Maria Lúcia II

Maria Lúcia II

Brasília, 1997

Aquele encontro fortuito teve um efeito transformador sobre Maria Lúcia. Lucas havia falado muitas verdades sobre ela, verdades dolorosas, sem dúvida, e que ficaram martelando na cabeça dela por meses. Ela queria reencontrá-lo, mesmo sem saber exatamente porquê. Era uma necessidade inexplicável, uma obsessão.

Será que ela estaria apaixonada? Esta possibilidade lhe parecia ridícula. Não era nada racional pensar que poderia se apaixonar por alguém assim, tão fácil. Era mais um desejo forte de rever, de tocar, de sentir. O problema é que a ausência dele estava tornado tudo isso cada vez mais forte.

O menino misterioso não deixou nada para que fosse encontrado: telefone, endereço, qualquer pista sobre seu paradeiro. Só sabia que ele morava na Ceilândia. Claro, Maria Lúcia soube logo que a Ceilândia é a maior de todas as cidades-satélite de Brasília, com mais de 300 mil moradores. As chances de achar um Lucas, irmão mais novo de Mateus e Marcos, eram mínimas.

Diziam também que era um lugar perigoso, de gente pobre, muito diferente da Asa Norte. Mas isso não impedia que Maria Lúcia olhasse para os itinerários dos ônibus para a Ceilândia e imaginasse que talvez Lucas ou alguém que o conhecesse estivesse num deles.

Apesar disso, Maria Lúcia não voltou a sentir a mesma solidão de antes. Ela permanecia ali, desconcertante, mas não doía mais. As palavras de Lucas tinham-na libertado de um jeito misterioso, como se fossem uma revelação. Aquela cidade era a solidão, não se podia evitá-la. Ao contrário, poderia se aprender a conviver com ela. Aí, não era mais uma solidão avassaladora e terrível, era uma solidão carinhosa, acolhedora, solidão de céu azul.

E os dias de Maria Lúcia eram outros. Ela descobriu a música, a suavidade do toque dos acordes quando ferem os ouvidos. Descobriu Beatles por acaso, ao ouvir “With you Whitout you” no rádio e não conseguiu mais parar de sentir os acordes indianos, deitada de olhos fechados no seu quarto.

E a isso se sucedeu uma série de outras bandas. Seu sangue fervia ao ouvir Wonderwall, do Oasis, gritava as músicas do The Best of U2, chorava com Blur, viajava ao som de Nevermind do Nirvana e de Ten de Pearl Jam. Vieram muitos outros: Sex Pistols, The Cure, Doors, Police, Alanis e Janis; Legião, Plebe Rude e Capital Inicial; Titãs, Cazuza e João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Dormia acalantada pela voz sexy do Chico ou pela sonoridade grotesca de Caetano Veloso. Às vezes chorava baixinho ao som da guitarra de Hendrix, pois era menina e podia chorar. Era tanto som, era tanta música batendo nas paredes que a casa, o quarto, o mundo pareciam pular, saltar da quietude e balançar a percepção.

A solidão de Brasília era sonora, musical. Uma solidão que grita com o vento de concreto, como se as almas dos índios mortos do cerrado cantassem um mantra eterno, que ecoava pelas paredes dos edifícios. Cada parte da cidade, cada rua, cada avenida tinha um som particular, de metrópole e cidadezinha do interior ao mesmo tempo. Cada bar, cada tipo estranho andando pela rua, numa cidade do mundo, cercada de embaixadas, era um som, um solo de guitarra, uma batida ritmada de percussão.

E os primeiros meses do ano se passaram. Maria Lúcia e a música eram uma só. Agora, mais do que nunca, ela entendia o que Lucas queria dizer. O mundo era som também, era toque, era cheiro. E ela queria experimentar cada parte do mundo, viajar, sentir no rosto o vento empoeirado das estradas. Queria sugar do mundo toda energia e virtude. Queria o gosto verdadeiro, original e único, não a visão pasteurizada dos comerciais de televisão.

E começara suas andanças solitárias por Brasília. O Parque Olhos d’Água, depois o Parque da Cidade (ela amava a rua dos eucaliptos, parecia tanto a Austrália!) a Torre de TV, a praça dos três poderes, o sossego do Lago Paranoá, tão tranqüilo que nem parecia ser real, parecia sonho.

Maria Lúcia também não estava mais sozinha. Tinha muitos amigos, em toda parte. Malu Carioca, Maluzinha, Lua, Mary, LuLu, eram tantos apelidos que lhe davam. Eram tantas Malu’s que existiam numa só! Maria Lúcia se dividia entre festas, bares, noites de fogueira olhando o céu de estrelas que parecia maior que a noite.

Era outra Maria Lúcia e gostava disso. Nem sabia, mas estava se tornando mulher, forte. Mas, para isso era preciso mudar muito, era preciso tempo. Principalmente, era preciso encontrar-se com seu destino. E isso aconteceu num dia comum, um despretensioso 24 de Agosto.

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5 Respostas to “Maria Lúcia II”

  1. Ane Brasil Says:

    “eu vou me embora eu vou ver Maria Lúcia
    Tá em tempo de a gente se casar”…
    Gostei.
    E a perseguição?
    E Arimatéia e sua amada?
    Sorte e saúde pra todos!

  2. Sarah K Says:

    Isso me lembrou o “Legião” …. Maria Lúcia, rs.

    É impressão minha, ou o fim volta ao começo? Adoro estórias assim…
    Agora eu quero saber o que vai acontecer com Arimatéia hein, rs … conta logo sô!!!!!

    😛
    bjs

  3. Claudia Lyra Says:

    Ah, Maria Lúcia aprendeu rápido!!! Ou foi Lucas que se mostrou excelente professor?

  4. Marília Says:

    Gostei disso!

  5. ana p. Says:

    EU podia jurar que já tinha comentado este… ou foi com vc na janela do MSN???

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