O Velho Pitanga

O Velho Pitanga

Município de Pilar de Goiás, 1953

O velho Pitanga subia vagarosamente pelas estradas pra Pilar. Pitava um cachimbo velho, que soltava uma fumaça muito preta por onde passava, deixando um cheiro azedo característico. O Vazante, velho que nem o mundo, andava tão lerdo que parecia que ia arribar nas curvas da estradinha empoeirada. Cavalo que já foi bom, bonito, agora guardava um restinho do brilho que tivera no passado.

O passado do Velho Pitanga era assim, brilhante. Não era que nem agora, vestido com aqueles trapos sujos que mal tapavam o corpo. O cavalo, na sela velha, o pé calçado de chinelas encardidas, na cabeça um chapéu de palha todo estropiado. Nada era desse jeito.

O Velho Pitanga foi importante, mas quando a desgraça o alcançou foi de repente. Não teve jeito, nem reza que segurasse. Pobre do Pitanga, ainda se lembrava do choro da mulher, já de idade, quando encontrou os filhos mortos no quintal da Imperatriz. O menino mais novo dava dó, os olhos abertos de susto, a boquinha cheia de sangue coagulado. Ele tinha nove anos e se chamava Juvêncio. Morreu também o mais velho, Luís. A menina, Marilúcia, ninguém soube o paradeiro.

A fazenda Imperatriz, bonita que ela só, tava toda destruída. A casa grande incendiada, o curral com as porteiras arreganhadas, as reses minguadas que sobraram davam dó. Os meninos, valentes que nem eles, devem ter resistido na unha, no dente porque os Pitanga eram machos, ninguém duvidava disso.

Por ali mesmo, sob o pé de aroeira, o Pitanga ajuntou os cabras que tinham escoltado ele pra capital e mandou que se enterrasse os meninos ali, depois de mandar chamar o padre pra encomendar os defuntos. Ele se remoía de raiva. Tinha de ter sido o Calixto. Mandou matar os meninos e levou o gado pra terra dele pra parecer que tinha sido roubo.

Aquilo não ia ficar assim. Desde muito tempo, quando os bizavós dos dois tinham se estabelecido nesta terra, no meio do Goiás, pra caçar ouro nas minas, que eles se engalfinhavam por causa desses palmos de chão perdido no mundo.

Os filhos todos mortos. Os dois homens e a filha desaparecida. Deve estar sofrendo o horror na pele dos capangas do Calixto. Pitanga não era homem bom, nem santo. Tinha lá suas mortes no meio dos Calixtos. Mas atraiçoar assim, matando criança? Era covardia, e isso ele não aceitava. Homem que é homem briga de frente, na unha. Não espera o chefe do clã sair pra acabar com o que é do outro.

Esfriar o sangue pra vingar? Nada! O ódio do Pitanga era tão grande que ele não teve nem luto. Juntou a caboclada, que também tava mordida da empreitada e prepararam o contra-golpe. Não ia ser assim não, na covardia. Ia ser frente a frente.

As armas carregadas, os soldados já sabendo como ia ser, cada um preparado pra morrer pelo Pitanga, homem de bem, mas de pavio curto. Cortaram a cerca que separava as duas fazendas, invadiram de dia mesmo, pra botar medo, e saíram correndo na direção da sede da Fazenda Cascavel.

Os homens do Calixto assustados, correram pra sede da fazenda. O Pitanga, subido no vazante, deu o tiro que abriu o foguetório. Tava bonito de se ver. O arsenal do Pitanga dava inveja em destacamento de exército de tão bem servido. O tiroteio comeu a noite toda. Os homens do Calixto resistiram bravamente e o Pitanga montando o cerco com tudo o que tinha.

Depois, no entardecer do segundo dia, apareceu uma bandeira branca. Será que o sacripanta do Calixto se rendia? Saiu de lá o capataz da fazenda, Severino Preto, com uma proposta pro Pitanga. Deixasse o velho sair que ele mostrava onde tinham enterrado a filha dele, pra ela ter um enterro cristão.

O Pitanga nem se aguentou de tanta raiva, furou o Severino Preto ali mesmo com uma faca cega e desceu com a cabocada, pulando as cercas na direção da casa grande. Foi um tiroteio de dar gosto. O Pitanga correndo no vazante, com uma tocha na mão, ao entardecer, os fuzis comendo solto por ali, um e outro caindo no chão, baleados.

Deu até pra imaginar a cara do Calixto. A casa pegando fogo, todo mundo lá dentro gritando de horror, e os homens do Pitanga do lado de fora, cercando a casa pra ninguém sair. Morreu todo mundo lá dentro, queimado. Só se salvou o menino Dioclécio filho do Calixto e mudo de nascença, que tinha ido consultar longe.

Vingado. O Calixto, a mulher, as filhas, os genros e os dois filhos, além da capangada toda foi embora num entrevero só. Restou o pirralho mudinho. Se dependesse dele, não por muito tempo.

A raiva estava passando, hora de contar os mortos. Eles cobraram caro essa derrota. Dos vinte homens que foram pra luta, só sobraram sete, todos em boas condições. O próprio Pitanga saiu ferido no braço. Não dava pra terminar o serviço agora. Mas deixe estar, o mudinho uma hora aparecia.

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5 Respostas to “O Velho Pitanga”

  1. Marília Says:

    Nossa, que horror!
    E isso era bem comum naquela época (aida deve ser até hoje pelo interiorzão…).

    São parentes seus ou não?

  2. ana p. Says:

    Eu vi a criação dessa história, e que caralhos, fiquei imaginando cena a cena… e como eu disse, camarada, vc tá mandando bem pra caralho no quesito prosa. Parabéns!

  3. Claudia Lyra Says:

    Deus do céu, que horror!!! Mas tá bem escrito pacas. Cara, tá um texto enxuto, sem muita enrolação. Eita, tu tá ficando bom pacas nisso, né não?

  4. Manu Says:

    Homi…Tenho orgulho de você!
    Como as meninas disseram anteriormene, seu texto está enxuto e instigante!
    Realmente um texto e tanto!
    Claro que dolorido…pois dá pra sentir a dor do cabra…

    😥

  5. neutron Says:

    Ficou muito bom mesmo… tem jeito daqueles contos que são apresentados na Cultura. Rápidos e com uma história forte…

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