Perseguição II

 

Goiás, 1923

 

O Arimatéia tinha percebido a movimentação, mas era tarde. Tinha deixado a espingarda longe e quando viu já estava cercado e nu.

– Corre, Florinda! Corre!

Não deu tempo de mais nada. A jovem, nua como tinha vindo ao mundo, também foi cercada pelos homens de Juvêncio.

– Pegamos os dois bem na hora! – a tropa caiu em gargalhadas – Será que deu tempo do Arimatéia fazer carinho na menina?

Florinda começou a chorar. Os cabras olharam pro Juvêncio, esperando alguma ordem. “Uma menina ainda, meu Deus!”, era o que ele pensava. Realmente, a morena devia ter seus dezesseis anos e tremia que nem vara verde. O quê ele ia fazer nessa situação? Aqueles homens rudes tinham muitas contas a acertar com os Andrade. Perigava deles também quererem “fazer carinho” na menina.

Ela tentava se cobrir com as mãos, sem muito sucesso.

– Seu Juvêncio, eu lhe imploro! Faz o que quiser comigo, me mata, me arrasta até a Imperatriz no seu cavalo. Pode até mandar seus capangas me sangrarem, um a um. Mas não faz nada com o meu Arimatéia. Ele não tem culpa, fui eu que pedi pra fugir com ele. Eu prefiro passar o resto da minha vida sofrendo na Cascavel, sozinha, aceito até casar com seu filho, que eu não amo, mas por favor, não o mate.

Arimatéia, coitado, estava já amarrado num buritizeiro do lado do córrego.

– Pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas, Florinda! Se você morre, eu também morro! É melhor a gente morrer aqui, os dois juntos do que viver o resto da vida separados. – falando agora para Juvêncio – Seu Juvêncio, faça o que tem de fazer, acabe logo comigo. Eu sou um imprestável, filho de uma preta velha. Se lhe virei as costas foi porque meu coração não me permitia outra coisa. O sinhô já amou, seu Juvêncio? Se já amou o senhor me entende. Eu não podia fazer outra coisa, eu não podia mais viver assim. Sei que foi loucura…

Foi interrompido por um soco que lhe feriu a face, proferido pelo Tonico.

– Isso lá é jeito de falar com Seu Juvêncio? Deixa eu capar esse filho de uma puta!

Juvêncio tirou a espingarda do ombro lentamente, engatilhou e acertou um tiro certeiro, no ombro esquerdo de Tonico, deixando a cabroada silenciosa e assustada. Depois disso, recarregou com outro cartucho, mirando nos testículos do cabra, que gemia no chão.

– Puta é a tua mãe, seu desgraçado. Filho meu ninguém sangra! – as palavras saíram com ódio. Tonico estava branco e protegia a matula com a mão. – É, acho que não tenho mira… Gildásio, arranca a roupa desse traste. Quanto à senhora – falando para Florinda enquanto desapeava – arrume um jeito de se cobrir.

– Tem piedade seu Juvêncio! Quanto tempo faz que eu tô trabalhando com o senhor? – Tonico tentava se soltar, mas era inútil. O Gildásio e mais dois cabras seguravam-no com força. Abaixaram as calças dele até os joelhos.

– Tanto tempo e ainda não aprendeu que eu odeio quem fica pedindo piedade? Odeio homem covarde. Tá vendo ali? – virou a cara dele pro Arimatéia – Filho meu. Tá vendo ele implorar pela vida? Ele implora é pela morte, pois sabe que com honra não se brinca e ele desonrou a filha do Andrade – Juvêncio tirou da cinta a faca com cabo de osso que ele usava pra picar fumo. O Tonico tentava se desvencilhar a todo custo – Tu acha que eu tenho cara de quem deita com puta? Covarde a gente corta, não dá tiro. A gente sangra que é pra sofrer bastante.

Os peões estavam assustados. Nunca viram o patrão fazer uma coisa dessas. Sangrar um ajudante assim, com a própria mão? Nunca tinha feito isso nem com um Andrade. Se bem que o Tonico tinha exagerado. Todo mundo bem sabia que Arimatéia era filho de Juvêncio. Sugerir capar o filho do patrão? Mas também era maldade capar o cabra assim, com faca cega. Tonico chorava, balbuciando coisas sem sentido.

– Parem com isso, agora!

Florinda tinha voltado, ainda nua, mas com a espingarda do Arimatéia na mão, apontada pro Pitanga. Na confusão, todos tinham se esquecido dela.

– Todo mundo deitando no chão, menos o Pitanga.

Juvêncio sorria. Agora podia olhar bem para a menina. Era mesmo uma Andrade, esperta como o cão, olhos de onça, respiração alterada de quem está disposta a tudo. Ele ficou imaginando o que daria misturar Andrade com Pitanga. Jogo perigoso esse.

– O senhor sorri muito pra quem vai morrer.

– Se eu morrer mesmo…

– Desamarre o Arimatéia. E não pense em fazer nenhuma besteira que quem me ensinou a atirar foi meu pai.

Ela nem tremia. Nem parecia com a menina que implorara pela vida do namorado minutos antes. Tampouco Juvêncio demonstrava qualquer preocupação. Continuava com a faca com cabo de osso na mão. Com um movimento certeiro, cortou a corda que segurava Arimatéia, deixando-o livre. Ele pegou uma outra espingarda no chão, apontando para os cabras da Imperatriz. Florinda disse:

– O senhor vai com a gente, seu Juvêncio. E é o seguinte, se qualquer um do grupo dos Pitanga ou dos Andrade seguir a gente, o Juvêncio morre. Falem isso com meu pai. E agora, monte no seu cavalo, rápido. – Arimatéia amarrou as mãos do pai na cangalha, depois foi se vestir.

– Quanto ao senhor, seu Tonico, agradeça a mim por ainda ser homem. Se bem que com essa coisinha aí, nem sei se pode se chamar de homem mesmo. – Florinda soltou uma risada alta. Ninguém mais riu.

Ela se vestiu rapidamente. Depois disso, Florinda e Arimatéia pegaram os melhores cavalos e se embrenharam no mato, levando o Juvêncio e todas as armas dos peões.

– E agora, o que a gente faz? – Era o Gildásio que perguntava.

– O jeito é voltar pra Imperatriz. E você, Tonico, suma daqui e não apareça nunca mais…

O Tonico levantou as calças e saiu correndo no mato. Os outros homens voltaram rapidamente na direção contrária, putos de raiva. Tinham sido enganados por uma menina… A filha do Andrade…

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3 Respostas to “Perseguição II”

  1. Ane Brasil Says:

    Eita!
    Gostei dessa menina!
    Cara, isso aqui tá cada vez melhor!
    parabéns, meu bruxo!

  2. Marília Says:

    Ui!
    Ainda bem que ela agiu a tempo!

  3. Sarah K Says:

    Ai, adorei .. muito, muito.
    Está muito bom… prende e dá vontade de saber como tudo isso vai terminar.
    Vc é ótimo nesse estilo!

    😉
    bjs

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