Histórias de Esmeraldas

Sítio de Meu Avô

 

– Tanto tempo, fio! Artú, tu não vai ‘creditá. Dêxei esse menino ali desse tamanho ó! Ele era só oreia. Tu deu uma engordada, hein, menino! Ôxi que nem parece o mesmo… – risos.

– Ele tinha falado docê, mas ninguém ‘creditô – disse Arthur.- Sacumé, né? História de véio a gente tem de disconfiá. Tanto tempo e esse fio que ele tanto fala nunca ‘pareceu. Podia sê que nem as história de onça e esmeralda que ele conta.

– Cumé quié?

– Nada não, seu Berto. – Eu já tinha notado que ele é surdo só quando lhe interessa.

– Cês num ‘credita nas minha história de onça, é? Eu matei e matei muita! Agora não, agora ‘quetei. É uns bicho bonito dimais de meu Deus. Num pode matá mais não. A gente mata o que fô cumê ou o que pudé trazê pirigo pra nóis. A gente mata cobra, mata escorpião.

– Que histórias de esmeraldas são essas? – Eu estava bastante curioso. Nunca tinha visto uma esmeralda na minha frente.

– Ué, cês não sabe não? – disse Arthur – Aqui é o caminho das esmeralda!

– E o sinhô, meu pai, trabaiô muito no garimpo? – Era estranho como o sotaque carregado dos goianos aparecia nessas horas. Meu pai que sempre falou as palavras com extrema correção agora cometia os mesmos erros de português que meu avô.

– Trabaiei e trabaiei muito. Tempo duro, tempo difícil dimais da conta– ele falava esse “demais” com muita ênfase, como se fosse para expressar o sofrimento. – Era dia e noite no buraco. Uma calor da muléstia. A cabeça doía, as perna bambeava. Trabalho ruim que nem ele só. Eu queria enricá, que nem o Chico Preto, que Deus o tenha na sua graça – Meu avô cuspiu com gosto no chão. Estranho esse costume de cuspir quando falavam dos mortos. – Diz’ que ele achô um bitelão, um troço maió que o mundo. Só do dinheiro da venda dava pra comprá mais de mir rês. Mas ele, muito festeiro, muito sapeca, num guardô o dinheiro, não. Era festa todo dia, diz’ que ele tinha três mulé. Hômi com três muié num enrica não! É três muié e três dispesa, é três muié e três surpresa, é três muié e três tristeza! – ríamos soltos. Piadas sexistas faziam muito sucesso nesses meios

– Dêxa de prosa, véi preguiçoso. Tem de dá mio pros pôrco. – a gente tinha esquecido totalmente da presença de D. Joana. A rabugice dela lhe precedia.

– Mas ele morreu como? – Eu queria mesmo era saber o fim da história.

– Morreu matado. Amarraro ele num pau e sangraram o desinfeliz até a morte. – Arthur respondeu com certa gravidade, tirando da cabeça seu chapéu. – Foi triste. Todo mundo gostava do Chico Preto.

Silêncio constrangedor. Era como se cada um ali rezasse uma ave maria pro morto.

– Dizem que ele pegou a filha do Coroné Belizário. O hômi ficô uma fera. Por isso mataro ele assim

– Foi nada, Arthu! Mataro ele pra pegá o bitelão.

– Num sei, só sei que tá morto e morto não vorta. Sinto pena dele

– Bertulino! Os pôrco tá ganino no chiqueiro. Vai dá de cumê pra eles!

– Ah, deixa de encrenca, véia chata! Vô lá dispois. Mais de vinte ano sem vê meu fio e vc quer saber de dar mio pros porco! – Pensei seriamente se aquilo não seria uma cena de ciúmes.

– Que é que tu disse? Num entendi! Repete pra eu…

– Vou lá, vou lá…

E foi, contrariado, pisando duro no chão…

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2 Respostas to “Histórias de Esmeraldas”

  1. Claudia Lyra Says:

    Seu vô, homem esperto, tratou de obedecer a velha rapidim, né não? Hauahauahauahuahua… aprenda com ele… hauahauhauhauahuahua…

    Aprendo nada…

    rsrsrsrsr

  2. Says:

    Eita que mulher braba!!!!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Puzé, só assim pra domar o velho Berto

    Quanto ao sotaque é realmente engraçado… quando vou para Minas, volto falando uai.. quando fui ao Rio, até chiado eu já estava falando…

    É, eu sei…

    Eu não pego sotaque assim não. Ainda não peguei o carioquês…

    rsrsrsrssr

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