Perseguição

Goiás, 1923

O grupo de Juvêncio ia muito na frente, no encalço do casal de fugitivos. Arimatéia tinha levado a filha do Ezequiel. Nunca tinha desconfiado dessa história de amor entre eles. Quanto tempo fazia? Como tinha começado essa loucura? Agora Juvêncio só pensava neles fugindo que nem cães nesse mato brabo. O Arimatéia era esperto, bom rapaz e que sabia andar naquela região de olhos fechados.

Por outro lado, estava com a menina. Filha prendada, criada na sede da Cascavel, quase nunca saía da barra da saia da mãe. Ela não ia aguentar essa correria por muito tempo. Pensando assim, talvez fosse questão de horas até que eles fossem encontrados e essa caçada acabasse.

E o que deveria fazer quando isso acontecesse? Sangrar o menino, era caso de morte. Ninguém desonrava o prefeito Andrade desse jeito. Além do mais, ele não queria começar outra guerra. Agora o Andrade tinha muitos amigos poderosos, influentes, até na capital. Ele não queria a polícia no seu encalço. Não havia jeito, ia ter de matar o Arimatéia.

E a menina? Filha única do Ezequiel. Era uma oportunidade de ouro. Dificilmente ela aceitaria o casamento com o Laurentino, de qualquer maneira. Se ela simplesmente sumisse…

Mas não, matar mulher assim, não. Ele não chegaria a tanto. Ele não queria chegar a tanto.

**********

– Amor, vamos!

Ela o achava tão bonito, tão especial em sua simplicidade. Aquela fuga foi o único jeito, a única chance de viver ao lado do homem que ela havia escolhido para si. Seu homem, era isso que ela ficava repetindo dentro da sua cabeça. Seu homem, Arimatéia. Que importava se fosse mestiço? Que importava se fosse ou não filho do sacripanta do Juvêncio. Estavam ali, seguindo o seu destino, fugindo por amor, fazendo aquilo que sei coração achava certo.

Os dois fugiam a todo galope pelo meio do cerradão. Só ele pra conseguir saber para onde estavam indo agora, onde estavam. Ela estava totalmente perdida, mas se sentia segura, apaixonada. Ele parou.

– Vamos parar por aqui. Os cavalos precisam beber e o próximo córrego está longe. Também vejo que você está bem cansada.

– Precisamos fugir, amor, pra longe, antes que nos encontrem.

Florinda teve um desejo enorme de beijá-lo. Não ouvia nada, simplesmente se perdia em observar a boca de Arimatéia. Ele percebeu isso. Entreolharam-se. Os corpos ardiam de desejo.

Ele levantou-se, andou até o córrego e enfiou a cabeça na água para esfriar os pensamentos. Precisava ser forte. Conhecia um padre em Pirenópolis que poderia casá-los e então aquela mulher seria definitivamente sua. Antes disso, teria de suportar a tentação. Florinda era uma menina direita, não merecia ser deitada no meio do mato como fazem com qualquer cabrita. Ele a amava, bem sabia disso. Só com muito amor para fazerem um loucura dessas.

Ela estava ali, bem próxima. Podia sentir o seu cheiro, imaginar o toque suave da pele. Menina rica, acostumada com o luxo da Cascavel. O que ele poderia lhe dar? Como ele teria conseguido convencê-la a fugir com ele por estes matos fechados? Loucura, ele bem sabia. Mas era a única coisa que seu coração lhe permitia fazer.

– Não…

A palavra veio mais como uma súplica que ordem. Florinda, muito próxima, o calor da respiração, as mãos dela que percorriam seus braços. Isso era irresistível. Arimatéia sucumbiu.

***************

– Patrão, eles entraram por aqui.

O negro Tibúrcio trazia um pedaço de pano branco. Era do vestido da menina, sem dúvida. Estava enrolado num galho de jatobá. Estavam perto, podia sentir. Por isso mesmo Juvêncio precisava decidir logo o que fazer. Mas ele sabia, diabos. Tinha de matar o Arimatéia. Mas o padre estava certo. Era seu filho, seu filho. Fruto do amor dele por Maria. Se ele fugia com a menina era só por ser sangue de seu sangue, um Pitanga não faria diferente. Não podia culpar o menino por isso.

******************

– Maria…

O cheiro da preta estava misturado com o do café. Que horas seriam? O sol já ia alto no céu. Ele ficou olhando pros bicos dos peitos dela, bem escuros e arrebitados pela brisa da manhã. Ela não tinha dito uma só palavra, um gemido em toda a noite. Ele sentia um certo remorso. Não era de tomar as mulheres assim, mas ele se sentia tão fraco, tão inseguro. Queria o calor de uma mulher, pra lhe fazer esquecer a dor.

Tinha acabado de enterrar seu primeiro filho, recém-nascido. Chamava-o de Miguel. Morreu no parto, tão tranqüilo no seu caixãozinho, parecia que dormia.

– Vida ingrata! Vida ingrata!

Começou a chorar, que nem menino. Chorava que tremia, rolando no chão, totalmente esquecido da mucama, nua, ali a seu lado. Era muita dor no coração. Aquela guerra com os Andrade não ia acabar nunca? Tantos mortos e ele conhecia cada um pelo nome. Tantos…

E o menino ali, sozinho, os vermes comendo a carne dele embaixo da terra. Ele não tinha culpa! Não tinha!

– O sinhô tem de ir ver sua esposa. Não tá certo o marido dela sumir assim, a noite toda.

Ele sentiu o ódio na voz dela. Ódio. Todos o temiam. Será que ninguém era capaz de amá-lo? Era o que ele precisava, apenas isso. Deitou-se no colo da negra, sentindo o cheiro de suor que exalava de suas pernas. Era o colo da mãe que ele queria, mas ela jazia morta, há muito tempo. Morreu de pé, lutando contra os Andrade. Quanto tempo demoraria pra ele morrer também? Teria coragem de morrer de pé, que nem sua mãe?

E ele beijou a negra, com volúpia, na marra. Ela não retribuiu o beijo, mantendo-se arredia. Ele se encheu de ódio, ameaçando bater nela.

– Agora é isso? Vai bater também? Não basta me possuir à força?

Ele abaixou o braço e secou as lágrimas.

– Vista-se e me encontre mais tarde na Imperatriz.

**********

– Ali, do lado do córrego!

Juvêncio foi trazido de volta dos seus devaneios. Tinham achado seu filho. Arimatéia…

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5 Respostas to “Perseguição”

  1. Ane Brasil Says:

    Puxa! que coisa! de tirar o fôlego!
    Fantástico.
    Tô ansiosa pra ver a continuação dessa perseguição.
    E aí, tá melhor?
    Sorte e saúde pra todos!

  2. Sarah K Says:

    Ai meu Deus … não quero que ele mate o Arimatéia não …
    😦
    Tá ótimo … Vc sabe fazer isso!

    bjs Poeta
    😉
    (vou te mandar um e-mail)

  3. Marília Says:

    Uia! A história tá esquentando!

    rsrsrsrs

    vc não viu nada ainda…

    PS: Mas vc tava com dengue, é? Vixe!

    Puzé, acontece…

  4. Diogo Says:

    Oi meu amado filhão, eu já gosto do mocinho. Eu realmente estou torcendo para que ele não morra.

    É, veremos…

    É difícil ele não morrer…

    O Senhor te abençoe e te guarde. Bjs.

  5. Aline Lima Says:

    Seus contos são sempre deliciosos… parabéns! bjos

    Deliciosos são seus textos.

    alineol.wordpress.com

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