Brasília Sanguinolenta

Quem vai a Brasília costuma dizer parece que tem alguma coisa fora do lugar. É um lugar feito, planejado, esquematizado, criado para abrigar gente. O problema é que, mesmo os mais metódicos sabem que, frequentemente o que planejamos e esperamos não se cumpre. A cidade criada para evitar o trânsito, pra não ter semáforos, acabou não tendo lugares para o encontro, como praças, esquinas, botequins. Portanto, apesar dos planejadores urbanos pensarem dioturnamente nos aspectos relevantes para uma boa qualidade de vida, a alma, a vida, a essência de uma cidade nasce com o tempo, ao acaso, além das expectativas e planejamentos. Ninguém conseguirá reproduzir a malandragem da Lapa, nem o regionalismo dos gaúchos. Cada região, cada povo, apoiado em sua terra, cria suas expressões, gestos, identidades, figurações culturais para suas realidades cotidianas.

 Ser jovem em Brasília quando era uma cidade ainda mais jovem (este ano completará 48 anos) não era uma tarefa muito fácil. Padecíamos de tedite aguda. O tédio, cantado em todas as bandas dos anos oitenta, era um estilo de vida, uma conseqüência inevitável infância da cidade. Éramos jovens numa cidade criança, que precisava dormir cedo, não tinha opções de entretenimento e que, por ter sido tão planejada para as pessoas, acabou deixando-as de lado.

O problema é que esse tipo de situação, potencialmente, vira um barril de pólvora. Um grande número de jovens desocupados, com os hormônios à solta, no centro político do país, não podia ser uma combinação muito estável. Este foi o grande motor para as diversas gangues do asfalto que se tornaram um retrato típico de Brasília, do fim dos anos 70 até o início dos anos 2000. Algumas eram, inclusive, ligadas a partidos políticos (de DIREITA também) e movimentos sindicais. Os jovens que não viam na cidade nenhuma diversão acabaram tornando-a um imenso playground modernista.

Os punks, skinheads, pagodeiros, evangélicos, metaleiros, góticos (os pré-emos) e os hardcore eram predominantes no final dos anos 90. Claro, não eram os únicos, e essa classificação deixa de lado dezenas de sub-divisões desses movimentos que não tinham sempre suas fronteiras muito claras.

Tínhamos representantes fortes de todas as correntes políticas da época. O grupo dos neo-liberais e de extrema-direita era pouco numeroso, mas poderoso e organizado em torno do PFL e PSDB. Obviamente, eles não sofriam problemas com falta de dinheiro pra suas reuniões. Os grupos de esquerda, muito mais bem-vistos pelos jovens, eram também reconhecidos pelos seus excessos. Marxistas, leninistas, stalinistas, fidelistas e muitos outros “istas” costumavam discutir política com muita emoção e pouco conhecimento de fato. Em certos círculos, a simples menção de Marx era suficiente para começar uma briga. Os anarquistas, o grupo menos coeso de todos, tinha fama de violento e truculento.

As brigas entre estes grupos eram muito comuns. Olhando com os olhos de hoje, sinto neles certas características das torcidas organizadas do futebol. Porém, não pretendo aqui repetir os erros de interpretação, nem as visões pré-concebidas que a sociedade em geral tem sobre eles. Ao contrário, pretendo traçar um retrato, o mais isento e sucinto possível, do interior das tendências que conheci, pessoalmente, durante minha juventude.

É preferível uma juventude violenta que nunca leu Marx com seriedade, mas tem uma vaga noção de suas idéias através da discussão com seus pares, do que uma juventude que abomina todos os indivíduos que se prestam a discutir política e que prefere gastar seu tempo andando em shopping centers. Pode ser preconceito meu, mas acredito seriamente nisso. E, afirmo, a juventude politizada foi uma imensa minoria em Brasília, no fim dos anos 90. Porém, era uma minoria influente e conscientizada de seu papel na construção (ou destruição) da nova democracia brasileira. Acredito que esse poder mobilizatório tenha se perdido, por motivos que ignoro. Acho que hoje em dia a cidade é mais interessante mesmo (rsrsrsrsrsrsrs).

Resolvi incluir nessas crônicas fatos e histórias desse tempo. Batalhas de gangues, brigas com a polícia, destruição de patrimônio público, uso de entorpecentes, festas regadas a música alta e muito sexo e os grandes festivais de rock. Também devo advertir aos poucos, porém fiéis leitores (amo todos vocês de paixão) que esta parte das crônicas terá um caráter muito mais literário que os outros. Nomes, datas, lugares serão mudados para preservar a identidade dos autores. Embora a IMENSA maioria dos fatos seja real, me sinto eticamente obrigado a proteger os autores destes atos dos efeitos, inclusive legais, que estas revelações que puderem vir a ter.

Portanto, encaremos estes relatos como obra de ficção. Desde já me isento da responsabilidade de citar fontes e de ser preciso na descrição dos acontecimentos.

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OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

A partir de agora, estas crônicas avançarão paralelamente em quatro frentes:

·        Segundas: Meus primeiros anos de colégio e a infância na Expansão do Setor O.

·        Quartas: A continuação das histórias do vale do rio São Patrício e adjacências, como de Bertolino, Ariel e outros que ainda não foram citados;

·        Sextas: Histórias da adolescência, do movimento punk e das batalhas políticas da época;

·        Esporadicamente: Postes de interligação entre as frentes, para mostrar os elementos de coesão entre as diversas histórias. A arte da queda é um exemplo, apesar de eu, intencionalmente, não ter explicado porque.

 

Acreditem, tenho idéias claras sobre os rumos das histórias. A confusão com que escrevo é intencional, pois creio que não haja uma ordem lógica para a leitura delas.

No mais é isso..

Abraços..

 

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4 Respostas to “Brasília Sanguinolenta”

  1. Says:

    Mas que organizado você! (isso não é uma tiração de sarro, que fique bem claro!) 😉

    Valeu 🙂

  2. Claudia Lyra Says:

    Sexo, drogas e ‘roquémrou’ nas sextas?!?!?!? Ai, que isso aqui tá ficando perdido… hauahauhauhuahua…

    Puzé, já pensou? Acho que vc vai gostar…

  3. Sarah K Says:

    oi poeta!

    grande iniciativa, gostei muito.

    Obrigado…

    e falar do planejamento de cidades então é uma coisa que me preocupa, falta de planejamento tb é uma m***a, rs. Mas a frieza do excesso de poanejamento também é terrível. Brasília realmente tem muitas estórias que desconheço, um lugar estranho sem esquinas, sem pracinhas, semencruzilhadas e becos. Tão diferente daqui …. vou gostar de ouvir suas histórias … sempre que der passarei aqui.

    Então, eu gosto de planejamento, é legal. Brasília é muito diferente do RIo. O problema é que ficou diferente demais de qualquer lugar. O lance é, não se pode esperar muito de uma cidade que ainda não tem história. Os lugares, a consciência de um espírito coletivo, tudo isso vem com o tempo, com o embate histórico entre os participantes da construção da sociedade local.

    tb gosto de vc (uma coisa assim sem muito planejamento, rsssss)

    Eu fico lisonjeado…

    bjs
    😉

  4. Ane Brasil Says:

    Pô, rapá, tô até impressionada com a tua organização (e toda essa disposição pra escrever)
    Cara, tem um livro do Esdras Nascimento (conhece? não? pois deves conhecer, bom autor) que trata sobre essa coisa de Brasília ser meio morta, meio doentia… o nome do livro é “o ventre da Baleia” da uma conferida e depois me diz o que achaste.
    Bem, então vou acompanhar isso aqui mais de perto!
    (magrão, tá saindo umas coisas estranhas no teu texto, parece coisa de formatação do blog, dá uma olhada)
    Sorte e saúde pra todos!

    Então, mulher… Esteja aí, te ter aqui no blog é uma alegria, até pra contrastar com tuas histórias malucas. Beijos

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