Amores Brutos – Parte 2 de 2

Ceilândia, 1997

 

Havia um rapaz chamado David. Cabelo raspado, o uniforme impecavelmente limpo, a mochila jeans gasta pelo uso e sua imensa solidão que o precedia. David era silencioso até nos passos. Não discutia, não falava com ninguém. Ficava parado em sua cadeira olhando o vazio. Não era um aluno bom, nem ruim. Passava sempre nas matérias, mas não fazia trabalhos em grupo. Não se misturava com ninguém…

Todos os que tentavam falar com ele se decepcionavam. Era arredio, sorumbático. Olhos profundos e penetrantes substituiam as palavras. Ele dava medo, às vezes. Mas eu tinha pena, muita pena, dele. Eu olhava para ele e me via, via minha tristeza. O olhar profundo me lembrava de meu próprio desespero, de todos os gritos de socorro que eu tinha dado nos dois anos anteriores e ninguém tinha ouvido.

De vez em quando, no intervalo, eu não saía. Era quando eu me sentia triste. Ficava também como ele, olhando para o quadro negro, vendo significado por trás das palavras. Esperava um gesto dele, uma abertura para que eu me aproximasse. Um comentário sequer que significasse um desejo de ajuda. Nada. David era tão solitário nas suas idéias que se tornava impenetrável. E então aparecia um amigo meu, com alguma coisa interessante para fazer e David ficava ali, sozinho na sala vazia. Não adiantava chamá-lo, David ficaria na sua solidão de cemitério.

Num destes dias a garota que eu amava me chamou para ir com ela à lanchonete, só pra passar o tempo. Ela sentia minha tristeza. Queria me oferecer o braço para que eu saísse. Receei um pouco, mas disse que sim. Quando eu me levantava, o Ricardo chegou, com sua gangue.

– Aí, vamo dançar com o carequinha hoje!

– Carequinha! Carequinha!

Eram quatro ou cinco e puxaram o garoto da cadeira, levantando-o do chão. Jogavam-no para um lado e para o outro, empurrando para que batesse nas carteiras. Foi quando o Ricardo disse:

– Segura aí o Carequinha! Vamo dançar balé!

– Como balé, pô! A gente é macho, tá estranhando?

– Vamo dançar sim. Vai ser o quebra-nozes.

– Huahuhuahuahuahuahua! Quebra-nozes, quebra-nozes!

A sala se encheu rapidamente. Alguém ficou na porta pra evitar que o bedel chegasse e acabasse com a farra.

– Vamo ensinar esse povo a dançar balé!

Dois seguravam o David pelos braços. Ricardo puxou a cueca de David por trás, fazendo com que ele ficasse na ponta dos pés, por causa da dor.

– Ah, ele tá de ponta! Parece uma bailarina! Bailarina Carequinha!

Doía em mim aquilo tudo. Podia ser eu. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia como. No auge do desespero, eu me mexi para ir em direção deles. Ela segurou meu braço. Desvencilhei-me.

– Pára com isso, caralho! Tá machucando ele! Larga o muleque!

– Que foi? A namoradinha do carequinha quer dançar também?

Risos generalizados.

– Pega ele também.

Eu tava cercado. Soltaram o David e vieram na minha direção. Eram três contra um. Nenhum dos meus amigos estava perto. Nem podia correr pela porta, pois estava fechada. Um deles me segurou pelo braço. Puxei com força para me libertar dele.

– Se não for o quebra-nozes vai ser o balé do bilau! Você quem sabe.

– Porra de bilau o caralho. Vá pro diabo que o carregue.

– Briga! Briga! Briga!

– Ah que eu te soco a cara, seu muleque!

– Vai ter de passar por cima de mim!

Silêncio. Era a voz do Wagner. Ele era um monstro, quinze anos e já tinha mais de um metro e oitenta. Era forte como um touro.

– Que tal um três contra três? – Wagner socava um punho contra a mão aberta e estalava os dedos. Todos sabiam da força dele. Não sei donde ele tinha aparecido para me ajudar. Tensão na sala. Todos estava curiosos pra saber onde isso tudo ia parar. Wagner nunca tinha entrado numa briga. O David veio e ficou do nosso lado.

– Bando de bichinha! Vão ficar por trás do montanhão? – Ricardo riu sozinho. Ninguém mais achou graça. Wagner deu um passo em sua direção. Os olhos de Ricardo exalavam medo.

– Quem é montanhão e quem é bichinha?

O sinal tocou, alto e forte. Ninguém se movia.

– O sinal te salvou dessa vez. – Ricardo e sua gangue saíram da sala. Suspirei profundamente. As pernas bamberam, eu estava todo suado, morrendo de medo.

– Se eles mexerem contigo de novo tu fala comigo. Faz tempo que eu quero dar uma lição nessa cambada. – Wagner foi se sentar na cadeira dele, no fundo da sala. David se sentou na sua cadeira, do lado da porta, de onde ele podia ver o mundo lá fora, o sol.

A menina me puxou pelo braço. Não sei se o olhar dela era de repulsa ou admiração. O fato é que eu era sortudo pra burro. Antes de sentar eu ainda pude ver como, pela primeira vez, o David sorria. E ninguém entendeu quando ele começou a gargalhar convulsivamente na aula de matemática.

 

 

 

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5 Respostas to “Amores Brutos – Parte 2 de 2”

  1. Raquel Says:

    Oiê vamos aproveitar para se ver antes da minha ida!

    Estou indo viajar para Espanha e, nem sei quando volto…
    Sendo assim, estou fazendo uma despedidazinha, simples porem gostaria que comparecesse…
    Será no dia 01 de Março, as 10:30PM no Notre Dame Bar, entretanto para a reserva de mesa preciso da confirmação de todos…me responda o mais rápido possível confirmando a presença, tá?
    Apesar de o recado ser coletivo, acredito que todos aqui sabem que são importantes para mim, por terem feito parte da minha historia de vida, espero poder contar com a presença de todos galera, porque estou convidando apenas as pessoas que tenho especial carinho e amizade… e que em momentos bons e ruins me deram uma força, me ajudaram, me ouviram e me deixaram ter o prazer de tê-l@s como amig@s
    Em anexo coloco o site do Bar e endereço.
    Estou aguardando confirmação beijokas!!!!
    Raquel
    SITE: http://www.notredamebar.com.br/
    Av. Helio Pellegrino, 1170 – Moema

  2. neutron Says:

    Esse Ricardo era cretino, hein?

    Queria saber porque a gente precisa topar com tantos Ricardos na vida…

  3. Claudia Lyra Says:

    Eita… sempre rola essas chatisses na escola, né não? E olha que frequentei escola há muuiiitooo tempo atrás!

    Ps – meu Lucas tem 15 anos e 1,86m de altura… ele também causa medo nos coleguinhas, hauahauhauahuahaua… mas ele é de paz, graças a Deus! 🙂

  4. Marília Says:

    Putz! Sortudo mesmo!

    Que malas, hein? Pior que toda turma tem os seus malas…

  5. Patrícia Costa Says:

    Ei… meu deu uma vontade de ser amiga do David tb.. rsrs
    beijoss

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