Ezequiel Andrade

Apesar do interesse do padre César em informá-lo, já não era necessário. O Coronel Ezequiel Andrade já sabia muito bem de tudo, pois soubera do desaparecimento da filha por um seu que viera da fazenda informá-lo. Já tinha, inclusive, tomado suas providências, mandando ordens para o Tenório, negro velho de confiança e filho do antigo feitor de escravos, correr no encalço da fugitiva, trazendo-a mesmo que fosse arrastada. E essa agora?

Rumou imediatamente para a Fazenda Cascavel, averiguar o que tinha acontecido. Encontrou a mulher, Isabel, aos prantos, batendo no peito e falando coisas desconexas. Tomou-a pelos braços e a pôs na cama.

– É nossa filhinha, Ezequiel, a única que me restou! Ela foi embora sem nem se despedir. Deus do céu, que desgraça, que desgraça…

O Coronel Ezequiel Andrade era um homem corpulento, que ostentava uma grossa barba negra e que falava com uma voz garbosa de tenor.

– Deixe de besteira, mulher! Pare de chorar, temos de pensar com serenidade…

– Ela deixou um bilhete!

Ezequiel leu o pequeno papel amassado e molhado das lágrimas. Falava sobre fugir para seguir seu amor. Quem seria esse moleque? Agora que Florinda ia se casar com Laurentino, fugir assim? Isso não ia acabar bem. Ele sabia que a filha não aprovava este casamento arranjado. Na verdade nem ele. Dar sua filha querida ao filho do cretino que matara seu filho Teotônio…

Mas não era mais possível ter orgulho. Ele estava disposto a pôr um fim naquela matança absurda. Mais de cinqüenta anos de mortes em ambos os lados das famílias, antes inclusive de Ezequiel nascer. Sentiu cada uma das mortes de seus entes queridos: tios, primos, irmãos, até o próprio pai que morreu muito cedo, deixando com ele a responsabildade de tocar a fazenda, abandonar os estudos de direito. Quando viu o próprio e amado filho, em quem ele depositava todas as suas esperanças, morto, com o rosto desfigurado pela bala que o atingira, decidiu que era hora de colocar um fim nisso.

Ele tinha o direito da vingança, ninguém duvidava disso. Laurentino Pitanga era seu, sua vida pela de seu filho. Mas ele decidiu não se vingar. Decidiu engolir o orgulho e negociar com o próprio Juvêncio, chefe do clã Pitanga, o fim das hostilidades. Aquele casamento arranjado era o ponto final, o pacto de sangue que uniria Imperatriz e Cascavel, acabando com as desavenças para sempre.

Mas e essa agora? Quem seria? Seja quem for, deveria pagar com o sangue, disso Ezequiel não tinha dúvidas.

Seus pensamentos foram abandonados por ouvir o trote de um cavalo que chegava depressa. Foi para a porta para receber o visitante. Era o negro Tenório, acompanhado do Tibério, capataz da Imperatriz.

– Ainda não achamos o rastro da menina, coronel, mas temos novidades.

– Sim – A voz do capataz da Imperatriz era forte, carregada – Sabemos quem levou sua filha. Foi o Arimatéia.

“Arimatéia? Aquele mestiço? Filho do Pitanga com a mucama Maria?”

– Arrume meu cavalo. Eu vou pessoalmente caçar esse desgraçado. Vamos trazê-lo nem que seja arrastado.

– O seu Juvêncio já está chefiando um grupo para a busca.

– Arrumaremos outro. Quero esse infeliz! Vamos…

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5 Respostas to “Ezequiel Andrade”

  1. Claudia Lyra Says:

    Poxa… Maria Lúcia tá uma coisa de doido! A menina mimadinha abriu os olhos à força e foi lindo de ver. E essa história aqui de Pimenta e Andrade… hum… quer fazer o favor de continuar logo com ela?!? Que coisa… deixa a gente curiosa…

  2. Marília Says:

    Quase Romeu e Julieta, hein?

    PS: Acho que tô meio perdida: essa parte da história é de seus antepassados ou é só ficção?

  3. Ane Brasil Says:

    Caraca, rapá, quanta coisa!
    Li tudo de uma toada só!
    Tô interessada em saber o final dessa saga familiar!
    Ah, e muito bom o “Maria Lúcia”
    Caramba, tenho que voltar aqui mais seguido!
    Sorte e saúde pra todos!

  4. Aline Lima Says:

    Como sempre, belo texto meu amigo!

  5. Urban Says:

    Parece que a disputa e tensão não abandona essas famílias…
    Bom … tou aqui curiosa prá saber o final.

    Desapareci de tudo, ando cheia de ocupações, mas qdo dá apareço prá escrever e ler os amigos.
    Vim te ver!

    xêro e beijo (das duas, rs)

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