Janeiro 25, 2011

– Tem certas coisas que você faz – ela disse – que têm um poder sobre mim maior do que eu sou capaz de explicar.

Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos lisos. Era um tique dele, passar a mão na cabeça quando estava envergonhado ou nervoso. Ela achava lindo isso que ele tinha de ser tímido nas horas convenientes. Ele levantou-se de cama, ainda nu e perguntou se ela queria alguma coisa da cozinha. Ela disse que não e ele saiu.

Ela deitou na cama com as mãos cruzadas sob a nuca e ficou lembrando dos detalhes da noite. Detalhes, nisso ele era bom, ele sabia preparar cada coisa nos mínimos detalhes. E sabia improvisar também, o que era uma baita qualidade. “Cara, qual é o problema desse homem?”, disse consigo mesma. Mas ela no fundo sabia que o problema era ela tentando achar problema em tudo que era coisa. Ele era o primeiro em muita coisa e isso deixava ela assustada. Ficava assustada das coisas que ela dizia pra ele, da maneira como ela se entregava pra ele livremente, com não tinha feito com nenhum outro. Aos outros homens ela se deixava tocar. A ele, ela se deixava conduzir.

E ele a conduzia, fazendo dela o que quisesse. Tinha dias que a xingava de puta, de vagabunda e a deixava toda roxa nos pulsos, nas pernas e nos seios. Tinha dias que ele fazia amor a olhando nos olhos e ela ficava assustada de perceber como ele conseguia dominá-la também de olhos abertos enquanto se mexia bem devagar, por horas. E tinha dias que ele não fazia absolutamente nada a noite inteira, só ficava sentado vendo um filme chato com ela até dormir, e isso era absurdamente bom.

“É a paixão, Iasmim, você sabe…”. “Mas você sabe que não pode, Ele não pode. Ele não quer você…”

E quando ele voltou, ela estava triste. Ele sorriu, deitou do lado dela mansinho e a beijou na testa. Ela se aninhou no peito dele e ficou sentindo o coração bater bem tranqüilo. E entendeu que perfeição se faz nos detalhes…

 

 

O dia do perdão…

Agosto 7, 2010

Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui bom com as palavras e em convencer as pessoas, mas só usava isso quando necessário.

Eu tinha entre quinze e dezesseis anos. Era 1999 e a música do capital estourava nas rádios. Eu gostava, principalmente pq conhecia o trabalho antigo deles, que era absurdamente bom. Ouvia discos de vinil na casa de amigos: Joy Division, The Clash, The Smiths, Ramones.

Tocava violão, mas não muito. Compunha uma ou outra canção, despretensiosamente. Algumas eu me lembro até hoje. Não esqueci nenhuma melodia.

Era punk. Não usava drogas porque sabia de onde elas vinham e sabia o que elas faziam com as pessoas, principalmente com os inocentes. Continuo limpo. Mas nessa época nem álcool eu usava. Aprendi a beber vinho no mestrado (canção, branco suave, hj acho pior do que remédio). Aprendi a beber cerveja na UnB (hj eu sou chato, só bebo bohemia e original). Aprendi a beber uísque no mestrado (ok, continuo nessa fase, mas tenho medo do que vou aprender a beber no doutorado).

Eu tinha poucos amigos. Era solitário. Andava sozinho para todos os lugares, principalmente de noite. Me metia em confusões, mas não muito. Era um anarquista que acreditava em Deus. Continuo sendo, os dois, mas na época eu não ia à Igreja. Achava absurdo ir a um lugar encontrar com um ser onipresente. Hoje vou à igreja, pq sei que Ele pode ser encontrado com mais força em certos lugares. Mas isso não é importante pra essa história.

Eu era um tipo especial de anarquista. Odiava o Estado pois sabia que ele era fonte de toda desigualdade. Mas não achava que as pessoas estavam prontas para viver sem ele. Logo, a opção era sabotá-lo. A democracia é um erro. O comunismo também é, já que nega o indivíduo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões por si e transformar o coletivo. Não acho que a opção à democracia seja uma ditadura de um só partido. Só o anarquismo daria liberdade total, para pensar e fazer o que sua consciência mandasse. Eu era um anarquista que acreditava na humanidade. Ainda sou, na verdade, acho que o lance é mudar a humanidade antes de mudar o estado e destruí-lo.

Bem, é isso. Disse essas coisas para dar um perfil psicológico para o personagem. Ou não, é só um desabafo mesmo. A idade vai chegando e a gente começa a pensar no que a gente fez no passado. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Foram as circunstâncias, sabe?

Na verdade, Brasília era uma cidade muito escrota. Muito mais do que é hoje, certamente. Havia pouco a se fazer. O que existia era caro ou inacessível. Os jovens não tinham espaço não porque fossem perigosos, mas porque Brasília nunca teve juventude e, portanto, não se sabia o que se esperar dela. Eu sou da primeira geração de brasilienses nascidos lá. Os começos são difíceis.

Havia vários colégios públicos grandes. Eram como grandes prisões, resquícios da ditadura. Porém eram espaços de política e “subversão”. Era o governo de Fernando Henrique Cardoso, o pior presidente da Nova República e o Brasil vivia crise atrás de crise. Era fim de ano e Roriz tinha ganho a eleição para governador, de uma forma que sempre foi vista como fraudulenta. Os sindicatos eram muito vigiados e boa parte dele era vendida ao governo. Dessa forma, era das escolas secundaristas e da UnB que vinham os focos de resistência à política existente.

E o estado se mostrava para nós. Alunos eram expulsos e desapareciam. Éramos obrigados a usar um uniforme e não ter nenhum símbolo para nos identificar: brincos, pulseiras, anéis, coturnos, lenços, era tudo proibido. As reuniões políticas não eram proibidas diretamente, mas era perigoso participar delas. Era perigoso ser filiado a partidos políticos. Mas eles existiam: o PT Jovem, a União da Juventude Socialista, entre outros. Eu não era de nenhum, já que era anarquista. Os colégios se dividiam entre eles. Eu era da (…) uma das mais tradicionais escolas públicas de Brasília. Fui pra lá por escolha, já que meu pai poderia pagar uma escola pra mim se quisesse.

E era uma escola efervescente. Era um barril de pólvora. Enquanto estive lá houve quatro grandes rebeliões de alunos. Quando acontecia, os alunos deixavam suas salas, invadiam as áreas públicas da escola e gritavam palavras de ordem até serem ouvidos. Ou até chegar a polícia. Sim, havia um batalhão da polícia do lado da escola.

E então quebrávamos os portões e fechávamos as ruas, em protesto. Sempre por motivos políticos. Éramos odiados pelo diretor da escola, pelo comandante do quartel da polícia e pelo administrador da cidade. Mas as putas que trabalhavam ali por perto gostavam da gente. Éramos jovens e ninguém é culpado pelo que faz aos quinze, dezesseis anos.

E nos metíamos em brigas, muitas. Como éramos perseguidos, nos organizávamos em pequenas gangues. Claro, isso tinha seu preço. Eu era da grande gangue dos punks, particularmente da confraria da (…) muito famosa nesses tempos. Digamos que aparecíamos muito nas colunas policiais dos jornais. Isso porque, além dos punks existiam os grupos neonazistas, gangues também organizadas, de pessoas que tinham ódios raciais contra todas as minorias, como nordestinos, homossexuais, deficientes físicos e negros.

Nós odiávamos os neonazistas com todo nosso coração. Era mútuo. Na verdade, a mentalidade punk é pelas minorias, pela contracultura, pelo protesto. Havia muitos homossexuais entre nós, muitos negros. O que valia era o que vc pensava, sua identidade e não o que você fazia de sua vida. Dessa forma, éramos vistos pelos skinheads como o lixo do mundo. E era assim que nos víamos e, por isso, nos achávamos fortes.

Mas, bem, a história começa por acaso. Era dia (…) e fomos surpreendidos pela notícia de que T., um famoso travesti de perto da escola tinha morrido, espancado até a morte. Isso não era incomum, mas nesse caso, particularmente, foi pessoal. Ele era um cara maneiro, de idéias avançadas. Fazia parte de movimentos LGTBT e era muito politizado. Ainda fazia ponto por ali.

A notícia se espalhou muito rápido. Logo, os três maiores colégios de Taguatinga estavam em pé de guerra. Eram outros tempos, quase ninguém tinha telefone celular e as coisas se resolviam no boca-a-boca. A indignação foi crescendo. Nenhum jornal noticiou. Nenhuma palavra, nada. O crime nem foi investigado.

E começou a acontecer. Primeiro um, depois outro. Os encontros entre os punks e skinheads estavam ficando sangrentos. Todos já sabiam o grupo responsável pela morte de T. e eles deixavam isso bem claro quando nos encontravam. Falavam de como foi bom ver os miolos “daquela bicha escrota” espalhados no asfalto. As brigas eram constantes. Depredávamos as ruas, pichávamos os muros exigindo justiça. E nada…

Então resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Era novembro e chovia. Ia ter um grande show de rock em Taguatinga. Sabíamos que eles iriam. Mas dessa vez nos preparamos. Paus, pedras, estilingues, socos ingleses. Meu sangue fervia. Foi a primeira vez que eu usei um soco inglês. Eu sentia aquele ferro frio roçando na minha perna, escondido. Todos estávamos tensos. Sabíamos que podíamos ser presos. Mas o T. merecia. O T. era foda. E eles precisavam de uma lição.

Lá pelas dez da noite eles chegaram. Todos juntos. E não eram só eles, havia mais quatro grandes gangues de skinheads, pelo menos umas cem pessoas. Não sei ao certo quantos éramos, mas havia representantes de movimentos punks de oito cidades do DF. O público sentiu a tensão. Algumas pessoas foram embora imediatamente. Todos sabíamos o que fazer. Ninguém levou nenhuma identificação. Eu tinha cortado o cabelo rente no dia anterior. Muitos traziam duas, três blusas para poderem se perder na multidão. Eu também trazia um lenço comprido pra tampar o rosto.

Foi muito rápido. Antes que eles pudessem se desagrupar, um rapaz tão franzino quanto eu, gritou o nome de T. bem alto. Foi o caos. Uma multidão de punks saiu do meio do público do show e avançou sobre os skinheads. Eles estavam preparados e reagiram na mesma medida.

Eu também entrei no bolo. Soco inglês na mão, os dentes muito unidos, os óculos escondidos no bolso de trás da calça. Corri como um desesperado pro meio do bolo. Paus, pedras, galhos de árvores, tudo era arremessado na gente. E eu socava tudo o que eu via de careca na minha frente. Eles recuaram. Nós não deixamos, nós os cercamos. Queríamos sangue, queríamos morte. Eu vi, pela primeira vez, a face do medo.

Os carecas tremiam. A lama do chão era uma mistura nojenta de sangue e corpos de adolescentes. Havia meninas também e homossexuais se chutando, se espancando, mordendo. Foi a desforra de tudo o que sofremos nos meses anteriores. A polícia estava presente, sempre está, mas eles assistiram tudo quietos. Não chegou a dois minutos, mas eu estava exausto. Meu corpo todo tremia, minhas mãos doíam. As minhas costas e barriga estavam machucadas. Eu mal me agüentava em pé.

Então chegou a cavalaria. Eles vieram como um raio, passando por cima de tudo. Nas mãos eles carregavam grandes cassetetes que podiam acertar pessoas no chão, mesmo estando sobre os cavalos. “Estou perdido”, pensei. Mas não. Eles passaram pela gente e foram com tudo pros skinheads. E a partir daí tudo ficou confuso.

Dispersamos. Cada um correu para um lado. Tirávamos as blusas de cima enquanto corríamos, e corríamos, e corríamos. Era a sobrevivência MESMO. Ir para o CAJE – o centro de correção de jovens infratores – era a morte certa para todos os punks. Quando a coisa ficou preta, eu me escondi atrás de um container de lixo. Podia ouvir o barulho das balas de borracha e das bombas de efeito moral muito próximas. A cavalaria continuava avançando e batendo, batendo, batendo…

E eu ali, molhado de chuva, escondido, ainda com o soco inglês na mão. Foi quando vi, ali na minha mão, um pedaço de algo que era carne e sangue, que provavelmente veio da cara de alguém. Joguei aquilo no contêiner e fugi dali, muito rápido.

Esse dia nunca foi esquecido.

Aquele foi conhecido entre todos os punks como o dia do perdão, porque mostramos como se perdoa neonazista.

 

 

Minhas mãos ficaram inchadas por muitos dias. Eu não conseguia esquecer o soco inglês sujo de sangue. Mas tive orgulho de estar ali. Como disse antes, não se pode culpar uma pessoa pelo que ela faz aos dezesseis anos. Se fosse hoje eu faria? Dificilmente. O que sei é que todos os dias morrem pessoas vítimas de discriminação racial e social nesse país. Há vários T.’s anônimos em toda parte. Fiz o que achava certo então.

O dia da morte de T. é celebrado por nós todos os anos. Na confraria de (…), que ainda existe, é chamado o dia do Martírio.

E se escrevo isso agora, depois de todos esses anos é por saber que sou o que sou hoje por causa dessa e de outras pequenas coisas. E isso carrego em mim todos os dias.

O começo da revolução

Junho 18, 2010

Continuando com a política de distribuição de pequenas partes do livro, aí vai mais um pedaço. Espero que vocês gostem.

 

 

 

Juvêncio e Onésimo bebiam animadamente no bar, já vazio no começo da madrugada. Juvêncio tinha passagem de volta marcada para o dia seis e aquela seria sua despedida do amigo. Também chamara Antônio, que estava de serviço nesta noite e não veio, e Pedro Emílio, que chegou lá pelas dez da noite. Os três jogavam cartas e contavam piadas. O relógio de pêndulo do bar marcava por volta da meia-noite quando Juvêncio sugeriu ir dar uma volta na praia, que ele nunca tinha visto à noite.

Solidários e meio embriagados, os amigos foram com ele. Andaram um pouco, na direção da Praia do Leme, quando Juvêncio sugeriu sentar-se na areia. Tudo estava calmo e na noite sem estelas podiam ver as luzes de um pequeno barco se afastando para o mar aberto. Ainda animados, os rapazes faziam troça uns com os outros.

Juvêncio ficou um bom tempo acompanhando o barco até que ele sumisse. Teria saudades daquele lugar, assim como agora tinha saudades de Chico Preto, do Tobias, Espiridião, Valentim e de Maria. Seria bom voltar, para casa, assim como foi bom encontrar estes amigos, meio que por acaso. Amanhã estaria no trem, de volta a Goiás.

Um pouco mais sóbrio, ele se levantou, chamando os amigos para voltar ao hotel. Andavam juntos, ainda animados pela bebida, quando…

 

Por acaso estavam virados para o Forte de Copacabana, quando ouviram a gigantesca explosão. A princípio não conseguiram perceber o que acontecera e, por instinto, Juvêncio se jogou no chão. O bairro inteiro acordou. As luzes dos quartos da Avenida Atlântica acenderam-se quase simultaneamente. Cachorros latiam em uníssono, vários homens se debruçavam das janelas tentando entender o que acontecia.

– Mas que… – Pedro terminou a frase com um palavrão.

– Não sei, não sei, foi uma explosão.

– Veio do Forte? – Era Onésimo que perguntava.

Os três lembraram ao mesmo tempo do amigo Antônio. Correram em direção ao forte o mais rápido que podiam.

Foi apenas uma explosão, depois o silêncio. Nenhum sinal de incêndio ou de acidente, nada de fumaça que justificasse o barulho. A princípio, nenhum dos três amigos percebeu que estavam prestes a ver a História ser escrita.

 

Dentro do forte, Antônio, ou melhor dizendo, o tenente Siqueira Campos, ouvia com atenção, observando o relógio de bolso, ao lado do canhão de artilharia. Em sua sala, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do ex-presidente Hermes da Fonseca e comandante do Forte, também ouvia atento. Esperavam um sinal.

As ordens tinham sido dadas, o forte estava cercado de trincheiras recém-escavadas, onde os soldados bem municiados esperavam as próximas ordens. As areias estavam cheias de minas. Os minutos passavam e todos estavam tensos. Nenhum som, nenhuma resposta.

 

Os amigos pensaram primeiro em um acidente. Talvez alguém tivesse disparado o canhão por acaso, ou explodido uma das bombas da artilharia. Dizem que isso já tinha acontecido antes. Porém, minutos depois, quando chegaram ao forte, foram surpreendidos pelo grande aparato militar montado na praia. Armas engatilhadas se voltaram para eles.

Foram os primeiros civis a chegar. Momentos depois vieram vários outros, principalmente curiosos. De dentro da trincheira, um soldado gritou:

– Alto, quem vem lá?

Sem pensar, Onésimo respondeu:

– Amigos do tenente Siqueira Campos.

Seguiu-se um breve momento de silêncio, onde os soldados conversaram entre si.

– O que está acontecendo? Houve um acidente? – gritou Juvêncio.

Os soldados sorriram. Um deles, em outra trincheira, gritou:

– É a revolução! – e seguindo este grito, altos brados de ordem foram entoados pelos soldados. Alguns civis responderam entusiasmados, outros entreolharam-se, surpresos, e voltaram às suas casas.

Finalmente veio uma resposta:

– O tenente Siqueira Campos está ocupado agora, na sala de canhões.

– Pois diga a ele que há um gaúcho aqui querendo se juntar a ele! – a esta afirmação, vários soldados bradaram, entusiasmos. Sem nem pensar, Juvêncio respondeu:

– E diga que há um goiano aqui também, disposto a morrer!

E os soldados foram à loucura!

Quando olharam para os lados, Pedro Emilio havia sumido.

 

De sua sala, o capitão Hermes da Fonseca ouviu o barulho e foi correndo ver o que estava acontecendo, quando viu os dois jovens imprudentes, perigosamente próximos do campo minado.

– Alto! O que é isso? – perguntou.

– Viemos nos juntar ao tenente Siqueira Campos!

– E quem são vocês?

– Eu sou Onésimo Lisboa, gaúcho, filho do deputado Aleixo Lisboa, que lutou na revolução federalista do Rio Grande do Sul e neto de Júlio Lisboa, revolucionário farroupilha e comandante na Guerra do Paraguai. Vim para lutar.

– E o seu amigo?

– Sou Juvêncio Pitanga, goiano.

O capitão Hermes da Fonseca tinha ouvido fala de Juvêncio Pitanga, na noite anterior, pelo próprio tenente Siqueira Campos e ficara impressionado. Não pensava que ele fosse tão jovem. Além disso, Aleixo Lisboa era amigo de seu pai e tinha assinado uma carta pedindo, com outros parlamentares, a imediata soltura do Marechal. O avô dele e o seu haviam lutado juntos no Paraguai. Mesmo assim, estava indeciso se devia arriscar a vida de civis neste conflito.

Foi quando houve a segunda explosão. Mesmo com tudo planejado, era assustador e excitante ouvir o canhão trabalhando. Isso significava que o tempo já havia passado e que ninguém mais respondera. Estavam sozinhos, os outros destacamentos não haviam se insurgido. Eram bons soldados e, afinal de contas, era para o povo que estavam lutando. Nada mais justo que o povo participasse. Mandou um soldado guiá-los para dentro das trincheiras e municiá-los. Ambos estavam na revolução.

Voltando

Junho 14, 2010

Olá a todos,

 
 

Não sei se vocês estão sabendo, mas nos últimos meses voltei a escrever As Crônicas do Vale da Morte. Infelizmente isso não é muito blogável, até porque os capítulos são compridos e a história é bastante densa para ser acompanhada ao longo de muito tempo. Very boring, very boring

 
 

O fato é que estou escrevendo bastante e, para não deixá-los na mão, aí vai um trechinho:

 
 

Juvêncio demorou dez dias para poder finalmente sair de casa. Já não se agüentava mais, principalmente porque na fazenda Imperatriz começavam os preparativos para a partida do gado para Sorocaba. Também não suportava as intermináveis visitas de várias pessoas, boa parte antigos aliados dos Ferreira, que vinham lhe jurar lealdade, em troca de pequenos favores. O fato é que os jovens não gostam de ficar parados e embora gostasse muito da negra Teresa e de sua avó, era na fazenda, entre o gado, que Juvêncio se sentia feliz.

E assim, no dia três de fevereiro, uma manhã de quinta-feira de garoa fina, Tobias foi ao sobrado, com dois cavalos, levar Juvêncio para a fazenda. O jovem teve dificuldades para subir, o ombro e a perna doíam muito, mas estava contente de deixar a cidade para trás. Mas agora, havia uma sensação diferente.

Em novembro, quando ele chegou da viagem de Sorocaba, já sabendo da morte do pai, também foi Tobias quem foi recebê-lo e levá-lo para a fazenda. Ele se lembrava muito bem das janelas fechadas e das pessoas que o evitavam na rua. Agora, ao contrário, os homens que passavam por ele baixavam o chapéu e faziam questão de cumprimentá-lo, muitos orgulhosos e outros com medo. Tobias também não deixou de notá-lo e, em uma das esquinas antes de deixar a cidade, disse:

– Sabe do que andam te chamando, patrãozinho? – Juvêncio encarou-o, interrogativo – Coroné Juvêncio.

Juvêncio não pôde esconder um sorriso. Tobias pitava um cigarro de palha e olhava para a estradinha para a fazenda. “Coronel Juvêncio! Não é que soava bem?”, pensou Juvêncio “se bem que me faz sentir como um velho… um velho de dezessete anos”.

Perdido em seus devaneios, ele só percebeu que Tobias havia parado quando ouviu o barulho da arma dele sendo engatilhada. Estavam na frente do cemitério da cidade onde havia um jovem rapaz de barba rala e chapéu de couro, rosto claro e cheio de sardas. Era Thiago Ferreira, filho de Lino. Estava com a mão na pequena pistola que trazia no cinto.

Mais à frente, podiam ver uma mulher vestida de preto, à porta do cemitério, com o rosto coberto com um véu escuro transparente, mas deixando perceber a pele branca e os cabelos loiros. Como era bonita! Juvêncio já tinha ouvido falar dela, mas nunca tinha visto. Era Luíza, viúva de Alberto Ferreira.

Ela levantou os olhos para ele, olhando-o com raiva e fúria. Juvêncio tocou o cavalo, alguns passos à frente, passando por Thiago e ficando cada vez mais próximo dela. Alguns poucos metros parou. Olho para trás, fazendo sinal para que Tobias abaixasse a arma, sendo obedecido a contragosto.

Juvêncio tirou o chapéu e pôs sobre o peito. Soltou as rédeas do animal e disse:

– A dor que eu lhe fiz sentir é irreparável, senhora. É demais pedir perdão, mas espero que a senhora entenda. Da minha parte, não sinto o menor orgulho do que fiz. Fiz o que era preciso ser feito.

Ela olhou-o, com uma expressão entre consternada e surpreendida. Respirou fundo e entrou no cemitério. Thiago seguiu-a. Antes que ele entrasse no cemitério, Juvêncio disse:

– Thiago, você tem todo o direito de se vingar e eu lhe entendo perfeitamente. Não pense que eu me senti de maneira diferente quando mataram meu pai – recolocou o chapéu e puxou as rédeas do cavalo, indo na direção de Tobias – Mas não é preciso apressar as coisas. Haverá o dia em que finalmente poderemos acertar nossas contas, eu contra você. E, quando esse dia chegar, espero que você esteja pronto.

Dizendo isso, partiu com Tobias.

foto da manu

Janeiro 12, 2010

Fenômeno pendular

Dezembro 8, 2008

Tudo está sempre em trânsito. Tudo muda, vertiginosamente, na velocidade inebriante do suspiro, do sono, do sonho. A terra, as casas, as pessoas, os sotaques, influenciados pela estranha política: construir, transformar, mudar a natureza, implantar o novo, mostrar o modernismo em todas as suas formas, em todas as partes, em todos os cantos. Decibéis e megabytes, motéis e boates, multidões que se movem, dia após dia, noite após noite, sem descanso, sem pátria, sem terra, mas com lote.

Empregos que se transformam: leiteiro vira marceneiro, que vira padeiro, que ganha dinheiro, que vai pro estrangeiro, perder seu dinheiro, sem se sustentar. Mineiro, filho de sapateiro, vira concurseiro, passa em primeiro sem estudar. Bacana de vida cigana, sai de copacabana, mudar de lugar. Dança de cadeiras, de concursos, de recursos nos tribunais. Assessor, promotor, desembargador, ministro de tribunal superior, vira então militar? Subindo, descendo, andando de ônibus: homens e mulheres em construção, reforma, implantação.

Espaços urbanos, levemente humanos, quase nunca suburbanos. Highways que cortam o planalto, rios de asfalto que se cruzam sem se encontrar. É o viaduto. É o prostituto a rebolar, ganhar seu sustento.

Os homens e mulheres que passam, apressados, sempre bem-educados, mas sem se importar com desvios. Com o céu. Com o precipício. Com o suplício diário da solidão. Tudo moderno, tudo incessantemente sincero. Tudo combinado, jurado, sacramentado, firmado em cartórios civis. O tempo é outro. Tempo de desperdício, de ilusão.

E por cima de tudo o céu de ilusão sem nuvens, natural, selvagem, desconhecido, azul e desolador. A pequenês ambivalente,

E a vida anda com as pessoas, rápido demais. Rápido como a vida, como o tempo que sucede o orgasmo da secretária, o arrumar do vestido, o beijo estalado, o farfalhar metódico das pernas que se sucedem.

Toc

Toc

Toc

Saltos que ferem o cimento, revelam a sinestesia amniótica entre a mulher e o chão.

E antes que se perceba, a chuva toma tudo, transgride o ritmo, lava as almas dos passantes, que apressados tomam seus lugares entre as marquises dos edifícios. E se entreolham atônitos. Do que serve tanta modernidade se não se consegue domar o céu?

Poderosamente, este se renova em plúmbeas revoluções, mais forte que a vontade de mover, obriga todos a um particular sofrimento: a imobilidade.

E nestas horas, nada mais belo do que a solidariedade passageira:

– E então, topa um chope?

– Só se for agora!

Augustos

Dezembro 1, 2008

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. A rua tinha sido asfaltada há pouco tempo e eu adorava o cheiro forte de piche saindo do chão. Não fazia frio naquele dia, mas o céu estava nublado. Era novembro e eu ia pegar o ônibus para a escola. Sozinho. Eu tinha nove anos.

Acabara de amanhecer. Eu sempre odiei o horário de verão porque tinha de acordar ainda mais cedo que de costume. Mal tomei café e comecei a andar em direção à parada. Era perto e o ônibus não ia demorar muito.

Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. Algumas casas eram de madeirite mas a maioria era de alvenaria. E eu via a cidade crescer, rapidamente. Mas era tudo igual: cinza do cimento e das telhas de amianto misturado com o vermelho dos tijolos e da poeira que insistia em cobrir tudo.

Eu via as casas como um quebra-cabeças, onde as peças eram tão  parecidas que dava um grande trabalho diferenciar um casa da outra. A pobreza é assim: massificante. As casas se uniam em sua feiúra e se misturavam em sua falta de opulência. Todas unidas em sua tarefa de esconder as tristezas de seus moradores.

Mas eles não aparentavam ser tristes. As casas eram feitas para ser resistentes, sabe? Aquelas pessoas podiam fazer apenas isso: resistir. E embora cada uma delas carregasse um mar de desaventuranças dentro de si, era visível que todas tinham grandes esperanças de dias melhores.

Eram altivos, mas não tinham orgulho. Eram como aquelas casas, seguras, por fora, mas vazias por dentro. Mas embora vazias de móveis, eram carregadas de algo muito mais poderoso: sentimentos verdadeiros. Tristezas, alegrias, esperanças. Braços que se abraçavam fraternalmente e mãos que se ajudavam.

O orgulho é um luxo caro demais para aquelas pessoas e por isso elas se divertiam vendo o orgulho de outras na televisão. Era a alegria pasteurizada, sendo entregue gratuitamente em todas as casas. E, quando passava pelos bares da região eu via outro tipo de alegria: falsa, destilada ou fermentada, que se mostrava nos cuspes verborrágicos daqueles infames senhores. E o preço daquela alegria talvez fosse alto demais.

A vida se mostrava assim: inconstante e implacável como o sopro do vento que carregava as pipas dos meninos pelo céu. E quando uma delas voava, eles corriam como este mesmo vento inconstante, atrás de sua alegria: o arremedo do vôo, a essência da liberdade. Não uma liberdade comprada, vigiada, como a dos prédios com porteiro. Era outro tipo a que eles almejavam. A de dizer a que veio, quem era. A liberdade de sonhar e correr atrás de seus sonhos.

E eu sonhava muito quando meus passos se sucediam na direção da escola. Era preciso ousar para ser diferente. Era preciso ser igual na diferença, como aquela casa de esquina pouco antes da parada de ônibus. Também era de cimento, tijolo e amianto. Mas tinha uma coisa que só ela e nenhuma outra casa tinha: vasos e vasos de flores coloridas, destoantes, orgulhosas.

O Ingazeiro

Novembro 28, 2008

Era julho e o vento soprava poderoso, fazendo redemoinhos avermelhados em torno das árvores, deixando os olhos dos viajantes apertados. Estavam com sede e Jeremias pensava no córrego, mas aí eu me adianto.

– Quanto já?

– Arre! Mais de sete léguas.

– É muito!

A ventania sibilava nos ouvidos de modo que mal se ouvia o barulho dos cascos dos animais na terra arenosa. A natureza implacável mostrava sua força em cada elemento: As curvas indecentes das árvores, como almas condenadas que pedem clemência aos céus. Aquela região parecia um pedaço do inferno, onde a penitência de cada alma é passar a eternidade de braços abertos, angustiados, suplicantes, mãos que procuram alento nas nuvens, sem nunca chegar próximas ao céu. O sol audacioso compunha também o quadro desesperador, queimando, inexoravelmente onipresente, mas suficientemente brando para não secar o suor.

A boca seca, olhos lacrimejantes e o vento: rajadas que se sobrepõem, às vezes leves, enganadoras, às vezes médias, néscias, mas na maior parte do tempo inconstantemente poderosas, inexpugnáveis. E este vento sem direção seguia todas as direções: oblíquas, perpendiculares, hiperbólicas em vários momentos. Vento que faz curva, vai e volta. Vento que sacode o pó e enche de pó o que era pó e para o pó voltará.

Carcará voou. Bem-te-vi, bem-te-vi. Sabiá. Assum preto, curió, curioso. Carcará. Imagens que se sobrepõem entre um abrir e outro dos olhos. Pássaros que domam o vento ou povoam o vento de cantos. Cantam com o vento de suplícios.

A terra coberta em quase toda sua extensão de uma vegetação rasteira, era entrecortada por erosões poderosoas que evidenciavam a terra vermelha. Vermelho-sangue, como se as almas-árvores fossem alimentadas, piedosamente, pela seiva sanguinolenta da terra. E o vento, claudicante, levantava a terra, subindo-a aos céus, às árvores, folhas, pássaros, cavalos e viajantes, cobrindo tudo da seiva-sangue da terra implacável do cerrado.

Tudo era desolação e abandono. A natureza resistia à passagem, mostrava-se evidente que era. O vento, o sol e a terra dançavam num ritmo inconsciente e sagaz, uma ciranda entre os elementos, causada pelo desequilíbrio das forças oniróides da natureza.

Mas então o buriti aparece no horizonte e como um marco, um símbolo, enche de esperança os olhos cansados. Junto a ele vários outros que se sobrepõem. O ar fica mais leve, límpido, o sol ainda mais brando e a terra antes arenosa e infértil, fica maleável. Os cavalos erguem as orelhas, andam mais depressa, alegres. As árvores espaçadas desaparecem e são substituídas pelos densos troncos retos de árvores nobres. O som poderoso do vento é substituído por um outro, mais palatável, sereno: som de água que corre. Chegaram a um córrego.

Os viajantes descem, soltam os cavalos e abastecem-se de água fresca e limpa e começam a contar alegremente vários causos de suas terras, histórias coroadas de suspiros e saudades. Mas as histórias raream e todos se entregam à melhor das tarefas do dia: o merecido descanso.

E este foi o erro de Jeremias, mas aí eu me adianto. Ele deitou-se sob a sombra de um ingazeiro grande e florido, fechou os solhos sob o chapéu velho de palha e dormiu tranqüilamente. O vento implacável se transformou em brisa leve, amena, embalando o sono do capiau. E foi assim por uma boa meia hora.

*********

E os cavalos estavam assustados. Relinchos entrecortados com coices no ar. Os viajantes levantaram sobressaltados, tentando acalmá-los:

– Eia! Eia…

– Ôa, ôa, alazão!

Jeremias observava a cena ainda deitado.

– Arre! Praga dos infernos! Valei-me nossa senhora!

Para aqueles homens o súbito enlouquecimento dos cavalos só poderia ser obra de alguma entidade sobrenatural. Por isso eles se benziam e faziam simpatias enquanto tentavam acalmar os animais. Jeremias continuou deitado e este foi o seu erro.

Indolentemente, ele sentou-se, encostou as costas no ingazeiro e acendeu seu cigarro de palha. Os cavalos continuavam empinando, dando coices e relinchando alto. Mas apesar de toda esta confusão, Jeremias parecia ouvir um barulho característico, familar. Que seria? Os cavalos pareciam querer dizer alguma coisa.

– Nunca vi coisa assim. Eles não se acalmam de jeito nenhum.

Jeremias tragou com força, brincando com a fumaça nos pulmões, ainda tentando descobrir que tipo de barulho era aquele. Era ritmado, constante. Muito parecido com o barulho da água que corria no córrego perto dali. Mas seria…

E Jeremias percebeu muito tarde que se tratava de um chocalho. A cascavel fitava-o nos olhos, hipnotizando-o. Então era isso, uma cascavel. A audição dos cavalos, muito mais desenvolvida, tinha percebido o som do chocalho antes de todos.

Ele não havia o que fazer. A cobra estava a menos de um metro do seu rosto, perigosamente preparada para o bote. Jeremais não respirava, não fazia qualquer som. Seu braço direito movia-se sorrateiramente na direção da cobra.

Olhos nos olhos. O homem e a cobra estavam empenhados numa briga surda pela sobrevivência. O braço movia-se milimetricamente na direção da cabeça da cobra. Olhos nos olhos.

E Jeremias percebeu seu erro tarde demais. Em vez de fazer o bote no braço, a cobra avançou sobre o rosto dele, entre os olhos. Jeremias gritava assustado. Seus colegas, empenhados em acalmar os cavalos, nem perceberam a cena se passando até que fosse muito tarde. Correram para ajudar o amigo que já tinha se livrado da cobra, mas gritava de dor.

Jeremias agonizou dois dias antes de morrer. Foi enterrado em Crixás, sem reza e sem discurso, sem caixão, sem cigarro, sem nada.

Isaías

Novembro 22, 2008

O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. Decerto nem sabiam do fim da escravidão. Falavam um dialeto estranho, cantado, nem parecia português. Isaías já tinha ouvido histórias horríveis de negros que mutilavam meninos para fazer rituais satânicos.
A paisagem estava tomada de árvores baixas e tortas e mostrava uma grande desolação. Toda aquela região tinha sido queimada semanas antes e no meio das cinzas aparecia aqui e ali uma flor colorida. Mato estranho, terra estranha. Apesar de ser setembro fazia frio. Parecia que ele poderia sem muito esforço tocar as nuvens, de tão alto que estava. Nenhum sinal de água. Ao longe, Isaías viu um jatobá. Descansaria ali por alguns instantes antes de continuar a viagem rumo ao norte.
O cavalo estava estenuado e sedento. Água ia demorar pra ver. Ele não conhecia bem aquela região, nem sequer estava seguindo uma estrada. Caminhava se orientando pelo sol e pelos pontos de referência no caminho. Mas ora, porquê raios o velho Matias tinha de inventar de confinar gado tão longe? Ouvira que além das montanhas haviam terras férteis, campos limpos entre os rios Tocantins e Araguaia. Lá ele exportava sua produção para o Maranhão e Piauí.
Acariciou a crina do cavalo. Era branco e por isso se chamava Coalhada. Bom cavalo, bonito, apesar de um pouco velho. “Já está ficando tarde” pensou Isaías “talvez fosse melhor montar acampamento aqui”.
Era uma decisão prudente. Quem sabe onde mais poderia arrumar um lugar tranqüilo para descansar? Se bem que ele tinha um certo medo das histórias que contavam sobre aquela região. Ah, moras ora! Quem daria bola para estas histórias?
Fez um pequena fogueira e comeu o que tinha: rapadura e farinha. Coalhada ficou solto, tentando comer o pouco de mato verde que encontrava. Isaías encontrou ainda alguns jatobás e comeu bem satisfeito. Estava ficando frio muito rápido e ele apressou em se agasalhar. As nuvens vieram rapidamente e pintaram tudo de branco. Eram por volta das cinco da tarde.
– Coalhada? – O cavalo tinha sumido. Não se ouvia nem o seu tropel ritimado. E essa agora? Pra onde teria ido? Isaías preferiu continuar perto da fogueira. Logo o cavalo deveria voltar.
Ele devia tê-lo deixado peado. Agora era tarde. Isaías agasalhou-se e ficou quieto, tremendo de frio. A brancura do nevoeiro começou a se tornar escuridão. Apenas bem perto da fogueira poderia se ver alguma coisa. Além disso, apenas breu.
A noite foi se aprofundando e o vento ficando cada vez mais forte. Ventava muito ali em cima, a ponto de fazer a fogueira trepidar perigosamente. Isaías jogou mais madeira ao fogo para torná-lo mais forte. Sem sucesso, um vento mais forte e a fogueira se apagou.
Escuridão completa. Nenhuma estrela, nada, apenas o barulho ensurdecedor do vento tomando tudo.
– Coalhada?
Isaías estava tremendo e não era só frio. O vento agora era acompanhado de gotículas de água que tornaram a sensação térmica insuportável. Não adiantava querer acender a fogueira de novo. Restava esperar que amanhecesse ou que o vento diminuísse. E onde diabos estaria este cavalo?
De repente, ouviu os primeiros trovões, bem longe.
– Noite amaldiçoada!
Já podia ver os relâmpagos.
– Valei-me minha Nossa Senhora!
Mais perto.
– Ave Maria cheia de graça o sinhô é convosco…
Não deu tempo de terminar a oração. Um raio caiu sobre o jatobá, a poucos metros, com grande estrondo. Isaías desmaiou.
***********
Continua…

O Viaduto

Novembro 10, 2008

Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda pior.

Não chovia há dois meses e os gramados de Brasília estavam secos, acinzentados e eu tinha muita sede. Era o governo do PSDB e, não é necessário dizer, não estávamos muito satisfeitos.

Mas a coisa tava feia. Uma bomba de efeito moral tinha estourado perto dali, minutos antes, ferindo uma menina bonita, de uns desesseis anos. Ela saiu de ambulância, ensangüentada. A organização da manifestação precisava fazer uma assembléia urgente, pois o confronto era iminente. Já via, no alto dos prédios do Setor Comercial Sul os policiais militares se aprontando. Um helicóptero sobrevoava os manifestantes, bem baixo.

O governo PSDB teve ampla maioria no congresso e, nessas horas era preciso ir às ruas para lugar pelos nossos ideais. Esta manifestação era organizada pelas CONCLUTAS, mas contava com a participação de vários movimentos organizados, como gays, sindicatos autônomos, cooperativas, MLST, entre outros. Claramente, nós punks não estávamos de fora.

– E as armas? – O Pedro perguntava excitado. Era a primeira vez dele numa manifestação tão grande. As CONLUTAS estavam começando a crescer neste momento e era a primeira manifestação de porte que eles organizavam. A gente tinha ido ali para fazer peso e oferecer ajuda. Eu já tinha visto várias manifestações como esta e, por isso mesmo, sentia medo. O PT não estava junto da gente, nem o MST, pois tinham fechado um acordo político com o PSDB. As disputas partidárias estavam enfraquecendo o movimento perigosamente. Fugi da pergunta do Pedro, fazendo outra.

– Eles estão posicionados? – Havia alguns de nós infiltrados nos prédios vizinhos. Queríamos saber se o batalhão de choque estava próximo.

– Estão. Parece que os hômi vão meter o pau.

– É, estou vendo. Talvez precisemos agir.

O lenço preto que cobria meu rosto me fazia respitar mal, mas ele seria muito útil em breve.

– Tomem o asfalto – eu disse – precisamos nos posicionar melhor para resisitir.

Não havia tempo para assembléias, era preciso agir rápido. No horizonte, via os homens da PATAMO que batiam com cacetetes nos seus escudos transparentes. Eles dominavam a pista no sentido norte. Nos posicionamos a sul, logo em frente. Era hora de expor meu plano. Os meus colegas me ouviram pacientemente.

– Precisamos furar o cerco para que os manifestantes cheguem à rodoviária. Lá podemos nos reorganizar e continuar a marcha, rumo ao Congresso. Eles não querem que cheguemos à Esplanada dos Ministérios. Vamos ter de enfrentá-los.

Nessa época ninguém tinha celular, era artigo de luxo. Se fosse hoje, provavelmente teria ligado para o PT e ver se eles intercediam para evitar o confronto. Mesmo nessa época o PT era muito forte. Agora era preciso agir por nossa própria conta. E estavam todos ávidos por confronto. Era inevitável.

– Vai ser difícil. O alvo principal é o viaduto. Tomando o viaduto, tomamos a rota que leva à rodoviária e de lá à Esplanada. Não quero ninguém com a gente que não seja profissional. – Eu me referia aos meninos mais novos que estavam entrando nas fileiras por esses dias. Eu sabia que a coragem deles sumia rápido nessas horas.

Os diversos movimentos punks estavam representados naquele dia, principalmente o MEPR. Meninos de preto, cabelos moicanos, socos ingleses e calças de couro. Mas eram meninos. Eu, com 17 anos, era já veterano. Apesar de ser um movimento anarquista, nessas horas era preciso alguma liderança. Éramos uns cem punks, ao todo. Pelo menos dois policiais pra cada um. A coisa tava feia.

Nos unimos, num círculo. Era preciso decidir se enfrentaríamos a polícia ou não. Os olheiros da polícia observavam tudo, do alto dos prédios vizinhos.

– Enfrentamos?

O Darth, velho de outros movimentos estava tão cauteloso quanto eu. Os outros queriam barulho, sangue.

– Eles têm uma boa fileira e uma boa posição. – disse Darth – Além disso, têm vantagem numérica e, possivelmente, o apoio da cavalaria. É uma luta muito difícil.

Não sabíamos a opinião dos líderes do CONLUTAS. Naquela hora, eles que se fudessem. Punk não aceita ordem de ninguém, mas seria interessante saber se o resto da multidão oporia alguma resistência conosco se necessário. Muitas variáveis. Eu estava com medo.

– Que porra de fileira, que nada! Vamo meter o pé na bunda desses pé-de-bota, filhos da puta! – um garoto que eu não conhecia gritava em alto e bom som.

– Cacetete no rabo deles! Morte ao Estado, viva a Anarquia!

– VIVA!

Olhei pro Darth, cocei a barba rala e re-observei a posição do batalhão da polícia. Os outros manifestantes estavam apreensivos, mas entoavam o “Fora já, Fora daqui! O FHC e o FMI!” a plenos pulmões. Olhei para o horizonte, depois para o céu do planalto. Uma grande abóboda azul, sem nuvens. É, era hora de agir.

– Mantenham a fileira posicionada, temos de tomar terreno o mais rápido que der. Permaneçam unidos até minha ordem de dispersar. Depois é cada um por si. Somos soldados na luta por um mundo de iguais, onde reine uma justiça de homens, sem a interferência do Estado. Esse Estado nos oprime, lutemos contra ele. PUNK!!!!!

– Punk!!!

– Fora FHC!!!!!

– Fora!!!!

E gritamos num uníssono, como um batalhão daqueles filmes de guerra da idade média. Nesse ínterim, abrimos nossas mochilas e tiramos de lá os Molotovs preparados de véspera. As fileiras da polícia avançaram rápido em nossa direção, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral. A multidão se dispersava, mas muitos resistiam bravamente.

Molotovs acessos, a polícia a menos de vinte metros.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E corremos como loucos na direção da polícia. O que aconteceu depois foi difícil de descrever. Os policiais se uniram em três grandes fileiras de pelo menos oitenta homens em cada e atiravam livremente nos manifestantes e em nós. Eu usava um sobretudo grosso e tentava desviar das balas de borracha. Os meninos mais novos corriam na frente, excitados.

– Mantenham a formação! – Eles nos esperaram. Marchávamos unidos, como uma fila. Podíamos ver a cor dos olhos dos policiais. Eles preparavam os cacetetes e firmavam posição com os escudos fazendo uma grande fila.

– VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu pude perceber um leve sorriso nos guardas à nossa frente. Três passos. Dois passos. Um passo. Pulei com uma voadora no meio do mar de escudos e cacetetes. A fila da polícia resistia bem, era uma tropa bem disciplinada. Sinto que eles também estavam gostando daquilo.

– Molotov!!!!!!!!!!!!!!!

Afluiu uma chuva de garrafas de gasolina e óleo díesel. Elas queimavam entre os policiais que foram obrigados abrir a fila em um ponto. Estávamos conseguindo dividir a fileira. Uma parte considerável da multidão nos seguira, bravamente, carregando paus e pedras. Eu sorri. Esses CONLUTAS tinham futuro. Estava sendo divertido.

Eu fugia dos cacetetes, animandos os meus a continuarem lutando. Os policiais mantinham posição, mas a chegada dos manifestantes fez com que eles recalculassem o risco. Ainda ouvi a ordem do comandante para reorganizar a tropa.

Os meninos resistiam. Bravos, pareciam guerreiros de verdade. Vi um menino novo, uns quinze anos, com a cara toda empapada de sangue. Paus e pedra sendo jogados para todos os lados.

– Permaneçam unidos! Unidos!

Tinha medo de nos dispersarmos antes da hora. Quem sobrasse ia apanhar muito, talvez até a morte. Eles eram meninos.

Ouvi o tropel da polícia montada. Fudeu!

– BOLAS DE GUDE!!!!!!!!!

Uma grande horda de homens e cavalos corria ordenadamente, vinda do leste, em nossa direção. Os cacetetes deles eram maiores, como espadas. Retrocedemos um pouco, dando espaço para a polícia reorganizar a fila. Era melhor avançarmos contra a polícia montada e deixar os manifestantes com os políciais comuns.

– Pau no cu dos pé-de-bota!!!!!!!!!!!

E quando eles chegaram muito perto, jogamos milhares de bolas de gude no asfalto, fazendo com que alguns cavalos deslizassem, derrubando cavaleiros no chão. Corríamos na direção deles.

– Dispersar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eram duas frentes da polícia. Podíamos ficar cercados se continuássemos lutando como um bolo. Melhor nos infiltrar entre os manifestantes e lutar com eles. A ordem foi seguida pela maioria. Um grupo pequeno, com uns vinte, decidiu permanecer lutando unido. A polícia montada se reorganizou e partir para cima deles. Coitados, foram trucidados.

– Concentrem-se na fileira! Na fileira!

A fileira agora era mais compacta. Eles jogavam gás de pimenta para dispersar a multidão. A coisa tava feia. Mas a multidão era grande e nós punks éramos poucos. Os policiais precisavam se concentrar em várias partes da rua ao mesmo tempo. A fileira estava se abrindo, só mais alguns segundos e tomaríamos o viaduto. Mas aí veio a nossa desgraça.

Vieram mais policiais, de outros destacamentos, totalmente despreparados para este tipo de situação. Começaram a atirar para cima, com pistolas e escopetas de verdade. Eu tive medo, muito medo.

– Recuar!

Eles apontavam as armas em nossa direção.

– RECUAAAAAAAARRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A multidão ensandecida agia por conta própria. Eles não notaram a nova movimentação da polícia, concentrados que estavam na fileira. Caralho, muito foda, puta que pariu!

Parei. A coisa tinha ido longe demais. Iam começar a matar pessoas. Senti uma pancada muito forte no rosto e desmaiei ali, na linha de frente.

***********

Me arrastavam pela perna, meu tronco raspava no chão. Sentia o sangue grosso escorrer do rosto. Tinha sido uma bomba de efeito moral a bater no rosto, soube depois. Pelo menos não tinha explodido, senão estaria desfigurado. Eu ainda estava grogue. Eram o Darth e o Pedro a me puxar. Eles tinham ouvido a ordem de recuo e me puxaram do meio dos policiais.

Eu ainda ouvia os tiros sendo disparados, em cima do viaduto e pude contemplar o céu azul sem nuvens, enquanto era arrastado pelo chão. Outros punks vieram e ajudaram a me carregar até um lugar seguro, longe da polícia.

Jogaram-me atrás de um container de lixo. O Darth olhava pra mim, pupilas dilatadas, rosto suado e também sujo de sangue.

– Vencemos? – perguntei, minha voz era um fio.

– Não. Mas foi lindo mesmo assim.

– Estamos em extinção, meu amigo, em extinção.

– Mas o que importa é que ainda não estamos extintos.

E eu fechei os olhos, ardidos pelo gás de pimenta, passando o lenço preto pelo rosto ferido. Tudo estava ensangüentado. Soltei uma grande, retumbante gargalhada e antes de perder de novo os sentidos ainda pude ouvir o coro da multidão pedindo a cabeça do FHC.

Bons tempos aqueles, bons tempos. Tempos de uma história que não foi contada, pois os vencedores não participaram dela. E nós, os vencidos, sobreviventes, guardamos as cicatrizes e a certeza de que lutamos para mudar o nosso tempo, contra a tirania dos neo-liberais. Mas lutamos e isso importa. Muito.

Pedro Demo

Outubro 29, 2008

Pedro Demo

– Que é de Pedro?

– Que Pedro, muié?

– O Pedro, irmão de Malaquias?

– E cumé qu’eu vô sabê?

– Andei sonhando cum ele.

– Arre! – e o velho Tobias cospiu barulhentamente no chão, um misto de fumo mascado e catarro. O velho tinha tuberculose há muitos anos – Faz tempo que ele foi pro norte, pro Garimpo. Quem vai pro garimpo num vorta não, Zuleide!

– Arre! Meu coração tá apertado. Alguma coisa deve de tê havido cum Pedro.

– Se há de haver, haverá. Que nossa sinhora se cumpadeça deste menino.

E o Pedro corria a trote solto. Era noite, a mata fechada, mas ele tinha pressa. O cerrado em noites sem lua é assustador. As árvores tortas pareciam braços imensos de almas penadas querendo levar a gente pro inferno. Pedro Demo se benzeu. Era preciso chegar rápido e em segurança. O cavalo, muito suado pela trote resfolegava alto. Lágrimas frias rolavam pelo rosto áspero do mulato. Seria tarde, meu Deus? Quanto tempo ainda restaria?

O cavalo tropeçou num tronco caído no caminho, assustando cavaleiro e cavalo. Pedro rolou várias vezes antes de cair no chão, de bruços, a boca cheia de terra, o corpo maltratado de feridas. Respirava forte, revolvendo a terra vermelha. De sua testa saía um filete de sangue grosso. A alguns metros dali, o cavalo gritava desesperdado, tentando ficar de pé. Só quem viu um cavalo assim consegue imaginar a dor imensa que o cavalo demonstrava. Relinchos agudos, súplices, cortando a noite escura de um céu sem estrelas. Pedro virou-se e olhou para cima. Nuvens grossas anunciavam que a chuva vinha, depois de mais de dois meses. Pedro respirava forte, tremia. Não era dor, era impotência. Então estava tudo consumado, agora ele não podia fazer nada.

Pedro sentou-se, olhou para o cavalo. Olhos nos olhos. O cavalo estava deitado no chão, entregue. Ainda relinchava, mas sem forças. Uma imensa poça de sangue cobria o chão em volta dele. Pedro arrastou-se até ele e colocou sua cabeça sobre o colo. Olhos nos olhos. Pedro acariciava a crina do amigo, observando aquela triste cena.

– Sabe amigo? Agora eu preferia ser você… Seria mais fácil.

Olhos nos olhos. O cavalo sabia, era como se pedisse desculpas. Agora era muito tarde, tudo estava consumado.

Pedro deu um tiro na cabeça do cavalo, entre os olhos. Depois da bala, o silêncio da noite no cerrado. E Pedro começou a chorar, fraco, sozinho. Gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite.

Agora era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos, olhos nos olhos. E Pedro apontou o revólver para a própria cabeça. E gemia baixinho para não atrapalhar o silêncio da noite. Respirou fundo, olhou para o horizonte e apertou o gatilho.

– E como era o sonho?

Tobias olhava para os olhos vazios da velha. Ela era cega e ele tinha um prazer imenso em ver aqueles olhos azuis, inexpressivos, olhando para não sei onde.

– Era São Migué. Eu sei pruquê me alembro dele lá da Igreja do Pilar. Ele desceu do céu e tinha uma grande espada que cortava o chão, por onde Pedro tava passando. O menino ia tão aperreado… Era escuro, eu não vi muito. Só lembro do choro sentido dele e depois o silêncio.

– Cumé que tu sabe que era ele? Tu nunca viu o Pedro!

– Era ele sim, tenho certeza. Pedro irmão do Malaquias.

Pedro abriu os olhos. Estava vivo ainda? Ele não se lembrava de ter ouvido o barulho do tiro. Olhou para o revólver: o cão estava travado. Será que nem para morrer ele servia?

E a chuva veio forte e insesperada, tomando tudo de uma vez. Pedro jogou o revólver longe e bateu os dois punhos no chão. A noite era iluminada pelos clarões dos relâmpagos cortando a noite.

– E o que aconteceu depois?

– Aí caiu uma grande chuva. São Migué mandou um monte de truvão que clareô tudo. E Pedro ainda chorava.

Tobias tossiu forte. A velha levantou para bater-lhe as costas. Ele estava muito vermelho, meio sufocado. Depois de uns instantes ele consegiu se recompor, tomou um gole de água.

– Tô mió! Quero saber o fim do sonho.

Pedro deitou-se de costas. As gotas grossas de água lavavam as feridas em seu corpo. Era tarde, tudo estava consumado. Olhos nos olhos. E ele lembrou-se da menina de olhos claros que ele tinha visto em Pilar anos antes. Pedro sorria e ela também. Mas era tarde, tudo estava consumado.

– Arre! Quem tá aí quieto no meio da chuva? Tá tudo certo?

Pedro não viu o carro de boi chegando. Era João da Farinha que estava atravessando com carga para Pilar.

– Pedro! Que há contigo?

– Aí que apareceu Jesus e eu acordei.

– São João?

– São João Evangelista ou São João Batista?

– O Batista.

– Ah, então Pedro tá bem, num tinha que se preocupar, véia. São João Batista é o santo da mãe dele. Proteje eles até em sonho.

João da Farinha desceu e ajudou o amigo a subir a carroça. Sentou o ao seu lado. Pedro continuava muito calado. João não fez qualquer pergunta. Viu o cavalo morto no chão, a cara do amigo. Andar de cavalo ali, no meio da noite, só podia ser coisa muito séria.

– Ocê passou por Crixás?

– Passei sim, faz pouco mais de hora – respondeu João.

– E tá tudo certo lá?

– É, tá, agora tá.

– Ué, que tinha acontecido?

– Teve uma confusão danada lá. O velho Tarcísio morreu.

– Morreu?

– Morreu, morte morrida. Teve um piripaque, caiu durinho. Foi hoje à tarde. Enterraram hoje mesmo. Eu fui lá assistir, por isso tô voltando agora, no meio da noite. Teu irmão mandou lembranças procê.

Pedro sorriu docemente. O velho Tarcísio era o dono do garimpo onde ele trabalhava. Ele ia matar o Malaquias se a dívida de Pedro não fosse paga hoje. Ela estava indo pra lá justamente para evitar que isso acontecesse. A notícia ainda não tinha chegado em Pilar.

– Só não entendo uma coisa. A última coisa que ele disse foi São Migué! Estranho, né?

– Estranho.

E ambos se benzeram e seguiram silenciosos o resto do caminho.

Tenório

Abril 24, 2008

Quando Tenório chegou à praça da Matriz já passava das quatro da tarde. Era preciso tomar cuidado para que o acampamento estivesse bem escondido antes de sair. Além disso, ele precisava conhecer o terreno. Para isso, achar a Negra Maria era indispensável. Começaram pelo lugar mais óbvio, a venda da D. Lindoca.

– Arre D. Lindoca, quanto tempo.

– Mas que faz tempo mesmo, seu Tenório. Quié que o sinhô tem feito de bão da vida?

– Arrumei trabaio de capataz duma fazenda lá em Pilar.

– Mas se achegue, cês qué bebê arguma coisa?

– Bão, já que a sinhora insiste, nóis vai de amargosa mesmo, é ou não é, cambada?

Tenório tomou um trago da cachaça com raízes, especialmente produzida na região. Estalou a garganta e disse:

– Ê trem bão, d. Lindoca. E como vai as pessoas? O padre, a D. Flor?

– Todo mundo bão, na paz de Deus.

– E a Maria Preta?

– Que Maria Preta?

– A que veio lá de Pilar, que trabalhava na Fazenda Imperatriz?

– Ah, ela tá muito bem. Inclusive eu vi ela aqui hoje mesmo. Tava acompanhada dum homem bem-vestido. Devia de ser arguém importante.

– É mermo, d. Lindoca?

– E adonde qu’eu posso incontrá ela?

– Mas é facim-facim. Dêxa qu’eu insino o sinhô.

**************

Lindoca nem tinha percebido que eles estavam armados. Em poucos minutos eles rumaram apressadamente para o bairro pobre ao lado do rio, onde Juvêncio e os outros tinham almoçado. Tenório mandou um dos dois ir ao acampamento urgentemente avisar os outros do local da emboscada. Estavam muito próximos de cumprir sua missão.

****************

Eram menos de cinco horas. O sol estava já bastante baixo no horizonte. Tenório e o seu acompanhante desciam sorrateiramente na direção dos fundos da casa de Maria, com as armas em punho. Silêncio total, portas fechadas. “Eles poderiam ter percebido a movimentação”, pensou Tenório, “se assim fosse, era melhor esperar o reforço”. Porém era muito improvável, tinham sido muito cuidadosos até então. Seria uma grande surpresa para todos quando o avistassem ali.

Passou por baixo da pequena janela, esforçando-se para que ninguém na rua denunciasse sua posição. Fez um sinal para o capanga, que derrubou a porta. A casa estava vazia.

***********

Os outros capangas chegaram quase imediatamente, com grande barulho nos seus cavalos. Tenório já tinha achado a pista deles, atravessando o rio.

Faroeste – parte 1

Abril 13, 2008

Arimatéia e Florinda começavam a ficar preocupados quando viram duas pessoas virem na sua direção. Já passava do meio-dia e eles Arimatéia e Florinda tinham sido vistos por várias pessoas que passavam por ali, indo e voltando da Cidade de Goiás. Não era mais seguro continuar por ali, ambos sabiam.

De longe Arimatéia reconheceu o pai, que andava ao lado de uma senhora negra. Só podia ser ela. Maria…

***********

Laurentino levantou por volta do meio-dia, acordado pela Filoca, dona da pensão. Almoçou tranqüilamente e saiu para ver o movimento na rua. Passou pela igreja matriz, as pontes em torno do rio Vermelho. Era uma bonita cidade, sem dúvida, e que ele visitava com pouca freqüência.

O povo goiano era predominantemente simples, gente pobre, principalmente negros e mestiços. Carregavam baldes d’água, sacos de cereais, tijolos etc. Goiás era uma cidade em movimento. Alguns poucos habitantes estavam da sacada de suas casas, olhando o movimento. Laurentino foi rapidamente acordado de seus devaneios.

– Sinhozim Laurentino Pitanga, a que devo a graça da vossa presença? – era o Coronel Pedro Miranda que tinha-no avistado de dentro de sua carruagem – Como vai o compadre Juvêncio?

– Ora, que bom vê-lo. O senhor sabe das novidades da Imperatriz?

Laurentino entrou na carruagem e pôs-se a conversar com ele, animadamente.

****

Arimatéia estava visivelmente emocionado, mas não se movia. Sentia uma grande vontade de abraçar aquela mulher negra, mas ao mesmo tempo se sentia contido. Maria disse.

– Bonito o sinhô. Um homem de verdade. Graças a Deus nosso sinhô… – Depois, falando aos outros – Cês são tudo meus convidado pro armoço.

Juvêncio sabia que era arriscado continuar andando por aquela cidade sem proteção. Precisava encontrar-se com o Coronel Pedro Miranda o quanto antes, pois não sabia se tinham sido seguidos até ali. Mas seu coração estava balançado. Maria continuava atraente, envolvente, forte. Depois de todos estes anos ele ainda era incapaz de seguir a razão perto daquela mulher. Era paixão, aquele fogo que queima a gente e deixa de lado o entendimento. Por causa disso que ele não pôde deixar de segui-la.

Maria morava numa parte mais afastada da cidade, onde predominavam casas baixas de pau-a-pique e sem caiamento, telhados de palha. O esgoto passava por uma calha cavada na rua. Podiam ver muitos garotos de todos os tamanhos correndo pelos matos ali perto.

A casa de Maria era muito simples com apenas dois cômodos, uma cozinha e um quarto. Maria dormia numa cama velha de madeira, coberta apenas com alguns panos. Havia poucos móveis, panelas gastas e sujas de fuligem penduradas nas paredes, além de um velho fogão de lenha e um oratório de Santa Luzia, todo enegrecido pela fumaça das velas.

O almoço estava pronto: angu e peixe, tirado ali da beira do rio.

– Nhá Maria, nóis tava tudo preocupado cocê! Demorô! Sua bença… – era o Bonfim.

– Deus te abençoe, meu fio! Fique com a graça de nosso sinhô. Ocês se achegue. A comida é simples, mas é muito boa.

E os visitantes almoçaram. Arimatéia, por si mesmo quase que não se cabia de tão contente. Era o primeiro almoço dele com a mãe.

*****

Laurentino e Pedro Miranda estavam na casa deste, numa sala grande, com vista para a praça da Matriz.

– E o senhor só teve notícia disso através dessa carta?

– Exatamente coronel. Estou muito preocupado com o que pode ter acontecido com meu pai. Arimatéia é um bom homem, um dos melhores peões da Imperatriz, gente de confiança. O problema é a menina, pois ela é uma Andrade. Não podemos confiar nela. Como o senhor sabe, ela quem teve a idéia de seqüestrar meu pai.

O coronel fumava um cachimbo fedorento, fazendo bolas de fumaça com a boca. Ele tinha uma barba longa e encaracolada, cabelos grisalhos que denunciavam seus muitos anos.

– Este estado é muito grande. A peonada da Imperatriz também deve estar atrás dele, sem muito sucesso, pelo visto. Notícia ruim corre depressa.

– Conheço a longa amizade dos senhores, imaginei que talvez ele pudesse ter vindo procurá-lo.

– Não. Tive notícias difusas sobre isso. Todos sabem que seu pai foi seqüestrado, a notícia correu rapidamente, mas ninguém sabe nada de concreto. Temos apenas de rezar para os capangas do Andrade já não terem encontrado ele. Quanto ao senhor, não saia daqui por enquanto. Vou mandar buscar suas coisas na pensão da Filoca. Providenciarei uma escolta para que o senhor chegue em segurança à Imperatriz. Além disso, ficarei de olho nos desconhecidos que chegarem à cidade. Temos de ter todo o cuidado possível.

*****

– É a Cidade de Goiás!

Os peões da Cascavel comemoravam em altos brados. Tinham chegado cedo, era perto das três horas da tarde. Montaram acampamento a mando de Tenório, que juntou dois peões e seguiu para a cidade. Precisavam saber se Juvêncio tinha mesmo ido para lá. Para isso, precisava encontrar a mucama Maria…

A Mucama

Abril 9, 2008

Juvêncio tentou parecer incógnito, mas era difícil um homem como ele, branco e bem vestido, não ser notado naquela igreja onde predominavam os pobres. Recendia no ar um cheiro forte de suor, misturado com o das velas que queimavam incessantemente. Fazia calor, apesar de ser dezembro.
No burburinho da igreja os fiéis rezavam silenciosos. Cada um com sua prece, sua cruz, buscando uma forma de arrepender-se dos seus pecados. Pecado… A preta Maria estava tão perto dele e isso trouxe à tona uma série de lembranças do passado. Ajoelhou-se como um cristão que era e rezou solitário. Talvez só com Deus, Juvêncio Pitanga se permitisse pensar na vida assim, arrepender-se, lembrar de tudo o que ele tinha feito no passado. Na igreja todos era iguais, pecadores, tentando seguir os mandamentos de Cristo. Enquanto rezava ele ouvia a voz fina e dolora de uma viúva: véu negro, vestido velho, mas bem cortado, rosto entristecido. “No céu/ no céu/ Com minha mãe estarei…”.
A missa começou. No cântico de entrada o padre veio trazendo uma pequena procissão de coroinhas, carregando a cruz e os paramentos. Juvêncio decidiu esperar até o fim da missa para falar com Maria. Fazia tempo que ele precisava encontar-se com Deus.

******************
Arimatéia estava visivelmente irritado. O pai tinha saído do acampamento sem dizer nada. Ele não fazia idéia do que o velho poderia estar aprontando. Sabia que não devia confiar nele. Teve vontade de fugir com Florinda, esquecer e seguir sua vida. Porém, havia naquela cidade algo que não podia nem ser adiado, nem esquecido: a mãe. Devia dar um crédito ao pai por todos estes dias. Esperaria ali com Florinda.
Fez um pouco de café numa caneca e adoçou com rapadura, dando para ela. Comeram alguns biscoitos duros que tinham trazido de Pilar de Goiás. Olharam-se nos olhos. Eram desconhecidos um para o outro, ele sabia. O medo de Arimatéia voltou. “Que vida um vaqueiro poderia dar a esta mulher, meu Deus?”
Como se lesse seus pensamentos, Florinda colocou sua mão sobre a dele, num gesto de ternura. Ele pôs a mão no queixo dela para que pudesse olhar melhor seus olhos.
– Arrependida?
– Nem um pouco…
Beijaram-se sofregamente, como se um tentasse convencer o outro a não escapar, nunca.
**********************
Laurentino estava chegando na Cidade de Goiás. Era preciso ser cauteloso, ele não podia ter certeza se os Andrade sabiam que ele estava voltando dos estudos no Rio de Janeiro. Não podia dar-se o luxo de ser pego desprevenido. Até então, não tinha se aproximado de nenhum companheiro de viagem e carregava sempre o revólver na cintura para não ser incomodado.
Goiás era uma das últimas paradas antes de finalmente chegar em casa. Morria de saudades da mãe, da fazenda, dos peões da Imperatriz, do gado, de banhar-se no Rio São Patrício. Saudades imensas daquele vale enorme, do povo simples, sua terra. Agora faltava bem pouco. Para estar perto de tudo isso…
A manhã estava bonita, olhava para aquelas árvores retorcidas do cerrado, mares de morros sem fim, cobertos de árvores espalhadas, cupinzeiros que apareciam no meio do mato.
Pensava no que teria de fazer dali para frente. A guerra com os Andrade tinha recomeçado. Era preciso pôr um fim nisso. Nem ele, nem o pai, muito menos Ezequiel tiveram a ilusão de que o casamento com Florinda pudesse selar a paz. Maluquice do Padre Cézar, ele bem sabia. Não que Florinda não o interessasse…
Mulher decidida, sabia que ela tinha enfrentado os cabras da Imperatriz, nua em pelo, pego seu pai e levado como refém. Devia ser uma mulher e tanto esta menina com nome de flor. Só não entendia como tinha começado essa história dela com o Arimatéia, como eles se encontravam, se apaixonaram. Principalmente, não entendia o que ela tinha visto naquele vaqueiro simplório. Uma menina branca, sinhá, cria da Cascavel, deitando com aquele mestiço, preto. Pensar nisso lhe dava nojo.
Eram dez horas quando ele chegou à cidade. Rumou para a pensão de D. Filoca, antiga conhecida dele, pegou um quarto, tirou as botas e dormiu tranqüilamente. Era preciso sossegar seus pensamentos. Laurentino precisaria mostrar que homem ele tinha se tornado, em breve…
**********
A missa tinha acabado. Os fiéis se benziam e iam para suas casas. Juvêncio apressou-se em chegar perto de Maria.
– O que qué vassuncê com Maria? – Era um preto enorme, voz arrastada, braços largos.
– Tenho um assunto pra tratar com ela de grande importância.
– Ocê vai tê de falá com eu primeiro. Se o assunto interessa a ela, vai interessá a mim tumém.
O negro cruzou os braços em frente ao corpo. Juvêncio viu-se cercado por seis outros negros que ele desconhecia. Estava começando a achar que essa não tinha sido uma boa idéia. Tentou pegar a arma, mas logo foi parado por um dos homens. Braços seguros, Juvêncio foi rapidamente dominado.
– Agora diz aqui pra eu, pra modi eu ‘scutá bem direito. Quié que ocê qué com Maria? – Os olhos dele pareciam querer fuzilá-lo. Juvêncio suava, mas tentava manter o juízo. Quando o negro chegou bem perto ele lhe desferiu um chute entre as pernas, desvencilhando dos dois pretos que o seguravam.
– Ora, mas nem! Aqui é Juvêncio Pitanga e eu não aceito ordem de preto! Se o assunto é entre mim e Maria, não há quem tenha nada a ver com isso.
O levantou-se do chão feito um tigre. Juvêncio desviou da primeira investida.
– Pitanga nóis tem de colhê é do pé! Vou te mostrá a força do Nêgo Bonfim…
– Pare, Bonfim. Dêxa eu falá com o sinhô da Imperatriz. Se o hôme veio de longe, lá das banda de Pilar, e num trôxe meia dúzia de capanga é que o assunto deve de sê muito sério. Dêxe que ieu me arresovo com ele.
– Mas D. Maria…
– Dêxe de mulecage, lazarento dos inferno. Já falei que ieu trato com ele e ponto finar. E o sinhô, seu Juvêncio, vem comigo que pelo visto nóis tem muito pra prosear.
*******************
Juvêncio seguiu a preta por algum tempo, até que entraram numa venda antiga, cheia de badulaques.
– Arre, d. Lindoca, bom dia procê!
– Bom dia, d. Maria. Hoje tem bolo de fubá!
– Intão vai ser fubá mesmo. E o sinhô seu Juvêncio, que vai querê?
– Nada não, agradecido.
Deixaram a mulher da venda desaparecer no fundo da loja. Juvêncio olhou para a preta que estava ao seu lado. A mesma mulher decidida, o mesmo ar de superioridade, de quem não aceita seguir ordem de ninguém. Mulher e tanto…
– Qual é o assunto, inhô Juvêncio?
– Teu filho Arimatéia. Trouxe ele pra lhe ver.
Maria suspirou profundamente. Os olhos vazios ficaram por um longo tempo perdidos, olhando para o vazio.

****************

Caros, desculpem o silêncio de rádio…

A coisa tá feia, irmãos, mas as crônicas continuarão…

Abraços a todos

Vivendo para sempre

Abril 1, 2008

Nos arredores da Cidade de Goiás – Parte 2

Março 30, 2008


A noite tinha sido comprida e silenciosa. Escondidos perto da cidade, Arimatéia e os outros tentavam parecer ingógnitos. Por outro lado, era difícil disfarçar o nervosismo. Juvêncio era muito conhecido por essas bandas, sabia que poderia ser descoberto a qualquer momento. Precisava chegar na casa de seu compadre Pedro Miranda para tratar de nogócios. Ele lhe devia alguns favores. Agora, longe de sua peonada, Juvêncio sabia que estava correndo perigo. Compadre Pedro poderia ser-lhe bastante útil.

Arimatéia, por outro lado, pensava em sua mãe. Como ela seria? Ela deveria ter sofrido tanto durante todos estes anos! Difícil demais saber que se tem um filho e está longe.

Na noite, os vagalumes dançavam em torno da fogueira, se misturando com as brasas que iam subindo para o céu. Arimatéia disse:

– Deu vontade de cantar. Cantar uma moda daquelas bem tristes pra combinar com essa noite de estrelas e sem lua.

Juvêncio pitava o fumo. Já tinha se esquecido do quanto gostava de andar pelo sertão de cavalo, correndo atrás de aventuras, caçando os bichos, dormindo no meio do mato. A vida podia ser boa, longe de todas as responsabilidades da Imperatriz.

– Não tem mais motivo pra tristeza. Agora vocês vão ter uma nova vida. Há de se aproveitar pra serem felizes.

Virou para o lado e dormiu. Florinda já ressonava há algum tempo. Sonhava a sono alto, com um mundo cheio de vaga-lumes brilhantes.

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– Mais um dia. É só o que a gente precisa, um dia!

Era manhã de domingo e os cabras já avistavam o Rio Vermelho.

– Se a gente andar mais rápido chega ainda hoje, de noitinha!

A cabroada do Ezequiel gritou, comemorando. Faltava pouco para o acerto de contas com o Pitanga.

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Arimatéia acordou e não viu o pai ao lado. Nem ao menos o cavalo dele estava por perto. Faltava também uma das espingardas. Ele tinha saído muito cedo, sem fazer qualquer barulho. A essa hora deveria estar na cidade, muito à sua frente.

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Juvêncio Pitanga entrou na cidade na hora que tocavam os sinos na igreja de Nossa Senhora do Rosário. O povo da cidade estava indo em peso para a celebração. Desapeou seu cavalo, tomando o cuidado de olhar bem em volta antes, pra ver se não encontrava algum dos capangas de Ezequiel.

Entrou na igreja, benzeu-se e, olhando para os santos. Era tempo do advento, a espera para o Natal. Olhou bem em volta para ver se encontrava quem ele procurava. Ela estava bem ali, num canto, olhando pra imagem do senhor crucificado.

Ele bem sabia que essa era a igreja do pretos. Não havia lugar melhor para encontrar um certo amor do passado. Maria…

Nos arredores da cidade de Goiás

Março 16, 2008

Goiás, 1923

O viagem até a cidade de Goiás durou quinze dias tranqüilos. No caminho, Juvêncio e Arimatéia acabaram se tornando amigos. Obviamente, nada poderia substituir os longos anos de ausência nem tampouco expiar os erros de Juvêncio. Ambos sabiam disso. Porém, também sabiam que eram grandes as chances de nunca mais se verem de novo. Portanto, era a última oportunidade que tinham de se acertar, por de lado as diferenças e aproveitar estes últimos tempos.

Florinda, por seu lado, aceitava esta situação por amor a Arimatéia e tentava disfarçar o grande ódio que tinha por Juvêncio Pitanga. Ela sabia que seu irmão Teotônio havia sido morto por ordem dele. Ela viu os dias de sofrimento de seu pai, se martirizando pela morte do único filho homem e se contendo para evitar uma nova matança. Ezequiel Andrade nunca mais foi o mesmo.

Em muitas noites na estrada, ela pensava fazer justiça com as próprias mãos e assassinar Juvêncio. Quando ela pensava nisso, fechava bem os olhos e rezava para afastar os maus pensamentos. Que direito ela tinha de rezar? Estava ali, no meio do mato, fugindo com um homem sem consentimento de seu pai. Isto seria realmente pecado? Abrir mão de tudo e seguir um amor impossível? Ela sabia que sim, mas se recusava a crer. Tinha esperanças que Deus entendesse as razões do seu coração e a perdoasse.

Foi com grande alívio que ela viu a pequena cidade de Goiás aparecer entre as colinas. Ali acabaria de vez sua história entre Pitangas e Andrade. Quando Juvêncio partisse, ela seria uma nova mulher, distante do passado conturbado, da guerra de famílias que parecia não ter mais fim. Enfim, poderia ser apenas Florinda, sem o peso de ser Andrade.

********

Os jagunços de Ezequiel Andrade esperaram em vão na cidade de Pirenópolis por vários dias. Tinham perdido o rastro deles perto do rio São Patrício, mas sabiam que era mais provável que eles tentassem ir para Pirenópolis. O plano era matar Arimatéia e Juvêncio, trazendo a menina de volta à força.

O problema é que eles sabiam que não se demorava tanto de Pilar até ali. Provavelmente teriam tomado outro caminho. O que diriam ao Coronel Andrade? Será que eles teriam se escondido em algum lugar mais perto? Será que tinham tomado inesperadamente outra rota para fugir?

O que Negro Tenório, capataz da Cascavel, mais detestava era esse marasmo, essa sensação de não saber o que fazer. Teria de esperar ordens do patrão de todo modo. Pudesse ao menos seguir sua intuição… Ei, era isso!

– Junte os cabras, vamos arribar acampamento. Sei pra onde eles foi.

– Mas pr’onde nós vai, nhô Tenório?

– Goiás. O lugar pra onde a mucama Maria fugiu. Arimatéia não vai sumir no mundo sem dar um beijinho de despedida na mamãe…

Os cabras subiram com pressa em seus cavalos e mulas e correram a todo galope para a cidade de Goiás, capital do estado. Se tivessem sorte, ainda poderiam cumprir as ordens do Coronel Ezequiel. Muitos ali teriam prazer em sangrar o Pitanga. Haviam muitos anos de conta serem acertados.

Naquela noite, enquanto descansavam rapidamente antes de continuar viagem, o peão Jocácio, braço direito de Tenório perguntou:

– Seu Tenório, como é que ocê sabe donde tá a mucama Maria? Ela fugiu faz tempo, grávida do Arimatéia, nos mato. Ninguém na Cascavel sabia donde ela tava…

– Ela veio me procurar quando escapuliu. Sabia que eu ia gostar de desagradar o Pitanga, ajudando ela a fugir. Pelo menos isso nos foi útil, agora sabemos pr’onde que ela foi. Achar o Pitanga agora é uma questão de tempo e sorte. Ele tá desacompanhado, sem a sua peonada. É a melhor chance que teremos para acabar com ele.

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Laurentino Pitanga recebeu com assombro a notícia de tudo o que tinha acontecido na fazenda. Claro, nunca tinha lhe agradado a idéia de casar com a filha do Andrade, mas ele sabia que sua vida ia mudar drasticamente a partir de agora. Tinha apenas dezoito anos e estava no último ano de seu internato. Tencionava continuar os estudos para ser advogado. Porém, o dia que menos esperava tinha chegado. Teria de voltar rapidamente para a Imperatriz. A guerra agora era iminente, ele precisava estar pronto para lutar pela sobrevivência de sua família. Se tudo desse certo, poderia estar em casa em aproximadamente um mês. Contando os dias, seria próximo do natal.

********************

– Vamos acampar aqui, perto da cidade – disse Arimatéia – Temos de ver como está o movimento, se há alguém nos esperando por lá. Não podemos correr o risco de sermos pegos desprevenidos. Amanhã eu mesmo vou até a cidade, também para comprar algum mantimento para nossa viagem. Aí veremos.

Perseguição III

Março 12, 2008

Goiás, 1923

Os três galoparam em silêncio por três dias. Atravessaram córregos e rios, andaram por planícies compridas, chapadões perigosos e, principalmente por mares de morros baixos, cobertos de árvores retorcidas do cerrado. Eram acompanhados de perto pelos barulhos familiares de socós, seriemas, catitus, veados e dezenas de outros animais. Esta fauna, muito mais rica do que hoje em dia, servia de alimento para os viajantes, assim como diversas frutas que encontravam pelo caminho, como jatobás, ingás, etc.

Andavam pelo meio do mato pois temiam que, indo pela estrada, pudessem ser encontrados pelos jagunços, tanto dos Andrade como dos Pitanga. Arimatéia e Florinda não foram ingênuos de acreditar terem seqüestrado Juvêncio fosse empecilho para que continuassem sendo perseguidos.

Na noite do terceiro dia, sob um céu estrelado de lua nova, Arimatéia foi o responsável por quebrar o silêncio, enquanto Florinda dormia, extenuada da viagem.

– Você me chamou de filho… Naquele dia, na beira do córrego, me chamou de filho.

Juvêncio permaneceu calado. Mexia no seu bigodes e pitava um cigarro de palha que tinha acabado de fazer. Esse silêncio fez Arimatéia, conhecido pela sua serenidade, explodir em fúria.

– Porque isso? Você nunca admitiu que tivesse dormido com minha mãe! Nunca me deu um só palavra de amor, carinho! Agora vem me chamar de filho!

– É isso que você é, não? – Juvêncio continuava calmo, deliciando-se com o cigarro. – Sabe, Arimatéia, quer dizer, filho, quando a gente é jovem faz muita coisa no impulso. Eu desejava muito sua mãe, mas já era casado com Leontina há cinco anos. Maria, sua mãe era bonita, envolvente e nunca tinha cedido a meus caprichos. Leontina que trouxe Maria com ela, quando nos casamos e me deu um filho que nasceu morto. Um filho homem, um Pitanga que eu sonhava que ia acabar de vez com a guerra com os Andrade. Chamei ele de Miguel de propósito, pois queria que ele fizesse que nem o Arcanjo São Miguel, levando os Andrade pro inferno. Mas Deus não quis dar esse destino pra ele. Deus é sábio, filho, sangue só traz mais sangue. A gente não consegue paz com guerra.

– E foi nesse dia – Juvêncio continuou – que tomei sua mãe pela primeira vez, contra a vontade dela. – Arimatéia fez menção de se levantar, mas Juvêncio levantou a mão, pedindo que ele esperasse. – Não foi exatamente isso que você fez com a filha do Andrade? Como disse, quando a gente é jovem faz coisas sem pensar. Me arrependo muito de ter feito o que fiz, não nego. Além disso, fiquei apaixonado por sua mãe, cego de desejo. Em todos esses anos, desde que cuido da Imperatriz, a única vez que chorei foi no dia em que tomei sua mãe. Eu estava disposto a largar tudo a fazenda, a guerra, minha esposa, tudo pra ficar com uma preta, filha de escravos do Rio de Janeiro. Ela me negou, me esnobou totalmente, dia após dia, mês após mês. E foi quando descobri que ela estava grávida de você.

Arimatéia começou a chorar. Pensava no sofrimento da mãe, preta, sem ter com quem dividir toda aquela angústia.

– Me enchi de fúria, pensei que ela me evitava pois estava com outro homem. Nunca me passou pela cabeça que o filho pudesse ser meu. Enxotei-a de casa.

Foi a vez das lágrimas saírem dos olhos de Juvêncio.

– Eu só queria que alguém me amasse. – a voz continuava seca, sem emoção – Queria que fosse ela. Na minha vida inteira ninguém nunca me amou de verdade. Nem a Leontina jamais disse que me amava. E, quando sua mãe foi embora levando você na barriga, eu me senti sozinho como nunca. Procurei ela por todos os lados, corri o sertão com meus cabras atrás dela, sem nenhum sinal. Até que me falaram de uma preta bonita que tinha chegado grávida em Crixás.

– Chegando lá, depois de dias, você tinha nascido. Eu tomei você dos braços de sua mãe, ainda muito pequeno. Ela nem chorou, nem implorou por você. Eu te trouxe de raiva! Deus nunca vai me perdoar! Levar o filho de alguém por raiva…

Juvêncio colocou as mãos entre os olhos e chorou novamente, do mesmo jeito que tinha feito no dia em que Miguel morreu. Soluçava que nem criança.

– A vontade que tenho é de lhe matar! Mas você não merece nem o meu desprezo, seu desalmado.

Juvêncio conteve a emoção e olhou para Arimatéia, tranqüilamente.

– Deixe-me tentar reparar um pouco dos meus erros. Não por mim, filho, mas por você. Sei que estamos indo para Pirenópolis, conheço bem o caminho para lá. Melhor seria ir para Crixás de Goiás. Tenho negócios por lá, posso arranjar dinheiro para que vocês dois construam uma vida nova em outro lugar. E podemos encontrar sua mãe.

– Eu nunca tive nada seu! Porque você acha que vou querer ter o seu dinheiro?

– Eu sei o que você pensa nas noites. Sei que olha para esta mulher e pensa em como você vai conseguir dar a ela tudo o que ela merece. Não aceite o dinheiro por você e sim por ela. Quando a gente é jovem tem esse orgulho besta de quem não sabe que todo mundo sempre dependeu de alguém. Nesse mundo, Arimatéia, o dinheiro fala mais alto que cor de pele, que passado. Dinheiro compra até o silêndio das pessoas. E, além disso, você é meu filho. Deixe-me cuidar de você, mesmo que agora seja tarde demais para conseguir o teu perdão.

– Eu mereço morrer, filho, por tudo o que fiz. Mas você também merece por ter roubado a filha do Andrade, nós dois sabemos disso. Sua vida pela minha. Meu dinheiro pelo seu passado. É uma troca justa.

Os dois abraçaram-se longamente. Juvêncio se sentia muito mais leve. Todos estes anos se arrependendo de ter feito essas coisas. Deus tinha dado a ele a chance de mostrar que podia ser uma pessoa melhor. Ele sabia que não merecia, sabia de todos os seus pecados, mas mesmo assim tinha recebido uma segunda chance. Faria tudo para não desperdiçá-la

Arimatéia secou as lágrimas com o braço e disse:

– Vamos a Crixás…

Maria Lúcia II

Março 10, 2008

Maria Lúcia II

Brasília, 1997

Aquele encontro fortuito teve um efeito transformador sobre Maria Lúcia. Lucas havia falado muitas verdades sobre ela, verdades dolorosas, sem dúvida, e que ficaram martelando na cabeça dela por meses. Ela queria reencontrá-lo, mesmo sem saber exatamente porquê. Era uma necessidade inexplicável, uma obsessão.

Será que ela estaria apaixonada? Esta possibilidade lhe parecia ridícula. Não era nada racional pensar que poderia se apaixonar por alguém assim, tão fácil. Era mais um desejo forte de rever, de tocar, de sentir. O problema é que a ausência dele estava tornado tudo isso cada vez mais forte.

O menino misterioso não deixou nada para que fosse encontrado: telefone, endereço, qualquer pista sobre seu paradeiro. Só sabia que ele morava na Ceilândia. Claro, Maria Lúcia soube logo que a Ceilândia é a maior de todas as cidades-satélite de Brasília, com mais de 300 mil moradores. As chances de achar um Lucas, irmão mais novo de Mateus e Marcos, eram mínimas.

Diziam também que era um lugar perigoso, de gente pobre, muito diferente da Asa Norte. Mas isso não impedia que Maria Lúcia olhasse para os itinerários dos ônibus para a Ceilândia e imaginasse que talvez Lucas ou alguém que o conhecesse estivesse num deles.

Apesar disso, Maria Lúcia não voltou a sentir a mesma solidão de antes. Ela permanecia ali, desconcertante, mas não doía mais. As palavras de Lucas tinham-na libertado de um jeito misterioso, como se fossem uma revelação. Aquela cidade era a solidão, não se podia evitá-la. Ao contrário, poderia se aprender a conviver com ela. Aí, não era mais uma solidão avassaladora e terrível, era uma solidão carinhosa, acolhedora, solidão de céu azul.

E os dias de Maria Lúcia eram outros. Ela descobriu a música, a suavidade do toque dos acordes quando ferem os ouvidos. Descobriu Beatles por acaso, ao ouvir “With you Whitout you” no rádio e não conseguiu mais parar de sentir os acordes indianos, deitada de olhos fechados no seu quarto.

E a isso se sucedeu uma série de outras bandas. Seu sangue fervia ao ouvir Wonderwall, do Oasis, gritava as músicas do The Best of U2, chorava com Blur, viajava ao som de Nevermind do Nirvana e de Ten de Pearl Jam. Vieram muitos outros: Sex Pistols, The Cure, Doors, Police, Alanis e Janis; Legião, Plebe Rude e Capital Inicial; Titãs, Cazuza e João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Dormia acalantada pela voz sexy do Chico ou pela sonoridade grotesca de Caetano Veloso. Às vezes chorava baixinho ao som da guitarra de Hendrix, pois era menina e podia chorar. Era tanto som, era tanta música batendo nas paredes que a casa, o quarto, o mundo pareciam pular, saltar da quietude e balançar a percepção.

A solidão de Brasília era sonora, musical. Uma solidão que grita com o vento de concreto, como se as almas dos índios mortos do cerrado cantassem um mantra eterno, que ecoava pelas paredes dos edifícios. Cada parte da cidade, cada rua, cada avenida tinha um som particular, de metrópole e cidadezinha do interior ao mesmo tempo. Cada bar, cada tipo estranho andando pela rua, numa cidade do mundo, cercada de embaixadas, era um som, um solo de guitarra, uma batida ritmada de percussão.

E os primeiros meses do ano se passaram. Maria Lúcia e a música eram uma só. Agora, mais do que nunca, ela entendia o que Lucas queria dizer. O mundo era som também, era toque, era cheiro. E ela queria experimentar cada parte do mundo, viajar, sentir no rosto o vento empoeirado das estradas. Queria sugar do mundo toda energia e virtude. Queria o gosto verdadeiro, original e único, não a visão pasteurizada dos comerciais de televisão.

E começara suas andanças solitárias por Brasília. O Parque Olhos d’Água, depois o Parque da Cidade (ela amava a rua dos eucaliptos, parecia tanto a Austrália!) a Torre de TV, a praça dos três poderes, o sossego do Lago Paranoá, tão tranqüilo que nem parecia ser real, parecia sonho.

Maria Lúcia também não estava mais sozinha. Tinha muitos amigos, em toda parte. Malu Carioca, Maluzinha, Lua, Mary, LuLu, eram tantos apelidos que lhe davam. Eram tantas Malu’s que existiam numa só! Maria Lúcia se dividia entre festas, bares, noites de fogueira olhando o céu de estrelas que parecia maior que a noite.

Era outra Maria Lúcia e gostava disso. Nem sabia, mas estava se tornando mulher, forte. Mas, para isso era preciso mudar muito, era preciso tempo. Principalmente, era preciso encontrar-se com seu destino. E isso aconteceu num dia comum, um despretensioso 24 de Agosto.

Perseguição II

Março 5, 2008

 

Goiás, 1923

 

O Arimatéia tinha percebido a movimentação, mas era tarde. Tinha deixado a espingarda longe e quando viu já estava cercado e nu.

– Corre, Florinda! Corre!

Não deu tempo de mais nada. A jovem, nua como tinha vindo ao mundo, também foi cercada pelos homens de Juvêncio.

– Pegamos os dois bem na hora! – a tropa caiu em gargalhadas – Será que deu tempo do Arimatéia fazer carinho na menina?

Florinda começou a chorar. Os cabras olharam pro Juvêncio, esperando alguma ordem. “Uma menina ainda, meu Deus!”, era o que ele pensava. Realmente, a morena devia ter seus dezesseis anos e tremia que nem vara verde. O quê ele ia fazer nessa situação? Aqueles homens rudes tinham muitas contas a acertar com os Andrade. Perigava deles também quererem “fazer carinho” na menina.

Ela tentava se cobrir com as mãos, sem muito sucesso.

– Seu Juvêncio, eu lhe imploro! Faz o que quiser comigo, me mata, me arrasta até a Imperatriz no seu cavalo. Pode até mandar seus capangas me sangrarem, um a um. Mas não faz nada com o meu Arimatéia. Ele não tem culpa, fui eu que pedi pra fugir com ele. Eu prefiro passar o resto da minha vida sofrendo na Cascavel, sozinha, aceito até casar com seu filho, que eu não amo, mas por favor, não o mate.

Arimatéia, coitado, estava já amarrado num buritizeiro do lado do córrego.

– Pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas, Florinda! Se você morre, eu também morro! É melhor a gente morrer aqui, os dois juntos do que viver o resto da vida separados. – falando agora para Juvêncio – Seu Juvêncio, faça o que tem de fazer, acabe logo comigo. Eu sou um imprestável, filho de uma preta velha. Se lhe virei as costas foi porque meu coração não me permitia outra coisa. O sinhô já amou, seu Juvêncio? Se já amou o senhor me entende. Eu não podia fazer outra coisa, eu não podia mais viver assim. Sei que foi loucura…

Foi interrompido por um soco que lhe feriu a face, proferido pelo Tonico.

– Isso lá é jeito de falar com Seu Juvêncio? Deixa eu capar esse filho de uma puta!

Juvêncio tirou a espingarda do ombro lentamente, engatilhou e acertou um tiro certeiro, no ombro esquerdo de Tonico, deixando a cabroada silenciosa e assustada. Depois disso, recarregou com outro cartucho, mirando nos testículos do cabra, que gemia no chão.

– Puta é a tua mãe, seu desgraçado. Filho meu ninguém sangra! – as palavras saíram com ódio. Tonico estava branco e protegia a matula com a mão. – É, acho que não tenho mira… Gildásio, arranca a roupa desse traste. Quanto à senhora – falando para Florinda enquanto desapeava – arrume um jeito de se cobrir.

– Tem piedade seu Juvêncio! Quanto tempo faz que eu tô trabalhando com o senhor? – Tonico tentava se soltar, mas era inútil. O Gildásio e mais dois cabras seguravam-no com força. Abaixaram as calças dele até os joelhos.

– Tanto tempo e ainda não aprendeu que eu odeio quem fica pedindo piedade? Odeio homem covarde. Tá vendo ali? – virou a cara dele pro Arimatéia – Filho meu. Tá vendo ele implorar pela vida? Ele implora é pela morte, pois sabe que com honra não se brinca e ele desonrou a filha do Andrade – Juvêncio tirou da cinta a faca com cabo de osso que ele usava pra picar fumo. O Tonico tentava se desvencilhar a todo custo – Tu acha que eu tenho cara de quem deita com puta? Covarde a gente corta, não dá tiro. A gente sangra que é pra sofrer bastante.

Os peões estavam assustados. Nunca viram o patrão fazer uma coisa dessas. Sangrar um ajudante assim, com a própria mão? Nunca tinha feito isso nem com um Andrade. Se bem que o Tonico tinha exagerado. Todo mundo bem sabia que Arimatéia era filho de Juvêncio. Sugerir capar o filho do patrão? Mas também era maldade capar o cabra assim, com faca cega. Tonico chorava, balbuciando coisas sem sentido.

– Parem com isso, agora!

Florinda tinha voltado, ainda nua, mas com a espingarda do Arimatéia na mão, apontada pro Pitanga. Na confusão, todos tinham se esquecido dela.

– Todo mundo deitando no chão, menos o Pitanga.

Juvêncio sorria. Agora podia olhar bem para a menina. Era mesmo uma Andrade, esperta como o cão, olhos de onça, respiração alterada de quem está disposta a tudo. Ele ficou imaginando o que daria misturar Andrade com Pitanga. Jogo perigoso esse.

– O senhor sorri muito pra quem vai morrer.

– Se eu morrer mesmo…

– Desamarre o Arimatéia. E não pense em fazer nenhuma besteira que quem me ensinou a atirar foi meu pai.

Ela nem tremia. Nem parecia com a menina que implorara pela vida do namorado minutos antes. Tampouco Juvêncio demonstrava qualquer preocupação. Continuava com a faca com cabo de osso na mão. Com um movimento certeiro, cortou a corda que segurava Arimatéia, deixando-o livre. Ele pegou uma outra espingarda no chão, apontando para os cabras da Imperatriz. Florinda disse:

– O senhor vai com a gente, seu Juvêncio. E é o seguinte, se qualquer um do grupo dos Pitanga ou dos Andrade seguir a gente, o Juvêncio morre. Falem isso com meu pai. E agora, monte no seu cavalo, rápido. – Arimatéia amarrou as mãos do pai na cangalha, depois foi se vestir.

– Quanto ao senhor, seu Tonico, agradeça a mim por ainda ser homem. Se bem que com essa coisinha aí, nem sei se pode se chamar de homem mesmo. – Florinda soltou uma risada alta. Ninguém mais riu.

Ela se vestiu rapidamente. Depois disso, Florinda e Arimatéia pegaram os melhores cavalos e se embrenharam no mato, levando o Juvêncio e todas as armas dos peões.

– E agora, o que a gente faz? – Era o Gildásio que perguntava.

– O jeito é voltar pra Imperatriz. E você, Tonico, suma daqui e não apareça nunca mais…

O Tonico levantou as calças e saiu correndo no mato. Os outros homens voltaram rapidamente na direção contrária, putos de raiva. Tinham sido enganados por uma menina… A filha do Andrade…

Perseguição

Março 2, 2008

Goiás, 1923

O grupo de Juvêncio ia muito na frente, no encalço do casal de fugitivos. Arimatéia tinha levado a filha do Ezequiel. Nunca tinha desconfiado dessa história de amor entre eles. Quanto tempo fazia? Como tinha começado essa loucura? Agora Juvêncio só pensava neles fugindo que nem cães nesse mato brabo. O Arimatéia era esperto, bom rapaz e que sabia andar naquela região de olhos fechados.

Por outro lado, estava com a menina. Filha prendada, criada na sede da Cascavel, quase nunca saía da barra da saia da mãe. Ela não ia aguentar essa correria por muito tempo. Pensando assim, talvez fosse questão de horas até que eles fossem encontrados e essa caçada acabasse.

E o que deveria fazer quando isso acontecesse? Sangrar o menino, era caso de morte. Ninguém desonrava o prefeito Andrade desse jeito. Além do mais, ele não queria começar outra guerra. Agora o Andrade tinha muitos amigos poderosos, influentes, até na capital. Ele não queria a polícia no seu encalço. Não havia jeito, ia ter de matar o Arimatéia.

E a menina? Filha única do Ezequiel. Era uma oportunidade de ouro. Dificilmente ela aceitaria o casamento com o Laurentino, de qualquer maneira. Se ela simplesmente sumisse…

Mas não, matar mulher assim, não. Ele não chegaria a tanto. Ele não queria chegar a tanto.

**********

– Amor, vamos!

Ela o achava tão bonito, tão especial em sua simplicidade. Aquela fuga foi o único jeito, a única chance de viver ao lado do homem que ela havia escolhido para si. Seu homem, era isso que ela ficava repetindo dentro da sua cabeça. Seu homem, Arimatéia. Que importava se fosse mestiço? Que importava se fosse ou não filho do sacripanta do Juvêncio. Estavam ali, seguindo o seu destino, fugindo por amor, fazendo aquilo que sei coração achava certo.

Os dois fugiam a todo galope pelo meio do cerradão. Só ele pra conseguir saber para onde estavam indo agora, onde estavam. Ela estava totalmente perdida, mas se sentia segura, apaixonada. Ele parou.

– Vamos parar por aqui. Os cavalos precisam beber e o próximo córrego está longe. Também vejo que você está bem cansada.

– Precisamos fugir, amor, pra longe, antes que nos encontrem.

Florinda teve um desejo enorme de beijá-lo. Não ouvia nada, simplesmente se perdia em observar a boca de Arimatéia. Ele percebeu isso. Entreolharam-se. Os corpos ardiam de desejo.

Ele levantou-se, andou até o córrego e enfiou a cabeça na água para esfriar os pensamentos. Precisava ser forte. Conhecia um padre em Pirenópolis que poderia casá-los e então aquela mulher seria definitivamente sua. Antes disso, teria de suportar a tentação. Florinda era uma menina direita, não merecia ser deitada no meio do mato como fazem com qualquer cabrita. Ele a amava, bem sabia disso. Só com muito amor para fazerem um loucura dessas.

Ela estava ali, bem próxima. Podia sentir o seu cheiro, imaginar o toque suave da pele. Menina rica, acostumada com o luxo da Cascavel. O que ele poderia lhe dar? Como ele teria conseguido convencê-la a fugir com ele por estes matos fechados? Loucura, ele bem sabia. Mas era a única coisa que seu coração lhe permitia fazer.

– Não…

A palavra veio mais como uma súplica que ordem. Florinda, muito próxima, o calor da respiração, as mãos dela que percorriam seus braços. Isso era irresistível. Arimatéia sucumbiu.

***************

– Patrão, eles entraram por aqui.

O negro Tibúrcio trazia um pedaço de pano branco. Era do vestido da menina, sem dúvida. Estava enrolado num galho de jatobá. Estavam perto, podia sentir. Por isso mesmo Juvêncio precisava decidir logo o que fazer. Mas ele sabia, diabos. Tinha de matar o Arimatéia. Mas o padre estava certo. Era seu filho, seu filho. Fruto do amor dele por Maria. Se ele fugia com a menina era só por ser sangue de seu sangue, um Pitanga não faria diferente. Não podia culpar o menino por isso.

******************

– Maria…

O cheiro da preta estava misturado com o do café. Que horas seriam? O sol já ia alto no céu. Ele ficou olhando pros bicos dos peitos dela, bem escuros e arrebitados pela brisa da manhã. Ela não tinha dito uma só palavra, um gemido em toda a noite. Ele sentia um certo remorso. Não era de tomar as mulheres assim, mas ele se sentia tão fraco, tão inseguro. Queria o calor de uma mulher, pra lhe fazer esquecer a dor.

Tinha acabado de enterrar seu primeiro filho, recém-nascido. Chamava-o de Miguel. Morreu no parto, tão tranqüilo no seu caixãozinho, parecia que dormia.

– Vida ingrata! Vida ingrata!

Começou a chorar, que nem menino. Chorava que tremia, rolando no chão, totalmente esquecido da mucama, nua, ali a seu lado. Era muita dor no coração. Aquela guerra com os Andrade não ia acabar nunca? Tantos mortos e ele conhecia cada um pelo nome. Tantos…

E o menino ali, sozinho, os vermes comendo a carne dele embaixo da terra. Ele não tinha culpa! Não tinha!

– O sinhô tem de ir ver sua esposa. Não tá certo o marido dela sumir assim, a noite toda.

Ele sentiu o ódio na voz dela. Ódio. Todos o temiam. Será que ninguém era capaz de amá-lo? Era o que ele precisava, apenas isso. Deitou-se no colo da negra, sentindo o cheiro de suor que exalava de suas pernas. Era o colo da mãe que ele queria, mas ela jazia morta, há muito tempo. Morreu de pé, lutando contra os Andrade. Quanto tempo demoraria pra ele morrer também? Teria coragem de morrer de pé, que nem sua mãe?

E ele beijou a negra, com volúpia, na marra. Ela não retribuiu o beijo, mantendo-se arredia. Ele se encheu de ódio, ameaçando bater nela.

– Agora é isso? Vai bater também? Não basta me possuir à força?

Ele abaixou o braço e secou as lágrimas.

– Vista-se e me encontre mais tarde na Imperatriz.

**********

– Ali, do lado do córrego!

Juvêncio foi trazido de volta dos seus devaneios. Tinham achado seu filho. Arimatéia…

Não, eu não morri

Fevereiro 29, 2008

Desculpem o silêncio de rádio…

Foi dengue…

Mas eu estou melhor…

Não devo bater as botas tão cedo…

Fim de semana tem mais histórias

Ezequiel Andrade

Fevereiro 18, 2008

Apesar do interesse do padre César em informá-lo, já não era necessário. O Coronel Ezequiel Andrade já sabia muito bem de tudo, pois soubera do desaparecimento da filha por um seu que viera da fazenda informá-lo. Já tinha, inclusive, tomado suas providências, mandando ordens para o Tenório, negro velho de confiança e filho do antigo feitor de escravos, correr no encalço da fugitiva, trazendo-a mesmo que fosse arrastada. E essa agora?

Rumou imediatamente para a Fazenda Cascavel, averiguar o que tinha acontecido. Encontrou a mulher, Isabel, aos prantos, batendo no peito e falando coisas desconexas. Tomou-a pelos braços e a pôs na cama.

– É nossa filhinha, Ezequiel, a única que me restou! Ela foi embora sem nem se despedir. Deus do céu, que desgraça, que desgraça…

O Coronel Ezequiel Andrade era um homem corpulento, que ostentava uma grossa barba negra e que falava com uma voz garbosa de tenor.

– Deixe de besteira, mulher! Pare de chorar, temos de pensar com serenidade…

– Ela deixou um bilhete!

Ezequiel leu o pequeno papel amassado e molhado das lágrimas. Falava sobre fugir para seguir seu amor. Quem seria esse moleque? Agora que Florinda ia se casar com Laurentino, fugir assim? Isso não ia acabar bem. Ele sabia que a filha não aprovava este casamento arranjado. Na verdade nem ele. Dar sua filha querida ao filho do cretino que matara seu filho Teotônio…

Mas não era mais possível ter orgulho. Ele estava disposto a pôr um fim naquela matança absurda. Mais de cinqüenta anos de mortes em ambos os lados das famílias, antes inclusive de Ezequiel nascer. Sentiu cada uma das mortes de seus entes queridos: tios, primos, irmãos, até o próprio pai que morreu muito cedo, deixando com ele a responsabildade de tocar a fazenda, abandonar os estudos de direito. Quando viu o próprio e amado filho, em quem ele depositava todas as suas esperanças, morto, com o rosto desfigurado pela bala que o atingira, decidiu que era hora de colocar um fim nisso.

Ele tinha o direito da vingança, ninguém duvidava disso. Laurentino Pitanga era seu, sua vida pela de seu filho. Mas ele decidiu não se vingar. Decidiu engolir o orgulho e negociar com o próprio Juvêncio, chefe do clã Pitanga, o fim das hostilidades. Aquele casamento arranjado era o ponto final, o pacto de sangue que uniria Imperatriz e Cascavel, acabando com as desavenças para sempre.

Mas e essa agora? Quem seria? Seja quem for, deveria pagar com o sangue, disso Ezequiel não tinha dúvidas.

Seus pensamentos foram abandonados por ouvir o trote de um cavalo que chegava depressa. Foi para a porta para receber o visitante. Era o negro Tenório, acompanhado do Tibério, capataz da Imperatriz.

– Ainda não achamos o rastro da menina, coronel, mas temos novidades.

– Sim – A voz do capataz da Imperatriz era forte, carregada – Sabemos quem levou sua filha. Foi o Arimatéia.

“Arimatéia? Aquele mestiço? Filho do Pitanga com a mucama Maria?”

– Arrume meu cavalo. Eu vou pessoalmente caçar esse desgraçado. Vamos trazê-lo nem que seja arrastado.

– O seu Juvêncio já está chefiando um grupo para a busca.

– Arrumaremos outro. Quero esse infeliz! Vamos…

Maria Lúcia

Fevereiro 16, 2008

Maria Lúcia

 

Asa Norte, Brasília, março de 1997

 

Malu parecia que ia soltar fogo pelas ventas. Andava de um lado para o outro no quarto. Fazia um calor anormal em Brasília e ela, após muito remoer seus pensamentos sozinha no quarto, decidiu ir para a varanda, onde a casa era mais ventilada. De lá ela ficou olhando o meio da superquadra, pontuado de árvores espaçadas e algumas crianças que jogavam na quadra de futebol.

Dia de calor, naquela cidade perdida no meio do país. A visão das pessoas lá embaixo não a animou nem um pouco. Ela queria barulho, movimento, luz, que nem no Rio de Janeiro. Desde sempre ouvindo o som das buzinas na avenida Nossa Senhora de Copacabana, acostumada a ir à praia todos os dias, ao jeito xavequeiro dos meninos, aos ritmos, bailes, ao povo que sorri na rua. Não se conformava em viver naquele ilha no meio do Goiás.

Estava ali há dois meses e não tinha feito um amigo sequer. Até então, ninguém na escola tinha puxado papo com ela. Os meninos muito sérios, muito contidos, olhavam-na de olhos baixos e não esboçavam sequer um sorriso. Será que ela não chamava a atenção de ninguém? Não achavam-na bonita?

Ah, ela não entendia essa mudança repentina para Brasília. Violência há em todo lugar, não era motivo para mudar sua vida em mais de mil quilômetros. Seu pai, funcionário público de carreira, tinha batalhado muito para conseguir esta nova posição na Capital.

Malu pensava que esta cidade precisava de vibração, movimento. Tudo era monumental, distante da realidade: Palácios suntuosos cercados de áreas verdes gigantescas, fontes de água jorrando no meio de vazios, torres de aço perfurando o céu constantemente azul.

A solidão ali não era com vista para o mar, mas para aquele céu imóvel. Solidão de cemitério, de pesadelo, de plenitude. Malu pensava que era loucura inventar de criar uma cidade assim tão diferente. Coisa de homem, como seu pai. Só homens pra inventar uma cidade erguida do chão. Mulher quer proximidade, envolvimento, contato. Os homens que são assim, arredios. Por isso fizeram uma cidade de homem, mas deram a ela um nome de mulher: Brasília. Ela precisava sair, ver gente, sentir ar fresco, fugir desse marasmo, da solidão.

– Pra onde você vai, menina? – a Matilde, empregada já velha e com os dentes falhados perguntava.

– Ora, me deixe! – e saiu batendo a porta.

– Menina rebelde…

Malu apertou o botão do elevador. Esperou um tempo no corredor vazio e silencioso. Silêncio demais, ela odiava isso. Onde estava o barulho, as pessoas? Perdida nos seus pensamentos, nem percebeu que a porta se abria.

– Vai entrar? – era um rapaz que perguntava. Jeans e roupa preta, um cavanhaque horroroso cheio de falhas. Camisa de banda e piercing na orelha. Malu torceu o nariz.

Entrou no elevador.

– Como você aguenta viver aqui? Nesse marasmo todo? – perguntou, puxando papo.

Ele olhou-a de solsaio. Não respondeu. Ela odiava isso, essa mania que as pessoas dali tinham de ignorar a existência das outras quando achavam conveniente.

A porta abriu-se. Malu saiu pisando duro. Já o rapaz saiu calmamente, andou alguns passos, parou e acendeu um cigarro.

– Isso mata, você sabia?

Mais uma vez ele não respondeu nada. Continuou fumando calmamente. Andou alguns passos e sentou na calçada do bloco, olhando para as crianças que jogavam bola.

– Sabe o que é? – Ele disse isso sabendo que Malu o observava. Não havia nenhum sotaque em sua voz firme, de homem bem mais velho– Esse é um mal de vocês de fora, querer empurrar o lado de vocês para tudo. A gente só pode odiar o que não conhece se for por ignorância.

Malu teve uma vontade de ignorá-lo, mas não conseguiu:

– Quem é você pra falar de mim?

– Carioquinha, você fuma?

– Não, eu odeio cigarro.

– Hum…

– O que foi? Porquê esse “hum”? – A voz dela saiu com um misto de orgulho incontido e marra. Ele viu nela uma certa semelhança com o Romário. Uma questão de atitude. De que bairro ela seria? Pelo sotaque, Copacabana.

Ele apagou o resto do cigarro e guardou o toco num saquinho que tinha dobrado no bolso. O que mais a irritava era a calma dele. Gestos contidos, parecia tudo muito calculado. Ele respirou fundo e falou:

– Deixe-me dizer algumas coisas sobre você, carioquinha. Você acorda de manhã cedo, muitas vezes irritada, gasta vários minutos no banho arrumando este seu cabelo, passa batom, creme, se arruma toda. Depois disso come muito pouco no café da manhã, com medo de engordar. Muitas vezes nem come. Seus pais levam você para o colégio, provavelmente o Marista ou o Galois, e você morre de vergonha que alguém os veja. Vive achando que os outros têm de falar com você, pois você é de fora, é diferente e sabe muitas coisas interessantes sobre o mundo, coisas que não existem aqui e você viu e viveu. Nunca toma a iniciativa de você mesma falar com as pessoas. Sai dali no começo da tarde, sua mãe ou seu pai te pegam na porta do colégio, almoça uma saladinha e vai para a academia ou o curso de inglês. Depois disso tudo fica em casa tentando sintonizar uma rádio que toque samba e pagode e não acha nenhuma. Só rock e sertanejo. Passa o resto da tarde remoendo pequenas coisas, roendo as unhas e se lembrando da vida que você tinha lá no Rio de Janeiro. Por fim, chega a noite e você quer sair e não tem ninguém. Fica até alta madrugada conectada no MSN, querendo saber das amigas que você deixou, mas provavelmente elas saíram para uma festa interessante em algum lugar da Lapa ou em Ipanema e a última coisa que elas querem é entrar na internet para falar contigo. Por isso, você fica pensando que elas são más amigas, chora escondido antes de dormir, agarradinha com seu urso de pelúcia com nome engraçado e adormece com vontade de se matar. Seus dias são monótonos e tristes e você vive maldizendo as pessoas que te cercam, responsabilizando-as pela merda que é a sua vida.

Parou para ver a reação que as palavras tinham produzido. Malu estava prestes a estourar de raiva. Ele viu que tinha acertado senão tudo, pelo menos a maior parte.

– Quer um conselho, carioquinha? Se mate. Você é a única responsável pela sua tristeza. Ninguém tem de ficar aturando sua cara de cu o dia inteiro. Ela ia ficar muito mais interessante no seu funeral.

Doeu. A vontade que tinha era de arranhar o rosto dele até tirar sangue. Respondeu com fúria.

– Pare de me chamar de carioquinha.

– Ah, sim, esqueci deste detalhe. Seus pais te deram um nome desses que dá pra ter apelido. Então em vez de Tatiana, Daniela ou Luciana, todos te chamam de Tati, Dany ou Lulu. Você abomina que alguém te chame pelo seu nome de verdade.

– Eu não pedi os teus conselhos!

– É, pelo visto não é nenhum dos três. Talvez Juju ou Malu – ele viu que acertara – Malu, não é? Então, Malu, sabe porque as pessoas não falam com você? Porque à primeira olhada a gente não vê que, apesar de toda essa sua marra, você não passa pra ninguém absolutamente nada de interessante. Você é vazia, oca. Suas experiências foram todas de menina burguesa, que não conheceu nada de mundo. Você é mimada, orgulhosa, falsa. Eu só converso contigo por pena e por pensar que o que eu digo poderá te ajudar a ser alguém melhor com os outros. Desculpe a franqueza, mal de candango. Agora deixe-me ir, o sol vai se pôr.

Ele levantou-se. Ela tentou segurar o mais que pôde, mas as lágrimas rolaram abundantes. Não era mais raiva, era humilhação também. Que direito ele tinha de dizer essas coisas, de falar a verdade assim, sem nenhum limite ou controle?

– Por que vocês são assim?  – a voz saiu como um fio, em meio às lágrimas. Não tinha mais nenhum controle sobre seus olhos. Começou a chorar baixinho, entre soluços.

– Por que eu te machuco tanto? Foi você que começou. Falou que minha cidade era “um marasmo”, me julgou da cabeça aos pés só pela forma que eu me visto e implicou com meu cigarro, se metendo na minha vida. Você mereceu cada palavra. Não pense que eu tenho pena de ver você chorando. Pode chorar até ficar desidratada. Você faz isso porque quer, porque escolheu ficar com esses olhos de lágrimas, como se fosse dona de toda dor do mundo, olhando a vida da sacada de seu apartamento. Mas saiba que o mundo é muito grande, não cabe no seu umbigo, nem pode ser visto apenas com os olhos. O mundo, Malu, também tem de ser sentido com o tato, com o olfato, o paladar. O mundo é mundo por ser de todos os sentidos.

Ele continuou andando, vagarosamente. As pessoas passavam por Malu e a ignoravam. Ela sentiu abandono, solidão, desamparo. Já não queria mais esconder o choro. Como as pessoas dali podiam deixar que sua dor continuasse assim? Ninguém tinha coração? Ninguém ia parar pra perguntar o motivo das lágrimas, oferecer um colo, dizer uma palavra de carinho?

Verdade solta assim, na cara da gente, dói. Ninguém nunca tinha falado desse jeito com ela, nem seus pais. Um moleque de camiseta de banda tinha feito um estrago tremendo no coração dela. Apesar disso, ela não queria deixá-lo ir embora.

– Pra onde você vai?

– Andar.

– Me leva com você? – Fungou o nariz, segurando o choro. Tentava parecer mais forte do que era.

– …

– Por favor, não tenho pra onde ir.

– E por quê eu faria isso? Por quê eu me preocuparia com você?

– Porque estou pedindo. – Respirou fundo, contendo o choro de vez – Só quero companhia, nada mais.

Ele olhou para o tempo, depois para o céu de final de tarde. Deviam ser umas cinco e meia. Olhou para o rosto dela. Ainda não tinha parado para fazer isso. Olhos negros e grandes, agora vermelhos e inchados. Seria bonita se não exibisse essa marra toda.

– É, não ia dar mesmo, vai chover daqui a pouco…

– Como chover? – Malu não via uma nuvem cinza no céu. – Nesse céu claro?

– Vai por mim, vai chover. – Ele pensou um pouco, parecia se decidir – Quer saber? Venha comigo. Vou te mostrar uma coisa pra alegrar o seu dia. Mas prometa parar de chorar, senão não tem negócio.

Ele pegou-a pela mão. Voltaram ao prédio, subindo o elevador até o sexto (e último) andar. Tinha ali do lado uma pequena porta que dava para uma escada para o terraço. Malu ficou receosa em subir.

– Vem, mulher! Deixa de doce.

Ela subiu com ele. Quando finalmente olhou em volta, não pôde conter a admiração. Como tudo era lindo! Ela podia ver muito longe, todo o círculo do horizonte, parecia que a gente podia ver a curvatura do horizonte. Parou um bom tempo olhando a nordeste, onde reconheceu Congresso Nacional, branco e brilhante. Ele então mostou-a, a sudeste, a Torre de TV, negra e alta, riscando o céu.

– Olhe para lá. – Ele apontava para o leste, onde o lago Paranoá era visto em toda extensão, abraçando a cidade, acinzentado e tranqüilo. Atrás dele, viam-se colinas muito baixas, parecendo um mar verde, de ondas delicadas. Muito perto, ao norte, ela podia ver um parque, incrustado no meio da Asa Norte, coberto de árvores retorcidas do cerrado.

– Que lugar é esse?

– Não é o Jardim Botânico do Rio, mas já é alguma coisa. É o Parque Olhos d’água. É lá que nasce um dos principais afluentes do lago. É muito bonito. Vou muito lá, quando estou disposto. Ia hoje, mas não deu. Como disse, vai chover. Você ainda não conhecia?

– Não. Não deu tempo de andar muito, de conhecer quase nada.

E ele apontou para uma nuvem escura que se formava a leste que vinha muito rápida, tomando tudo. Era engraçado olhar longe e saber que lá já chovia. Podia até ver o clarão dos relâmpagos que cortavam o céu. No Rio a chuva avisava, vinha sempre do mesmo lado. Era o famoso Sudoeste.

– É, Malu, talvez você esteja com sorte. Acho que vai dar tempo de você ver.

– O quê?

– Isso. – o sol estava quase tocando o horizonte. Era possível ver uma grande variedade de cores, não só o vermelho e arroseado, muito comuns. Tons de amarelo, azul, até verde, podiam ser notados, uma paleta incrível de cores que tomavam o horizonte e enchiam tudo de cor. Era muito bonito aquele horizonte imenso, sendo coberto de cores pelo sol.

– Nossa, me lembra o Arpoador – Malu não conseguiu disfarçar um pouco de saudade na voz.

– É, o Arpoador é bonito sim, eu gosto do sol se pondo nos Dois Irmãos. Mas sei lá, gosto de terra. Do por do sol na Chapada dos Veadeiros, dele desaparecendo no meio das árvores em Manaus.

– Você parece ter viajado muito!

– Como disse, para conhecer o mundo, é preciso entrar nele, experimentá-lo. Não se vê o mundo do computador. Mas deixe-me falar porque eu acho esse o melhor pôr-do-sol de todos. – eles se sentaram sobre um banco de madeira que parecia ter sido colocado lá só para isso. – olhe para os outros prédios – ela viu e, em alguns deles, outras pessoas faziam a mesma coisa, olhando o sol indo embora – No Arpoador umas cem, no máximo duzentas pessoas podem ver isso por dia. Aqui não. Todo mundo na cidade pode subir nos seus prédios e ver o sol se despedindo. Como todos eles são do mesmo tamanho e baixos, basta subir até aqui e olhar. Não vai ter nenhum prédio mais alto atrapalhando a vista.

– É, mas é preciso morar aqui, em Brasília, para ver isso.

– Ao contrário do Rio, o céu é de todos. Nas satélites também se respeita o gabarito. Não é só o dono da cobertura em Ipanema que pode ver o sol se despedir. Todos podem. É só querer olhar. É só esquecer a realidade e viver o sonho, por alguns instantes. E, às vezes, a gente pode ver isso ali. – e ele pediu para que ela olhasse para trás.

Era um arco-íris enorme. Ela podia ver exatamente onde ele começava e  terminava, muito nítido e forte. A grande nuvem ia se aproximando e ela sentia aquele cheiro gostoso de chuva, de terra que vai se molhando. Como ela nunca tinha parado pra ver isto? Já estava lá há tanto tempo e nem tinha visto o pôr-do-sol de Brasília que ela já tinha ouvido falar.

Eles ficaram em silêncio, olhando tudo aquilo. Malu estava maravilhada com tanta beleza e também com aquele rapaz misterioso que podia ser tão rude e tão delicado. Como este menino sabia tantas coisas sobre o mundo? Falava com tanta certeza, segurança, bem diferente de qualquer pessoa que ela tivesse conhecido.

– É Maria Luíza?

– Maria Lúcia.

– Maria Lúcia! Ah, que pena…

– Por quê pena?

– Meu nome não é João de Santo Cristo…

Eles dois riram.

– Sou Lucas. Irmão mais novo de Mateus e Marcos.

Riram mais uma vez. Ela reparou no sorriso dele, bonito, de dentes muito brancos e tortos.

– Se fosse o quarto filho, talvez me chamasse João…

Ela não riu mais. Procurou os olhos dele, tentando decifrá-los, entender um pouco seus mistérios. De certo modo, também queria retribuir a “gentileza” e falar tudo da vida dele, mas não tinha esse dom.

Lucas. Soava bem, mas não combinava nem um pouco com ele.  Ele não era bonito, mas se portava de um jeito tão atraente, mas natural. Não via vaidade ou soberba no seu semblante. Os movimentos contidos, calculados, cronometrados, eram como parte de uma dança, de um ritmo individual que a cativava. E ela se sentia insegura, vulnerável. Não conseguia também disfarçar seu desejo.

Caíram as primeiras gotas de chuva e eles se levantaram rápido. Ela queria ficar, não queria acabar assim, voltar pra solidão. Tomou-o pela mão, sentindo um arrepio.

– Eu gosto de banho de chuva…

– De banho eu até gosto. Ruim é gripe. Ficar gripado é um saco… Preciso mesmo ir, moro longe, além das colinas verdejantes. – disse isso rindo. Apreciava a piada.

– Você não mora aqui no prédio?

– Não, moro longe. Ceilândia.

– E quando nos vemos de novo? – a separação doía. Qual era o problema dele? Porque não ficar mais um pouco? Será que ele também não sentia aquele momento?

– A gente se encontra, güapa. Dizem que Brasília é um ovo de codorna, as pessoas sempre estão se vendo. Quem sabe a gente se esbarra um dia desses? – ia sumindo atrás da porta, quando voltou – Ah, sim! Vou te chamar de Maria Lúcia, é muito mais bonito e combina com você.

E se foi. Quando Maria Lúcia decidiu segui-lo, era muito tarde pois ele já descia no elevador. Só restou voltar a seu apartamento, onde ainda pôde vê-lo correr na chuva, na direção da parada de ônibus.

Vendo-a olhar pela janela, a empregada Matilde ficou olhando para Malu, admirada.

– Que foi, Matilde?

– Tava só olhando.

– Olhando o quê?

– A chuva batendo nas janelas, que nem lágrima escorrendo. Chuva é bom, dona Malu, chuva lava a alma. É que nem chorar de verdade, faz bem, faz a gente ficar mais forte. Quando a gente chora com o coração, tudo fica mais leve, melhor.

E nem ela, nem Maria Lúcia tocaram mais no assunto. E nessa noite a menina carioca dormiu sossegada, como se as palavras do rapaz tivessem tirado toda a angústia e solidão do seu peito. Se era pra morar ali, ela tentaria ser feliz e olhar o mundo com os seus sentidos, com os seus sonhos. Menina sonhando numa cidade com nome de mulher.

Padre César

Fevereiro 14, 2008

Vila de Bom Jesus dos Pretos, Goiás, 1923

O Padre César tava num aperreio só e por isso andava de um lado pro outro pela sacristia. A notícia que ele tinha acabado de receber era braba e ele não podia dividir com ninguém. Parou na frente da imagem de Jesus crucificado e se ajoelhou, mas não conseguiu rezar. O que seria daquele povo sofrido, meu Deus? Agora que a vila estava dando certo, que a paróquia estava erguida, bonita, comparável até à de Pilar?

– A dona Mocinha quer saber se o senhor vai continuar fazendo confissão. – era o Severino, o sacristão da igreja. O padre nem olho pra ele, mandando-o ir embora com um gesto. O sacristão, como não obteve resposta, continuou esperando.

– Hoje não, fale que estou ocupado.

Dona Mocinha que esperasse. Ora, dona Mocinha! O que menos importava agora eram aquelas beatas mexeriqueiras. Elas que continuassem com o palavrório. Já fazia tempo que ele pensava em falar nisso no sermão de domingo.

O problema que ele tinha de resolver era caso de vida ou morte. Notícia assim séria, não podia esperar nem mais um minuto. Colocou o chapéu, ajeitou a batina preta e subiu no cavalo, sem dar explicações ao Severino sobre sua saída súbita.

O caminho era comprido até a fazenda Imperatriz. Era preciso ir a galope pra voltar antes do fim do dia. Saiu levantando poeira. Nem viu o seu Lúcio, dono da venda lhe mandando um aceno.

– O padre velho tá numa agonia que parece que viu o diabo!

Enquanto isso, o padre remoía o que estava escrito no bilhete que acabara de ler. Tanto tempo ali naquela paróquia! Quantos anos eram, quinze? Desessete, agora bem se lembrava. Tanto tempo tentando conseguir uma paz duradoura entre os Pitanga e os Andrade e agora tudo podia ir pelos ares. Faltava tão pouco, estava tudo tão perto! Deus não ia deixar uma desgraça assim acontecer.

Atravessou com pressa o regato, a água molhou a barra de sua batina, mas ele nem percebeu, de tão absorto nos pensamentos. Aquele casamento seria a solução de tudo, ele bem sabia. Se Laurentino, filho único de seu Juvêncio Pitanga, e a Florinda, mais velha dos Andrade, se casassem, aquela guerra que já durava duas gerações se acabava de vez, Imperatriz e Cascavel seriam uma fazenda só, terminando com a disputa entre as famílias.

De certa forma, eles já estavam em paz. Quantos anos que não tinha morte? Seis, desde que mataram o Teotônio Andrade, numa emboscada na Rua das Camélias não tinha entrevero com morte. “Basta só um enlace, meu Senhor Jesus, me livra dessa agonia!”

Avistou de longe a colina que separava as fazendas. Faltava pouco agora, era tudo ou nada. Ele já via a sede da Imperatriz, toda branca, com as pilastras pintadas de azul. O cavalo ofegava da corrida até ali.

– Se apeie, seu Padre! – era a Isabel, mucama da sinhá Veroca. Uma negrinha marrom, com as ancas arredondadas e sorriso branco, muito bem formada de corpo.

– Mande chamar o seu Juvêncio Pitanga. Fale pra ele que é coisa urgente.

A negra entrou, aperreada. Ele desceu do cavalo, pediu pro moleque levá-lo pra tomar uma água. O Juvêncio veio recebê-lo pessoalmente na varanda da casa.

– Que traz o padre aqui nesse fogo? Parece que vai terminar o mundo!

– E é como se fosse acabar, seu Juvêncio.

– Então a coisa é séria, vamos pro meu escritório. Lá a gente pode conversar melhor.

O padre entrou meio ressabiado. Estava todo coberto de poeira. Quando o seu Juvêncio ofereceu a cadeira pra sentar ele recusou, contrariado. Escritório! Devia ser coisa do Laurentino essa idéia de escritório. Aquilo era só uma saleta reservada com uma mesa pra receber as visitas.

– Pois bem, seu padre, qual é o motivo dessa pressa toda em me ver? – Juvêncio acendeu um cigarro de palha, soltando fumaça pelo ambiente. O padre, muito nervoso, resolveu ir direto ao assunto.

– Então, seu Juvêncio. Acabo de receber um bilhete secreto de gente de confiança. Eu vim aqui evitar uma desgraça.

Mostrou o bilhete pro seu Juvêncio. Ele pegou, curioso e leu com dificuldade as palavras. Nunca teve paciência de ir pra escola, preferia passar o seu tempo lidando com o gado da Imperatriz. Enquanto decifrava as palavras o rosto dele transformou-se, de curiosidade para cólera.

– Não pode ser!

– Já disse que veio de gente de confiança. Agora a coisa já está feita. Não tem como voltar atrás. O que o senhor tem de ter serenidade para compreender e perdoar o que le te fez.

– O seu padre me desculpe, mas ninguém, nem o senhor, diz o que eu tenho ou não tenho de fazer. Ele me traiu, não me deixou escolha. Agora ele precisa de uma lição pra nunca mais esquecer.

– Não é correto isso, seu Juvêncio. Haja com a cabeça! Imagine o barulho que uma morte dessa vai dar!

– Ele é peão meu, cria da Imperatriz, gente minha! Não pode sair por aí fazendo o que bem entende…

– Ele é seu filho! – O padre bateu na mesa, irritado. Percebendo que tinha se exaltado, ele tentou se conter – todo mundo sabe do seu chamego pela mãe dele. Ela é preta, sim, há que se lembrar disso, mas o senhor e eu sabemos que ele é seu filho! Seu Juvêncio, matar um filho é um pecado grande demais pra ser perdoado por Deus…

– Eu dou um jeito de me entender com Deus. Agora o senhor me deixe que tenho de tomar minhas providências. – Juvêncio foi empurrando o padre até a porta.

– Seu Juvêncio, olhe, o senhor tem uma escolha. Ele é menino ainda, é jovem. Esses meninos erram, fazem as coisas sem pensar… – Juvêncio não ouviu o resto das coisas que o padre disse. Fechou a porta, apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa, abriu a pequena gaveta sob a mesa e pegou seu revólver.

O padre, por seu lado, viu que continuar ali era inútil. Ele também precisava tomar suas providências. Tinha de rumar para a prefeitura de Pilar agora mesmo. O Coronel Ezequiel Andrade também precisava ser informado da gravidade da situação. Ele era um homem estudado, conhecia o mundo, talvez agisse com um pouco mais de prudência….

O Velho Pitanga

Fevereiro 12, 2008

O Velho Pitanga

Município de Pilar de Goiás, 1953

O velho Pitanga subia vagarosamente pelas estradas pra Pilar. Pitava um cachimbo velho, que soltava uma fumaça muito preta por onde passava, deixando um cheiro azedo característico. O Vazante, velho que nem o mundo, andava tão lerdo que parecia que ia arribar nas curvas da estradinha empoeirada. Cavalo que já foi bom, bonito, agora guardava um restinho do brilho que tivera no passado.

O passado do Velho Pitanga era assim, brilhante. Não era que nem agora, vestido com aqueles trapos sujos que mal tapavam o corpo. O cavalo, na sela velha, o pé calçado de chinelas encardidas, na cabeça um chapéu de palha todo estropiado. Nada era desse jeito.

O Velho Pitanga foi importante, mas quando a desgraça o alcançou foi de repente. Não teve jeito, nem reza que segurasse. Pobre do Pitanga, ainda se lembrava do choro da mulher, já de idade, quando encontrou os filhos mortos no quintal da Imperatriz. O menino mais novo dava dó, os olhos abertos de susto, a boquinha cheia de sangue coagulado. Ele tinha nove anos e se chamava Juvêncio. Morreu também o mais velho, Luís. A menina, Marilúcia, ninguém soube o paradeiro.

A fazenda Imperatriz, bonita que ela só, tava toda destruída. A casa grande incendiada, o curral com as porteiras arreganhadas, as reses minguadas que sobraram davam dó. Os meninos, valentes que nem eles, devem ter resistido na unha, no dente porque os Pitanga eram machos, ninguém duvidava disso.

Por ali mesmo, sob o pé de aroeira, o Pitanga ajuntou os cabras que tinham escoltado ele pra capital e mandou que se enterrasse os meninos ali, depois de mandar chamar o padre pra encomendar os defuntos. Ele se remoía de raiva. Tinha de ter sido o Calixto. Mandou matar os meninos e levou o gado pra terra dele pra parecer que tinha sido roubo.

Aquilo não ia ficar assim. Desde muito tempo, quando os bizavós dos dois tinham se estabelecido nesta terra, no meio do Goiás, pra caçar ouro nas minas, que eles se engalfinhavam por causa desses palmos de chão perdido no mundo.

Os filhos todos mortos. Os dois homens e a filha desaparecida. Deve estar sofrendo o horror na pele dos capangas do Calixto. Pitanga não era homem bom, nem santo. Tinha lá suas mortes no meio dos Calixtos. Mas atraiçoar assim, matando criança? Era covardia, e isso ele não aceitava. Homem que é homem briga de frente, na unha. Não espera o chefe do clã sair pra acabar com o que é do outro.

Esfriar o sangue pra vingar? Nada! O ódio do Pitanga era tão grande que ele não teve nem luto. Juntou a caboclada, que também tava mordida da empreitada e prepararam o contra-golpe. Não ia ser assim não, na covardia. Ia ser frente a frente.

As armas carregadas, os soldados já sabendo como ia ser, cada um preparado pra morrer pelo Pitanga, homem de bem, mas de pavio curto. Cortaram a cerca que separava as duas fazendas, invadiram de dia mesmo, pra botar medo, e saíram correndo na direção da sede da Fazenda Cascavel.

Os homens do Calixto assustados, correram pra sede da fazenda. O Pitanga, subido no vazante, deu o tiro que abriu o foguetório. Tava bonito de se ver. O arsenal do Pitanga dava inveja em destacamento de exército de tão bem servido. O tiroteio comeu a noite toda. Os homens do Calixto resistiram bravamente e o Pitanga montando o cerco com tudo o que tinha.

Depois, no entardecer do segundo dia, apareceu uma bandeira branca. Será que o sacripanta do Calixto se rendia? Saiu de lá o capataz da fazenda, Severino Preto, com uma proposta pro Pitanga. Deixasse o velho sair que ele mostrava onde tinham enterrado a filha dele, pra ela ter um enterro cristão.

O Pitanga nem se aguentou de tanta raiva, furou o Severino Preto ali mesmo com uma faca cega e desceu com a cabocada, pulando as cercas na direção da casa grande. Foi um tiroteio de dar gosto. O Pitanga correndo no vazante, com uma tocha na mão, ao entardecer, os fuzis comendo solto por ali, um e outro caindo no chão, baleados.

Deu até pra imaginar a cara do Calixto. A casa pegando fogo, todo mundo lá dentro gritando de horror, e os homens do Pitanga do lado de fora, cercando a casa pra ninguém sair. Morreu todo mundo lá dentro, queimado. Só se salvou o menino Dioclécio filho do Calixto e mudo de nascença, que tinha ido consultar longe.

Vingado. O Calixto, a mulher, as filhas, os genros e os dois filhos, além da capangada toda foi embora num entrevero só. Restou o pirralho mudinho. Se dependesse dele, não por muito tempo.

A raiva estava passando, hora de contar os mortos. Eles cobraram caro essa derrota. Dos vinte homens que foram pra luta, só sobraram sete, todos em boas condições. O próprio Pitanga saiu ferido no braço. Não dava pra terminar o serviço agora. Mas deixe estar, o mudinho uma hora aparecia.

Amores Brutos – Parte 2 de 2

Fevereiro 9, 2008

Ceilândia, 1997

 

Havia um rapaz chamado David. Cabelo raspado, o uniforme impecavelmente limpo, a mochila jeans gasta pelo uso e sua imensa solidão que o precedia. David era silencioso até nos passos. Não discutia, não falava com ninguém. Ficava parado em sua cadeira olhando o vazio. Não era um aluno bom, nem ruim. Passava sempre nas matérias, mas não fazia trabalhos em grupo. Não se misturava com ninguém…

Todos os que tentavam falar com ele se decepcionavam. Era arredio, sorumbático. Olhos profundos e penetrantes substituiam as palavras. Ele dava medo, às vezes. Mas eu tinha pena, muita pena, dele. Eu olhava para ele e me via, via minha tristeza. O olhar profundo me lembrava de meu próprio desespero, de todos os gritos de socorro que eu tinha dado nos dois anos anteriores e ninguém tinha ouvido.

De vez em quando, no intervalo, eu não saía. Era quando eu me sentia triste. Ficava também como ele, olhando para o quadro negro, vendo significado por trás das palavras. Esperava um gesto dele, uma abertura para que eu me aproximasse. Um comentário sequer que significasse um desejo de ajuda. Nada. David era tão solitário nas suas idéias que se tornava impenetrável. E então aparecia um amigo meu, com alguma coisa interessante para fazer e David ficava ali, sozinho na sala vazia. Não adiantava chamá-lo, David ficaria na sua solidão de cemitério.

Num destes dias a garota que eu amava me chamou para ir com ela à lanchonete, só pra passar o tempo. Ela sentia minha tristeza. Queria me oferecer o braço para que eu saísse. Receei um pouco, mas disse que sim. Quando eu me levantava, o Ricardo chegou, com sua gangue.

– Aí, vamo dançar com o carequinha hoje!

– Carequinha! Carequinha!

Eram quatro ou cinco e puxaram o garoto da cadeira, levantando-o do chão. Jogavam-no para um lado e para o outro, empurrando para que batesse nas carteiras. Foi quando o Ricardo disse:

– Segura aí o Carequinha! Vamo dançar balé!

– Como balé, pô! A gente é macho, tá estranhando?

– Vamo dançar sim. Vai ser o quebra-nozes.

– Huahuhuahuahuahuahua! Quebra-nozes, quebra-nozes!

A sala se encheu rapidamente. Alguém ficou na porta pra evitar que o bedel chegasse e acabasse com a farra.

– Vamo ensinar esse povo a dançar balé!

Dois seguravam o David pelos braços. Ricardo puxou a cueca de David por trás, fazendo com que ele ficasse na ponta dos pés, por causa da dor.

– Ah, ele tá de ponta! Parece uma bailarina! Bailarina Carequinha!

Doía em mim aquilo tudo. Podia ser eu. Queria fazer alguma coisa, mas não sabia como. No auge do desespero, eu me mexi para ir em direção deles. Ela segurou meu braço. Desvencilhei-me.

– Pára com isso, caralho! Tá machucando ele! Larga o muleque!

– Que foi? A namoradinha do carequinha quer dançar também?

Risos generalizados.

– Pega ele também.

Eu tava cercado. Soltaram o David e vieram na minha direção. Eram três contra um. Nenhum dos meus amigos estava perto. Nem podia correr pela porta, pois estava fechada. Um deles me segurou pelo braço. Puxei com força para me libertar dele.

– Se não for o quebra-nozes vai ser o balé do bilau! Você quem sabe.

– Porra de bilau o caralho. Vá pro diabo que o carregue.

– Briga! Briga! Briga!

– Ah que eu te soco a cara, seu muleque!

– Vai ter de passar por cima de mim!

Silêncio. Era a voz do Wagner. Ele era um monstro, quinze anos e já tinha mais de um metro e oitenta. Era forte como um touro.

– Que tal um três contra três? – Wagner socava um punho contra a mão aberta e estalava os dedos. Todos sabiam da força dele. Não sei donde ele tinha aparecido para me ajudar. Tensão na sala. Todos estava curiosos pra saber onde isso tudo ia parar. Wagner nunca tinha entrado numa briga. O David veio e ficou do nosso lado.

– Bando de bichinha! Vão ficar por trás do montanhão? – Ricardo riu sozinho. Ninguém mais achou graça. Wagner deu um passo em sua direção. Os olhos de Ricardo exalavam medo.

– Quem é montanhão e quem é bichinha?

O sinal tocou, alto e forte. Ninguém se movia.

– O sinal te salvou dessa vez. – Ricardo e sua gangue saíram da sala. Suspirei profundamente. As pernas bamberam, eu estava todo suado, morrendo de medo.

– Se eles mexerem contigo de novo tu fala comigo. Faz tempo que eu quero dar uma lição nessa cambada. – Wagner foi se sentar na cadeira dele, no fundo da sala. David se sentou na sua cadeira, do lado da porta, de onde ele podia ver o mundo lá fora, o sol.

A menina me puxou pelo braço. Não sei se o olhar dela era de repulsa ou admiração. O fato é que eu era sortudo pra burro. Antes de sentar eu ainda pude ver como, pela primeira vez, o David sorria. E ninguém entendeu quando ele começou a gargalhar convulsivamente na aula de matemática.

 

 

 

Amores Brutos – Parte 1 de 2

Fevereiro 8, 2008


 

Ceilândia, 1997.

 

A minha mudança pessoal foi abrupta no ano de 1997. Como, felizmente, minha depressão foi embora no fim do ano anterior, meu mundo foi bem mais interessante. Só quem tem depressão sabe como é difícil passar por ela. Todos os nossos esforços em conseguir sair, lutar, são em vão. Parece que tudo é ilusório, tudo é doloroso.

Muitos amigos me ajudaram a sair disso e serei eternamente grato por isso. Dentre eles, lembro do Glauber, do Leandro, do Alex, da Cris. Gente que mesmo sem saber acabou me dando força pra sair de um período de profunda melancolia que já durava quase dois anos. E, aos doze anos, no meio da explosão de hormônios característica deste período, eu começava a oitava série.

O ano era novo, morava numa casa nova, longe da expansão do Setor O – mas ainda na Ceilândia – muito maior, mais iluminada e feliz. O clima de intensa novidade deste ano me deu um otimismo que acabou me fazendo ficar mais próximo dos meus amigos. Foi o ano que aprendi a jogar truco, que eu via revista de mulher pelada no intervalo, que eu pulava o muro do colégio pra jogar futebol. Até no judô foi um ano de vitórias em campeonatos, as últimas antes de ferrar com o joelho.

Também foi o ano de meu segundo amor.

Bem, não sei se posso considerar isso um amor de fato. Era mais aquela coisa de criança, de querer ficar junto de uma pessoa, de fazer tudo junto, de ficar louco quando a gente segura na mão. De ficar pensando no cheiro do cabelo, de se preocupar com a pessoa, de fazer e sentir ciúmes. Ela era sempre minha parceira no truco, a gente estava junto nos trabalhos de escola. Mas nunca passou disso, muito por culpa minha.

Eu sempre soube que era recíproco. Quer dizer, eu acho. Pelo menos não quero acreditar que ela ficava comigo por pena. Talvez por medo disso, jamais tenha dito ou feito qualquer coisa para que ela soubesse dos meus sentimentos. Bem, não na oitava série. Depois a gente acabou se reencontrando, mas tanto eu quanto ela tínhamos mudado muito para que acontecesse qualquer coisa além de um beijo roubado.

Restou um carinho imenso por ela, a quem ligo em todos os aniversários, no dia 27 de março. Provavelmente tenha sido por causa dela que guardei uma fixação pelo número 27, pelo dia 27. Eu e D. Namorada, por exemplo, começamos a namorar no dia 27 de dezembro de 2003. Meu primeiro salário veio num dia 27. Conheci grandes amigos e conquistei grandes coisas em dias 27.

Não direi o nome dela. É pessoal demais. O que importa é que eu me sentia profundamente atraído por ela, inclusive sexualmente. Eu olhava sua boca com um desejo ardente de tomar, beijar, mordicar aqueles lábios. A bermuda e a camiseta branca do colégio acentuavam certos detalhes dela que me deixavam, digamos, aceso.

Talvez isto tenha interferido no meu desenvolvimento. Minha voz mudou em uma semana, ficando grave como a de meu pai. Eu tinha um corpo bem torneado, por causa do judô, pernas grossas e fortes, que a calça de malha do colégio também tinha o dom de, digamos, incrementar. Me sentia desejado, atraente. Os olhares das meninas não eram mais os mesmos de antes. Não entendia ainda o que significavam aqueles olhares de espreita e as conversas sussurradas entre elas nos cantos. Eu era extremamente tímido. Corava com facilidade, suava as mãos, começava a falar um monte de coisas sem sentido.

Não se esqueçam que, para todos os efeitos, eu era só um rapaz de doze anos que estava conhecendo-se, mas estava metido num mundo onde todos tinham catorze, quinze anos. Eles tinham urgências e necessidades que não eram as minhas naquele momento. Porém, o convívio apressou um pouco as coisas.

Crescia numa velocidade estonteante, o que me fazia, por vezes, tropeçar nas próprias pernas, derrubar as coisas. Eu era um desastre ambulante. Não que isso não fosse normal, acho que todo mundo passa por isso. Mas era algo novo, inesperado e completamente confuso que tomava minha cabeça.

E, por causa disso, Também agora via isso com outros olhos. Atrás de meus óculos de lentes de plástico, me sentia suficientemente incólume para observar o mundo sem ser visto. Ver, que sempre foi meu principal passatempo, agora carregava um misto de curiosidade e desejo pelas mulheres. Isto só piorou desde então (rsrsrsrsrsrsrs).

Gastava minha energia no judô. Nunca fui um grande judoca, isso é fato, mas nessa época eu me aplicava nos treinamentos ao máximo. Treinava às vezes em vários horários, sempre com lutadores mais fortes. Treinava a velocidade, variava a intensidade e aumentava sempre a força e o ritmo.

Os treinos da Ordem tomavam o resto dos meus dias. Conhecia meus poderes, as limitações do homem frente o mundo. Lia sobre a Sabedoria e o Bem e me preparava para o futuro que viria. Meu mestre era sábio, paciente e generoso, guardando sempre uma atenção especial por mim e fazia perguntas para ver o que eu compreendia do Amor e da Fraternidade. Me ensinou sobre Humildade e a ter sempre em vista meus limites, para superar os desafios.

E também conheci a música, o rock. Ouvia as bandas de Brasília e as principais bandas estrangeiras da época. A música era outra válvula de escape, um elemento de identidade com minha geração. Cantávamos desafinados as canções, gritando-as aos ventos. Discutíamos os significados das letras, colecionávamos os encartes, imitávamos as vozes. Ríamos muito….

Eram tempos de alegrias e esperanças. Eram tempos de juventude e amadurecimento. Mas não para todos….

Bertolino III

Fevereiro 5, 2008

 Interior Goiano, anos 50. 

Era um Goiás bem diferente do de hoje. Muitas das grandes cidades que hoje povoam a paisagem, cercadas de milhares de hectares de cana, feijão, soja, arroz, gado e milho eram, quando muito, pequenas vilas, isoladas do mundo. O centro do país era um lugar abandonado, desolado, onde se vivia outro tempo. O tempo de Vargas, da derrota de 1950, da renovada democracia brasileira e da luta ferrenha pela legalidade do PC do B não fazia parte dali. O tempo era medido pelos cios das vacas, pelas festas da igreja, pelas quermesses onde poderia se arrumar uma namorada, pelas picadas das cobras que inutilizavam os cavalos. Viradas de ano, aniversários, comemorações, eram coisa rara. Era um Brasil rural, de fantasia, de riqueza cultural, mas esquecido, marginalizado, submetido pelo tempo. Longe demais da capital, o Rio de Janeiro, para que chegassem ali os discursos proferidos no palácio Tiradentes.

A terra era nua, cobertura de cerrado virgem, jatobás, pequizeiros, jacarandás e ipês. Aqui e ali se viam bandos de veados, perdizes, tatus, onças, catitus, preás, capivaras e dezenas de outros animais. Ali não existia nada, comunicação nenhuma com o mundo civilizado. Poucos sabiam ler, não havia água encanada, as mulheres da família lavavam suas roupas em rios, cantando canções tristes, do tempo dos escravos, enquanto os homens passavam dias e dias na lida do campo, trabalhando em seus pequenos sítios ou nas grandes fazendas, como bóias-frias.

A tristeza, a solidão, as dores de amor eram cantadas em rodas de viola, onde os matutos choravam de saudades de seus amores. Era um tempo de simplicidade, de utopia. Tempo de olhar o céu escuro, pontuado de estrelas, nas noites do sertão, e pensar em Deus, no futuro, na felicidade.

Mas a ausência do Estado tinha suas conseqüências. A lei que valia era a lei da bala. Os homens, para todos os lugares que iam, levavam suas pistolas, espingardas. Brigas de família com dezenas de mortes de ambos os lados eram comuns e toleradas. Bandos armados invadiam as cidades, saqueavam as lojas e estupravam as mulheres.

Algumas cidades eram conhecidas pelos seus puteiros, onde se jogava a honra e a vida, se ouvia música barata e se sentia o ranço de cigarro e perfume baratos. As mulheres se submetiam, desde muito jovens, sonhando com uma vida melhor. Eram odiadas por onde passavam, mas davam aos homens o amor que eles precisavam para suportar o sofrimento de uma vida sempre igual. Séculos e séculos de solidão, de incivilização, criaram uma barbárie, um sentimento coletivo de que não havia lei ou ordem, de que tudo era permitido, inclusive amar o impossível.

 Pilar de Goiás, anos 50. 

Bertolino Souza Campos era baiano de nascimento e tinha quase trinta anos. Sorriso largo, olhos profundos, 1,70m de altura, cabelo da cor da palha de milho, talvez bonito. Carregava sempre uma espingarda velha, de cano duplo. Era pra matar onça.

Dizem que ele era corajoso, mas não tinha pavio curto. Podia ficar horas e horas parado no mato, andando de cócoras e caçando tatus, perdizes e capivaras. Dizem também que era um dos poucos corajosos a atravessar o rio das Almas a nado. Nadava como poucos, com a cabeça pra fora d’água.

Analfabeto, trabalhava no que podia. Caçava, plantava, colhia. Gostava de pescar e conhecia modinhas de viola pra cantar nas noites. Era feliz, mas não era essa felicidade pasteurizada, que se vende nos centros urbanos. Era uma felicidade dolorosa, lutada, uma felicidade de guerreiro que corre atrás dos seus sonhos. Era uma felicidade de sobrevivente, de quem conhece a dor e, conhecendo-a, ama a vida.

E Bertolino amava a vida, por isso não bebia cachaça, mas pitava seu cigarro de palha e carregava a enxada no ombro pro campo. Por amar a vida, se submetia e, submetendo-se, seguia seu destino de sobrevivente. E a luta que lutava não era pior ou melhor que as outras tantas daquele chão perdido, de terra vermelha. Viver era doloroso, mas necessário. E viveria, doesse como doesse.

Foi quando conheceu Laura, numa quermesse em Pilar de Goiás.

Mas isso fica pra próxima semana…

       

Internação

Fevereiro 3, 2008

InternaçãoCeilândia, 1990 

Não sei por quê exatamente meus pais tinham me dado aqueles antibióticos, mas a combinação de Keflex com Hiconcil tinha sido bem danosa pra mim.  Eu me coçava todo, meus lábios inchados, rasgando a pele de tão grandes, os olhos fechando de tão inchados. O problema era a garganta. Tinha de conseguir atendimento antes que ela se fechasse.

Minha mãe correu comigo para um posto de saúde. Me lembro de seu desespero. Quem nunca viu um ataque de alergia deve ficar assustado mesmo, ainda mais quando é com o filho. Fila, fila, fila, crianças catarrentas soltado os bofes pra fora. E eu piorando.

Me coçava com gosto, mas não melhorava. Alguém me trouxe um pouco de álcool para passar nas costas, mas não era muito eficaz. O geladinho do álcool até que era gostoso.

Nenhum alergista, corre comigo pro hospital. A coisa tava ficando feia. Eu via pela cara da minha mãe e das pessoas no ônibus. Pela maneira que eles me olharam, eu devia estar com mais feio que o ET.

Hospital superlotado. Dificuldade para respirar. Minha mãe me arrastava pelos corredores. Ouvia os gritos das pessoas, tosses, gente vomitando. Mas o que mais me tocou foi a absoluta falta de humanidade ao redor. Sabe aquela história de que quando a farinha é pouca, o meu angu primeiro? Então, parecia que todo mundo achava o seu caso de extrema gravidade e urgência, portanto, todo mundo queria prioridade. O problema é que, a menos que se estivesse sangrando ou inconsciente, ninguém era prioridade. Um menino catarrento com cara de ET era a coisa mais normal do mundo nesse meio.

Comecei a tossir. A garganta tava fechando, melhor não falar nada pra minha mãe. Hominho sofre calado, ficar reclamando de gargatinha é coisa de menina. Na verdade, eu não tinha idéia nenhuma da gravidade da situação. Eu podia morrer em poucas horas se nada fosse feito e não parecia que isso fosse fazer alguma diferença pra ninguém ali.

Aquela era a Ceilândia, terra de migração nordestina. Portanto, para todos os efeitos, eram todos uma sub-raça que era útil para conseguir votos e construir cidades. Questões como direitos fundamentais do ser humano não se aplicavam a migrantes. Embora eu fosse cidadão nativo e minha família não fosse nordestina, isso não significava um atendimento melhor. Gente morrendo na fila de hospital era muito mais comum no começo da década de 90 do que agora. Qualquer um que tenha ido num hospital público naquela época sabe disso… e, por incrível que pareça, a coisa tem melhorado. Não por mérito do PSDB, óbvio…

Não tinha alergista, nem pediatra, vai no clinico mesmo. Ele me olhou rapidamente, abriu minha garganta e me mandou pra internação.

– Tu é homem, menino?

– Sou, uai! – o uai dos goianos eu ainda cultivava nessa época.

– Então tu não vai reclamar do soro, vai?

– O que é soro, mãe?

Minha mãe, coitada, todo espevitada, nem entendeu minha pergunta. Corre comigo pra internação. Os enfermeiros me colocam numa maca, no corredor, com uma bolsa de soro que minha mãe segurou, por falta de suporte. É, a coisa tava feia. Mas Deus não ia me deixar morrer sem terminar o mestrado… tomara…

****

Passei uma semana no hospital, recebendo poucas visitas e comendo comida sem sal. Não posso reclamar do tratamento que tive lá dentro. As enfermeiras era, no geral, gentis e solícitas e me tratavam como eu devia ser tratado, ou seja, como uma criança.

Não sei se sou capaz de falar aqui sobre minhas sensações naqueles dias. Foi doloroso, isso eu me lembro, não por dor física, mas por sentir tanta dor em volta, tanto desespero. Mas eu era forte. Aprendi a lutar muito cedo. E também não podia deixar minha mãe perceber que eu compreendia tão bem aquilo tudo.

Só sei que depois de sete dias eu voltei pra casa e minha vida voltou ao normal. Exceto talvez pelo fato de não voltar a tomar antibióticos. Por 17 anos…

***

Rio, novembro de 2007. 

– Que eu tenho, doutor?

– Pneumonia.

– Ih, ferrou, não posso tomar antibiótico.

– Não tem outro jeito. Você teve uma crise com Hiconcil e Keflex. Vou te passar esse aqui, levofloxacino.

Compra o remédio na farmácia. Aquilo podia me matar. Todos os meus outros médicos foram unânimes em dizer isso. Inclusive esse. Como eu jamais tinha tomado nenhum outro antibiótico em todos estes anos, não sabia se era alérgico a outra classe de medicamentos.

Li a bula inteira. Entre os efeitos colaterais, a droga estava associada ao rompimento de tendão patelar. Devia ter falado pro médico que tenho tendinite. Odeio médicos, pra ele não faz a menor diferença se me tendão rompe ou não. Pra mim fazia, eu não era o Ronaldo do Milan. E outra, esse negócio de ler bula devia ser proibido. Elas deviam ser escritas em letra de médico, para que só eles entendessem o que tá lá. Pra mim era desesperador ler certas coisas e entender inteiramente o que eles estavam querendo me dizer.

Tirei o comprimido da cartela. Olhei bem praquele remedinho rosado. Caralho, tava morrendo de medo. Sozinho em casa, teria de andar até o hospital. Guardei dinheiro para um táxi, se precisasse. Liguei pro meu pai, pra tomar coragem.

Pensei em fazer um testamento, mas isso era ridículo, não tinha nenhum bem de valor, senão minhas poesias, e, a partir do momento que elas estavam publicadas no blog, passavam a ser patrimônio da humanidade. Não tinha nenhum direito sobre elas. Também, a probabilidade de dar merda era mínima e, mesmo dando, eu podia ir pro hospital e passar uma semana internado de novo.

Mas o que mais me desesperava era saber que ia ter de sofrer aquilo tudo sozinho. Se fosse pro hospital, seria sozinho. Se fosse pra internação, idem. E nem ia poder falar muito pra família, pois não queria deixá-los preocupados. Continuava hominho, mesmo aos vinte e três anos.

Bebi o remédio e deitei. O peito doía muito por causa da pneumonia. Não conseguia posição na cama. Não conseguia nem mudar de posição, porque doía. Depois de muito me revirar, adormeci.

Acordei com o telefone. Era meu pai.

– Você tá bem?

– Estou.

– Alguma coceira?

– Não.

– Sua mãe tá te deixando um abraço.

– Manda outro pra ela. Bença?

– Deus te abençoe.

É. Não foi dessa vez…

E os diálogos com meu pai continuavam rápidos.

   

Outubro Negro

Janeiro 31, 2008

 

Outubro

Ceilândia, 11 de outubro de 1996

 

O ano de 1996 já tinha sido difícil o suficiente antes de ouvirmos aquela notícia inesperada. Eu sempre chamei aquele ano de o Ano da Grande Depressão, pois sofri aquela que foi a maior, a mais demorada, a mais intensa e dolorosa de minhas crises de depressão. Talvez por isso eu considere que este tenha sido o ano mais decisivo de minha vida, pois as reflexões que tive ao longo dele moldaram para sempre meu caráter, minha maneira de ver o mundo. Considero o ano de 1996 o último ano de minha infância e o começo doloroso de minha adolescência. Ao longo deste ano tinha sido batizado com fogo diversas vezes por motivos que contarei num momento oportuno.

Resolvi começar minhas histórias de adolescência por aquele que talvez seja o mais decisivo acontecimento. Da mesma forma que as religiões contam os seus anos a partir de algum evento importante (como o nascimento de Cristo, a Hégira ou a criação do mundo) decidi começar a contar as histórias destes dias pela morte de Renato Russo.

O dia 11 de outubro foi inesquecível. As rádios tocaram as músicas dele o dia inteiro. As ruas estavam vazias de jovens que preferiram ficar ouvindo os k7’s (quase ninguém tinha dinheiro pra comprar CD’s) no volume máximo. A Tempestade (ou o Livro dos Dias) foi o canto de meus colegas por vários meses. O CD azul (com força semelhante ao Blue Album dos Beatles) era ouvido como uma prece. “A Via Láctea” era cantada nas ruas como uma despedida merecida.

Muitos dos meus colegas que tinham ido para a escola mostravam os olhos vermelhos de lágrimas. No recreio, Roberta, uma de minhas colegas, escreveu a letra de Faroeste Caboclo no quadro negro, até onde pôde. Depois disso passou a cantar o resto, triste, quando começou a chorar. Foi quando o velho professor de geografia do Brasil chegou. Um sorriso cruel transparecia no seu rosto.

– Bom dia a todos.

E aproveitou o começo de sua aula para proferir um discurso patético sobre a influência dessas bandas de rock na ploriferação de delinqüentes na juventude. Fez menções claras ligando o homossexualismo ao uso de drogas e à AIDS. Seu preconceito e completa falta de tino para lidar com a situação transpareciam. Sentia algo estranho no ar. Ia acontecer logo…

Acho que foi quando o professor chamou a AIDS de “câncer gay”. Aquilo doeu em todo mundo. Foi quando Ricardo não agüentou. Jogou seus livros nas janelas de metal, com grande estardalhaço.

– Basta! Cale a sua boca! – A turma assustou-se – Não diga mais uma só palavra! – metade da turma levantou. Sabíamos dos rompantes do Ricardo. Esperávamos para ver a reação do professor.

– Viram? É disso que eu falo. O senhor tem de aprender a se conter, mocinho, a ouvir a voz da experiência!

– Voz da experiência é uma pinóia! – Ricardo interrompeu com fúria – Olhe o mundo que a sua experiência nos deixou! Você o odeia tanto porque nas letras das músicas ele joga a incompetência da sua geração na sua cara! Porque ele grita contra o preconceito de gente como você!

– Basta! Vou chamar a direção! – a menção de chamar a diretora nos deixou desesperados. Ricardo não se fez de rogado.

– Pra quê? Pra que eu diga pra diretora que o senhor chamou a AIDS de “câncer gay”? Quem é o senhor pra falar uma mentira dessas? Quem é o senhor pra, com esse discurso pronto de elite decadente, tentar nos assustar? Quem é o senhor pra jogar adiante todo esse preconceito?

***

É claro, a conversa não transpareceu exatamente nesses termos. Palavrões aqui e ali fizeram parte do discurso do Ricardo. Também ele não saiu impune dessa discussão, sendo suspenso por três dias. Nem o professor, que foi transferido para outra escola dias depois.

Eu e Ricardo sempre tivemos nossos problemas, mas naquele dia ele ganhou muitos pontos comigo. Eu jamais tinha pensado por este lado, que o discurso dos preconceituosos e dos que cerceam a liberdade dos mais jovens serve apenas para repetir a estrutura deficiente da sociedade. Tampouco foi o Ricardo quem disse isso. Foi Russeau, ao definir o Contrato social. Russeau, de onde vem o Russo de Renato Russo.

Mas naquele dia o Ricardo me ensinou uma coisa muito útil. A gente não pode se calar. Na maior parte das vezes, a única coisa que a gente tem pra nos ajudar é a nossa voz. Às vezes, o discurso dos que nos dominam só é passado adiante pela nossa passividade frente os acontecimentos. Às vezes, é nossa obrigação nos expor, falar alto, gritar se for preciso para que nossas idéias sejam ouvidas, senão por aqueles que efetivamente podem transformar as coisas, pelo menos pelos que nos cercam.

O grito de Ricardo ecoou na minha mente por muitos anos depois disso. Seu exemplo, sua força, seu total desprendimento frente à ameaça do professor de chamar a direção e, principalmente, seu caráter pra defender o que era justo e certo, me martelaram a cabeça pelos três dias em que ele foi suspenso. E então, quando ele voltou, eu lhe apertei a mão.

Aquele aperto de mão foi um pedido de perdão. Ricardo não era um santo. Ele era responsável por pelo menos metade dos acontecimentos ruins que me atribularam ao longo de 1996. Mas, apesar de tudo isso, ele me ensinou muito em algumas palavras.

– Obrigado por aquilo.

– Só fiz o que achava certo.

E, naquele dia, viramos, senão amigos, pelo menos nos respeitávamos, mutuamente. Era o começo do fim da Grande Depressão. Eram as sementes da minha vida de punk…

 

 

Histórias de Esmeraldas

Janeiro 29, 2008

Sítio de Meu Avô

 

– Tanto tempo, fio! Artú, tu não vai ‘creditá. Dêxei esse menino ali desse tamanho ó! Ele era só oreia. Tu deu uma engordada, hein, menino! Ôxi que nem parece o mesmo… – risos.

– Ele tinha falado docê, mas ninguém ‘creditô – disse Arthur.- Sacumé, né? História de véio a gente tem de disconfiá. Tanto tempo e esse fio que ele tanto fala nunca ‘pareceu. Podia sê que nem as história de onça e esmeralda que ele conta.

– Cumé quié?

– Nada não, seu Berto. – Eu já tinha notado que ele é surdo só quando lhe interessa.

– Cês num ‘credita nas minha história de onça, é? Eu matei e matei muita! Agora não, agora ‘quetei. É uns bicho bonito dimais de meu Deus. Num pode matá mais não. A gente mata o que fô cumê ou o que pudé trazê pirigo pra nóis. A gente mata cobra, mata escorpião.

– Que histórias de esmeraldas são essas? – Eu estava bastante curioso. Nunca tinha visto uma esmeralda na minha frente.

– Ué, cês não sabe não? – disse Arthur – Aqui é o caminho das esmeralda!

– E o sinhô, meu pai, trabaiô muito no garimpo? – Era estranho como o sotaque carregado dos goianos aparecia nessas horas. Meu pai que sempre falou as palavras com extrema correção agora cometia os mesmos erros de português que meu avô.

– Trabaiei e trabaiei muito. Tempo duro, tempo difícil dimais da conta– ele falava esse “demais” com muita ênfase, como se fosse para expressar o sofrimento. – Era dia e noite no buraco. Uma calor da muléstia. A cabeça doía, as perna bambeava. Trabalho ruim que nem ele só. Eu queria enricá, que nem o Chico Preto, que Deus o tenha na sua graça – Meu avô cuspiu com gosto no chão. Estranho esse costume de cuspir quando falavam dos mortos. – Diz’ que ele achô um bitelão, um troço maió que o mundo. Só do dinheiro da venda dava pra comprá mais de mir rês. Mas ele, muito festeiro, muito sapeca, num guardô o dinheiro, não. Era festa todo dia, diz’ que ele tinha três mulé. Hômi com três muié num enrica não! É três muié e três dispesa, é três muié e três surpresa, é três muié e três tristeza! – ríamos soltos. Piadas sexistas faziam muito sucesso nesses meios

– Dêxa de prosa, véi preguiçoso. Tem de dá mio pros pôrco. – a gente tinha esquecido totalmente da presença de D. Joana. A rabugice dela lhe precedia.

– Mas ele morreu como? – Eu queria mesmo era saber o fim da história.

– Morreu matado. Amarraro ele num pau e sangraram o desinfeliz até a morte. – Arthur respondeu com certa gravidade, tirando da cabeça seu chapéu. – Foi triste. Todo mundo gostava do Chico Preto.

Silêncio constrangedor. Era como se cada um ali rezasse uma ave maria pro morto.

– Dizem que ele pegou a filha do Coroné Belizário. O hômi ficô uma fera. Por isso mataro ele assim

– Foi nada, Arthu! Mataro ele pra pegá o bitelão.

– Num sei, só sei que tá morto e morto não vorta. Sinto pena dele

– Bertulino! Os pôrco tá ganino no chiqueiro. Vai dá de cumê pra eles!

– Ah, deixa de encrenca, véia chata! Vô lá dispois. Mais de vinte ano sem vê meu fio e vc quer saber de dar mio pros porco! – Pensei seriamente se aquilo não seria uma cena de ciúmes.

– Que é que tu disse? Num entendi! Repete pra eu…

– Vou lá, vou lá…

E foi, contrariado, pisando duro no chão…

Prece de Setembro

Janeiro 27, 2008

Expansão do Setor O, Setembro de 1992

Era uma mês de setembro anormalmente quente. Passou o mês de agosto inteiro sem chuvas e estávamos na segunda semana de setembro, no meio da seca. Tudo parecia coberto de poeira vermelha, quando eu e minha mãe andávamos sobre um céu cheio de grandes nuvens brancas. Ela me arrastava pela rua, pois eu parava a cada segundo para ver um detalhe, apontar uma planta ou uma pessoa e enchê-la de perguntas. Foi quando vimos, longe, nas colinas do Goiás, uma nuvem gigantesca, negra e assustadora.

– Vai chover, com a graça de Deus.

Tínhamos de nos apressar. Ainda faltava muito para chegarmos em casa. Eu carregava uma sacola de verduras, que me era desproporcionalmente grande. Eu tropeçava em minhas próprias pernas pelo peso. Minha mãe já estava irritada. O céu escurecia. A nuvem negra estava muito próxima. O vento carregava sacolas de supermercado e fazia bater as portas e janelas das casas. Todos andavam apressados nas ruas. Os cachorros ganiam, os periquitos faziam uma tremenda algazarra. Eu já estava ficando assustado. Seria uma grande chuva.

– Te apressa, menino! O mundo vai se acabar em água daqui a pouco!

E como se apressa? Já não ia mais dar tempo. Podia divisar, muito perto, as gotas grossas d’água que caíam no chão, levantando lama. Nos escondemos embaixo do toldo de um supermercado.

– Mas mãe, o padre não disse que Deus não ia mais acabar o mundo em água?

– É modo de dizer menino…

Não foi possível entender o resto da frase. A chuva veio como uma onda de choque de explosão. Totalmente inesperada, ela tomou tudo num instante. Dos telhados empoirados, a água caía avermelhada, manchando as paredes. A rua sem asfalto tornou-se em segundos um rio de lama. Não podia ver muito longe e, por isso, eu tive medo.

– E se o padre estiver errado, mãe?

– Quem disse isso não foi o padre, foi Deus! E Ele não erra.

O barulho piorou. Era granizo que caía em pedras do tamanho de bilocas, quicando no chão, branco. Ouvia o barulho das placas dos comércios e das telhas de amianto voando por ali. Uma mulher desesperada tentava se cobrir como podia no meio do temporal quando o seu guarda-chuva quebrou, sendo levado pelo ar. O vento era tão forte que fazia os fios elétricos cantarem e balancarem.

Árvores trincavam pelo vento. Pessoas gritavam. Seria o fim do mundo mesmo? Deus teria mesmo piedade das crianças como eu?

Eu estava totalmente molhado e minha mãe me abraçou. A coisa tava feia. A chuva caía em ondas, levada pelo vento, batendo com força nos portões das casas. Vi um cachorrinho sendo levado pelas águas. Tentei correr pra salvá-lo. Minha mãe me segurou.

– É um cachorrinho, mãe, salva ele! Me deixa salvar o cachorrinho, mãe, me deixa!

Eu gritava desesperado. O cachorro nadava com todas as suas forças, tentando se salvar, quando o mais inesperado aconteceu. A tampa do bueiro explodiu, liberando uma água imunda, alta como um gêiser e repleta de baratas. O cachorrinho, no alto do seu desespero, tomou um susto com a grande onda que se formou em volta dele, afundando na água imunda. Nunca mais o vi.

E a chuva foi embora como veio, num pulo. Fomos embora dali, apressados. Minha mãe queria ver como nossa casa tinha ficado. Eu só queria saber do cachorrinho, pobre cachorrinho…

 

 

 

Brasília Sanguinolenta

Janeiro 25, 2008

Quem vai a Brasília costuma dizer parece que tem alguma coisa fora do lugar. É um lugar feito, planejado, esquematizado, criado para abrigar gente. O problema é que, mesmo os mais metódicos sabem que, frequentemente o que planejamos e esperamos não se cumpre. A cidade criada para evitar o trânsito, pra não ter semáforos, acabou não tendo lugares para o encontro, como praças, esquinas, botequins. Portanto, apesar dos planejadores urbanos pensarem dioturnamente nos aspectos relevantes para uma boa qualidade de vida, a alma, a vida, a essência de uma cidade nasce com o tempo, ao acaso, além das expectativas e planejamentos. Ninguém conseguirá reproduzir a malandragem da Lapa, nem o regionalismo dos gaúchos. Cada região, cada povo, apoiado em sua terra, cria suas expressões, gestos, identidades, figurações culturais para suas realidades cotidianas.

 Ser jovem em Brasília quando era uma cidade ainda mais jovem (este ano completará 48 anos) não era uma tarefa muito fácil. Padecíamos de tedite aguda. O tédio, cantado em todas as bandas dos anos oitenta, era um estilo de vida, uma conseqüência inevitável infância da cidade. Éramos jovens numa cidade criança, que precisava dormir cedo, não tinha opções de entretenimento e que, por ter sido tão planejada para as pessoas, acabou deixando-as de lado.

O problema é que esse tipo de situação, potencialmente, vira um barril de pólvora. Um grande número de jovens desocupados, com os hormônios à solta, no centro político do país, não podia ser uma combinação muito estável. Este foi o grande motor para as diversas gangues do asfalto que se tornaram um retrato típico de Brasília, do fim dos anos 70 até o início dos anos 2000. Algumas eram, inclusive, ligadas a partidos políticos (de DIREITA também) e movimentos sindicais. Os jovens que não viam na cidade nenhuma diversão acabaram tornando-a um imenso playground modernista.

Os punks, skinheads, pagodeiros, evangélicos, metaleiros, góticos (os pré-emos) e os hardcore eram predominantes no final dos anos 90. Claro, não eram os únicos, e essa classificação deixa de lado dezenas de sub-divisões desses movimentos que não tinham sempre suas fronteiras muito claras.

Tínhamos representantes fortes de todas as correntes políticas da época. O grupo dos neo-liberais e de extrema-direita era pouco numeroso, mas poderoso e organizado em torno do PFL e PSDB. Obviamente, eles não sofriam problemas com falta de dinheiro pra suas reuniões. Os grupos de esquerda, muito mais bem-vistos pelos jovens, eram também reconhecidos pelos seus excessos. Marxistas, leninistas, stalinistas, fidelistas e muitos outros “istas” costumavam discutir política com muita emoção e pouco conhecimento de fato. Em certos círculos, a simples menção de Marx era suficiente para começar uma briga. Os anarquistas, o grupo menos coeso de todos, tinha fama de violento e truculento.

As brigas entre estes grupos eram muito comuns. Olhando com os olhos de hoje, sinto neles certas características das torcidas organizadas do futebol. Porém, não pretendo aqui repetir os erros de interpretação, nem as visões pré-concebidas que a sociedade em geral tem sobre eles. Ao contrário, pretendo traçar um retrato, o mais isento e sucinto possível, do interior das tendências que conheci, pessoalmente, durante minha juventude.

É preferível uma juventude violenta que nunca leu Marx com seriedade, mas tem uma vaga noção de suas idéias através da discussão com seus pares, do que uma juventude que abomina todos os indivíduos que se prestam a discutir política e que prefere gastar seu tempo andando em shopping centers. Pode ser preconceito meu, mas acredito seriamente nisso. E, afirmo, a juventude politizada foi uma imensa minoria em Brasília, no fim dos anos 90. Porém, era uma minoria influente e conscientizada de seu papel na construção (ou destruição) da nova democracia brasileira. Acredito que esse poder mobilizatório tenha se perdido, por motivos que ignoro. Acho que hoje em dia a cidade é mais interessante mesmo (rsrsrsrsrsrsrs).

Resolvi incluir nessas crônicas fatos e histórias desse tempo. Batalhas de gangues, brigas com a polícia, destruição de patrimônio público, uso de entorpecentes, festas regadas a música alta e muito sexo e os grandes festivais de rock. Também devo advertir aos poucos, porém fiéis leitores (amo todos vocês de paixão) que esta parte das crônicas terá um caráter muito mais literário que os outros. Nomes, datas, lugares serão mudados para preservar a identidade dos autores. Embora a IMENSA maioria dos fatos seja real, me sinto eticamente obrigado a proteger os autores destes atos dos efeitos, inclusive legais, que estas revelações que puderem vir a ter.

Portanto, encaremos estes relatos como obra de ficção. Desde já me isento da responsabilidade de citar fontes e de ser preciso na descrição dos acontecimentos.

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OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

A partir de agora, estas crônicas avançarão paralelamente em quatro frentes:

·        Segundas: Meus primeiros anos de colégio e a infância na Expansão do Setor O.

·        Quartas: A continuação das histórias do vale do rio São Patrício e adjacências, como de Bertolino, Ariel e outros que ainda não foram citados;

·        Sextas: Histórias da adolescência, do movimento punk e das batalhas políticas da época;

·        Esporadicamente: Postes de interligação entre as frentes, para mostrar os elementos de coesão entre as diversas histórias. A arte da queda é um exemplo, apesar de eu, intencionalmente, não ter explicado porque.

 

Acreditem, tenho idéias claras sobre os rumos das histórias. A confusão com que escrevo é intencional, pois creio que não haja uma ordem lógica para a leitura delas.

No mais é isso..

Abraços..

 

Bertolino II

Janeiro 22, 2008

Sítio de Meu Avô, Santa Terezinha de Goiás, 1994

– Quem vem lá?

Meu avô olhava de cima de seu cavalo mirrado par os quatro desconhecidos que apareciam de dentro da mata que cercava seu sítio arrendado na fazenda de João Grande.

– É Arthur! A gente traz umas visita que o sinhô vai adorá!

– Quem?

– Arthur! Trouxe umas visita!

– Quem nesse mundo de Deus vai visitar um véi que nem eu! Se fô pra caçá onça, é bom vortá que meus zói num dá mais conta não, uai! – Arthur e Bertolino riram alto.

Meu pai avançou e disse:

– Num me conhece não?

– Ah, meu fio, as vista num deixa não! É o Toinho de Cidinha?

– É não, seu Berto – disse Arthur…

– Eu sou Diogo.

– Diogo? Uai, se for o Diogo de Deuza tu tá muito branco e alto. Ôxi que ele tu num é ele, nem!

– Diogo de Laura…

Silêncio, uma grande tensão no ar…

– Diogo de Laura?

Meu pai assentiu, com os olhos cheios de lágrimas.

– Dioguim? Meu Deus do céu, tem piedade de mim! É Diogo de Laura? Arre, num pode ser não!

– É sim, seu Berto é ele sim!

– É meu fio! É meu fio! Eu num disse que eu tinha um fio grande, bonito! Eu não disse… Joana, Joana! Faz café que as visita vai ficá!

Os dois se abraçaram em meio a lágrimas.

– Pai, pai, que saudade! Como tá as coisa aqui?

– Ah, fio, tá do jeito que Deus dá. Deus dá, Deus tira, a gente reza pra ele ser bom e piedoso. Num tem de quê reclamá não. Se fô mió ou pió, é pruquê foi Deus que quis. Joana, vem pra cá, mulé de Deus!

– Arre, Bertolino, que eu tô toda atarefada. Que é que tu qué gritando meu nome assim desse jeito? Ôxi…

– É Dioguim, de Laura!

– Quem?

– Dioguim de Laura!

– Tu vem me chamar por causa de docim de passa? Tu num tem vergonha não, Bertolino!

Todos riram, menos dona Joana, irritada…

– E esse povo todo que vem aqui nesse fim de mundo! Só farta sê crente!

– É DIOGUIM DE LAURA!

– Ah, mas quem é esse tar de Diogo de Laura! E traz esse monte de menino! Só falta essas tentação bulir com as galinha e os porco! Bando de indemoniado!

Esse foi o começo de uma tarde muito engraçada. Tarde de encontros, histórias e lágrimas, muitas lágrimas. Tarde exótica, porém inesquecível.

A Arte da Queda – Ou as Feridas da Alma

Janeiro 21, 2008

Ceilândia, Distrito Federal, 1992

Não sei porque, mas parecia que nesse época o tempo corria mais devagar. Dias e noites se sucediam num duelo de eternidades. Pra mim, que vivia enfurnado dentro de casa, essa sucessão parecia ser muito mais evidente. A televisão que a gente tinha era velha e mal pegava a Globo e o SBT. Ia para a escola de manhã, bem cedo, junto de meu pai e irmã. A gente saía de casa no meio da poeira (ou lama, depende da época do ano) e ia andando até a parada de ônibus. Invariavelmente, eu e minha irmã chegávamos imundos ao colégio.

À tarde, ia para o judô, na mesma escola (o SESI). Eu era um judoca péssimo, mas acho que o que é mesmo interessante no judô não é se você é bom ou ruim, quantas lutas você ganha ou qual é o seu ranking na federação. O legal do judô é a primeira coisa que você aprende, logo depois de colocar aquela roupa branca engraçada: você aprende a cair.

A gente não começa dando golpe, pegando no judo-gui, nem disputando quem é mais forte. O judoca fica sozinho, treinando num canto pra não atrapalhar os outros o jeito certo de cair. E cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta…

Quando a gente já sabe cair direitinho, o professor testa a gente. Coloca uma fila com uns dez ou doze judocas mais experientes e a gente é derrubado por cada um deles. Um a um cumprimenta, derruba, espera a gente levantar, cumprimenta de novo, derruba de novo e aí a gente troca de parceiro.

É um saco isso. A maior parte desiste nesse comecinho, porque parece que a gente vai passar a vida inteira caindo. Mas, se você for um judoca de coração, você vai ver o sentido mágico de tudo isso. O cara te cumprimenta, te derruba e te cumprimenta pra te derrubar de novo. Ele não é seu inimigo. Ele não tá lá pra te machucar, nem pra puxar seu tapete. Ele está lá pra te ensinar a cair direito. E, a melhor parte, ele espera você levantar pra repetir a lição. Não há raiva, não há maldade. Os olhos dos judocas costumam estar assim. Não há nervosismo, dor, nada. Tranqüilidade total…

Só alguns poucos conseguem ver isso. O aprendizado é um ciclo de descobertas. Cada parte, cada etapa da vida é uma repetição mais ou menos regular de um ciclo de cair e levantar. O que guardo de bom dessa época foi ter aprendido a ter paciência e perseverança. O aprendiz costuma ter pressa, quer aprender logo as manhas pra se tornar um vencedor. Porém, a vitória está dentro de você antes mesmo de começar a luta. Só é possível vencer conhecendo a si mesmo com profundidade, ignorando seus medos, superando os maiores desafios.

Principalmente, só é possível vencer abrindo mão de alguma coisa: tempo, lembranças, amores. Não é possível chegar à vitória estando nervoso, excitado, com um desejo ardente de vingar-se do mundo. Vence o mais tranqüilo, o que mais mantêm-se frio e racional, o que tem o coração mais puro, o que sabe que a vitória é certa.

E, quando a esperada vitória vem, todo o semblante muda. De uma tranqüilidade silenciosa, a garganta se enche de um grito escancarado. É justamente por ser esperada que a vitória é surpreendente. É por ser certa que se torna emocionante. A vitória é o espetáculo maior da vida, um momento mágico e precioso onde esquecemos dos nossos passos longínquos no Vale da Morte e sabemos que a vida, mesmo monótona ou dolorida, é sobrevivente.

E então, com tudo isso em mente, você entende o sentido da luta. Ela não está lá pra decidir quem é mais forte, quem está mais certo. A luta é uma repetição da vida. A luta, principalmente quando vale a vida, é uma anunciação do que é a glória. Vencer é muito mais profundo do que superar o outro. Vencer é superar-se, transformar-se. Vencer é depender do outro para conhecer a si mesmo.

E eu, quando solitário nas depressões intermináveis dos meus primeiros anos, era nessas poucas, erráticas e comemoradas vitórias que baseava minha vida. Aprendi a lutar desde cedo. Aprender a vencer demorou bastante. Mas tudo isso me tornou um grande lutador, me ensinou a não desistir nunca e, principalmente, a conhecer a mim mesmo.

Foi aí, nesses primeiros anos que nasceu o meu lado punk. Mas isso é assunto pra outra crônica, o espaço dessa acabou.

Abraços a todos…

Redemoinho Machadiano

Janeiro 20, 2008


 

Expansão do Setor O, Ceilândia, Distrito Federal, Anos 90

 

Ao contrário do que possa vir a parecer, eu não tenho muito controle sobre minhas crônicas. Elas transitam pelas décadas, uma história atrás da outra, sem muita razão. O grande problema é que tenho muitas coisas para contar e, em cada crônica, resolvi limitar meu espaço para que cada um dos meus poucos, porém fiéis leitores, possa ler sem se cansar muito. Mas eu fico tentado a contar tudo ao mesmo tempo, até pra que quem queira começar a ler num momento qualquer consiga se perder nos labirintos das palavras sem muita dificuldade. Então, sem pedir licença a ninguém e sem perguntar se era uma boa idéia ou não, resolvi falar sobre minha infância.

Mas aí temos problema: por onde começar? Se começasse pela minha concepção certamente me perderia em floreios inúteis sobre a filosofia do que é o amor, colocaria anjos e fadas na cama de meus pais e outras coisas que não combinam nem com o ato em si, nem com o produto do ato, que é esse matemático que vos fala. Podia também falar de minhas mais antigas lembranças, sensações que ficaram em minha cabeça, mas é tudo tão confuso e intrincado que, provavelmente, ficaria bem melhor num compêndio de fábulas fantásticas ou num livro infantil do que num livro de crônicas sobre a morte.

Porém, caros leitores, lembro que este blog é sobre a dualidade entre a vida e a morte. Portanto, se a crônica não for falar sobre estes assuntos ou se não fizer parte de um caminho que, uma hora ou outra, descambará para um deles, não vale a pena fazer parte deste blog. Assim as lembranças, sensações, gostos e cheiros de minha infância ficarão para outro livro que os meus poucos e fiéis leitores, por educação ou gosto, não cometerão a indelicadeza de não ler…

Bem, a primeira coisa que me lembra a Vida é algo que meu pai me disse há muito tempo, quando morávamos num lugar muito pobre, chamado Expansão do Setor O. Bem, o nome pode parecer meio ridículo, mas diz absolutamente tudo sobre o lugar: é a expansão do setor O, ou seja, é um conjunto de casas que colocaram ao lado do setor O. O setor se chama O por causa da letra O mesmo. Existe o setor QNA (o centro), QNB, e assim sucessivamente.

Quando eu era criança, o último deles era o QNO, donde veio o O de setor O. Logo, a Expansão do Setor O era, o lugar mais longe que o lugar mais longe do centro que havia na época.

Para minha imensa tristeza, o setor O não goza mais da qualidade de ser o útimo. Já inventaram o QNP, QNQ, QNR, QNS e, dizem as más línguas, que o governador já pensa em criar o QNAA…

Cidade planejada é outra coisa, né? Se esse fosse um livro comum, sobre uma cidade comum, eu diria que na minha infância eu morava na rua tal, no número tal, perto da avenida tal. Ao contrário, morava na QNO 18 Conjunto 61 Casa 18, na cidade-satélite de Ceilânida, o lugar em Brasília mais parecido com favela, na época.

Não posso dizer que era fácil ser criança na Expansão do Setor O. As ruas não tinham calçamento, era uma poeirada danada… Lembro que quando a gente mudou pra lá não tinha nem água. Vinham uns caminhões-pipa ou a gente ia num chafariz ali por perto carregar água em baldes. Mas isso não durou muito, pois a água, a luz e, por conseguinte, o IPTU chegaram bem rápido.

Na época da seca (que chegava a durar três meses), a umidade do ar era tão baixa e minha pele ressecava tanto que meus dedos, calcanhar, lábios e canela sangravam. Isso sem falar do nariz, óbvio. Nos dias ruins de agosto (o pior mês da seca) a gente desejava a chuva mais do que dinheiro. Mas não podia vir muita chuva, pois quando vinha com vento os telhados dos vizinhos saíam voando. Eu tinha medo de granizo, eu lembro, porque ele batia nas telhas de amianto com tanta força que parecia que ia quebrar. E às vezes quebrava mesmo…

A gente rezava pra Deus dar tanto a seca quanto a chuva na medida certa e que ele tivesse piedade dos mais pobres que nós, que não tinham sorte de ter uma casinha pequena, pobre, com um cachorro mirrado. A gente agradecia cada coisa que vinha, pois sabia que era tudo muito difícil de se conseguir.

E meu pai mandava a gente pra escola. Gente pobre sabe que estudar é importante, pra ter futuro. E eu quase não saía de casa, pois minha mãe tinha medo de que eu me misturasse com bandido. Isso não faltava mesmo, desde João de Santo Cristo a Ceilândia tinha essa fama.

Eram dias de tiroteios, sobreviver era uma bênção. Os poucos policiais que arriscavam entrar na Expansão do Setor O de madrugada eram heróis, burros ou corruptos. E ouvíamos histórias macabras de mortes e de fantasmas. A primeira pessoa que me lembro de ter visto morta era uma loira de cabelo pintado. Por descuido de alguém, o vento levou o jornal que tapava seu rosto e pude ver a ferida profunda e seca da faca que a degolara. Eu devia ter uns oito anos…

E esse era um dia anormamente quente, cercado de redemoinhos que me deixavam sujo da poeira vermelha de Brasília. Eu tinha medo de que aquele pó todo fosse pintado de sangue.

– Pai!

– Que foi, filho?

– Porquê a gente morre?

Ele pensou bastante antes de me responder. Então disse:

– A gente morre, filho, porque a gente vive. E a gente vive esperando que Deus tenha piedade da gente na nossa morte. E Deus só vai ter piedade da gente se a gente for bom, acreditar n`Ele, fizer o bem pra todo mundo. A vida leva a gente que nem leva a poeira no redemoinho. A gente roda pra cá e pra lá, de vez em quando está em cima, de vez em quando está embaixo, mas nunca sabe onde vai cair, onde vai parar. A gente tem de viver com coragem, filho, estando preparado pra tudo. Só assim a gente pode merecer a vida.

Não sei se esse é o tipo de coisa que se fala pra uma criança de oito anos, mas eu lembro que na época entendi tudo. Profundamente.

 

Bertolino

Janeiro 18, 2008

Fazenda de João Grande, município de Santa Terezinha, 1994

 

Quando a gente imagina uma pessoa sobre um cavalo branco costuma ter aquela idéia de grandes generais em suas figuras eqüestres, com espada em punho, chamando os soldados para a guerra. Imaginamos heróis dispostos a morrer pelos seus ideais, bravos guerreiros, exemplos de superação e virtude.

Nada poderia estar mais longe do que a visão do velho Berto. Ele estava bem velho, corcunda, usava óculos velhos de aros grossos e quase não ouvia. O cavalo também, mirrado como ele só, mal se agüentava de pé. Parecia mais que estávamos em frente a Dom Quixote do que Deodoro…

Francamente, a visão de meu avô depois de todos esses anos foi decepcionante. Não conhecia meus avôs. O materno morreu antes de eu nascer, vítima de Chagas. Bertolino carregava nos ombros a responsabilidade de dez anos de ausência e não estava se saindo muito bem. É claro, eu era um menino da cidade, tinha todo o direito de imaginar coisas. Principalmente, mal conhecia o mundo e tinha um grande preconceito com a vida no mato. Pra mim a cidade tinha vida, pessoas, movimento. O campo, com sua mesmice e pequenez, era um ambiente ruim, atrasado, sem vida. O campo era o retrato do descaso, do atraso. Pra mim aquelas pessoas viviam na idade média. João Grande era o Rei Artur e meu avô, um pobre vassalo que eu esperava ser Robin Hood.

O pequeno sítio também não ajudava muito: a casa velha de pau-a-pique com as paredes carcomidas pelo tempo, as galinhas soltas por ali, as poucas siriguelas cheias de periquitos, o cheiro do chiqueiro, o silo, onde se guardava milho, tudo tão velho, tão abandonado…

Não havia luz, a água era tirada de um poço profundo. Não tinha banheiro também. Havia um grande fogão a lenha, que deixava a parte de dentro da casa sempre com aquele aspecto de enegrecida. Éramos constantemente atacados por enxames de mosquitos que deixaram cicatrizes nas minhas pernas.

Porém, Deus dá às crianças uma alma maravilhosa. Essas primeiras impressões logo desapareceram e tudo virou festa. Adorei o cheiro de madeira queimando, fiz muitas perguntas sobre as vidas deles, onde era a escola, como funcionava o poço e porque eles guardavam milho no silo. Corri livre, até doer as pernas. Perguntei o nome das plantas, das galinhas, dos cavalos e porcos. Andei de cavalo, nadei pelado na represa, pesquei com a mão, ouvi histórias de caçadas, principalmente de onças e jacarés, na unha. Joguei futebol com os meninos da fazenda de João Grande, aprendi a fazer rapadura e pamonha, incendiei formigas. Falei com os meninos sobre Monteiro Lobato e os contos de Grimm. Acho que eles não se interessaram muito…

Tirei leite de vaca, dormi ao relento, ao lado de uma fogueira e ajudei a caçar cascavel (sim, quase fui picado por uma cascavel de verdade!). Chupei siriguela, cana e manga no pé e vi que a vida na cidade que era chata. O campo, de onde veio minha família era um lugar maravilhoso. Dali em diante, um dos meus maiores desejos era morar num lugar sem paredes, sem pessoas. O campo me fez entender o valor da solidão.

Minha pouca idade me fez ficar longe do conflito. Sabia que não devia fazer certas perguntas e não as fiz. Estes dias na casa do meu avô não me fizeram ficar mais próximo de meus irmãos. Provavelmente mais culpa minha do que deles. Eu era muito introspectivo nessa época. Odiava quem invadisse meu espaço. Era jovem demais pra entender o sentido de tudo isso, a necessidade de estar próximo de sua família. Não sabia ainda, mas aos dez anos passava pela minha primeira depressão.

Não guardo recordações fortes sobre esses dias. Guardo impressões, cheiros, gostos. Palavras não, essas sumiram. Lembro principalmente de Dona Joana, mulher de meu avô, de sua rabugice e do cheiro forte de seu cigarro de palha. Ademais, nada que valha ser lembrado nessas memórias. Não que as histórias não sejam interessantes ou bonitas. As melhores farão parte desse livro, mas a seu tempo.

Por enquanto, deixo vocês com as lembranças da volta. Pra mim foi bom voltar pra casa depois de todos esses momentos de intensidade. Cresci muito nesses dias, aprendi a ver o campo e a cidade com outros olhos.

Os dias na casa de meu avô foram cruciais para que eu pudesse ver o mundo de uma maneira diferente. Isto se mostrou muito claro já nos dias seguintes, quando voltei pra casa. Falaremos mais sobre os dias na Fazenda de João Grande depois…

Ali, aos dez anos, logo após a viagem para a casa de meu avô, entendi o que significa a morte. Ao voltar à Brasília depois daquelas curtas férias, entendi a proximidade do sofrimento. Mas isso fica para a próxima crônica…

 

 

 

 

 

 

Os Periquitos Verdes

Janeiro 16, 2008

Estrada das Esmeraldas, município de Santa Terezinha, 1994


Meu pai soube do paradeiro do meu avô meio por acaso. Conversando com amigos da época em que morava em Itapaci, ouviu notícias de um certo Bertolino, arrendatário de um pedaço da fazenda de João Grande. Era atrás deste João Grande que estávamos e, por isso, andávamos pela esburacada estrada das Esmeraldas.

Quando meu pai viu um grande jatobá, sabia que era ali a entrada que deveríamos seguir. Meu irmão mais velho desceu do carro e abriu a porteira que levava à fazenda. Uma pequena placa, de letras tortas, quase totalmente escondida pelo mato, indicava a direção. Na época eu não percebia a emoção daquele momento. Meu pai não via meu avô há muitos anos. Talvez mais de vinte. Nada indicava alegria, sentimento, ansiedade, dor. Meu pai era uma rocha que não mostrava nada.

O carro balançava muito e íamos devagar. Essa lentidão tornava tudo mais difícil. Eu já estava bem cansado de toda aquela viagem. Todos estávamos. Quando abrimos a última porteira, pudemos ver de longe uma grande casa, cinzenta de cimento sem reboco, ao lado de um curral, não muito grande, de vacas leiteiras. Eram campos vazios, com poucas árvores e, atrás da casa, havia um mangueiral com árvores já bem velhas e um pequeno canavial.

O primeiro barulho que ouvi foi de uma revoada de periquitos verdes que faziam um grande alvoroço nas poucas árvores frutíferas dali. Periquitos sempre me aparecem nos momentos de angústia. Só percebi isso muito tempo depois.

Um grande e lerdo cachorro fila começou a latir na direção do carro. Quando nos alcançou, cheirou as rodas e saiu. De dentro da casa, saiu um homem de chapéu, com pelo menos um metro e oitenta, mulato, de olhar atravessado e fala muito grossa e alta, típica dos violeiros da região. Era João Grande.

– Ôxi! Quem vem? – ainda me lembro da surpresa de ouvir aquela voz cantada.

– É Diogo. Viemos de longe. É aqui a Fazenda de João Grande?

– É com ele que cês fala.

– Viemos atrás de Bertolino.

– O que cês qué com o véi Berto?

– Ele é meu pai.

Silêncio. Outra vez o som dos periquitos. Alguém ali brincava com um bodoque e os fazia voar por pura diversão.

João Grande tirou o chapéu, coçou a cabeça e a barba rala. Não era difícil ver a surpresa no seu rosto.

– Êta mundão véi sem portêra. Adentra aí que Neguinha vai fazer um café procês.

Entramos na casa e ouvimos as apresentações. Não me lembro do nome de todos. Lembro sim de João Grande, Neguinha de Artur, que preparava bolos de milho maravilhosos, alguns filhos que brincavam com meu nome e com o fato de eu usar óculos.

Lembro do cheiro de bosta de vaca, das paredes repletas de calendários, muitos deles bem antigos e que, não sei porquê não foram arrancados. Lembro principalmente do gosto maravilhoso daquele leite de vaca que acabara de ser tirado e dos olhos claros de Letícia, que foi quem me trouxe o copo de leite.

Não me lembro das conversas, nem quem foi que, pouco depois, nos levou a pé até o pequeno sítio arrendado por meu avô. Mas me lembro de cada detalhe do caminho: a represa do lado do canavial, uma cacimba* cheia de sapos coachantes, uma subida um pouco íngreme, no meio de uma pequena mata, cheia de jabotis, e, atrás de uma colina, a pequena casa de pau a pique, onde meu avô esperava sobre um velho cavalo branco.

Ali estava Bertolino Sousa Campos, pai de Diogo de Laura, caçador de esmeraldas e onças pintadas e um grande contador de causos.

Cheiro de Terra Vermelha

Janeiro 14, 2008

Itapaci, 2007

 

Abri a porta do carro com pressa. O carro estava um forno. Meu avô deve ter ficado uns dez minutos naquele inferno. Ele estava ofegante, mas não reclamou um segundo.

– Tá quente, vô?

– Tá quente pra muléstia…

– Vamo sentar ali na sombra. Deve tar um tiquim mió…

Dava dó. Ele se movia muito devagar. Parecia que cada movimento doía. Meu joelho também estava insuportável. A respiração descompassada, o calor me fazia suar horrores. A sombra estava a poucos metros mas, como não podíamos andar depressa, aquele pequeno pedaço foi uma tortura. Odeio calor.

Finalmente paramos na sombra. Ali podíamos sentir uma brisa muito leve. Tirei minha camisa e abri a de meu avô.

– Esse mundo véi tá cada dia mais parecido com o inferno! Êta calor do capeta!

Não disse nada. Ainda pensava em Ariel. Não sabia nem se era meu parente mesmo, mas ainda assim sentia certa tristeza por aquela grande família. Eu não conhecia ninguém ali. Sempre fui mais próximo da família de minha mãe. Agora, no meio daquele povo, daquela terra que viu meu pai menino, senti uma nostalgia por uma infância que não tive, primos que não conheci, vínculos que não criei. Mesmo meu avô não era muito íntimo. O vi poucas vezes. Durante quase toda minha infância ele esteve desaparecido. Todos tinham-no dado como morto.

 

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Estrada das Esmeraldas, Município de Santa Terezinha, 1994

 

Meu pai tinha um fusca branco. É o primeiro carro que me lembro que meu pai teve. Eu tinha dez anos e viajava com ele e os irmãos homens. Ia conhecer meu avô de quem sempre fiz muitas perguntas sem resposta. Era estranho descobrir que tinha um avô depois de dez anos, ainda mais com aqueles dois irmãos que não tinha a menor intimidade. Eles não eram filhos de minha mãe e não moravam comigo. Por isso tínhamos pouco contato.

Eu era uma criança calada. Sofria horrores no colégio, pois era menor que meus colegas. Eu já queria ser escritor e olhava praquelas colinas verdes cheias de vacas clinicamente, pensando em cada detalhe, em cada pequena coisa que poderia me servir depois.

Apesar de ser muito jovem, já estava com story board de meu primeiro livro preparado. Era um livro policial com muitos assassinatos que dificilmente sairá do papel, mas que tomava muito da minha atenção naquele tempo.

As colinas, as estradas de terra, aquele povo queimado de sol, tudo isso tinha me apaixonado. Era uma sensação diferente. Sou filho da cidade, urbano até os ossos. Os cheiros, as árvores retorcidas, o gosto de poeira na boca, grandes novidades que me fez tentar olhar de outra forma praquale estado que cercava o meu.

Eram dias estranhos para mim. Considero que o ano de 1994 foi o da primeira grande virada na minha vida. Aos dez anos me sentia muito mais velho, ouvia Faroeste Caboclo com olhos fechados e me sentia filho de uma cidade sem lei, morador da Ceilândia, onde morreu João de Santo Cristo. Lia muito de tudo.

Conhecia o mundo dos livros, mas aquela viagem me permitiu, pela primeira vez, ver o mundo in loco, sem intermediários. Mas não era o mundo de Rachel de Queiroz, nem a Grécia de Homero. Goiás era um mundo à parte, totalmente novo, que fundia diversos outros mundos na minha imaginação.

Goiás para mim era a terra. O cheiro de terra, o gosto da terra vermelha que entrava pelas minhas narinas agora, que ia visitar meu avô pela primeira vez. Nem pensava nessa época que aquele vermelho poderia muito bem ser visto como o vermelho do sangue de meus antepassados. Nem imaginava ainda o quanto aquela viagem ia ser importante para mim, escritor. Nem imaginava o quão interessantes os personagens que eu veria seriam para minhas poesias. Nem imaginava…

Itapaci – 1

Janeiro 8, 2008

Segunda-feira quente no Estado de Goiás. A estrada era ladeada por grandes plantações de cana que iam até onde a vista alcançava. Muitas curvas até ali, estrada perigosa. Dirigíamos havia quase quatro horas. Ainda faltava muito para Santa Terezinha. Meu avô dormitava no banco de trás, exausto. Eu e meu pai ouvíamos Chico.

– Se tivéssemos um facão podíamos roubar algumas canas. Se bem que assim foi bom. Cana dura, sem doce. Não vale o prejuízo de descer do carro. – meu pai sempre foi dono de uma sinceridade sagaz. Se ele não gostava de alguma coisa, fazia questão de deixar bem claro.

Mais à frente havia uma usina de álcool, cercada por grandes caminhões vazios. Ainda não era época de colheita, os campos não tinham sido queimados. Por ali dezenas de bóias-frias esperavam emprego. Eram os meses de vacas magras pra eles.

Estrada complicada. Alguns buracos, mas desviáveis. Passamos por uma cruz ao lado da estrada. Lugar ruim, ponte depois da curva. Perigoso. Fizemos o Nome do Pai e pensamos na dor de quem morreu ali.

– Fala com seu avô…

– A viagem tá boa, vô?

– Hein? – a surdez piorara muito depois do derrame.

– A viagem ta boa?

– Tá só um tiquim.

Não tinha muito papo com ele. Homem simples, roupas simples, gestos contidos. Muito mirrado, corcunda pronunciada e a boca vazia de dentes.

– Água?

– Não, filho, obrigado.

– Você quer, pai?

– Eu não. Tá com gosto de plástico.

Estávamos entrando na cidade de Itapaci. Pequena para os padrões de um brasiliense. Poucas ruas calçadas, mas casas bonitas, pintadas. Nenhuma muito antiga. A estrada cortava a cidade ao meio. Dali até Santa Terezinha seria rápido.

– Podíamos parar pra falar com teu primo Alexandre. Tu não conhece ele, né? Éramos muito amigos. Fazíamos tudo juntos, bem antes de você nascer.

Eu não tava muito a fim, mas não disse nada. Não era lá uma viagem de férias.

O carro diminuiu o passo. Numa esquina, dezenas de pessoas se acotovelavam na frente de uma casa grande. Não parecia ser uma festa de confraternização.

– Ê…

– Que foi?

– Acho que tua tia morreu.

Nem conhecia a tia, mas uma verdade dita assim, sem preliminares era dolorida. Fiquei calado. Já estava acostumado com a sinceridade de meu pai.

– Mau sinal esse povo todo parado na frente da casa.

Ele parou o carro no meio do sol. Descemos, eu e ele. Atrás ia uma moça morena de cabelos compridos.

– Que houve ali – meu pai perguntou.

– Falecido.

– Quem?

– Ariel…

Meu pai abaixou a cabeça, triste…

Fomos na direção à casa. Uma preta nos parou, reconhecendo meu pai.

– É o Diogo de Laura?

– Sou…

– Foi D. Laura que te guiou praqui. Ninguém tinha seu celular pra te ligar. Uma tragédia, meu Deus.

Não fazia idéia de quem era o defunto, mas pelo menos não era minha tia. Sentia um certo alívio. Se fosse parente, era mais distante.

O sol me torrava o crânio. Muitos conversavam do lado de fora, falavam do morto e de outras coisas menos importantes. Uma parte considerável da cidade estava ali. Entramos por uma porta e entramos numa espécie de copa, onde adolescentes sentados nos olhavam curiosos. No fundo havia um grande quintal, cheio de mangueiras e cajueiros, onde crianças barulhentas brigavam por uma bola.

Entramos por um corredor que dava pra parte de dentro da casa. Lugar apinhado de gente triste. Ninguém chorava mais. Ali estava o morto, num caixão pequeno, coberto de flores brancas. Ariel.

Ele era velho, aparentava ter mais de oitenta e repousava sereno, vestido com um terno escuro. Apertamos a mão do filho que velava o caixão, prestando condolências.

Meu pai perguntou a ele detalhes da morte. Odeio detalhes de morte. É mais fácil aceitar que ele se foi e pronto. É duro pensar no sofrimento, na dor da família, naquele monte de gente que, como eu, ao prestar solidariedade à família, só tornava aquele momento ainda mais difícil.

– E sua mãe, onde tá. – meu pai perguntou.

– Ali, no quarto. Tu não viu?

– Não, vou falar com ela.

De volta ao acotovelamento. Não deu tempo nem de rezar uma ave-maria pro morto. Entramos num quarto grande, cheio de mulheres. Entre elas, minha tia, mulher de Ariel.

Era muito mais jovem que ele, tinha uns sessenta e já não chorava. Olhava perdida pro vazio. Não reconheceu meu pai.

– É Diogo de Laura mãe, tá falando cocê! Foi Laura que mandou ele, lá do céu…

– Diogo? É muito diferente pra ser Diogo de Laura.

Lembrei de meu avô. Deixamos ele sozinho no carro fechado. Naquele calor ele ia acabar morrendo em minutos.

– A chave pai! Meu avô tá no carro…

Corri dali, mas meu objetivo principal não para salvar meu avô, mas fugir daquele lugar grotesco. Não me sentia bem, me faltava ar. Minhas pernas estavam moles e, ao ver o céu azul enorme de nuvens brancas, pensei na morte e em como ela estava perigosamente próxima de mim. Meus passos eram passos de fuga, procurando esquecer a rigidez do corpo do morto, a textura da pele, toda a dor contida da família que parecia estar prestes a explodir ao menor motivo.

Pensei como a morte costuma se mostrar mais forte assim, em dias quentes de verão. Mortes de segundas-feiras. Mortes simples, esperadas ou cruéis, mas sempre mortes. Sempre causando dor aos homens. Por quê ter tanta dor pelo que sempre esperamos, por aquela que é a única e verdadeira certeza que temos?

Tudo parecia confuso quando caminhava para o carro. Esperava respostas, mas por ali eu sentia apenas um indescritível vazio. Vazio de cemitério. Vazio de amplidão…