Padre César

Vila de Bom Jesus dos Pretos, Goiás, 1923

O Padre César tava num aperreio só e por isso andava de um lado pro outro pela sacristia. A notícia que ele tinha acabado de receber era braba e ele não podia dividir com ninguém. Parou na frente da imagem de Jesus crucificado e se ajoelhou, mas não conseguiu rezar. O que seria daquele povo sofrido, meu Deus? Agora que a vila estava dando certo, que a paróquia estava erguida, bonita, comparável até à de Pilar?

– A dona Mocinha quer saber se o senhor vai continuar fazendo confissão. – era o Severino, o sacristão da igreja. O padre nem olho pra ele, mandando-o ir embora com um gesto. O sacristão, como não obteve resposta, continuou esperando.

– Hoje não, fale que estou ocupado.

Dona Mocinha que esperasse. Ora, dona Mocinha! O que menos importava agora eram aquelas beatas mexeriqueiras. Elas que continuassem com o palavrório. Já fazia tempo que ele pensava em falar nisso no sermão de domingo.

O problema que ele tinha de resolver era caso de vida ou morte. Notícia assim séria, não podia esperar nem mais um minuto. Colocou o chapéu, ajeitou a batina preta e subiu no cavalo, sem dar explicações ao Severino sobre sua saída súbita.

O caminho era comprido até a fazenda Imperatriz. Era preciso ir a galope pra voltar antes do fim do dia. Saiu levantando poeira. Nem viu o seu Lúcio, dono da venda lhe mandando um aceno.

– O padre velho tá numa agonia que parece que viu o diabo!

Enquanto isso, o padre remoía o que estava escrito no bilhete que acabara de ler. Tanto tempo ali naquela paróquia! Quantos anos eram, quinze? Desessete, agora bem se lembrava. Tanto tempo tentando conseguir uma paz duradoura entre os Pitanga e os Andrade e agora tudo podia ir pelos ares. Faltava tão pouco, estava tudo tão perto! Deus não ia deixar uma desgraça assim acontecer.

Atravessou com pressa o regato, a água molhou a barra de sua batina, mas ele nem percebeu, de tão absorto nos pensamentos. Aquele casamento seria a solução de tudo, ele bem sabia. Se Laurentino, filho único de seu Juvêncio Pitanga, e a Florinda, mais velha dos Andrade, se casassem, aquela guerra que já durava duas gerações se acabava de vez, Imperatriz e Cascavel seriam uma fazenda só, terminando com a disputa entre as famílias.

De certa forma, eles já estavam em paz. Quantos anos que não tinha morte? Seis, desde que mataram o Teotônio Andrade, numa emboscada na Rua das Camélias não tinha entrevero com morte. “Basta só um enlace, meu Senhor Jesus, me livra dessa agonia!”

Avistou de longe a colina que separava as fazendas. Faltava pouco agora, era tudo ou nada. Ele já via a sede da Imperatriz, toda branca, com as pilastras pintadas de azul. O cavalo ofegava da corrida até ali.

– Se apeie, seu Padre! – era a Isabel, mucama da sinhá Veroca. Uma negrinha marrom, com as ancas arredondadas e sorriso branco, muito bem formada de corpo.

– Mande chamar o seu Juvêncio Pitanga. Fale pra ele que é coisa urgente.

A negra entrou, aperreada. Ele desceu do cavalo, pediu pro moleque levá-lo pra tomar uma água. O Juvêncio veio recebê-lo pessoalmente na varanda da casa.

– Que traz o padre aqui nesse fogo? Parece que vai terminar o mundo!

– E é como se fosse acabar, seu Juvêncio.

– Então a coisa é séria, vamos pro meu escritório. Lá a gente pode conversar melhor.

O padre entrou meio ressabiado. Estava todo coberto de poeira. Quando o seu Juvêncio ofereceu a cadeira pra sentar ele recusou, contrariado. Escritório! Devia ser coisa do Laurentino essa idéia de escritório. Aquilo era só uma saleta reservada com uma mesa pra receber as visitas.

– Pois bem, seu padre, qual é o motivo dessa pressa toda em me ver? – Juvêncio acendeu um cigarro de palha, soltando fumaça pelo ambiente. O padre, muito nervoso, resolveu ir direto ao assunto.

– Então, seu Juvêncio. Acabo de receber um bilhete secreto de gente de confiança. Eu vim aqui evitar uma desgraça.

Mostrou o bilhete pro seu Juvêncio. Ele pegou, curioso e leu com dificuldade as palavras. Nunca teve paciência de ir pra escola, preferia passar o seu tempo lidando com o gado da Imperatriz. Enquanto decifrava as palavras o rosto dele transformou-se, de curiosidade para cólera.

– Não pode ser!

– Já disse que veio de gente de confiança. Agora a coisa já está feita. Não tem como voltar atrás. O que o senhor tem de ter serenidade para compreender e perdoar o que le te fez.

– O seu padre me desculpe, mas ninguém, nem o senhor, diz o que eu tenho ou não tenho de fazer. Ele me traiu, não me deixou escolha. Agora ele precisa de uma lição pra nunca mais esquecer.

– Não é correto isso, seu Juvêncio. Haja com a cabeça! Imagine o barulho que uma morte dessa vai dar!

– Ele é peão meu, cria da Imperatriz, gente minha! Não pode sair por aí fazendo o que bem entende…

– Ele é seu filho! – O padre bateu na mesa, irritado. Percebendo que tinha se exaltado, ele tentou se conter – todo mundo sabe do seu chamego pela mãe dele. Ela é preta, sim, há que se lembrar disso, mas o senhor e eu sabemos que ele é seu filho! Seu Juvêncio, matar um filho é um pecado grande demais pra ser perdoado por Deus…

– Eu dou um jeito de me entender com Deus. Agora o senhor me deixe que tenho de tomar minhas providências. – Juvêncio foi empurrando o padre até a porta.

– Seu Juvêncio, olhe, o senhor tem uma escolha. Ele é menino ainda, é jovem. Esses meninos erram, fazem as coisas sem pensar… – Juvêncio não ouviu o resto das coisas que o padre disse. Fechou a porta, apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa, abriu a pequena gaveta sob a mesa e pegou seu revólver.

O padre, por seu lado, viu que continuar ali era inútil. Ele também precisava tomar suas providências. Tinha de rumar para a prefeitura de Pilar agora mesmo. O Coronel Ezequiel Andrade também precisava ser informado da gravidade da situação. Ele era um homem estudado, conhecia o mundo, talvez agisse com um pouco mais de prudência….

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4 Respostas to “Padre César”

  1. Manu Says:

    Ainda num comecei a entender…quem sabe na próxima…

    🙂

  2. ana p. Says:

    Mas assim, o mais importante pra mim é: o que dizia o bilhete, colega????

    hahahahahahahahahahaha!

    Melhorou bastante a história, e continuo achando que sua prosa tá boa pra caralho!

  3. Claudia Lyra Says:

    Bom… imagino que o bilhete trazia a notícia que um Pitanga casou com uma Andrade… eu acho… Mas tá mesmo muito bom.

  4. Marília Says:

    Menino… tô aguardando as cenas do próximo capítulo!

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