Bertolino III

 Interior Goiano, anos 50. 

Era um Goiás bem diferente do de hoje. Muitas das grandes cidades que hoje povoam a paisagem, cercadas de milhares de hectares de cana, feijão, soja, arroz, gado e milho eram, quando muito, pequenas vilas, isoladas do mundo. O centro do país era um lugar abandonado, desolado, onde se vivia outro tempo. O tempo de Vargas, da derrota de 1950, da renovada democracia brasileira e da luta ferrenha pela legalidade do PC do B não fazia parte dali. O tempo era medido pelos cios das vacas, pelas festas da igreja, pelas quermesses onde poderia se arrumar uma namorada, pelas picadas das cobras que inutilizavam os cavalos. Viradas de ano, aniversários, comemorações, eram coisa rara. Era um Brasil rural, de fantasia, de riqueza cultural, mas esquecido, marginalizado, submetido pelo tempo. Longe demais da capital, o Rio de Janeiro, para que chegassem ali os discursos proferidos no palácio Tiradentes.

A terra era nua, cobertura de cerrado virgem, jatobás, pequizeiros, jacarandás e ipês. Aqui e ali se viam bandos de veados, perdizes, tatus, onças, catitus, preás, capivaras e dezenas de outros animais. Ali não existia nada, comunicação nenhuma com o mundo civilizado. Poucos sabiam ler, não havia água encanada, as mulheres da família lavavam suas roupas em rios, cantando canções tristes, do tempo dos escravos, enquanto os homens passavam dias e dias na lida do campo, trabalhando em seus pequenos sítios ou nas grandes fazendas, como bóias-frias.

A tristeza, a solidão, as dores de amor eram cantadas em rodas de viola, onde os matutos choravam de saudades de seus amores. Era um tempo de simplicidade, de utopia. Tempo de olhar o céu escuro, pontuado de estrelas, nas noites do sertão, e pensar em Deus, no futuro, na felicidade.

Mas a ausência do Estado tinha suas conseqüências. A lei que valia era a lei da bala. Os homens, para todos os lugares que iam, levavam suas pistolas, espingardas. Brigas de família com dezenas de mortes de ambos os lados eram comuns e toleradas. Bandos armados invadiam as cidades, saqueavam as lojas e estupravam as mulheres.

Algumas cidades eram conhecidas pelos seus puteiros, onde se jogava a honra e a vida, se ouvia música barata e se sentia o ranço de cigarro e perfume baratos. As mulheres se submetiam, desde muito jovens, sonhando com uma vida melhor. Eram odiadas por onde passavam, mas davam aos homens o amor que eles precisavam para suportar o sofrimento de uma vida sempre igual. Séculos e séculos de solidão, de incivilização, criaram uma barbárie, um sentimento coletivo de que não havia lei ou ordem, de que tudo era permitido, inclusive amar o impossível.

 Pilar de Goiás, anos 50. 

Bertolino Souza Campos era baiano de nascimento e tinha quase trinta anos. Sorriso largo, olhos profundos, 1,70m de altura, cabelo da cor da palha de milho, talvez bonito. Carregava sempre uma espingarda velha, de cano duplo. Era pra matar onça.

Dizem que ele era corajoso, mas não tinha pavio curto. Podia ficar horas e horas parado no mato, andando de cócoras e caçando tatus, perdizes e capivaras. Dizem também que era um dos poucos corajosos a atravessar o rio das Almas a nado. Nadava como poucos, com a cabeça pra fora d’água.

Analfabeto, trabalhava no que podia. Caçava, plantava, colhia. Gostava de pescar e conhecia modinhas de viola pra cantar nas noites. Era feliz, mas não era essa felicidade pasteurizada, que se vende nos centros urbanos. Era uma felicidade dolorosa, lutada, uma felicidade de guerreiro que corre atrás dos seus sonhos. Era uma felicidade de sobrevivente, de quem conhece a dor e, conhecendo-a, ama a vida.

E Bertolino amava a vida, por isso não bebia cachaça, mas pitava seu cigarro de palha e carregava a enxada no ombro pro campo. Por amar a vida, se submetia e, submetendo-se, seguia seu destino de sobrevivente. E a luta que lutava não era pior ou melhor que as outras tantas daquele chão perdido, de terra vermelha. Viver era doloroso, mas necessário. E viveria, doesse como doesse.

Foi quando conheceu Laura, numa quermesse em Pilar de Goiás.

Mas isso fica pra próxima semana…

       

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3 Respostas to “Bertolino III”

  1. Marília Says:

    Você descreveu a vida dele com muita poesia, apesar das dificuldades…

    Tempo sofrido… povo sofrido…

    É, mas era um tempo de beleza tb. A gente não pode pensar que vida alegre é só na cidade. A vida no campo tem seus mistérios, seus cheiros e cores.

    Beijos, foliã!

  2. Claudia Lyra Says:

    Esse é o verdadeiro Faroeste Caboclo. Muito lindo, Cronista!

    kkkkkkkkkk

    Olha, Mamy…

    O faroeste ainda nem começou…

    Prepare-se…

    rsrsrsrsrs

  3. Márcia(clarinha) Says:

    E meio as dificuldades a poesia vai se firmando, rimar amor com dor é fácil, difícil é encontrar belezura nesse cenário campestre.
    dias lindos
    beijos

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