Internação

InternaçãoCeilândia, 1990 

Não sei por quê exatamente meus pais tinham me dado aqueles antibióticos, mas a combinação de Keflex com Hiconcil tinha sido bem danosa pra mim.  Eu me coçava todo, meus lábios inchados, rasgando a pele de tão grandes, os olhos fechando de tão inchados. O problema era a garganta. Tinha de conseguir atendimento antes que ela se fechasse.

Minha mãe correu comigo para um posto de saúde. Me lembro de seu desespero. Quem nunca viu um ataque de alergia deve ficar assustado mesmo, ainda mais quando é com o filho. Fila, fila, fila, crianças catarrentas soltado os bofes pra fora. E eu piorando.

Me coçava com gosto, mas não melhorava. Alguém me trouxe um pouco de álcool para passar nas costas, mas não era muito eficaz. O geladinho do álcool até que era gostoso.

Nenhum alergista, corre comigo pro hospital. A coisa tava ficando feia. Eu via pela cara da minha mãe e das pessoas no ônibus. Pela maneira que eles me olharam, eu devia estar com mais feio que o ET.

Hospital superlotado. Dificuldade para respirar. Minha mãe me arrastava pelos corredores. Ouvia os gritos das pessoas, tosses, gente vomitando. Mas o que mais me tocou foi a absoluta falta de humanidade ao redor. Sabe aquela história de que quando a farinha é pouca, o meu angu primeiro? Então, parecia que todo mundo achava o seu caso de extrema gravidade e urgência, portanto, todo mundo queria prioridade. O problema é que, a menos que se estivesse sangrando ou inconsciente, ninguém era prioridade. Um menino catarrento com cara de ET era a coisa mais normal do mundo nesse meio.

Comecei a tossir. A garganta tava fechando, melhor não falar nada pra minha mãe. Hominho sofre calado, ficar reclamando de gargatinha é coisa de menina. Na verdade, eu não tinha idéia nenhuma da gravidade da situação. Eu podia morrer em poucas horas se nada fosse feito e não parecia que isso fosse fazer alguma diferença pra ninguém ali.

Aquela era a Ceilândia, terra de migração nordestina. Portanto, para todos os efeitos, eram todos uma sub-raça que era útil para conseguir votos e construir cidades. Questões como direitos fundamentais do ser humano não se aplicavam a migrantes. Embora eu fosse cidadão nativo e minha família não fosse nordestina, isso não significava um atendimento melhor. Gente morrendo na fila de hospital era muito mais comum no começo da década de 90 do que agora. Qualquer um que tenha ido num hospital público naquela época sabe disso… e, por incrível que pareça, a coisa tem melhorado. Não por mérito do PSDB, óbvio…

Não tinha alergista, nem pediatra, vai no clinico mesmo. Ele me olhou rapidamente, abriu minha garganta e me mandou pra internação.

– Tu é homem, menino?

– Sou, uai! – o uai dos goianos eu ainda cultivava nessa época.

– Então tu não vai reclamar do soro, vai?

– O que é soro, mãe?

Minha mãe, coitada, todo espevitada, nem entendeu minha pergunta. Corre comigo pra internação. Os enfermeiros me colocam numa maca, no corredor, com uma bolsa de soro que minha mãe segurou, por falta de suporte. É, a coisa tava feia. Mas Deus não ia me deixar morrer sem terminar o mestrado… tomara…

****

Passei uma semana no hospital, recebendo poucas visitas e comendo comida sem sal. Não posso reclamar do tratamento que tive lá dentro. As enfermeiras era, no geral, gentis e solícitas e me tratavam como eu devia ser tratado, ou seja, como uma criança.

Não sei se sou capaz de falar aqui sobre minhas sensações naqueles dias. Foi doloroso, isso eu me lembro, não por dor física, mas por sentir tanta dor em volta, tanto desespero. Mas eu era forte. Aprendi a lutar muito cedo. E também não podia deixar minha mãe perceber que eu compreendia tão bem aquilo tudo.

Só sei que depois de sete dias eu voltei pra casa e minha vida voltou ao normal. Exceto talvez pelo fato de não voltar a tomar antibióticos. Por 17 anos…

***

Rio, novembro de 2007. 

– Que eu tenho, doutor?

– Pneumonia.

– Ih, ferrou, não posso tomar antibiótico.

– Não tem outro jeito. Você teve uma crise com Hiconcil e Keflex. Vou te passar esse aqui, levofloxacino.

Compra o remédio na farmácia. Aquilo podia me matar. Todos os meus outros médicos foram unânimes em dizer isso. Inclusive esse. Como eu jamais tinha tomado nenhum outro antibiótico em todos estes anos, não sabia se era alérgico a outra classe de medicamentos.

Li a bula inteira. Entre os efeitos colaterais, a droga estava associada ao rompimento de tendão patelar. Devia ter falado pro médico que tenho tendinite. Odeio médicos, pra ele não faz a menor diferença se me tendão rompe ou não. Pra mim fazia, eu não era o Ronaldo do Milan. E outra, esse negócio de ler bula devia ser proibido. Elas deviam ser escritas em letra de médico, para que só eles entendessem o que tá lá. Pra mim era desesperador ler certas coisas e entender inteiramente o que eles estavam querendo me dizer.

Tirei o comprimido da cartela. Olhei bem praquele remedinho rosado. Caralho, tava morrendo de medo. Sozinho em casa, teria de andar até o hospital. Guardei dinheiro para um táxi, se precisasse. Liguei pro meu pai, pra tomar coragem.

Pensei em fazer um testamento, mas isso era ridículo, não tinha nenhum bem de valor, senão minhas poesias, e, a partir do momento que elas estavam publicadas no blog, passavam a ser patrimônio da humanidade. Não tinha nenhum direito sobre elas. Também, a probabilidade de dar merda era mínima e, mesmo dando, eu podia ir pro hospital e passar uma semana internado de novo.

Mas o que mais me desesperava era saber que ia ter de sofrer aquilo tudo sozinho. Se fosse pro hospital, seria sozinho. Se fosse pra internação, idem. E nem ia poder falar muito pra família, pois não queria deixá-los preocupados. Continuava hominho, mesmo aos vinte e três anos.

Bebi o remédio e deitei. O peito doía muito por causa da pneumonia. Não conseguia posição na cama. Não conseguia nem mudar de posição, porque doía. Depois de muito me revirar, adormeci.

Acordei com o telefone. Era meu pai.

– Você tá bem?

– Estou.

– Alguma coceira?

– Não.

– Sua mãe tá te deixando um abraço.

– Manda outro pra ela. Bença?

– Deus te abençoe.

É. Não foi dessa vez…

E os diálogos com meu pai continuavam rápidos.

   

Anúncios

Etiquetas: , , ,

5 Respostas to “Internação”

  1. Ane Brasil Says:

    Caramba, rapá! que coisa! você podia ter morrido!
    Sabe, que eu vi a cena toda na minha frente: te magricelo e inchado, sua mãe num vestido floriado, meio desgrenhada, com cara de desespero, andando rápido pelos corredores… até vi tua mãe, na parte que não viste: saindo do quarto e apertando o coração, fazendo o sinal da cruz e uma oração, uma lágrima contida e envergonhada escorrendo pela face.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Puzé, tu falando assim parece engraçado, mas foi foda pra caralho..

    Quase q eu me fodo….

    Sorte e saúde pra todos – e que tu nunca mais tenha que tomar antibióticos!

  2. Claudia Lyra Says:

    Tive uma crise alérgica dessas quando estava grávida do Lucas. Mas não foi a medicamentos e, sim, um peixe que comi. Muito lindo porque, como estava grávida de menos de quatro meses, não podia tomar nenhum anti-alérgico. blé…

    Ah, mas vc é mulher, pô!

    Mulher agüenta muito mais essas coisas…

  3. Rodrigo Says:

    Putz, que alergia braba, hein?

    Puzé, e como…

    A única alergia braba que já tive foi com brinco bijuteria… desceu um vergão da minha orelha até o pescoço e coçava muitão, eu chorava de dor… Só melhorou com injeção…

    Nham…

    Foda…

  4. policarpe Says:

    Égua…que situação escrota hein cara?!!!Foda mesmo….ainda bem que tu pulaste essa fogueira e está aí em via de terminar o Mestrado….Eu já tive tb problemas sérios com alergia em varias fases da minha vida. Abraços!

  5. natalia Says:

    bom queria saber se dissolvidos comprimidos de antibioticos em agua e fossem injetados em uma pessoa na veia, o que pode acontecer?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: