Perseguição III

Goiás, 1923

Os três galoparam em silêncio por três dias. Atravessaram córregos e rios, andaram por planícies compridas, chapadões perigosos e, principalmente por mares de morros baixos, cobertos de árvores retorcidas do cerrado. Eram acompanhados de perto pelos barulhos familiares de socós, seriemas, catitus, veados e dezenas de outros animais. Esta fauna, muito mais rica do que hoje em dia, servia de alimento para os viajantes, assim como diversas frutas que encontravam pelo caminho, como jatobás, ingás, etc.

Andavam pelo meio do mato pois temiam que, indo pela estrada, pudessem ser encontrados pelos jagunços, tanto dos Andrade como dos Pitanga. Arimatéia e Florinda não foram ingênuos de acreditar terem seqüestrado Juvêncio fosse empecilho para que continuassem sendo perseguidos.

Na noite do terceiro dia, sob um céu estrelado de lua nova, Arimatéia foi o responsável por quebrar o silêncio, enquanto Florinda dormia, extenuada da viagem.

– Você me chamou de filho… Naquele dia, na beira do córrego, me chamou de filho.

Juvêncio permaneceu calado. Mexia no seu bigodes e pitava um cigarro de palha que tinha acabado de fazer. Esse silêncio fez Arimatéia, conhecido pela sua serenidade, explodir em fúria.

– Porque isso? Você nunca admitiu que tivesse dormido com minha mãe! Nunca me deu um só palavra de amor, carinho! Agora vem me chamar de filho!

– É isso que você é, não? – Juvêncio continuava calmo, deliciando-se com o cigarro. – Sabe, Arimatéia, quer dizer, filho, quando a gente é jovem faz muita coisa no impulso. Eu desejava muito sua mãe, mas já era casado com Leontina há cinco anos. Maria, sua mãe era bonita, envolvente e nunca tinha cedido a meus caprichos. Leontina que trouxe Maria com ela, quando nos casamos e me deu um filho que nasceu morto. Um filho homem, um Pitanga que eu sonhava que ia acabar de vez com a guerra com os Andrade. Chamei ele de Miguel de propósito, pois queria que ele fizesse que nem o Arcanjo São Miguel, levando os Andrade pro inferno. Mas Deus não quis dar esse destino pra ele. Deus é sábio, filho, sangue só traz mais sangue. A gente não consegue paz com guerra.

– E foi nesse dia – Juvêncio continuou – que tomei sua mãe pela primeira vez, contra a vontade dela. – Arimatéia fez menção de se levantar, mas Juvêncio levantou a mão, pedindo que ele esperasse. – Não foi exatamente isso que você fez com a filha do Andrade? Como disse, quando a gente é jovem faz coisas sem pensar. Me arrependo muito de ter feito o que fiz, não nego. Além disso, fiquei apaixonado por sua mãe, cego de desejo. Em todos esses anos, desde que cuido da Imperatriz, a única vez que chorei foi no dia em que tomei sua mãe. Eu estava disposto a largar tudo a fazenda, a guerra, minha esposa, tudo pra ficar com uma preta, filha de escravos do Rio de Janeiro. Ela me negou, me esnobou totalmente, dia após dia, mês após mês. E foi quando descobri que ela estava grávida de você.

Arimatéia começou a chorar. Pensava no sofrimento da mãe, preta, sem ter com quem dividir toda aquela angústia.

– Me enchi de fúria, pensei que ela me evitava pois estava com outro homem. Nunca me passou pela cabeça que o filho pudesse ser meu. Enxotei-a de casa.

Foi a vez das lágrimas saírem dos olhos de Juvêncio.

– Eu só queria que alguém me amasse. – a voz continuava seca, sem emoção – Queria que fosse ela. Na minha vida inteira ninguém nunca me amou de verdade. Nem a Leontina jamais disse que me amava. E, quando sua mãe foi embora levando você na barriga, eu me senti sozinho como nunca. Procurei ela por todos os lados, corri o sertão com meus cabras atrás dela, sem nenhum sinal. Até que me falaram de uma preta bonita que tinha chegado grávida em Crixás.

– Chegando lá, depois de dias, você tinha nascido. Eu tomei você dos braços de sua mãe, ainda muito pequeno. Ela nem chorou, nem implorou por você. Eu te trouxe de raiva! Deus nunca vai me perdoar! Levar o filho de alguém por raiva…

Juvêncio colocou as mãos entre os olhos e chorou novamente, do mesmo jeito que tinha feito no dia em que Miguel morreu. Soluçava que nem criança.

– A vontade que tenho é de lhe matar! Mas você não merece nem o meu desprezo, seu desalmado.

Juvêncio conteve a emoção e olhou para Arimatéia, tranqüilamente.

– Deixe-me tentar reparar um pouco dos meus erros. Não por mim, filho, mas por você. Sei que estamos indo para Pirenópolis, conheço bem o caminho para lá. Melhor seria ir para Crixás de Goiás. Tenho negócios por lá, posso arranjar dinheiro para que vocês dois construam uma vida nova em outro lugar. E podemos encontrar sua mãe.

– Eu nunca tive nada seu! Porque você acha que vou querer ter o seu dinheiro?

– Eu sei o que você pensa nas noites. Sei que olha para esta mulher e pensa em como você vai conseguir dar a ela tudo o que ela merece. Não aceite o dinheiro por você e sim por ela. Quando a gente é jovem tem esse orgulho besta de quem não sabe que todo mundo sempre dependeu de alguém. Nesse mundo, Arimatéia, o dinheiro fala mais alto que cor de pele, que passado. Dinheiro compra até o silêndio das pessoas. E, além disso, você é meu filho. Deixe-me cuidar de você, mesmo que agora seja tarde demais para conseguir o teu perdão.

– Eu mereço morrer, filho, por tudo o que fiz. Mas você também merece por ter roubado a filha do Andrade, nós dois sabemos disso. Sua vida pela minha. Meu dinheiro pelo seu passado. É uma troca justa.

Os dois abraçaram-se longamente. Juvêncio se sentia muito mais leve. Todos estes anos se arrependendo de ter feito essas coisas. Deus tinha dado a ele a chance de mostrar que podia ser uma pessoa melhor. Ele sabia que não merecia, sabia de todos os seus pecados, mas mesmo assim tinha recebido uma segunda chance. Faria tudo para não desperdiçá-la

Arimatéia secou as lágrimas com o braço e disse:

– Vamos a Crixás…

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5 Respostas to “Perseguição III”

  1. poetamatematico Says:

    Então, pessoas…

    Sei que estão todos interessados em saber da história do Arimatéia, mas eu estou caminhando em duas frentes. Sem Maria Lúcia, em pouco tempo a história deixa de fazer sentido…

    Se der tudo certo, logo logo vocês vão querer saber da história dela…

    Abraços e obrigado por todos os comentários…

  2. Claudia Lyra Says:

    Ai, Deus… a menina dos Andrade é mais macho do que esses dois aí… hauhauhauahua…

  3. Marília Says:

    Ah… curti esse “re-encontro” entre pai e filho!

  4. Sarah K Says:

    Puxa Poeta, vc devia publicar um livro … vc tem material para isto, dá prá ver do jeito que vc escreve … conhece.

    Ok, continue com Maria Lúcia, ou como quiser, o importante é não parar, rs.

    Recebi seu mail e vou tentar continuar no mesmo pique.

    Ah, hoje escrevi no *idéias*… queria que vc lesse … algo prá descontarir.

    😉
    bjs

  5. Ane Brasil Says:

    Tá bom demais da conta, cara!
    Tô aqui chorando junto com pai e filho na volta da fogueira.
    E eu sem quem é Maria Lúcia.
    Sorte e saúde pra todos!

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