Redemoinho Machadiano


 

Expansão do Setor O, Ceilândia, Distrito Federal, Anos 90

 

Ao contrário do que possa vir a parecer, eu não tenho muito controle sobre minhas crônicas. Elas transitam pelas décadas, uma história atrás da outra, sem muita razão. O grande problema é que tenho muitas coisas para contar e, em cada crônica, resolvi limitar meu espaço para que cada um dos meus poucos, porém fiéis leitores, possa ler sem se cansar muito. Mas eu fico tentado a contar tudo ao mesmo tempo, até pra que quem queira começar a ler num momento qualquer consiga se perder nos labirintos das palavras sem muita dificuldade. Então, sem pedir licença a ninguém e sem perguntar se era uma boa idéia ou não, resolvi falar sobre minha infância.

Mas aí temos problema: por onde começar? Se começasse pela minha concepção certamente me perderia em floreios inúteis sobre a filosofia do que é o amor, colocaria anjos e fadas na cama de meus pais e outras coisas que não combinam nem com o ato em si, nem com o produto do ato, que é esse matemático que vos fala. Podia também falar de minhas mais antigas lembranças, sensações que ficaram em minha cabeça, mas é tudo tão confuso e intrincado que, provavelmente, ficaria bem melhor num compêndio de fábulas fantásticas ou num livro infantil do que num livro de crônicas sobre a morte.

Porém, caros leitores, lembro que este blog é sobre a dualidade entre a vida e a morte. Portanto, se a crônica não for falar sobre estes assuntos ou se não fizer parte de um caminho que, uma hora ou outra, descambará para um deles, não vale a pena fazer parte deste blog. Assim as lembranças, sensações, gostos e cheiros de minha infância ficarão para outro livro que os meus poucos e fiéis leitores, por educação ou gosto, não cometerão a indelicadeza de não ler…

Bem, a primeira coisa que me lembra a Vida é algo que meu pai me disse há muito tempo, quando morávamos num lugar muito pobre, chamado Expansão do Setor O. Bem, o nome pode parecer meio ridículo, mas diz absolutamente tudo sobre o lugar: é a expansão do setor O, ou seja, é um conjunto de casas que colocaram ao lado do setor O. O setor se chama O por causa da letra O mesmo. Existe o setor QNA (o centro), QNB, e assim sucessivamente.

Quando eu era criança, o último deles era o QNO, donde veio o O de setor O. Logo, a Expansão do Setor O era, o lugar mais longe que o lugar mais longe do centro que havia na época.

Para minha imensa tristeza, o setor O não goza mais da qualidade de ser o útimo. Já inventaram o QNP, QNQ, QNR, QNS e, dizem as más línguas, que o governador já pensa em criar o QNAA…

Cidade planejada é outra coisa, né? Se esse fosse um livro comum, sobre uma cidade comum, eu diria que na minha infância eu morava na rua tal, no número tal, perto da avenida tal. Ao contrário, morava na QNO 18 Conjunto 61 Casa 18, na cidade-satélite de Ceilânida, o lugar em Brasília mais parecido com favela, na época.

Não posso dizer que era fácil ser criança na Expansão do Setor O. As ruas não tinham calçamento, era uma poeirada danada… Lembro que quando a gente mudou pra lá não tinha nem água. Vinham uns caminhões-pipa ou a gente ia num chafariz ali por perto carregar água em baldes. Mas isso não durou muito, pois a água, a luz e, por conseguinte, o IPTU chegaram bem rápido.

Na época da seca (que chegava a durar três meses), a umidade do ar era tão baixa e minha pele ressecava tanto que meus dedos, calcanhar, lábios e canela sangravam. Isso sem falar do nariz, óbvio. Nos dias ruins de agosto (o pior mês da seca) a gente desejava a chuva mais do que dinheiro. Mas não podia vir muita chuva, pois quando vinha com vento os telhados dos vizinhos saíam voando. Eu tinha medo de granizo, eu lembro, porque ele batia nas telhas de amianto com tanta força que parecia que ia quebrar. E às vezes quebrava mesmo…

A gente rezava pra Deus dar tanto a seca quanto a chuva na medida certa e que ele tivesse piedade dos mais pobres que nós, que não tinham sorte de ter uma casinha pequena, pobre, com um cachorro mirrado. A gente agradecia cada coisa que vinha, pois sabia que era tudo muito difícil de se conseguir.

E meu pai mandava a gente pra escola. Gente pobre sabe que estudar é importante, pra ter futuro. E eu quase não saía de casa, pois minha mãe tinha medo de que eu me misturasse com bandido. Isso não faltava mesmo, desde João de Santo Cristo a Ceilândia tinha essa fama.

Eram dias de tiroteios, sobreviver era uma bênção. Os poucos policiais que arriscavam entrar na Expansão do Setor O de madrugada eram heróis, burros ou corruptos. E ouvíamos histórias macabras de mortes e de fantasmas. A primeira pessoa que me lembro de ter visto morta era uma loira de cabelo pintado. Por descuido de alguém, o vento levou o jornal que tapava seu rosto e pude ver a ferida profunda e seca da faca que a degolara. Eu devia ter uns oito anos…

E esse era um dia anormamente quente, cercado de redemoinhos que me deixavam sujo da poeira vermelha de Brasília. Eu tinha medo de que aquele pó todo fosse pintado de sangue.

– Pai!

– Que foi, filho?

– Porquê a gente morre?

Ele pensou bastante antes de me responder. Então disse:

– A gente morre, filho, porque a gente vive. E a gente vive esperando que Deus tenha piedade da gente na nossa morte. E Deus só vai ter piedade da gente se a gente for bom, acreditar n`Ele, fizer o bem pra todo mundo. A vida leva a gente que nem leva a poeira no redemoinho. A gente roda pra cá e pra lá, de vez em quando está em cima, de vez em quando está embaixo, mas nunca sabe onde vai cair, onde vai parar. A gente tem de viver com coragem, filho, estando preparado pra tudo. Só assim a gente pode merecer a vida.

Não sei se esse é o tipo de coisa que se fala pra uma criança de oito anos, mas eu lembro que na época entendi tudo. Profundamente.

 

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4 Respostas to “Redemoinho Machadiano”

  1. Says:

    Bem correta e simples a resposta de seu pai, afinal, a morte é a única certeza que temos em vida, não é? Meu pai diz que para morrer basta estar vivo.
    E sim, eu me lembrei do João de Santo Cristo ao ver o nome Ceilândia…

  2. Claudia Lyra Says:

    Que Deus tenha piedade de nós… na vida e na morte…

  3. joyce correia da silvia Says:

    porque não egswhhg.kgjdvbkdszgdfkjtdfksgvwflayyfe,yrwaf l,yewrfdddddvsghsllypsto

  4. Ludmila Gaudad Says:

    Olá, colega!

    Recebi a indicação de teu blog por um aluno meu, do CEF17 – Expansão do Setor O. que alegria imensa a minha ao ler um crônica tão bem escrita e tão real. O IPTU chegou, junto com luz e água, mas a poeira ficou. Ela estraga a voz que uso para dar aula, assim como os pés d@s alun@s esportistas do colégio.

    Seu pai estava coberto de razão. O problema é que pensando assim vira um círculo, tipo “quem veio primeiro? o ovo ou a galinha?”.

    Se a gente morre pq vive, a gente vive por quê? E aí, devemos ficar por aí, esperando a morte?

    As vezes penso que sim…

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