Cheiro de Terra Vermelha

Itapaci, 2007

 

Abri a porta do carro com pressa. O carro estava um forno. Meu avô deve ter ficado uns dez minutos naquele inferno. Ele estava ofegante, mas não reclamou um segundo.

– Tá quente, vô?

– Tá quente pra muléstia…

– Vamo sentar ali na sombra. Deve tar um tiquim mió…

Dava dó. Ele se movia muito devagar. Parecia que cada movimento doía. Meu joelho também estava insuportável. A respiração descompassada, o calor me fazia suar horrores. A sombra estava a poucos metros mas, como não podíamos andar depressa, aquele pequeno pedaço foi uma tortura. Odeio calor.

Finalmente paramos na sombra. Ali podíamos sentir uma brisa muito leve. Tirei minha camisa e abri a de meu avô.

– Esse mundo véi tá cada dia mais parecido com o inferno! Êta calor do capeta!

Não disse nada. Ainda pensava em Ariel. Não sabia nem se era meu parente mesmo, mas ainda assim sentia certa tristeza por aquela grande família. Eu não conhecia ninguém ali. Sempre fui mais próximo da família de minha mãe. Agora, no meio daquele povo, daquela terra que viu meu pai menino, senti uma nostalgia por uma infância que não tive, primos que não conheci, vínculos que não criei. Mesmo meu avô não era muito íntimo. O vi poucas vezes. Durante quase toda minha infância ele esteve desaparecido. Todos tinham-no dado como morto.

 

**********************

 

Estrada das Esmeraldas, Município de Santa Terezinha, 1994

 

Meu pai tinha um fusca branco. É o primeiro carro que me lembro que meu pai teve. Eu tinha dez anos e viajava com ele e os irmãos homens. Ia conhecer meu avô de quem sempre fiz muitas perguntas sem resposta. Era estranho descobrir que tinha um avô depois de dez anos, ainda mais com aqueles dois irmãos que não tinha a menor intimidade. Eles não eram filhos de minha mãe e não moravam comigo. Por isso tínhamos pouco contato.

Eu era uma criança calada. Sofria horrores no colégio, pois era menor que meus colegas. Eu já queria ser escritor e olhava praquelas colinas verdes cheias de vacas clinicamente, pensando em cada detalhe, em cada pequena coisa que poderia me servir depois.

Apesar de ser muito jovem, já estava com story board de meu primeiro livro preparado. Era um livro policial com muitos assassinatos que dificilmente sairá do papel, mas que tomava muito da minha atenção naquele tempo.

As colinas, as estradas de terra, aquele povo queimado de sol, tudo isso tinha me apaixonado. Era uma sensação diferente. Sou filho da cidade, urbano até os ossos. Os cheiros, as árvores retorcidas, o gosto de poeira na boca, grandes novidades que me fez tentar olhar de outra forma praquale estado que cercava o meu.

Eram dias estranhos para mim. Considero que o ano de 1994 foi o da primeira grande virada na minha vida. Aos dez anos me sentia muito mais velho, ouvia Faroeste Caboclo com olhos fechados e me sentia filho de uma cidade sem lei, morador da Ceilândia, onde morreu João de Santo Cristo. Lia muito de tudo.

Conhecia o mundo dos livros, mas aquela viagem me permitiu, pela primeira vez, ver o mundo in loco, sem intermediários. Mas não era o mundo de Rachel de Queiroz, nem a Grécia de Homero. Goiás era um mundo à parte, totalmente novo, que fundia diversos outros mundos na minha imaginação.

Goiás para mim era a terra. O cheiro de terra, o gosto da terra vermelha que entrava pelas minhas narinas agora, que ia visitar meu avô pela primeira vez. Nem pensava nessa época que aquele vermelho poderia muito bem ser visto como o vermelho do sangue de meus antepassados. Nem imaginava ainda o quanto aquela viagem ia ser importante para mim, escritor. Nem imaginava o quão interessantes os personagens que eu veria seriam para minhas poesias. Nem imaginava…

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4 Respostas to “Cheiro de Terra Vermelha”

  1. Says:

    Preciso dizer que sempre achei o máximo as vaquinhas nas colinas de Minas Gerais… (conhece?). É uma visão fantástica!

  2. Claudia Lyra Says:

    Nem lembro o que eu pensava quando tinha dez anos e viajava com minha família…
    Mas essa coisa aí, de outros irmãos que não são filhos de sua mãe, ei!, isso eu não sabia!

  3. jujudeblu Says:

    Nossa, muito bom este espaço seu! Apesar de ser nomeado como de “morte”, os textos se tornam bem imaginariamente reais e, assim, ganham “vida” para nós que os lemos!
    Minha amiga é de Goiás e ela tem um cd que vou te mostrar uma música que fala da “poeira vermelha” de Goiás. ^_^
    Meu pai tbm tinha fusca branco! hehe Ele vendia um pra comprar outro igual… eu nunca entendia! hehehe
    Espero que o impacto disto tudo esteja melhor compreendido aí, dentro de ti!
    Sobre ser escritor… vambora! ^_^

  4. Ane Brasil Says:

    Rapá, tô impressionada!
    Acho que fomos crianças um pouco parecidas: meio precoces, baixinhas e escondidas atrás dos óculos hehehe.
    Cara, impressionante essa sua segunda viagem. Sim, agora você faz uma segunda viagem: até Goiás, até o interior do Brasil, até o interior de você mesmo.
    E vou te dizer uma coisa: tá boa essa viagem!!!!
    Sorte e saúde pra todos!

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