A Arte da Queda – Ou as Feridas da Alma

Ceilândia, Distrito Federal, 1992

Não sei porque, mas parecia que nesse época o tempo corria mais devagar. Dias e noites se sucediam num duelo de eternidades. Pra mim, que vivia enfurnado dentro de casa, essa sucessão parecia ser muito mais evidente. A televisão que a gente tinha era velha e mal pegava a Globo e o SBT. Ia para a escola de manhã, bem cedo, junto de meu pai e irmã. A gente saía de casa no meio da poeira (ou lama, depende da época do ano) e ia andando até a parada de ônibus. Invariavelmente, eu e minha irmã chegávamos imundos ao colégio.

À tarde, ia para o judô, na mesma escola (o SESI). Eu era um judoca péssimo, mas acho que o que é mesmo interessante no judô não é se você é bom ou ruim, quantas lutas você ganha ou qual é o seu ranking na federação. O legal do judô é a primeira coisa que você aprende, logo depois de colocar aquela roupa branca engraçada: você aprende a cair.

A gente não começa dando golpe, pegando no judo-gui, nem disputando quem é mais forte. O judoca fica sozinho, treinando num canto pra não atrapalhar os outros o jeito certo de cair. E cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta…

Quando a gente já sabe cair direitinho, o professor testa a gente. Coloca uma fila com uns dez ou doze judocas mais experientes e a gente é derrubado por cada um deles. Um a um cumprimenta, derruba, espera a gente levantar, cumprimenta de novo, derruba de novo e aí a gente troca de parceiro.

É um saco isso. A maior parte desiste nesse comecinho, porque parece que a gente vai passar a vida inteira caindo. Mas, se você for um judoca de coração, você vai ver o sentido mágico de tudo isso. O cara te cumprimenta, te derruba e te cumprimenta pra te derrubar de novo. Ele não é seu inimigo. Ele não tá lá pra te machucar, nem pra puxar seu tapete. Ele está lá pra te ensinar a cair direito. E, a melhor parte, ele espera você levantar pra repetir a lição. Não há raiva, não há maldade. Os olhos dos judocas costumam estar assim. Não há nervosismo, dor, nada. Tranqüilidade total…

Só alguns poucos conseguem ver isso. O aprendizado é um ciclo de descobertas. Cada parte, cada etapa da vida é uma repetição mais ou menos regular de um ciclo de cair e levantar. O que guardo de bom dessa época foi ter aprendido a ter paciência e perseverança. O aprendiz costuma ter pressa, quer aprender logo as manhas pra se tornar um vencedor. Porém, a vitória está dentro de você antes mesmo de começar a luta. Só é possível vencer conhecendo a si mesmo com profundidade, ignorando seus medos, superando os maiores desafios.

Principalmente, só é possível vencer abrindo mão de alguma coisa: tempo, lembranças, amores. Não é possível chegar à vitória estando nervoso, excitado, com um desejo ardente de vingar-se do mundo. Vence o mais tranqüilo, o que mais mantêm-se frio e racional, o que tem o coração mais puro, o que sabe que a vitória é certa.

E, quando a esperada vitória vem, todo o semblante muda. De uma tranqüilidade silenciosa, a garganta se enche de um grito escancarado. É justamente por ser esperada que a vitória é surpreendente. É por ser certa que se torna emocionante. A vitória é o espetáculo maior da vida, um momento mágico e precioso onde esquecemos dos nossos passos longínquos no Vale da Morte e sabemos que a vida, mesmo monótona ou dolorida, é sobrevivente.

E então, com tudo isso em mente, você entende o sentido da luta. Ela não está lá pra decidir quem é mais forte, quem está mais certo. A luta é uma repetição da vida. A luta, principalmente quando vale a vida, é uma anunciação do que é a glória. Vencer é muito mais profundo do que superar o outro. Vencer é superar-se, transformar-se. Vencer é depender do outro para conhecer a si mesmo.

E eu, quando solitário nas depressões intermináveis dos meus primeiros anos, era nessas poucas, erráticas e comemoradas vitórias que baseava minha vida. Aprendi a lutar desde cedo. Aprender a vencer demorou bastante. Mas tudo isso me tornou um grande lutador, me ensinou a não desistir nunca e, principalmente, a conhecer a mim mesmo.

Foi aí, nesses primeiros anos que nasceu o meu lado punk. Mas isso é assunto pra outra crônica, o espaço dessa acabou.

Abraços a todos…

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5 Respostas to “A Arte da Queda – Ou as Feridas da Alma”

  1. Patrícia Costa Says:

    “Vencer é depender do outro para conhecer a si mesmo.”
    sem comentários…

  2. Says:

    Meu marido foi judoca quando mais novo… e sempre me disse que o judô te ensina a ter disciplina, te ensina a ver melhor as coisas e te ensina a cair. Legal, né?

  3. Claudia Lyra Says:

    Gente! Judô é isso mesmo: te ensinar a cair! Aliás, foi a única coisa que aprendi no judô. E acho que é uma das coisas mais importantes que a gente tem a aprender, seja literal ou metaforicamente.

  4. neutron Says:

    Na época da escola, me matriculei num curso de artes marciais. Fui uma vez só, e não entendia porque algumas pessoas ficavam treinando sozinhas num canto. Agora, depois do seu texto, tá explicado. Hehe.

    Aprender a cair… isso demora bastante. Principalmente quando a gente é derrubado quando ainda está levantando, né?

    Abraços, Poeta! Apareça 🙂

  5. Renan Paffetti Says:

    ola gostei muito das suas cronicas usarei a suas cronicas no meu trabalho eu sou judoca estou na faixa verde sou duas vexer campiao brasileiro .
    espero que voce fassa muitro suseso e ve se me add no msn ou no orkut falo saminasai até mais

    msn:repaffetti@hotmail.com
    orkut:renanpaffetti@ig.com.br

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