Itapaci – 1

Segunda-feira quente no Estado de Goiás. A estrada era ladeada por grandes plantações de cana que iam até onde a vista alcançava. Muitas curvas até ali, estrada perigosa. Dirigíamos havia quase quatro horas. Ainda faltava muito para Santa Terezinha. Meu avô dormitava no banco de trás, exausto. Eu e meu pai ouvíamos Chico.

– Se tivéssemos um facão podíamos roubar algumas canas. Se bem que assim foi bom. Cana dura, sem doce. Não vale o prejuízo de descer do carro. – meu pai sempre foi dono de uma sinceridade sagaz. Se ele não gostava de alguma coisa, fazia questão de deixar bem claro.

Mais à frente havia uma usina de álcool, cercada por grandes caminhões vazios. Ainda não era época de colheita, os campos não tinham sido queimados. Por ali dezenas de bóias-frias esperavam emprego. Eram os meses de vacas magras pra eles.

Estrada complicada. Alguns buracos, mas desviáveis. Passamos por uma cruz ao lado da estrada. Lugar ruim, ponte depois da curva. Perigoso. Fizemos o Nome do Pai e pensamos na dor de quem morreu ali.

– Fala com seu avô…

– A viagem tá boa, vô?

– Hein? – a surdez piorara muito depois do derrame.

– A viagem ta boa?

– Tá só um tiquim.

Não tinha muito papo com ele. Homem simples, roupas simples, gestos contidos. Muito mirrado, corcunda pronunciada e a boca vazia de dentes.

– Água?

– Não, filho, obrigado.

– Você quer, pai?

– Eu não. Tá com gosto de plástico.

Estávamos entrando na cidade de Itapaci. Pequena para os padrões de um brasiliense. Poucas ruas calçadas, mas casas bonitas, pintadas. Nenhuma muito antiga. A estrada cortava a cidade ao meio. Dali até Santa Terezinha seria rápido.

– Podíamos parar pra falar com teu primo Alexandre. Tu não conhece ele, né? Éramos muito amigos. Fazíamos tudo juntos, bem antes de você nascer.

Eu não tava muito a fim, mas não disse nada. Não era lá uma viagem de férias.

O carro diminuiu o passo. Numa esquina, dezenas de pessoas se acotovelavam na frente de uma casa grande. Não parecia ser uma festa de confraternização.

– Ê…

– Que foi?

– Acho que tua tia morreu.

Nem conhecia a tia, mas uma verdade dita assim, sem preliminares era dolorida. Fiquei calado. Já estava acostumado com a sinceridade de meu pai.

– Mau sinal esse povo todo parado na frente da casa.

Ele parou o carro no meio do sol. Descemos, eu e ele. Atrás ia uma moça morena de cabelos compridos.

– Que houve ali – meu pai perguntou.

– Falecido.

– Quem?

– Ariel…

Meu pai abaixou a cabeça, triste…

Fomos na direção à casa. Uma preta nos parou, reconhecendo meu pai.

– É o Diogo de Laura?

– Sou…

– Foi D. Laura que te guiou praqui. Ninguém tinha seu celular pra te ligar. Uma tragédia, meu Deus.

Não fazia idéia de quem era o defunto, mas pelo menos não era minha tia. Sentia um certo alívio. Se fosse parente, era mais distante.

O sol me torrava o crânio. Muitos conversavam do lado de fora, falavam do morto e de outras coisas menos importantes. Uma parte considerável da cidade estava ali. Entramos por uma porta e entramos numa espécie de copa, onde adolescentes sentados nos olhavam curiosos. No fundo havia um grande quintal, cheio de mangueiras e cajueiros, onde crianças barulhentas brigavam por uma bola.

Entramos por um corredor que dava pra parte de dentro da casa. Lugar apinhado de gente triste. Ninguém chorava mais. Ali estava o morto, num caixão pequeno, coberto de flores brancas. Ariel.

Ele era velho, aparentava ter mais de oitenta e repousava sereno, vestido com um terno escuro. Apertamos a mão do filho que velava o caixão, prestando condolências.

Meu pai perguntou a ele detalhes da morte. Odeio detalhes de morte. É mais fácil aceitar que ele se foi e pronto. É duro pensar no sofrimento, na dor da família, naquele monte de gente que, como eu, ao prestar solidariedade à família, só tornava aquele momento ainda mais difícil.

– E sua mãe, onde tá. – meu pai perguntou.

– Ali, no quarto. Tu não viu?

– Não, vou falar com ela.

De volta ao acotovelamento. Não deu tempo nem de rezar uma ave-maria pro morto. Entramos num quarto grande, cheio de mulheres. Entre elas, minha tia, mulher de Ariel.

Era muito mais jovem que ele, tinha uns sessenta e já não chorava. Olhava perdida pro vazio. Não reconheceu meu pai.

– É Diogo de Laura mãe, tá falando cocê! Foi Laura que mandou ele, lá do céu…

– Diogo? É muito diferente pra ser Diogo de Laura.

Lembrei de meu avô. Deixamos ele sozinho no carro fechado. Naquele calor ele ia acabar morrendo em minutos.

– A chave pai! Meu avô tá no carro…

Corri dali, mas meu objetivo principal não para salvar meu avô, mas fugir daquele lugar grotesco. Não me sentia bem, me faltava ar. Minhas pernas estavam moles e, ao ver o céu azul enorme de nuvens brancas, pensei na morte e em como ela estava perigosamente próxima de mim. Meus passos eram passos de fuga, procurando esquecer a rigidez do corpo do morto, a textura da pele, toda a dor contida da família que parecia estar prestes a explodir ao menor motivo.

Pensei como a morte costuma se mostrar mais forte assim, em dias quentes de verão. Mortes de segundas-feiras. Mortes simples, esperadas ou cruéis, mas sempre mortes. Sempre causando dor aos homens. Por quê ter tanta dor pelo que sempre esperamos, por aquela que é a única e verdadeira certeza que temos?

Tudo parecia confuso quando caminhava para o carro. Esperava respostas, mas por ali eu sentia apenas um indescritível vazio. Vazio de cemitério. Vazio de amplidão…

Anúncios

4 Respostas to “Itapaci – 1”

  1. Claudia Lyra Says:

    Uia!!!! Brógui novo!!! Bão… já falei pra ti que gostei do texto, já falei pra ti que você é prolixo, já falei que gosto muito mais de prosa do que de poesia…

    Então, estou aqui só pra marcar território como primeira comentarista. Peraê que vou fazer xixi nos quatro cantinhos do blog…

  2. Ane Brasil Says:

    Minhas condolências popr Ariel.
    A morte é isso, meu amigo.
    ela leva, a gente se vai.
    Sorte e saúde pra todos!

  3. Says:

    Comecei a ler e pensei “ué, mas eu já li esse… onde?” O.o Que sem-noção, né?
    Enfim!
    Achei legal vc criar um novo blog para as histórias! Pelo visto, teremos várias!
    História nordestina, ou pelo menos do povo que vive na seca, pelo que conheço das leituras de ‘Morte e vida Severina’ e outros tantos livros que falam sobre o assunto é bem assim, como vc descreveu…
    Fui lendo e revolvendo na cachola os cenários tantas vezes visto ou imaginado através dessas obras…

  4. Genelso Says:

    OLá amigo, gostei de seus textos , afinal quem é vc?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: