Os Periquitos Verdes

Estrada das Esmeraldas, município de Santa Terezinha, 1994


Meu pai soube do paradeiro do meu avô meio por acaso. Conversando com amigos da época em que morava em Itapaci, ouviu notícias de um certo Bertolino, arrendatário de um pedaço da fazenda de João Grande. Era atrás deste João Grande que estávamos e, por isso, andávamos pela esburacada estrada das Esmeraldas.

Quando meu pai viu um grande jatobá, sabia que era ali a entrada que deveríamos seguir. Meu irmão mais velho desceu do carro e abriu a porteira que levava à fazenda. Uma pequena placa, de letras tortas, quase totalmente escondida pelo mato, indicava a direção. Na época eu não percebia a emoção daquele momento. Meu pai não via meu avô há muitos anos. Talvez mais de vinte. Nada indicava alegria, sentimento, ansiedade, dor. Meu pai era uma rocha que não mostrava nada.

O carro balançava muito e íamos devagar. Essa lentidão tornava tudo mais difícil. Eu já estava bem cansado de toda aquela viagem. Todos estávamos. Quando abrimos a última porteira, pudemos ver de longe uma grande casa, cinzenta de cimento sem reboco, ao lado de um curral, não muito grande, de vacas leiteiras. Eram campos vazios, com poucas árvores e, atrás da casa, havia um mangueiral com árvores já bem velhas e um pequeno canavial.

O primeiro barulho que ouvi foi de uma revoada de periquitos verdes que faziam um grande alvoroço nas poucas árvores frutíferas dali. Periquitos sempre me aparecem nos momentos de angústia. Só percebi isso muito tempo depois.

Um grande e lerdo cachorro fila começou a latir na direção do carro. Quando nos alcançou, cheirou as rodas e saiu. De dentro da casa, saiu um homem de chapéu, com pelo menos um metro e oitenta, mulato, de olhar atravessado e fala muito grossa e alta, típica dos violeiros da região. Era João Grande.

– Ôxi! Quem vem? – ainda me lembro da surpresa de ouvir aquela voz cantada.

– É Diogo. Viemos de longe. É aqui a Fazenda de João Grande?

– É com ele que cês fala.

– Viemos atrás de Bertolino.

– O que cês qué com o véi Berto?

– Ele é meu pai.

Silêncio. Outra vez o som dos periquitos. Alguém ali brincava com um bodoque e os fazia voar por pura diversão.

João Grande tirou o chapéu, coçou a cabeça e a barba rala. Não era difícil ver a surpresa no seu rosto.

– Êta mundão véi sem portêra. Adentra aí que Neguinha vai fazer um café procês.

Entramos na casa e ouvimos as apresentações. Não me lembro do nome de todos. Lembro sim de João Grande, Neguinha de Artur, que preparava bolos de milho maravilhosos, alguns filhos que brincavam com meu nome e com o fato de eu usar óculos.

Lembro do cheiro de bosta de vaca, das paredes repletas de calendários, muitos deles bem antigos e que, não sei porquê não foram arrancados. Lembro principalmente do gosto maravilhoso daquele leite de vaca que acabara de ser tirado e dos olhos claros de Letícia, que foi quem me trouxe o copo de leite.

Não me lembro das conversas, nem quem foi que, pouco depois, nos levou a pé até o pequeno sítio arrendado por meu avô. Mas me lembro de cada detalhe do caminho: a represa do lado do canavial, uma cacimba* cheia de sapos coachantes, uma subida um pouco íngreme, no meio de uma pequena mata, cheia de jabotis, e, atrás de uma colina, a pequena casa de pau a pique, onde meu avô esperava sobre um velho cavalo branco.

Ali estava Bertolino Sousa Campos, pai de Diogo de Laura, caçador de esmeraldas e onças pintadas e um grande contador de causos.

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4 Respostas to “Os Periquitos Verdes”

  1. Says:

    Puxa, que delícia de texto!
    Fiquei imaginando uma criança se deliciando com os maravilhosos bolos de milho da Neguinha… ai, que sinto até o cheiro!

  2. Ane Brasil Says:

    Que figura esse tal João.
    Periquitos… tive periquitos só em gaiola, fui menina da cidade, sem nenhum parente distante em zona rural… nascida e criada no asfalto (hum, bem, até os 20 anos morei em rua de chão batido…)
    Lindos os seus textos… todos. chego a sentir o cheiro da terra e do bolo de milho… chego a me acomodar no fusca junto com vocês, de carona nessa viagem maravilhosa.
    Sorte e saúde pra todos!

  3. Claudia Lyra Says:

    Isso tá ficando bom demais de acompanhar. Meu Cronista Matemático!

  4. guilherme martins Says:

    nao devemos desmatar a natureza e os animais

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