depressa.

– Conheço a longa amizade dos senhores, imaginei que talvez ele pudesse ter vindo procurá-lo.

– Não. Tive notícias difusas sobre isso. Todos sabem que seu pai foi seqüestrado, a notícia correu rapidamente, mas ninguém sabe nada de concreto. Temos apenas de rezar para os capangas do Andrade já não terem encontrado ele. Quanto ao senhor, não saia daqui por enquanto. Vou mandar buscar suas coisas na pensão da Filoca. Providenciarei uma escolta para que o senhor chegue em segurança à Imperatriz. Além disso, ficarei de olho nos desconhecidos que chegarem à cidade. Temos de ter todo o cuidado possível.

*****

– É a Cidade de Goiás!

Os peões da Cascavel comemoravam em altos brados. Tinham chegado cedo, era perto das três horas da tarde. Montaram acampamento a mando de Tenório, que juntou dois peões e seguiu para a cidade. Precisavam saber se Juvêncio tinha mesmo ido para lá. Para isso, precisava encontrar a mucama Maria…

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6 Respostas to “Faroeste – parte 1”

  1. Ma Says:

    Ui!

  2. Claudia Lyra Says:

    O título tá me trazendo um mau pressentimento… tá…não só o título… essa coisa de todo mundo estar se encontrando aí na cidade de Goiás tá me cheirando a muito sangue derramado…

  3. Ane Brasil Says:

    vixe, menino, que saudade!!!
    Passei dias sem internet, e , pra minha surpresa, na volta a coisa andou..
    mas eu continuo agoniada!
    Que fim terá Arimatéia e Florinda?
    Apressa com isso, rapá!
    Sorte e saúde pra todos!

  4. Aline Lima Says:

    Estou ansiosa pela continuação!!! Bjus

  5. André Says:

    Oi Poeta, valeu pela visita no meu blog. Quando tiver mais tempo, leio suas crônicas do vale da morte. Mas desde já, seu blog está linkado lá no “A Volta…”.

    Abraços,

  6. Sarah K Says:

    Eita ferro, o negócio tá ficando feio hein??!!!
    Eu continuo atrasada, mas firme, rs.

    E o livro, quando sai?! Rsss

    beijos
    😉

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