Outubro Negro

 

Outubro

Ceilândia, 11 de outubro de 1996

 

O ano de 1996 já tinha sido difícil o suficiente antes de ouvirmos aquela notícia inesperada. Eu sempre chamei aquele ano de o Ano da Grande Depressão, pois sofri aquela que foi a maior, a mais demorada, a mais intensa e dolorosa de minhas crises de depressão. Talvez por isso eu considere que este tenha sido o ano mais decisivo de minha vida, pois as reflexões que tive ao longo dele moldaram para sempre meu caráter, minha maneira de ver o mundo. Considero o ano de 1996 o último ano de minha infância e o começo doloroso de minha adolescência. Ao longo deste ano tinha sido batizado com fogo diversas vezes por motivos que contarei num momento oportuno.

Resolvi começar minhas histórias de adolescência por aquele que talvez seja o mais decisivo acontecimento. Da mesma forma que as religiões contam os seus anos a partir de algum evento importante (como o nascimento de Cristo, a Hégira ou a criação do mundo) decidi começar a contar as histórias destes dias pela morte de Renato Russo.

O dia 11 de outubro foi inesquecível. As rádios tocaram as músicas dele o dia inteiro. As ruas estavam vazias de jovens que preferiram ficar ouvindo os k7’s (quase ninguém tinha dinheiro pra comprar CD’s) no volume máximo. A Tempestade (ou o Livro dos Dias) foi o canto de meus colegas por vários meses. O CD azul (com força semelhante ao Blue Album dos Beatles) era ouvido como uma prece. “A Via Láctea” era cantada nas ruas como uma despedida merecida.

Muitos dos meus colegas que tinham ido para a escola mostravam os olhos vermelhos de lágrimas. No recreio, Roberta, uma de minhas colegas, escreveu a letra de Faroeste Caboclo no quadro negro, até onde pôde. Depois disso passou a cantar o resto, triste, quando começou a chorar. Foi quando o velho professor de geografia do Brasil chegou. Um sorriso cruel transparecia no seu rosto.

– Bom dia a todos.

E aproveitou o começo de sua aula para proferir um discurso patético sobre a influência dessas bandas de rock na ploriferação de delinqüentes na juventude. Fez menções claras ligando o homossexualismo ao uso de drogas e à AIDS. Seu preconceito e completa falta de tino para lidar com a situação transpareciam. Sentia algo estranho no ar. Ia acontecer logo…

Acho que foi quando o professor chamou a AIDS de “câncer gay”. Aquilo doeu em todo mundo. Foi quando Ricardo não agüentou. Jogou seus livros nas janelas de metal, com grande estardalhaço.

– Basta! Cale a sua boca! – A turma assustou-se – Não diga mais uma só palavra! – metade da turma levantou. Sabíamos dos rompantes do Ricardo. Esperávamos para ver a reação do professor.

– Viram? É disso que eu falo. O senhor tem de aprender a se conter, mocinho, a ouvir a voz da experiência!

– Voz da experiência é uma pinóia! – Ricardo interrompeu com fúria – Olhe o mundo que a sua experiência nos deixou! Você o odeia tanto porque nas letras das músicas ele joga a incompetência da sua geração na sua cara! Porque ele grita contra o preconceito de gente como você!

– Basta! Vou chamar a direção! – a menção de chamar a diretora nos deixou desesperados. Ricardo não se fez de rogado.

– Pra quê? Pra que eu diga pra diretora que o senhor chamou a AIDS de “câncer gay”? Quem é o senhor pra falar uma mentira dessas? Quem é o senhor pra, com esse discurso pronto de elite decadente, tentar nos assustar? Quem é o senhor pra jogar adiante todo esse preconceito?

***

É claro, a conversa não transpareceu exatamente nesses termos. Palavrões aqui e ali fizeram parte do discurso do Ricardo. Também ele não saiu impune dessa discussão, sendo suspenso por três dias. Nem o professor, que foi transferido para outra escola dias depois.

Eu e Ricardo sempre tivemos nossos problemas, mas naquele dia ele ganhou muitos pontos comigo. Eu jamais tinha pensado por este lado, que o discurso dos preconceituosos e dos que cerceam a liberdade dos mais jovens serve apenas para repetir a estrutura deficiente da sociedade. Tampouco foi o Ricardo quem disse isso. Foi Russeau, ao definir o Contrato social. Russeau, de onde vem o Russo de Renato Russo.

Mas naquele dia o Ricardo me ensinou uma coisa muito útil. A gente não pode se calar. Na maior parte das vezes, a única coisa que a gente tem pra nos ajudar é a nossa voz. Às vezes, o discurso dos que nos dominam só é passado adiante pela nossa passividade frente os acontecimentos. Às vezes, é nossa obrigação nos expor, falar alto, gritar se for preciso para que nossas idéias sejam ouvidas, senão por aqueles que efetivamente podem transformar as coisas, pelo menos pelos que nos cercam.

O grito de Ricardo ecoou na minha mente por muitos anos depois disso. Seu exemplo, sua força, seu total desprendimento frente à ameaça do professor de chamar a direção e, principalmente, seu caráter pra defender o que era justo e certo, me martelaram a cabeça pelos três dias em que ele foi suspenso. E então, quando ele voltou, eu lhe apertei a mão.

Aquele aperto de mão foi um pedido de perdão. Ricardo não era um santo. Ele era responsável por pelo menos metade dos acontecimentos ruins que me atribularam ao longo de 1996. Mas, apesar de tudo isso, ele me ensinou muito em algumas palavras.

– Obrigado por aquilo.

– Só fiz o que achava certo.

E, naquele dia, viramos, senão amigos, pelo menos nos respeitávamos, mutuamente. Era o começo do fim da Grande Depressão. Eram as sementes da minha vida de punk…

 

 

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9 Respostas to “Outubro Negro”

  1. neutron Says:

    Acho que, no fim, o Ricardo foi importante. Ele pode ter causado vários impactos negativos, mas também te ensinou tudo isso sobre lidar com as coisas que são impostas.

    É, eu sei. A gente aprende com quem fere tb…

    E eu lembro muito pouco daquele dia da morte do Renato Russo…

  2. Says:

    Eita…
    Foi um choque pra mim…
    Lembro que meu pai chegou todo cauteloso para me contar que o Renato tinha morrido… não chorei, mas fiquei bem triste.
    Ainda não tinha comprado o CD azul. Fui num supermercado que vendia CD e comprei o último da loja!
    Renato era corajoso e muito muito inteligente. Suas letras marcaram demais. Suas letras são ímpar!
    Faz tempo… caramba!

    É, mas pensa…

    Pra nós, lá em Brasília, teve de ser um acontecimento bem mais doloroso, certo?

    Bueno, doeu…

  3. Claudia Lyra Says:

    Nunca achei Renato Russo essa coisa toda. Mas, nessa época, eu já era uma adulta chata e desiludida com discursos de quebra do sistema. De qualquer maneira, dá pra compreender o impacto que as palavras de Renato Russo causam em adolescentes.

    Mamy, dá pra compreender?

    rsrsrsrs

    Tu acordou com o ovo virado, não foi não?

  4. policarpe Says:

    olá cumpádi…
    O ano de 1996 não foi muito marcante pra mim. O ano da transição mesmo, marcado por uma grande decisão, por uma ruptura em relação a valores que me dominavam, que me atormentavam o espírito, viria a ser o ano de 1999. A ano em que coincidentenmente comecei a escutar(sentir) Legião Urbana. Embora eu tenha escutado por toda minha infância….mas sem o mesmo impacto né?Me identifico com vc meu amigo…isso que tu escreveste aqui é algo que ando pensando muito ultimamente e pondo em prática na medida possível, já que a grande mudança que a minha vida enfrentou ultimamente tem me exigido isso:

    “Mas naquele dia o Ricardo me ensinou uma coisa muito útil. A gente não pode se calar. Na maior parte das vezes, a única coisa que a gente tem pra nos ajudar é a nossa voz. Às vezes, o discurso dos que nos dominam só é passado adiante pela nossa passividade frente os acontecimentos. Às vezes, é nossa obrigação nos expor, falar alto, gritar se for preciso para que nossas idéias sejam ouvidas, senão por aqueles que efetivamente podem transformar as coisas, pelo menos pelos que nos cercam”

    Obrigado meu amigo.

    Pô, não tem o que agradecer…

    Eu que agradeço esse comentário depoimento…

    Valeu mesmo, saber q um poste meu te tocou me enche de orgulho….

  5. Aline Lima Says:

    Esse foi o inicio da minha adolescencia também… confesso que Renato russo não foi meu grande mestre, mas sempre tive profunda admiração por suas letras… Creio que o Ricardo teve a coragem de dizer o que todos sentiam… a força de fazer ecoar sua opinião em um ambiente de controversas…. realmente não sei se teria a mesma coragem em 1996, mas espero ter em algum momento, agora dos meus 20 e poucos anos….

    GRande Beijo! Aline

    Ah, beijo pra vc..

    Valeu pelo comentário..

  6. Ane Brasil Says:

    Táquepariu!
    quando o Renato Russo morreu eu chorei pra caralho!
    Já não era tãããão adolescente, mas foi foda!
    Cara, que coisa isso!
    Puxa, histórias como essa me fazem pensar que o cabra morreu mas deixou um legado…
    ” Não sou escravo de ninguém
    Ninguém senhor do meu destino…”
    Sorte e saúde pra todos

    É, muitos têm histórias desses dias…

    Foi meio que um batismo de sangue, eu não ouvia tanto legião nessa época…

    Foi foda…

  7. wilson neves Says:

    pra mm renato russo foi e sempre será o melhor vocalistas dos anos 80 e 90.as letras do cara mechem com quase todo mundo,renato era corajoso
    e destemido os filhos da revolução como ele dizia,as musicas dele deles
    sempre abordavam temas incriveis como a musíca índios e mais uma vez
    o cara tinha uma filosofia de vida legal deixo o meu msn pra quem gosta de legião urbana conversa comigo valeu

  8. wilson neves Says:

    o meu msn pra quem gosta de ouvir renato russo
    wilsonslipknotero@hotmail.com

  9. Greicy Says:

    “Os bOns mOrrem jOvens”Meu eternO pOeta,prOvavelmente jamais serà esquecidO,mesmO que dècada passe ,que stilOs mudem,ainda assim haverà sempre um alguèm que se lembrarà ,RENATO RUSSO nãO mOrreu dentrO de nOssOs cOrações e em mim ele permanecerà,infelizmente cOmemOrO meu nascimentO pOukOs dias apòs a data de falecimentO “DELE”!Na verdade depOis de 1996 nãO mais cOmemOrei…
    “(…)E quandO nãO estàs aki ,meu espìrito se perde(…)”QuandO nãO estàs aki sintO falta de mim msm(…)!”

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