Bertolino

Fazenda de João Grande, município de Santa Terezinha, 1994

 

Quando a gente imagina uma pessoa sobre um cavalo branco costuma ter aquela idéia de grandes generais em suas figuras eqüestres, com espada em punho, chamando os soldados para a guerra. Imaginamos heróis dispostos a morrer pelos seus ideais, bravos guerreiros, exemplos de superação e virtude.

Nada poderia estar mais longe do que a visão do velho Berto. Ele estava bem velho, corcunda, usava óculos velhos de aros grossos e quase não ouvia. O cavalo também, mirrado como ele só, mal se agüentava de pé. Parecia mais que estávamos em frente a Dom Quixote do que Deodoro…

Francamente, a visão de meu avô depois de todos esses anos foi decepcionante. Não conhecia meus avôs. O materno morreu antes de eu nascer, vítima de Chagas. Bertolino carregava nos ombros a responsabilidade de dez anos de ausência e não estava se saindo muito bem. É claro, eu era um menino da cidade, tinha todo o direito de imaginar coisas. Principalmente, mal conhecia o mundo e tinha um grande preconceito com a vida no mato. Pra mim a cidade tinha vida, pessoas, movimento. O campo, com sua mesmice e pequenez, era um ambiente ruim, atrasado, sem vida. O campo era o retrato do descaso, do atraso. Pra mim aquelas pessoas viviam na idade média. João Grande era o Rei Artur e meu avô, um pobre vassalo que eu esperava ser Robin Hood.

O pequeno sítio também não ajudava muito: a casa velha de pau-a-pique com as paredes carcomidas pelo tempo, as galinhas soltas por ali, as poucas siriguelas cheias de periquitos, o cheiro do chiqueiro, o silo, onde se guardava milho, tudo tão velho, tão abandonado…

Não havia luz, a água era tirada de um poço profundo. Não tinha banheiro também. Havia um grande fogão a lenha, que deixava a parte de dentro da casa sempre com aquele aspecto de enegrecida. Éramos constantemente atacados por enxames de mosquitos que deixaram cicatrizes nas minhas pernas.

Porém, Deus dá às crianças uma alma maravilhosa. Essas primeiras impressões logo desapareceram e tudo virou festa. Adorei o cheiro de madeira queimando, fiz muitas perguntas sobre as vidas deles, onde era a escola, como funcionava o poço e porque eles guardavam milho no silo. Corri livre, até doer as pernas. Perguntei o nome das plantas, das galinhas, dos cavalos e porcos. Andei de cavalo, nadei pelado na represa, pesquei com a mão, ouvi histórias de caçadas, principalmente de onças e jacarés, na unha. Joguei futebol com os meninos da fazenda de João Grande, aprendi a fazer rapadura e pamonha, incendiei formigas. Falei com os meninos sobre Monteiro Lobato e os contos de Grimm. Acho que eles não se interessaram muito…

Tirei leite de vaca, dormi ao relento, ao lado de uma fogueira e ajudei a caçar cascavel (sim, quase fui picado por uma cascavel de verdade!). Chupei siriguela, cana e manga no pé e vi que a vida na cidade que era chata. O campo, de onde veio minha família era um lugar maravilhoso. Dali em diante, um dos meus maiores desejos era morar num lugar sem paredes, sem pessoas. O campo me fez entender o valor da solidão.

Minha pouca idade me fez ficar longe do conflito. Sabia que não devia fazer certas perguntas e não as fiz. Estes dias na casa do meu avô não me fizeram ficar mais próximo de meus irmãos. Provavelmente mais culpa minha do que deles. Eu era muito introspectivo nessa época. Odiava quem invadisse meu espaço. Era jovem demais pra entender o sentido de tudo isso, a necessidade de estar próximo de sua família. Não sabia ainda, mas aos dez anos passava pela minha primeira depressão.

Não guardo recordações fortes sobre esses dias. Guardo impressões, cheiros, gostos. Palavras não, essas sumiram. Lembro principalmente de Dona Joana, mulher de meu avô, de sua rabugice e do cheiro forte de seu cigarro de palha. Ademais, nada que valha ser lembrado nessas memórias. Não que as histórias não sejam interessantes ou bonitas. As melhores farão parte desse livro, mas a seu tempo.

Por enquanto, deixo vocês com as lembranças da volta. Pra mim foi bom voltar pra casa depois de todos esses momentos de intensidade. Cresci muito nesses dias, aprendi a ver o campo e a cidade com outros olhos.

Os dias na casa de meu avô foram cruciais para que eu pudesse ver o mundo de uma maneira diferente. Isto se mostrou muito claro já nos dias seguintes, quando voltei pra casa. Falaremos mais sobre os dias na Fazenda de João Grande depois…

Ali, aos dez anos, logo após a viagem para a casa de meu avô, entendi o que significa a morte. Ao voltar à Brasília depois daquelas curtas férias, entendi a proximidade do sofrimento. Mas isso fica para a próxima crônica…

 

 

 

 

 

 

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2 Respostas to “Bertolino”

  1. Says:

    Também sou menina da cidade…
    Mas tenho parentes com sítio… mas já conheci tarde os prazeres do sítio (de comer fruta no pé, de fazer pamonha, de tirar leite da vaca…. prefiro tudo pronto e comer no pé? sem lavar? jamais… azar o meu!).

  2. Ane Brasil Says:

    Caramba, que aventura, menino!
    Isso bem rende um livro mesmo!

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