Amores Brutos – Parte 1 de 2


 

Ceilândia, 1997.

 

A minha mudança pessoal foi abrupta no ano de 1997. Como, felizmente, minha depressão foi embora no fim do ano anterior, meu mundo foi bem mais interessante. Só quem tem depressão sabe como é difícil passar por ela. Todos os nossos esforços em conseguir sair, lutar, são em vão. Parece que tudo é ilusório, tudo é doloroso.

Muitos amigos me ajudaram a sair disso e serei eternamente grato por isso. Dentre eles, lembro do Glauber, do Leandro, do Alex, da Cris. Gente que mesmo sem saber acabou me dando força pra sair de um período de profunda melancolia que já durava quase dois anos. E, aos doze anos, no meio da explosão de hormônios característica deste período, eu começava a oitava série.

O ano era novo, morava numa casa nova, longe da expansão do Setor O – mas ainda na Ceilândia – muito maior, mais iluminada e feliz. O clima de intensa novidade deste ano me deu um otimismo que acabou me fazendo ficar mais próximo dos meus amigos. Foi o ano que aprendi a jogar truco, que eu via revista de mulher pelada no intervalo, que eu pulava o muro do colégio pra jogar futebol. Até no judô foi um ano de vitórias em campeonatos, as últimas antes de ferrar com o joelho.

Também foi o ano de meu segundo amor.

Bem, não sei se posso considerar isso um amor de fato. Era mais aquela coisa de criança, de querer ficar junto de uma pessoa, de fazer tudo junto, de ficar louco quando a gente segura na mão. De ficar pensando no cheiro do cabelo, de se preocupar com a pessoa, de fazer e sentir ciúmes. Ela era sempre minha parceira no truco, a gente estava junto nos trabalhos de escola. Mas nunca passou disso, muito por culpa minha.

Eu sempre soube que era recíproco. Quer dizer, eu acho. Pelo menos não quero acreditar que ela ficava comigo por pena. Talvez por medo disso, jamais tenha dito ou feito qualquer coisa para que ela soubesse dos meus sentimentos. Bem, não na oitava série. Depois a gente acabou se reencontrando, mas tanto eu quanto ela tínhamos mudado muito para que acontecesse qualquer coisa além de um beijo roubado.

Restou um carinho imenso por ela, a quem ligo em todos os aniversários, no dia 27 de março. Provavelmente tenha sido por causa dela que guardei uma fixação pelo número 27, pelo dia 27. Eu e D. Namorada, por exemplo, começamos a namorar no dia 27 de dezembro de 2003. Meu primeiro salário veio num dia 27. Conheci grandes amigos e conquistei grandes coisas em dias 27.

Não direi o nome dela. É pessoal demais. O que importa é que eu me sentia profundamente atraído por ela, inclusive sexualmente. Eu olhava sua boca com um desejo ardente de tomar, beijar, mordicar aqueles lábios. A bermuda e a camiseta branca do colégio acentuavam certos detalhes dela que me deixavam, digamos, aceso.

Talvez isto tenha interferido no meu desenvolvimento. Minha voz mudou em uma semana, ficando grave como a de meu pai. Eu tinha um corpo bem torneado, por causa do judô, pernas grossas e fortes, que a calça de malha do colégio também tinha o dom de, digamos, incrementar. Me sentia desejado, atraente. Os olhares das meninas não eram mais os mesmos de antes. Não entendia ainda o que significavam aqueles olhares de espreita e as conversas sussurradas entre elas nos cantos. Eu era extremamente tímido. Corava com facilidade, suava as mãos, começava a falar um monte de coisas sem sentido.

Não se esqueçam que, para todos os efeitos, eu era só um rapaz de doze anos que estava conhecendo-se, mas estava metido num mundo onde todos tinham catorze, quinze anos. Eles tinham urgências e necessidades que não eram as minhas naquele momento. Porém, o convívio apressou um pouco as coisas.

Crescia numa velocidade estonteante, o que me fazia, por vezes, tropeçar nas próprias pernas, derrubar as coisas. Eu era um desastre ambulante. Não que isso não fosse normal, acho que todo mundo passa por isso. Mas era algo novo, inesperado e completamente confuso que tomava minha cabeça.

E, por causa disso, Também agora via isso com outros olhos. Atrás de meus óculos de lentes de plástico, me sentia suficientemente incólume para observar o mundo sem ser visto. Ver, que sempre foi meu principal passatempo, agora carregava um misto de curiosidade e desejo pelas mulheres. Isto só piorou desde então (rsrsrsrsrsrsrs).

Gastava minha energia no judô. Nunca fui um grande judoca, isso é fato, mas nessa época eu me aplicava nos treinamentos ao máximo. Treinava às vezes em vários horários, sempre com lutadores mais fortes. Treinava a velocidade, variava a intensidade e aumentava sempre a força e o ritmo.

Os treinos da Ordem tomavam o resto dos meus dias. Conhecia meus poderes, as limitações do homem frente o mundo. Lia sobre a Sabedoria e o Bem e me preparava para o futuro que viria. Meu mestre era sábio, paciente e generoso, guardando sempre uma atenção especial por mim e fazia perguntas para ver o que eu compreendia do Amor e da Fraternidade. Me ensinou sobre Humildade e a ter sempre em vista meus limites, para superar os desafios.

E também conheci a música, o rock. Ouvia as bandas de Brasília e as principais bandas estrangeiras da época. A música era outra válvula de escape, um elemento de identidade com minha geração. Cantávamos desafinados as canções, gritando-as aos ventos. Discutíamos os significados das letras, colecionávamos os encartes, imitávamos as vozes. Ríamos muito….

Eram tempos de alegrias e esperanças. Eram tempos de juventude e amadurecimento. Mas não para todos….

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5 Respostas to “Amores Brutos – Parte 1 de 2”

  1. Ane Brasil Says:

    Tá, magrão, vou te dizer uma coisa: tu é um baita escritor, um baita cronista…
    Pronto, falei!
    sorte e saúde pra todos!

  2. Claudia Lyra Says:

    Rapá, pensei que tu não fosse falar da Ordem!! Já ia perguntar!

    Tá vendo? Já naquela época você devia ser macio… por isso que as meninas cochichavam… hauahuahauhauahua…

  3. Patrícia Costa Says:

    Olha, como tinha um tempinho q não passava por aqui, acumulei alguns capítulos e quando comecei a ler “Outubro Negro” coloquei uma pipoca no microondas, peguei um energético ao som de Renato Russo e me deliciei… Saudades de conversar com vc! Beijosss

  4. neutron Says:

    Ei, peraí. Um dia você já foi humilde? hehehe

    Engraçado… eu também lembro que foi na 8ª série que eu tive as maiores mudanças da adolescência. Eu tinha mudado de escola, conheci gente nova, tava crescendo… Ufa, ainda bem que aquela fase passou! hahaha

  5. Marília Says:

    A adolescência é uma fase engraçada, né?

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