A Mucama

Juvêncio tentou parecer incógnito, mas era difícil um homem como ele, branco e bem vestido, não ser notado naquela igreja onde predominavam os pobres. Recendia no ar um cheiro forte de suor, misturado com o das velas que queimavam incessantemente. Fazia calor, apesar de ser dezembro.
No burburinho da igreja os fiéis rezavam silenciosos. Cada um com sua prece, sua cruz, buscando uma forma de arrepender-se dos seus pecados. Pecado… A preta Maria estava tão perto dele e isso trouxe à tona uma série de lembranças do passado. Ajoelhou-se como um cristão que era e rezou solitário. Talvez só com Deus, Juvêncio Pitanga se permitisse pensar na vida assim, arrepender-se, lembrar de tudo o que ele tinha feito no passado. Na igreja todos era iguais, pecadores, tentando seguir os mandamentos de Cristo. Enquanto rezava ele ouvia a voz fina e dolora de uma viúva: véu negro, vestido velho, mas bem cortado, rosto entristecido. “No céu/ no céu/ Com minha mãe estarei…”.
A missa começou. No cântico de entrada o padre veio trazendo uma pequena procissão de coroinhas, carregando a cruz e os paramentos. Juvêncio decidiu esperar até o fim da missa para falar com Maria. Fazia tempo que ele precisava encontar-se com Deus.

******************
Arimatéia estava visivelmente irritado. O pai tinha saído do acampamento sem dizer nada. Ele não fazia idéia do que o velho poderia estar aprontando. Sabia que não devia confiar nele. Teve vontade de fugir com Florinda, esquecer e seguir sua vida. Porém, havia naquela cidade algo que não podia nem ser adiado, nem esquecido: a mãe. Devia dar um crédito ao pai por todos estes dias. Esperaria ali com Florinda.
Fez um pouco de café numa caneca e adoçou com rapadura, dando para ela. Comeram alguns biscoitos duros que tinham trazido de Pilar de Goiás. Olharam-se nos olhos. Eram desconhecidos um para o outro, ele sabia. O medo de Arimatéia voltou. “Que vida um vaqueiro poderia dar a esta mulher, meu Deus?”
Como se lesse seus pensamentos, Florinda colocou sua mão sobre a dele, num gesto de ternura. Ele pôs a mão no queixo dela para que pudesse olhar melhor seus olhos.
– Arrependida?
– Nem um pouco…
Beijaram-se sofregamente, como se um tentasse convencer o outro a não escapar, nunca.
**********************
Laurentino estava chegando na Cidade de Goiás. Era preciso ser cauteloso, ele não podia ter certeza se os Andrade sabiam que ele estava voltando dos estudos no Rio de Janeiro. Não podia dar-se o luxo de ser pego desprevenido. Até então, não tinha se aproximado de nenhum companheiro de viagem e carregava sempre o revólver na cintura para não ser incomodado.
Goiás era uma das últimas paradas antes de finalmente chegar em casa. Morria de saudades da mãe, da fazenda, dos peões da Imperatriz, do gado, de banhar-se no Rio São Patrício. Saudades imensas daquele vale enorme, do povo simples, sua terra. Agora faltava bem pouco. Para estar perto de tudo isso…
A manhã estava bonita, olhava para aquelas árvores retorcidas do cerrado, mares de morros sem fim, cobertos de árvores espalhadas, cupinzeiros que apareciam no meio do mato.
Pensava no que teria de fazer dali para frente. A guerra com os Andrade tinha recomeçado. Era preciso pôr um fim nisso. Nem ele, nem o pai, muito menos Ezequiel tiveram a ilusão de que o casamento com Florinda pudesse selar a paz. Maluquice do Padre Cézar, ele bem sabia. Não que Florinda não o interessasse…
Mulher decidida, sabia que ela tinha enfrentado os cabras da Imperatriz, nua em pelo, pego seu pai e levado como refém. Devia ser uma mulher e tanto esta menina com nome de flor. Só não entendia como tinha começado essa história dela com o Arimatéia, como eles se encontravam, se apaixonaram. Principalmente, não entendia o que ela tinha visto naquele vaqueiro simplório. Uma menina branca, sinhá, cria da Cascavel, deitando com aquele mestiço, preto. Pensar nisso lhe dava nojo.
Eram dez horas quando ele chegou à cidade. Rumou para a pensão de D. Filoca, antiga conhecida dele, pegou um quarto, tirou as botas e dormiu tranqüilamente. Era preciso sossegar seus pensamentos. Laurentino precisaria mostrar que homem ele tinha se tornado, em breve…
**********
A missa tinha acabado. Os fiéis se benziam e iam para suas casas. Juvêncio apressou-se em chegar perto de Maria.
– O que qué vassuncê com Maria? – Era um preto enorme, voz arrastada, braços largos.
– Tenho um assunto pra tratar com ela de grande importância.
– Ocê vai tê de falá com eu primeiro. Se o assunto interessa a ela, vai interessá a mim tumém.
O negro cruzou os braços em frente ao corpo. Juvêncio viu-se cercado por seis outros negros que ele desconhecia. Estava começando a achar que essa não tinha sido uma boa idéia. Tentou pegar a arma, mas logo foi parado por um dos homens. Braços seguros, Juvêncio foi rapidamente dominado.
– Agora diz aqui pra eu, pra modi eu ‘scutá bem direito. Quié que ocê qué com Maria? – Os olhos dele pareciam querer fuzilá-lo. Juvêncio suava, mas tentava manter o juízo. Quando o negro chegou bem perto ele lhe desferiu um chute entre as pernas, desvencilhando dos dois pretos que o seguravam.
– Ora, mas nem! Aqui é Juvêncio Pitanga e eu não aceito ordem de preto! Se o assunto é entre mim e Maria, não há quem tenha nada a ver com isso.
O levantou-se do chão feito um tigre. Juvêncio desviou da primeira investida.
– Pitanga nóis tem de colhê é do pé! Vou te mostrá a força do Nêgo Bonfim…
– Pare, Bonfim. Dêxa eu falá com o sinhô da Imperatriz. Se o hôme veio de longe, lá das banda de Pilar, e num trôxe meia dúzia de capanga é que o assunto deve de sê muito sério. Dêxe que ieu me arresovo com ele.
– Mas D. Maria…
– Dêxe de mulecage, lazarento dos inferno. Já falei que ieu trato com ele e ponto finar. E o sinhô, seu Juvêncio, vem comigo que pelo visto nóis tem muito pra prosear.
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Juvêncio seguiu a preta por algum tempo, até que entraram numa venda antiga, cheia de badulaques.
– Arre, d. Lindoca, bom dia procê!
– Bom dia, d. Maria. Hoje tem bolo de fubá!
– Intão vai ser fubá mesmo. E o sinhô seu Juvêncio, que vai querê?
– Nada não, agradecido.
Deixaram a mulher da venda desaparecer no fundo da loja. Juvêncio olhou para a preta que estava ao seu lado. A mesma mulher decidida, o mesmo ar de superioridade, de quem não aceita seguir ordem de ninguém. Mulher e tanto…
– Qual é o assunto, inhô Juvêncio?
– Teu filho Arimatéia. Trouxe ele pra lhe ver.
Maria suspirou profundamente. Os olhos vazios ficaram por um longo tempo perdidos, olhando para o vazio.

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Caros, desculpem o silêncio de rádio…

A coisa tá feia, irmãos, mas as crônicas continuarão…

Abraços a todos

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3 Respostas to “A Mucama”

  1. Marília Says:

    Ui!!!
    Ela foi encontrada!!!

  2. Claudia Lyra Says:

    Não pára!!!! Quero tanto ver esse encontro de mãe e filho!

  3. Sarah K Says:

    E eu tb sumi, tô atrasada na leitura da saga … mas me atualizo se deus quiser.
    Emoção de sobre hoje neste post … ai meu coração!

    bjs
    😉

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