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	<title>As Crônicas do Vale da Morte</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Jan 2011 02:14:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>

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		<description><![CDATA[- Tem certas coisas que você faz – ela disse – que têm um poder sobre mim maior do que eu sou capaz de explicar. Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos lisos. Era um tique dele, passar a mão na cabeça quando estava envergonhado ou nervoso. Ela achava lindo isso que ele tinha [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=62&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Tem certas coisas que você faz – ela disse – que têm um poder sobre mim maior do que eu sou capaz de explicar.
</p>
<p>Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos lisos. Era um tique dele, passar a mão na cabeça quando estava envergonhado ou nervoso. Ela achava lindo isso que ele tinha de ser tímido nas horas convenientes. Ele levantou-se de cama, ainda nu e perguntou se ela queria alguma coisa da cozinha. Ela disse que não e ele saiu.
</p>
<p>Ela deitou na cama com as mãos cruzadas sob a nuca e ficou lembrando dos detalhes da noite. Detalhes, nisso ele era bom, ele sabia preparar cada coisa nos mínimos detalhes. E sabia improvisar também, o que era uma baita qualidade. &#8220;Cara, qual é o problema desse homem?&#8221;, disse consigo mesma. Mas ela no fundo sabia que o problema era ela tentando achar problema em tudo que era coisa. Ele era o primeiro em muita coisa e isso deixava ela assustada. Ficava assustada das coisas que ela dizia pra ele, da maneira como ela se entregava pra ele livremente, com não tinha feito com nenhum outro. Aos outros homens ela se deixava tocar. A ele, ela se deixava conduzir.
</p>
<p>E ele a conduzia, fazendo dela o que quisesse. Tinha dias que a xingava de puta, de vagabunda e a deixava toda roxa nos pulsos, nas pernas e nos seios. Tinha dias que ele fazia amor a olhando nos olhos e ela ficava assustada de perceber como ele conseguia dominá-la também de olhos abertos enquanto se mexia bem devagar, por horas. E tinha dias que ele não fazia absolutamente nada a noite inteira, só ficava sentado vendo um filme chato com ela até dormir, e isso era absurdamente bom.
</p>
<p>&#8220;É a paixão, Iasmim, você sabe&#8230;&#8221;. &#8220;Mas você sabe que não pode, <em>Ele</em> não pode. Ele não quer você&#8230;&#8221;
</p>
<p>E quando ele voltou, ela estava triste. Ele sorriu, deitou do lado dela mansinho e a beijou na testa. Ela se aninhou no peito dele e ficou sentindo o coração bater bem tranqüilo. E entendeu que perfeição se faz nos detalhes&#8230;
</p>
<p>
 </p>
<p>
 </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/62/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=62&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O dia do perdão&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Aug 2010 01:53:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo Punk]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=60&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu era um rapaz atarracado, franzino, óculos de plástico, cabelo sempre mal-cortado, calça jeans, camiseta de banda e blusa de flanela por cima. Era moda, influência dos grunges, tipo Nirvana. As calças ficavam sempre apertadas nas coxas e folgadas na cintura. As pessoas me zuavam por isso. Eu era tímido, mas não muito. Sempre fui bom com as palavras e em convencer as pessoas, mas só usava isso quando necessário.
</p>
<p>Eu tinha entre quinze e dezesseis anos. Era 1999 e a música do capital estourava nas rádios. Eu gostava, principalmente pq conhecia o trabalho antigo deles, que era absurdamente bom. Ouvia discos de vinil na casa de amigos: Joy Division, The Clash, The Smiths, Ramones.
</p>
<p>Tocava violão, mas não muito. Compunha uma ou outra canção, despretensiosamente. Algumas eu me lembro até hoje. Não esqueci nenhuma melodia.
</p>
<p>Era punk. Não usava drogas porque sabia de onde elas vinham e sabia o que elas faziam com as pessoas, principalmente com os inocentes. Continuo limpo. Mas nessa época nem álcool eu usava. Aprendi a beber vinho no mestrado (canção, branco suave, hj acho pior do que remédio). Aprendi a beber cerveja na UnB (hj eu sou chato, só bebo bohemia e original). Aprendi a beber uísque no mestrado (ok, continuo nessa fase, mas tenho medo do que vou aprender a beber no doutorado).
</p>
<p>Eu tinha poucos amigos. Era solitário. Andava sozinho para todos os lugares, principalmente de noite. Me metia em confusões, mas não muito. Era um anarquista que acreditava em Deus. Continuo sendo, os dois, mas na época eu não ia à Igreja. Achava absurdo ir a um lugar encontrar com um ser onipresente. Hoje vou à igreja, pq sei que Ele pode ser encontrado com mais força em certos lugares. Mas isso não é importante pra essa história.
</p>
<p>Eu era um tipo especial de anarquista. Odiava o Estado pois sabia que ele era fonte de toda desigualdade. Mas não achava que as pessoas estavam prontas para viver sem ele. Logo, a opção era sabotá-lo. A democracia é um erro. O comunismo também é, já que nega o indivíduo, a capacidade do indivíduo de tomar decisões por si e transformar o coletivo. Não acho que a opção à democracia seja uma ditadura de um só partido. Só o anarquismo daria liberdade total, para pensar e fazer o que sua consciência mandasse. Eu era um anarquista que acreditava na humanidade. Ainda sou, na verdade, acho que o lance é mudar a humanidade antes de mudar o estado e destruí-lo.
</p>
<p>Bem, é isso. Disse essas coisas para dar um perfil psicológico para o personagem. Ou não, é só um desabafo mesmo. A idade vai chegando e a gente começa a pensar no que a gente fez no passado. Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Foram as circunstâncias, sabe?
</p>
<p>Na verdade, Brasília era uma cidade muito escrota. Muito mais do que é hoje, certamente. Havia pouco a se fazer. O que existia era caro ou inacessível. Os jovens não tinham espaço não porque fossem perigosos, mas porque Brasília nunca teve juventude e, portanto, não se sabia o que se esperar dela. Eu sou da primeira geração de brasilienses nascidos lá. Os começos são difíceis.
</p>
<p>Havia vários colégios públicos grandes. Eram como grandes prisões, resquícios da ditadura. Porém eram espaços de política e &#8220;subversão&#8221;. Era o governo de Fernando Henrique Cardoso, o pior presidente da Nova República e o Brasil vivia crise atrás de crise. Era fim de ano e Roriz tinha ganho a eleição para governador, de uma forma que sempre foi vista como fraudulenta. Os sindicatos eram muito vigiados e boa parte dele era vendida ao governo. Dessa forma, era das escolas secundaristas e da UnB que vinham os focos de resistência à política existente.
</p>
<p>E o estado se mostrava para nós. Alunos eram expulsos e desapareciam. Éramos obrigados a usar um uniforme e não ter nenhum símbolo para nos identificar: brincos, pulseiras, anéis, coturnos, lenços, era tudo proibido. As reuniões políticas não eram proibidas diretamente, mas era perigoso participar delas. Era perigoso ser filiado a partidos políticos. Mas eles existiam: o PT Jovem, a União da Juventude Socialista, entre outros. Eu não era de nenhum, já que era anarquista. Os colégios se dividiam entre eles. Eu era da (&#8230;) uma das mais tradicionais escolas públicas de Brasília. Fui pra lá por escolha, já que meu pai poderia pagar uma escola pra mim se quisesse.
</p>
<p>E era uma escola efervescente. Era um barril de pólvora. Enquanto estive lá houve quatro grandes rebeliões de alunos. Quando acontecia, os alunos deixavam suas salas, invadiam as áreas públicas da escola e gritavam palavras de ordem até serem ouvidos. Ou até chegar a polícia. Sim, havia um batalhão da polícia do lado da escola.
</p>
<p>E então quebrávamos os portões e fechávamos as ruas, em protesto. Sempre por motivos políticos. Éramos odiados pelo diretor da escola, pelo comandante do quartel da polícia e pelo administrador da cidade. Mas as putas que trabalhavam ali por perto gostavam da gente. Éramos jovens e ninguém é culpado pelo que faz aos quinze, dezesseis anos.
</p>
<p>E nos metíamos em brigas, muitas. Como éramos perseguidos, nos organizávamos em pequenas gangues. Claro, isso tinha seu preço. Eu era da grande gangue dos punks, particularmente da confraria da (&#8230;) muito famosa nesses tempos. Digamos que aparecíamos muito nas colunas policiais dos jornais. Isso porque, além dos punks existiam os grupos neonazistas, gangues também organizadas, de pessoas que tinham ódios raciais contra todas as minorias, como nordestinos, homossexuais, deficientes físicos e negros.
</p>
<p>Nós odiávamos os neonazistas com todo nosso coração. Era mútuo. Na verdade, a mentalidade punk é pelas minorias, pela contracultura, pelo protesto. Havia muitos homossexuais entre nós, muitos negros. O que valia era o que vc pensava, sua identidade e não o que você fazia de sua vida. Dessa forma, éramos vistos pelos skinheads como o lixo do mundo. E era assim que nos víamos e, por isso, nos achávamos fortes.
</p>
<p>Mas, bem, a história começa por acaso. Era dia (&#8230;) e fomos surpreendidos pela notícia de que T., um famoso travesti de perto da escola tinha morrido, espancado até a morte. Isso não era incomum, mas nesse caso, particularmente, foi pessoal. Ele era um cara maneiro, de idéias avançadas. Fazia parte de movimentos LGTBT e era muito politizado. Ainda fazia ponto por ali.
</p>
<p>A notícia se espalhou muito rápido. Logo, os três maiores colégios de Taguatinga estavam em pé de guerra. Eram outros tempos, quase ninguém tinha telefone celular e as coisas se resolviam no boca-a-boca. A indignação foi crescendo. Nenhum jornal noticiou. Nenhuma palavra, nada. O crime nem foi investigado.
</p>
<p>E começou a acontecer. Primeiro um, depois outro. Os encontros entre os punks e skinheads estavam ficando sangrentos. Todos já sabiam o grupo responsável pela morte de T. e eles deixavam isso bem claro quando nos encontravam. Falavam de como foi bom ver os miolos &#8220;daquela bicha escrota&#8221; espalhados no asfalto. As brigas eram constantes. Depredávamos as ruas, pichávamos os muros exigindo justiça. E nada&#8230;
</p>
<p>Então resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Era novembro e chovia. Ia ter um grande show de rock em Taguatinga. Sabíamos que eles iriam. Mas dessa vez nos preparamos. Paus, pedras, estilingues, socos ingleses. Meu sangue fervia. Foi a primeira vez que eu usei um soco inglês. Eu sentia aquele ferro frio roçando na minha perna, escondido. Todos estávamos tensos. Sabíamos que podíamos ser presos. Mas o T. merecia. O T. era foda. E eles precisavam de uma lição.
</p>
<p>Lá pelas dez da noite eles chegaram. Todos juntos. E não eram só eles, havia mais quatro grandes gangues de skinheads, pelo menos umas cem pessoas. Não sei ao certo quantos éramos, mas havia representantes de movimentos punks de oito cidades do DF. O público sentiu a tensão. Algumas pessoas foram embora imediatamente. Todos sabíamos o que fazer. Ninguém levou nenhuma identificação. Eu tinha cortado o cabelo rente no dia anterior. Muitos traziam duas, três blusas para poderem se perder na multidão. Eu também trazia um lenço comprido pra tampar o rosto.
</p>
<p>Foi muito rápido. Antes que eles pudessem se desagrupar, um rapaz tão franzino quanto eu, gritou o nome de T. bem alto. Foi o caos. Uma multidão de punks saiu do meio do público do show e avançou sobre os skinheads. Eles estavam preparados e reagiram na mesma medida.
</p>
<p>Eu também entrei no bolo. Soco inglês na mão, os dentes muito unidos, os óculos escondidos no bolso de trás da calça. Corri como um desesperado pro meio do bolo. Paus, pedras, galhos de árvores, tudo era arremessado na gente. E eu socava tudo o que eu via de careca na minha frente. Eles recuaram. Nós não deixamos, nós os cercamos. Queríamos sangue, queríamos morte. Eu vi, pela primeira vez, a face do medo.
</p>
<p>Os carecas tremiam. A lama do chão era uma mistura nojenta de sangue e corpos de adolescentes. Havia meninas também e homossexuais se chutando, se espancando, mordendo. Foi a desforra de tudo o que sofremos nos meses anteriores. A polícia estava presente, sempre está, mas eles assistiram tudo quietos. Não chegou a dois minutos, mas eu estava exausto. Meu corpo todo tremia, minhas mãos doíam. As minhas costas e barriga estavam machucadas. Eu mal me agüentava em pé.
</p>
<p>Então chegou a cavalaria. Eles vieram como um raio, passando por cima de tudo. Nas mãos eles carregavam grandes cassetetes que podiam acertar pessoas no chão, mesmo estando sobre os cavalos. &#8220;Estou perdido&#8221;, pensei. Mas não. Eles passaram pela gente e foram com tudo pros skinheads. E a partir daí tudo ficou confuso.
</p>
<p>Dispersamos. Cada um correu para um lado. Tirávamos as blusas de cima enquanto corríamos, e corríamos, e corríamos. Era a sobrevivência MESMO. Ir para o CAJE – o centro de correção de jovens infratores – era a morte certa para todos os punks. Quando a coisa ficou preta, eu me escondi atrás de um container de lixo. Podia ouvir o barulho das balas de borracha e das bombas de efeito moral muito próximas. A cavalaria continuava avançando e batendo, batendo, batendo&#8230;
</p>
<p>E eu ali, molhado de chuva, escondido, ainda com o soco inglês na mão. Foi quando vi, ali na minha mão, um pedaço de algo que era carne e sangue, que provavelmente veio da cara de alguém. Joguei aquilo no contêiner e fugi dali, muito rápido.
</p>
<p>Esse dia nunca foi esquecido.
</p>
<p>Aquele foi conhecido entre todos os punks como o dia do perdão, porque mostramos como se perdoa neonazista.
</p>
<p>
 </p>
<p>
 </p>
<p>Minhas mãos ficaram inchadas por muitos dias. Eu não conseguia esquecer o soco inglês sujo de sangue. Mas tive orgulho de estar ali. Como disse antes, não se pode culpar uma pessoa pelo que ela faz aos dezesseis anos. Se fosse hoje eu faria? Dificilmente. O que sei é que todos os dias morrem pessoas vítimas de discriminação racial e social nesse país. Há vários T.&#8217;s anônimos em toda parte. Fiz o que achava certo então.
</p>
<p>O dia da morte de T. é celebrado por nós todos os anos. Na confraria de (&#8230;), que ainda existe, é chamado o dia do Martírio.
</p>
<p>E se escrevo isso agora, depois de todos esses anos é por saber que sou o que sou hoje por causa dessa e de outras pequenas coisas. E isso carrego em mim todos os dias.</p>
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		<title>O começo da revolução</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 14:51:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Velho Pitanga]]></category>

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		<description><![CDATA[Continuando com a política de distribuição de pequenas partes do livro, aí vai mais um pedaço. Espero que vocês gostem.       Juvêncio e Onésimo bebiam animadamente no bar, já vazio no começo da madrugada. Juvêncio tinha passagem de volta marcada para o dia seis e aquela seria sua despedida do amigo. Também chamara [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=59&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;">Continuando com a política de distribuição de pequenas partes do livro, aí vai mais um pedaço.  Espero que vocês gostem.<br />
</span></p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Juvêncio e Onésimo bebiam animadamente no bar, já vazio no começo da madrugada. Juvêncio tinha passagem de volta marcada para o dia seis e aquela seria sua despedida do amigo. Também chamara Antônio, que estava de serviço nesta noite e não veio, e Pedro Emílio, que chegou lá pelas dez da noite. Os três jogavam cartas e contavam piadas. O relógio de pêndulo do bar marcava por volta da meia-noite quando Juvêncio sugeriu ir dar uma volta na praia, que ele nunca tinha visto à noite.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Solidários e meio embriagados, os amigos foram com ele. Andaram um pouco, na direção da Praia do Leme, quando Juvêncio sugeriu sentar-se na areia. Tudo estava calmo e na noite sem estelas podiam ver as luzes de um pequeno barco se afastando para o mar aberto. Ainda animados, os rapazes faziam troça uns com os outros.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Juvêncio ficou um bom tempo acompanhando o barco até que ele sumisse. Teria saudades daquele lugar, assim como agora tinha saudades de Chico Preto, do Tobias, Espiridião, Valentim e de Maria. Seria bom voltar, para casa, assim como foi bom encontrar estes amigos, meio que por acaso. Amanhã estaria no trem, de volta a Goiás.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Um pouco mais sóbrio, ele se levantou, chamando os amigos para voltar ao hotel. Andavam juntos, ainda animados pela bebida, quando&#8230;<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Por acaso estavam virados para o Forte de Copacabana, quando ouviram a gigantesca explosão. A princípio não conseguiram perceber o que acontecera e, por instinto, Juvêncio se jogou no chão. O bairro inteiro acordou. As luzes dos quartos da Avenida Atlântica acenderam-se quase simultaneamente. Cachorros latiam em uníssono, vários homens se debruçavam das janelas tentando entender o que acontecia.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Mas que&#8230; – Pedro terminou a frase com um palavrão.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Não sei, não sei, foi uma explosão.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Veio do Forte? – Era Onésimo que perguntava.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Os três lembraram ao mesmo tempo do amigo Antônio. Correram em direção ao forte o mais rápido que podiam.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Foi apenas uma explosão, depois o silêncio. Nenhum sinal de incêndio ou de acidente, nada de fumaça que justificasse o barulho. A princípio, nenhum dos três amigos percebeu que estavam prestes a ver a História ser escrita.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Dentro do forte, Antônio, ou melhor dizendo, o tenente Siqueira Campos, ouvia com atenção, observando o relógio de bolso, ao lado do canhão de artilharia. Em sua sala, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do ex-presidente Hermes da Fonseca e comandante do Forte, também ouvia atento. Esperavam um sinal.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>As ordens tinham sido dadas, o forte estava cercado de trincheiras recém-escavadas, onde os soldados bem municiados esperavam as próximas ordens. As areias estavam cheias de minas. Os minutos passavam e todos estavam tensos. Nenhum som, nenhuma resposta.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Os amigos pensaram primeiro em um acidente. Talvez alguém tivesse disparado o canhão por acaso, ou explodido uma das bombas da artilharia. Dizem que isso já tinha acontecido antes. Porém, minutos depois, quando chegaram ao forte, foram surpreendidos pelo grande aparato militar montado na praia. Armas engatilhadas se voltaram para eles.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Foram os primeiros civis a chegar. Momentos depois vieram vários outros, principalmente curiosos. De dentro da trincheira, um soldado gritou:<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Alto, quem vem lá?<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Sem pensar, Onésimo respondeu:<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Amigos do tenente Siqueira Campos.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Seguiu-se um breve momento de silêncio, onde os soldados conversaram entre si.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- O que está acontecendo? Houve um acidente? – gritou Juvêncio.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Os soldados sorriram. Um deles, em outra trincheira, gritou:<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- É a revolução! – e seguindo este grito, altos brados de ordem foram entoados pelos soldados. Alguns civis responderam entusiasmados, outros entreolharam-se, surpresos, e voltaram às suas casas.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Finalmente veio uma resposta:<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- O tenente Siqueira Campos está ocupado agora, na sala de canhões.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Pois diga a ele que há um gaúcho aqui querendo se juntar a ele! – a esta afirmação, vários soldados bradaram, entusiasmos. Sem nem pensar, Juvêncio respondeu:<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- E diga que há um goiano aqui também, disposto a morrer!<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>E os soldados foram à loucura!<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Quando olharam para os lados, Pedro Emilio havia sumido.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;">
 </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>De sua sala, o capitão Hermes da Fonseca ouviu o barulho e foi correndo ver o que estava acontecendo, quando viu os dois jovens imprudentes, perigosamente próximos do campo minado.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Alto! O que é isso? – perguntou.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Viemos nos juntar ao tenente Siqueira Campos!<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- E quem são vocês?<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Eu sou Onésimo Lisboa, gaúcho, filho do deputado Aleixo Lisboa, que lutou na revolução federalista do Rio Grande do Sul e neto de Júlio Lisboa, revolucionário farroupilha e comandante na Guerra do Paraguai. Vim para lutar.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- E o seu amigo?<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>- Sou Juvêncio Pitanga, goiano.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>O capitão Hermes da Fonseca tinha ouvido fala de Juvêncio Pitanga, na noite anterior, pelo próprio tenente Siqueira Campos e ficara impressionado. Não pensava que ele fosse tão jovem. Além disso, Aleixo Lisboa era amigo de seu pai e tinha assinado uma carta pedindo, com outros parlamentares, a imediata soltura do Marechal. O avô dele e o seu haviam lutado juntos no Paraguai. Mesmo assim, estava indeciso se devia arriscar a vida de civis neste conflito.<br />
</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:Times New Roman;font-size:12pt;"><em>Foi quando houve a segunda explosão. Mesmo com tudo planejado, era assustador e excitante ouvir o canhão trabalhando. Isso significava que o tempo já havia passado e que ninguém mais respondera. Estavam sozinhos, os outros destacamentos não haviam se insurgido. Eram bons soldados e, afinal de contas, era para o povo que estavam lutando. Nada mais justo que o povo participasse. Mandou um soldado guiá-los para dentro das trincheiras e municiá-los. Ambos estavam na revolução.<br />
</em></span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/59/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=59&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Voltando</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 16:55:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fragmentos]]></category>

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		<description><![CDATA[Olá a todos,     Não sei se vocês estão sabendo, mas nos últimos meses voltei a escrever As Crônicas do Vale da Morte. Infelizmente isso não é muito blogável, até porque os capítulos são compridos e a história é bastante densa para ser acompanhada ao longo de muito tempo. Very boring, very boring&#8230;   [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=57&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Olá a todos,
</p>
<p style="text-align:justify;"> <br />
 </p>
<p style="text-align:justify;">Não sei se vocês estão sabendo, mas nos últimos meses voltei a escrever As Crônicas do Vale da Morte. Infelizmente isso não é muito blogável, até porque os capítulos são compridos e a história é bastante densa para ser acompanhada ao longo de muito tempo. <em>Very boring, very boring</em>&#8230;
</p>
<p style="text-align:justify;"> <br />
 </p>
<p style="text-align:justify;">O fato é que estou escrevendo bastante e, para não deixá-los na mão, aí vai um trechinho:
</p>
<p style="text-align:justify;"> <br />
 </p>
<p style="text-align:justify;"><em>Juvêncio demorou dez dias para poder finalmente sair de casa. Já não se agüentava mais, principalmente porque na fazenda Imperatriz começavam os preparativos para a partida do gado para Sorocaba. Também não suportava as intermináveis visitas de várias pessoas, boa parte antigos aliados dos Ferreira, que vinham lhe jurar lealdade, em troca de pequenos favores. O fato é que os jovens não gostam de ficar parados e embora gostasse muito da negra Teresa e de sua avó, era na fazenda, entre o gado, que Juvêncio se sentia feliz. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>E assim, no dia três de fevereiro, uma manhã de quinta-feira de garoa fina, Tobias foi ao sobrado, com dois cavalos, levar Juvêncio para a fazenda. O jovem teve dificuldades para subir, o ombro e a perna doíam muito, mas estava contente de deixar a cidade para trás. Mas agora, havia uma sensação diferente. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Em novembro, quando ele chegou da viagem de Sorocaba, já sabendo da morte do pai, também foi Tobias quem foi recebê-lo e levá-lo para a fazenda. Ele se lembrava muito bem das janelas fechadas e das pessoas que o evitavam na rua. Agora, ao contrário, os homens que passavam por ele baixavam o chapéu e faziam questão de cumprimentá-lo, muitos orgulhosos e outros com medo. Tobias também não deixou de notá-lo e, em uma das esquinas antes de deixar a cidade, disse: </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>- Sabe do que andam te chamando, patrãozinho? – Juvêncio encarou-o, interrogativo – Coroné Juvêncio. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Juvêncio não pôde esconder um sorriso. Tobias pitava um cigarro de palha e olhava para a estradinha para a fazenda. &#8220;Coronel Juvêncio! Não é que soava bem?&#8221;, pensou Juvêncio &#8220;se bem que me faz sentir como um velho&#8230; um velho de dezessete anos&#8221;. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Perdido em seus devaneios, ele só percebeu que Tobias havia parado quando ouviu o barulho da arma dele sendo engatilhada. Estavam na frente do cemitério da cidade onde havia um jovem rapaz de barba rala e chapéu de couro, rosto claro e cheio de sardas. Era Thiago Ferreira, filho de Lino. Estava com a mão na pequena pistola que trazia no cinto. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Mais à frente, podiam ver uma mulher vestida de preto, à porta do cemitério, com o rosto coberto com um véu escuro transparente, mas deixando perceber a pele branca e os cabelos loiros. Como era bonita! Juvêncio já tinha ouvido falar dela, mas nunca tinha visto. Era Luíza, viúva de Alberto Ferreira. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Ela levantou os olhos para ele, olhando-o com raiva e fúria. Juvêncio tocou o cavalo, alguns passos à frente, passando por Thiago e ficando cada vez mais próximo dela. Alguns poucos metros parou. Olho para trás, fazendo sinal para que Tobias abaixasse a arma, sendo obedecido a contragosto. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Juvêncio tirou o chapéu e pôs sobre o peito. Soltou as rédeas do animal e disse: </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>- A dor que eu lhe fiz sentir é irreparável, senhora. É demais pedir perdão, mas espero que a senhora entenda. Da minha parte, não sinto o menor orgulho do que fiz. Fiz o que era preciso ser feito. </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Ela olhou-o, com uma expressão entre consternada e surpreendida. Respirou fundo e entrou no cemitério. Thiago seguiu-a. Antes que ele entrasse no cemitério, Juvêncio disse: </em>
	</p>
<p style="text-align:justify;"><em>- Thiago, você tem todo o direito de se vingar e eu lhe entendo perfeitamente. Não pense que eu me senti de maneira diferente quando mataram meu pai – recolocou o chapéu e puxou as rédeas do cavalo, indo na direção de Tobias – Mas não é preciso apressar as coisas. Haverá o dia em que finalmente poderemos acertar nossas contas, eu contra você. E, quando esse dia chegar, espero que você esteja pronto. </em>
	</p>
<p><em>Dizendo isso, partiu com Tobias</em>. </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/57/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=57&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>foto da manu</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jan 2010 14:18:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>

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		<description><![CDATA[<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=53&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/53/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=53&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Fenômeno pendular</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Dec 2008 01:59:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[chope]]></category>
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		<category><![CDATA[sapatos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tudo está sempre em trânsito. Tudo muda, vertiginosamente, na velocidade inebriante do suspiro, do sono, do sonho. A terra, as casas, as pessoas, os sotaques, influenciados pela estranha política: construir, transformar, mudar a natureza, implantar o novo, mostrar o modernismo em todas as suas formas, em todas as partes, em todos os cantos. Decibéis e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=48&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Tudo está sempre em trânsito. Tudo muda, vertiginosamente, na velocidade inebriante do suspiro, do sono, do sonho. A terra, as casas, as pessoas, os sotaques, influenciados pela estranha política: construir, transformar, mudar a natureza, implantar o novo, mostrar o modernismo em todas as suas formas, em todas as partes, em todos os cantos. Decibéis e megabytes, motéis e boates, multidões que se movem, dia após dia, noite após noite, sem descanso, sem pátria, sem terra, mas com lote.</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Empregos que se transformam: leiteiro vira marceneiro, que vira padeiro, que ganha dinheiro, que vai pro estrangeiro, perder seu dinheiro, sem se sustentar. Mineiro, filho de sapateiro, vira concurseiro, passa em primeiro sem estudar. Bacana de vida cigana, sai de copacabana, mudar de lugar. Dança de cadeiras, de concursos, de recursos nos tribunais. Assessor, promotor, desembargador, ministro de tribunal superior, vira então militar? Subindo, descendo, andando de ônibus: homens e mulheres em construção, reforma, implantação.</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Espaços urbanos, levemente humanos, quase nunca suburbanos. Highways que cortam o planalto, rios de asfalto que se cruzam sem se encontrar. É o viaduto. É o prostituto a rebolar, ganhar seu sustento.</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Os homens e mulheres que passam, apressados, sempre bem-educados, mas sem se importar com desvios. Com o céu. Com o precipício. Com o suplício diário da solidão. Tudo moderno, tudo incessantemente sincero. Tudo combinado, jurado, sacramentado, firmado em cartórios civis. O tempo é outro. Tempo de desperdício, de ilusão.</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">E por cima de tudo o céu de ilusão sem nuvens, natural, selvagem, desconhecido, azul e desolador. A pequenês ambivalente, </span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">E a vida anda com as pessoas, rápido demais. Rápido como a vida, como o tempo que sucede o orgasmo da secretária, o arrumar do vestido, o beijo estalado, o farfalhar metódico das pernas que se sucedem.</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Toc</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Toc</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Toc</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Saltos que ferem o cimento, revelam a sinestesia amniótica entre a mulher e o chão. </span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">E antes que se perceba, a chuva toma tudo, transgride o ritmo, lava as almas dos passantes, que apressados tomam seus lugares entre as marquises dos edifícios. E se entreolham atônitos. Do que serve tanta modernidade se não se consegue domar o céu?</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">Poderosamente, este se renova em plúmbeas revoluções, mais forte que a vontade de mover, obriga todos a um particular sofrimento: a imobilidade. </span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">E nestas horas, nada mais belo do que a solidariedade passageira:</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">- E então, topa um chope?</span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent"><span lang="PT-BR">- Só se for agora! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR"><span> </span></span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/48/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=48&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Augustos</title>
		<link>http://cronicasdovaledamorte.wordpress.com/2008/12/01/augustos/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 00:33:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>
		<category><![CDATA[Quand]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. A rua tinha sido asfaltada há pouco tempo e eu adorava o cheiro forte de piche saindo do chão. Não fazia frio naquele dia, mas o céu estava nublado. Era novembro e eu ia pegar o ônibus para a escola. Sozinho. Eu tinha nove anos. Acabara de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=46&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. A rua tinha sido asfaltada há pouco tempo e eu adorava o cheiro forte de piche saindo do chão. Não fazia frio naquele dia, mas o céu estava nublado. Era novembro e eu ia pegar o ônibus para a escola. Sozinho. Eu tinha nove anos.</p>
<p>Acabara de amanhecer. Eu sempre odiei o horário de verão porque tinha de acordar ainda mais cedo que de costume. Mal tomei café e comecei a andar em direção à parada. Era perto e o ônibus não ia demorar muito.</p>
<p>Quando eu era pequeno as coisas eram diferentes. Algumas casas eram de madeirite mas a maioria era de alvenaria. E eu via a cidade crescer, rapidamente. Mas era tudo igual: cinza do cimento e das telhas de amianto misturado com o vermelho dos tijolos e da poeira que insistia em cobrir tudo.</p>
<p>Eu via as casas como um quebra-cabeças, onde as peças eram tão  parecidas que dava um grande trabalho diferenciar um casa da outra. A pobreza é assim: massificante. As casas se uniam em sua feiúra e se misturavam em sua falta de opulência. Todas unidas em sua tarefa de esconder as tristezas de seus moradores.</p>
<p>Mas eles não aparentavam ser tristes. As casas eram feitas para ser resistentes, sabe? Aquelas pessoas podiam fazer apenas isso: resistir. E embora cada uma delas carregasse um mar de desaventuranças dentro de si, era visível que todas tinham grandes esperanças de dias melhores.</p>
<p>Eram altivos, mas não tinham orgulho. Eram como aquelas casas, seguras, por fora, mas vazias por dentro. Mas embora vazias de móveis, eram carregadas de algo muito mais poderoso: sentimentos verdadeiros. Tristezas, alegrias, esperanças. Braços que se abraçavam fraternalmente e mãos que se ajudavam.</p>
<p>O orgulho é um luxo caro demais para aquelas pessoas e por isso elas se divertiam vendo o orgulho de outras na televisão. Era a alegria pasteurizada, sendo entregue gratuitamente em todas as casas. E, quando passava pelos bares da região eu via outro tipo de alegria: falsa, destilada ou fermentada, que se mostrava nos cuspes verborrágicos daqueles infames senhores. E o preço daquela alegria talvez fosse alto demais.</p>
<p>A vida se mostrava assim: inconstante e implacável como o sopro do vento que carregava as pipas dos meninos pelo céu. E quando uma delas voava, eles corriam como este mesmo vento inconstante, atrás de sua alegria: o arremedo do vôo, a essência da liberdade. Não uma liberdade comprada, vigiada, como a dos prédios com porteiro. Era outro tipo a que eles almejavam. A de dizer a que veio, quem era. A liberdade de sonhar e correr atrás de seus sonhos.</p>
<p>E eu sonhava muito quando meus passos se sucediam na direção da escola. Era preciso ousar para ser diferente. Era preciso ser igual na diferença, como aquela casa de esquina pouco antes da parada de ônibus. Também era de cimento, tijolo e amianto. Mas tinha uma coisa que só ela e nenhuma outra casa tinha: vasos e vasos de flores coloridas, destoantes, orgulhosas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/46/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=46&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O Ingazeiro</title>
		<link>http://cronicasdovaledamorte.wordpress.com/2008/11/28/o-ingazeiro/</link>
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		<pubDate>Fri, 28 Nov 2008 02:50:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>
		<category><![CDATA[Cantigas]]></category>
		<category><![CDATA[Carcará]]></category>
		<category><![CDATA[Cascavel]]></category>
		<category><![CDATA[Cavalos]]></category>
		<category><![CDATA[Vento]]></category>

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		<description><![CDATA[Era julho e o vento soprava poderoso, fazendo redemoinhos avermelhados em torno das árvores, deixando os olhos dos viajantes apertados. Estavam com sede e Jeremias pensava no córrego, mas aí eu me adianto. - Quanto já? - Arre! Mais de sete léguas. - É muito! A ventania sibilava nos ouvidos de modo que mal se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=43&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Era julho e o vento soprava poderoso, fazendo redemoinhos avermelhados em torno das árvores, deixando os olhos dos viajantes apertados. Estavam com sede e Jeremias pensava no córrego, mas aí eu me adianto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Quanto já?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Arre! Mais de sete léguas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- É muito!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">A ventania sibilava nos ouvidos de modo que mal se ouvia o barulho dos cascos dos animais na terra arenosa. A natureza implacável mostrava sua força em cada elemento: As curvas indecentes das árvores, como almas condenadas que pedem clemência aos céus. Aquela região parecia um pedaço do inferno, onde a penitência de cada alma é passar a eternidade de braços abertos, angustiados, suplicantes, mãos que procuram alento nas nuvens, sem nunca chegar próximas ao céu. O sol audacioso compunha também o quadro desesperador, queimando, inexoravelmente onipresente, mas suficientemente brando para não secar o suor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">A boca seca, olhos lacrimejantes e o vento: rajadas que se sobrepõem, às vezes leves, enganadoras, às vezes médias, néscias, mas na maior parte do tempo inconstantemente poderosas, inexpugnáveis. E este vento sem direção seguia todas as direções: oblíquas, perpendiculares, hiperbólicas em vários momentos. Vento que faz curva, vai e volta. Vento que sacode o pó e enche de pó o que era pó e para o pó voltará. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Carcará voou. Bem-te-vi, bem-te-vi. Sabiá. Assum preto, curió, curioso. Carcará. Imagens que se sobrepõem entre um abrir e outro dos olhos. Pássaros que domam o vento ou povoam o vento de cantos. Cantam com o vento de suplícios.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">A terra coberta em quase toda sua extensão de uma vegetação rasteira, era entrecortada por erosões poderosoas que evidenciavam a terra vermelha. Vermelho-sangue, como se as almas-árvores fossem alimentadas, piedosamente, pela seiva sanguinolenta da terra. E o vento, claudicante, levantava a terra, subindo-a aos céus, às árvores, folhas, pássaros, cavalos e viajantes, cobrindo tudo da seiva-sangue da terra implacável do cerrado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Tudo era desolação e abandono. A natureza resistia à passagem, mostrava-se evidente que era. O vento, o sol e a terra dançavam num ritmo inconsciente e sagaz, uma ciranda entre os elementos, causada pelo desequilíbrio das forças oniróides da natureza.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Mas então o buriti aparece no horizonte e como um marco, um símbolo, enche de esperança os olhos cansados. Junto a ele vários outros que se sobrepõem. O ar fica mais leve, límpido, o sol ainda mais brando e a terra antes arenosa e infértil, fica maleável. Os cavalos erguem as orelhas, andam mais depressa, alegres. As árvores espaçadas desaparecem e são substituídas pelos densos troncos retos de árvores nobres. O som poderoso do vento é substituído por um outro, mais palatável, sereno: som de água que corre. Chegaram a um córrego.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Os viajantes descem, soltam os cavalos e abastecem-se de água fresca e limpa e começam a contar alegremente vários causos de suas terras, histórias coroadas de suspiros e saudades. Mas as histórias raream e todos se entregam à melhor das tarefas do dia: o merecido descanso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">E este foi o erro de Jeremias, mas aí eu me adianto. Ele deitou-se sob a sombra de um ingazeiro grande e florido, fechou os solhos sob o chapéu velho de palha e dormiu tranqüilamente. O vento implacável se transformou em brisa leve, amena, embalando o sono do capiau. E foi assim por uma boa meia hora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">*********</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">E os cavalos estavam assustados. Relinchos entrecortados com coices no ar. Os viajantes levantaram sobressaltados, tentando acalmá-los:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Eia! Eia&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Ôa, ôa, alazão!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Jeremias observava a cena ainda deitado. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Arre! Praga dos infernos! Valei-me nossa senhora!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Para aqueles homens o súbito enlouquecimento dos cavalos só poderia ser obra de alguma entidade sobrenatural. Por isso eles se benziam e faziam simpatias enquanto tentavam acalmar os animais. Jeremias continuou deitado e este foi o seu erro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR"><span> </span>Indolentemente, ele sentou-se, encostou as costas no ingazeiro e acendeu seu cigarro de palha. Os cavalos continuavam empinando, dando coices e relinchando alto. Mas apesar de toda esta confusão, Jeremias parecia ouvir um barulho característico, familar. Que seria? Os cavalos pareciam querer dizer alguma coisa. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">- Nunca vi coisa assim. Eles não se acalmam de jeito nenhum.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Jeremias tragou com força, brincando com a fumaça nos pulmões, ainda tentando descobrir que tipo de barulho era aquele. Era ritmado, constante. Muito parecido com o barulho da água que corria no córrego perto dali. Mas seria&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">E Jeremias percebeu muito tarde que se tratava de um chocalho. A cascavel fitava-o nos olhos, hipnotizando-o. Então era isso, uma cascavel. A audição dos cavalos, muito mais desenvolvida, tinha percebido o som do chocalho antes de todos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Ele não havia o que fazer. A cobra estava a menos de um metro do seu rosto, perigosamente preparada para o bote. Jeremais não respirava, não fazia qualquer som. Seu braço direito movia-se sorrateiramente na direção da cobra.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">Olhos nos olhos. O homem e a cobra estavam empenhados numa briga surda pela sobrevivência. O braço movia-se milimetricamente na direção da cabeça da cobra. Olhos nos olhos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">E Jeremias percebeu seu erro tarde demais. Em vez de fazer o bote no braço, a cobra avançou sobre o rosto dele, entre os olhos. Jeremias gritava assustado. Seus colegas, empenhados em acalmar os cavalos, nem perceberam a cena se passando até que fosse muito tarde. Correram para ajudar o amigo que já tinha se livrado da cobra, mas gritava de dor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;"><span lang="PT-BR">Jeremias agonizou dois dias antes de morrer. Foi enterrado em Crixás, sem reza e sem discurso, sem caixão, sem cigarro, sem nada. </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cronicasdovaledamorte.wordpress.com/43/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=43&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Isaías</title>
		<link>http://cronicasdovaledamorte.wordpress.com/2008/11/22/isaias/</link>
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		<pubDate>Sat, 22 Nov 2008 02:48:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Não classificado]]></category>
		<category><![CDATA[Cavalcante]]></category>
		<category><![CDATA[Chuva]]></category>
		<category><![CDATA[Coalhada]]></category>
		<category><![CDATA[Trovão]]></category>

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		<description><![CDATA[O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=41&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cavalo suado bufava muito alto. Ainda estavam no meio da subida para a Cavalcante. Mais dois dias no mínimo para chegar à fazenda do velho Matias. Isaías se benzia. Tinha medo daquele lugar, pois morava lá uma gente estranha, negros fugidos há mais de século que tinham se escondido dos seus donos naquelas montanhas. Decerto nem sabiam do fim da escravidão. Falavam um dialeto estranho, cantado, nem parecia português. Isaías já tinha ouvido histórias horríveis de negros que mutilavam meninos para fazer rituais satânicos.<br />
A paisagem estava tomada de árvores baixas e tortas e mostrava uma grande desolação. Toda aquela região tinha sido queimada semanas antes e no meio das cinzas aparecia aqui e ali uma flor colorida. Mato estranho, terra estranha. Apesar de ser setembro fazia frio. Parecia que ele poderia sem muito esforço tocar as nuvens, de tão alto que estava. Nenhum sinal de água. Ao longe, Isaías viu um jatobá. Descansaria ali por alguns instantes antes de continuar a viagem rumo ao norte.<br />
O cavalo estava estenuado e sedento. Água ia demorar pra ver. Ele não conhecia bem aquela região, nem sequer estava seguindo uma estrada. Caminhava se orientando pelo sol e pelos pontos de referência no caminho. Mas ora, porquê raios o velho Matias tinha de inventar de confinar gado tão longe? Ouvira que além das montanhas haviam terras férteis, campos limpos entre os rios Tocantins e Araguaia. Lá ele exportava sua produção para o Maranhão e Piauí.<br />
Acariciou a crina do cavalo. Era branco e por isso se chamava Coalhada. Bom cavalo, bonito, apesar de um pouco velho. “Já está ficando tarde” pensou Isaías “talvez fosse melhor montar acampamento aqui”.<br />
Era uma decisão prudente. Quem sabe onde mais poderia arrumar um lugar tranqüilo para descansar? Se bem que ele tinha um certo medo das histórias que contavam sobre aquela região. Ah, moras ora! Quem daria bola para estas histórias?<br />
Fez um pequena fogueira e comeu o que tinha: rapadura e farinha. Coalhada ficou solto, tentando comer o pouco de mato verde que encontrava. Isaías encontrou ainda alguns jatobás e comeu bem satisfeito. Estava ficando frio muito rápido e ele apressou em se agasalhar. As nuvens vieram rapidamente e pintaram tudo de branco. Eram por volta das cinco da tarde.<br />
- Coalhada? – O cavalo tinha sumido. Não se ouvia nem o seu tropel ritimado. E essa agora? Pra onde teria ido? Isaías preferiu continuar perto da fogueira. Logo o cavalo deveria voltar.<br />
Ele devia tê-lo deixado peado. Agora era tarde. Isaías agasalhou-se e ficou quieto, tremendo de frio. A brancura do nevoeiro começou a se tornar escuridão. Apenas bem perto da fogueira poderia se ver alguma coisa. Além disso, apenas breu.<br />
A noite foi se aprofundando e o vento ficando cada vez mais forte. Ventava muito ali em cima, a ponto de fazer a fogueira trepidar perigosamente. Isaías jogou mais madeira ao fogo para torná-lo mais forte. Sem sucesso, um vento mais forte e a fogueira se apagou.<br />
Escuridão completa. Nenhuma estrela, nada, apenas o barulho ensurdecedor do vento tomando tudo.<br />
- Coalhada?<br />
Isaías estava tremendo e não era só frio. O vento agora era acompanhado de gotículas de água que tornaram a sensação térmica insuportável. Não adiantava querer acender a fogueira de novo. Restava esperar que amanhecesse ou que o vento diminuísse. E onde diabos estaria este cavalo?<br />
De repente, ouviu os primeiros trovões, bem longe.<br />
- Noite amaldiçoada!<br />
Já podia ver os relâmpagos.<br />
- Valei-me minha Nossa Senhora!<br />
Mais perto.<br />
- Ave Maria cheia de graça o sinhô é convosco&#8230;<br />
Não deu tempo de terminar a oração. Um raio caiu sobre o jatobá, a poucos metros, com grande estrondo. Isaías desmaiou.<br />
***********<br />
Continua&#8230;</p>
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		<title>O Viaduto</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Nov 2008 11:34:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>poetamatematico</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo Punk]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol]]></category>
		<category><![CDATA[Manifestação]]></category>
		<category><![CDATA[Molotov]]></category>
		<category><![CDATA[Patamo]]></category>
		<category><![CDATA[Punkitude]]></category>
		<category><![CDATA[Setor Comercial Sul]]></category>

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		<description><![CDATA[Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cronicasdovaledamorte.wordpress.com&amp;blog=2475055&amp;post=36&amp;subd=cronicasdovaledamorte&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoBodyTextIndent">Era setembro e éramos pelo menos vinte mil, numa grande manifestação. A coisa tava feia. Perto das três da tarde, o sol escaldante feria nossos rostos cansados, lábios ressecados pela secura do cerrado. Os cabelos sujos de poeira vermelha, os olhos lacrimejantes, cansados, o céu azul sem nuvens que fazia a sensação de deserto ainda pior.</p>
<p class="MsoBodyTextIndent">Não chovia há dois meses e os gramados de Brasília estavam secos, acinzentados e eu tinha muita sede. Era o governo do PSDB e, não é necessário dizer, não estávamos muito satisfeitos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Mas a coisa tava feia. Uma bomba de efeito moral tinha estourado perto dali, minutos antes, ferindo uma menina bonita, de uns desesseis anos. Ela saiu de ambulância, ensangüentada. A organização da manifestação precisava fazer uma assembléia urgente, pois o confronto era iminente. Já via, no alto dos prédios do Setor Comercial Sul os policiais militares se aprontando. Um helicóptero sobrevoava os manifestantes, bem baixo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>O governo PSDB teve ampla maioria no congresso e, nessas horas era preciso ir às ruas para lugar pelos nossos ideais. Esta manifestação era organizada pelas CONCLUTAS, mas contava com a participação de vários movimentos organizados, como gays, sindicatos autônomos, cooperativas, MLST, entre outros. Claramente, nós punks não estávamos de fora.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- E as armas? – O Pedro perguntava excitado. Era a primeira vez dele numa manifestação tão grande. As CONLUTAS estavam começando a crescer neste momento e era a primeira manifestação de porte que eles organizavam. A gente tinha ido ali para fazer peso e oferecer ajuda. Eu já tinha visto várias manifestações como esta e, por isso mesmo, sentia medo. O PT não estava junto da gente, nem o MST, pois tinham fechado um acordo político com o PSDB. As disputas partidárias estavam enfraquecendo o movimento perigosamente. Fugi da pergunta do Pedro, fazendo outra. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Eles estão posicionados? – Havia alguns de nós infiltrados nos prédios vizinhos. Queríamos saber se o batalhão de choque estava próximo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Estão. Parece que os hômi vão meter o pau.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- É, estou vendo. Talvez precisemos agir.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>O lenço preto que cobria meu rosto me fazia respitar mal, mas ele seria muito útil em breve. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Tomem o asfalto – eu disse – precisamos nos posicionar melhor para resisitir. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Não havia tempo para assembléias, era preciso agir rápido. No horizonte, via os homens da PATAMO que batiam com cacetetes nos seus escudos transparentes. Eles dominavam a pista no sentido norte. Nos posicionamos a sul, logo em frente. Era hora de expor meu plano. Os meus colegas me ouviram pacientemente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Precisamos furar o cerco para que os manifestantes cheguem à rodoviária. Lá podemos nos reorganizar e continuar a marcha, rumo ao Congresso. Eles não querem que cheguemos à Esplanada dos Ministérios. Vamos ter de enfrentá-los.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Nessa época ninguém tinha celular, era artigo de luxo. Se fosse hoje, provavelmente teria ligado para o PT e ver se eles intercediam para evitar o confronto. Mesmo nessa época o PT era muito forte. Agora era preciso agir por nossa própria conta. E estavam todos ávidos por confronto. Era inevitável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Vai ser difícil. O alvo principal é o viaduto. Tomando o viaduto, tomamos a rota que leva à rodoviária e de lá à Esplanada. Não quero ninguém com a gente que não seja profissional. – Eu me referia aos meninos mais novos que estavam entrando nas fileiras por esses dias. Eu sabia que a coragem deles sumia rápido nessas horas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Os diversos movimentos punks estavam representados naquele dia, principalmente o MEPR. Meninos de preto, cabelos moicanos, socos ingleses e calças de couro. Mas eram meninos. Eu, com 17 anos, era já veterano. Apesar de ser um movimento anarquista, nessas horas era preciso alguma liderança. Éramos uns cem punks, ao todo. Pelo menos dois policiais pra cada um. A coisa tava feia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Nos unimos, num círculo. Era preciso decidir se enfrentaríamos a polícia ou não. Os olheiros da polícia observavam tudo, do alto dos prédios vizinhos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Enfrentamos?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>O Darth, velho de outros movimentos estava tão cauteloso quanto eu. Os outros queriam barulho, sangue. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Eles têm uma boa fileira e uma boa posição. – disse Darth – Além disso, têm vantagem numérica e, possivelmente, o apoio da cavalaria. É uma luta muito difícil. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Não sabíamos a opinião dos líderes do CONLUTAS. Naquela hora, eles que se fudessem. Punk não aceita ordem de ninguém, mas seria interessante saber se o resto da multidão oporia alguma resistência conosco se necessário. Muitas variáveis. Eu estava com medo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Que porra de fileira, que nada! Vamo meter o pé na bunda desses pé-de-bota, filhos da puta! – um garoto que eu não conhecia gritava em alto e bom som.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Cacetete no rabo deles! Morte ao Estado, viva a Anarquia!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- VIVA!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Olhei pro Darth, cocei a barba rala e re-observei a posição do batalhão da polícia. Os outros manifestantes estavam apreensivos, mas entoavam o “Fora já, Fora daqui! O FHC e o FMI!” a plenos pulmões. Olhei para o horizonte, depois para o céu do planalto. Uma grande abóboda azul, sem nuvens. É, era hora de agir. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Mantenham a fileira posicionada, temos de tomar terreno o mais rápido que der. Permaneçam unidos até minha ordem de dispersar. Depois é cada um por si. Somos soldados na luta por um mundo de iguais, onde reine uma justiça de homens, sem a interferência do Estado. Esse Estado nos oprime, lutemos contra ele. PUNK!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Punk!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Fora FHC!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Fora!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>E gritamos num uníssono, como um batalhão daqueles filmes de guerra da idade média. Nesse ínterim, abrimos nossas mochilas e tiramos de lá os Molotovs preparados de véspera. As fileiras da polícia avançaram rápido em nossa direção, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral. A multidão se dispersava, mas muitos resistiam bravamente. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Molotovs acessos, a polícia a menos de vinte metros. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>E corremos como loucos na direção da polícia. O que aconteceu depois foi difícil de descrever. Os policiais se uniram em três grandes fileiras de pelo menos oitenta homens em cada e atiravam livremente nos manifestantes e em  nós. Eu usava um sobretudo grosso e tentava desviar das balas de borracha. Os meninos mais novos corriam na frente, excitados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Mantenham a formação! – Eles nos esperaram. Marchávamos unidos, como uma fila. Podíamos ver a cor dos olhos dos policiais. Eles preparavam os cacetetes e firmavam posição com os escudos fazendo uma grande fila.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- VIDA LONGA À REVOLUÇÃO ANARQUISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Eu pude perceber um leve sorriso nos guardas à nossa frente. Três passos. Dois passos. Um passo. Pulei com uma voadora no meio do mar de escudos e cacetetes. A fila da polícia resistia bem, era uma tropa bem disciplinada. Sinto que eles também estavam gostando daquilo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Molotov!!!!!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Afluiu uma chuva de garrafas de gasolina e óleo díesel. Elas queimavam entre os policiais que foram obrigados abrir a fila em um ponto. Estávamos conseguindo dividir a fileira. Uma parte considerável da multidão nos seguira, bravamente, carregando paus e pedras. Eu sorri. Esses CONLUTAS tinham futuro. Estava sendo divertido. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Eu fugia dos cacetetes, animandos os meus a continuarem lutando. Os policiais mantinham posição, mas a chegada dos manifestantes fez com que eles recalculassem o risco. Ainda ouvi a ordem do comandante para reorganizar a tropa. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Os meninos resistiam. Bravos, pareciam guerreiros de verdade. Vi um menino novo, uns quinze anos, com a cara toda empapada de sangue. Paus e pedra sendo jogados para todos os lados. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Permaneçam unidos! Unidos!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Tinha medo de nos dispersarmos antes da hora. Quem sobrasse ia apanhar muito, talvez até a morte. Eles eram meninos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Ouvi o tropel da polícia montada. Fudeu!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- BOLAS DE GUDE!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Uma grande horda de homens e cavalos corria ordenadamente, vinda do leste, em nossa direção. Os cacetetes deles eram maiores, como espadas. Retrocedemos um pouco, dando espaço para a polícia reorganizar a fila. Era melhor avançarmos contra a polícia montada e deixar os manifestantes com os políciais comuns.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Pau no cu dos pé-de-bota!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>E quando eles chegaram muito perto, jogamos milhares de bolas de gude no asfalto, fazendo com que alguns cavalos deslizassem, derrubando cavaleiros no chão. Corríamos na direção deles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Dispersar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Eram duas frentes da polícia. Podíamos ficar cercados se continuássemos lutando como um bolo. Melhor nos infiltrar entre os manifestantes e lutar com eles. A ordem foi seguida pela maioria. Um grupo pequeno, com uns vinte, decidiu permanecer lutando unido. A polícia montada se reorganizou e partir para cima deles. Coitados, foram trucidados. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Concentrem-se na fileira! Na fileira!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>A fileira agora era mais compacta. Eles jogavam gás de pimenta para dispersar a multidão. A coisa tava feia. Mas a multidão era grande e nós punks éramos poucos. Os policiais precisavam se concentrar em várias partes da rua ao mesmo tempo. A fileira estava se abrindo, só mais alguns segundos e tomaríamos o viaduto. Mas aí veio a nossa desgraça. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Vieram mais policiais, de outros destacamentos, totalmente despreparados para este tipo de situação. Começaram a atirar para cima, com pistolas e escopetas de verdade. Eu tive medo, muito medo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Recuar!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Eles apontavam as armas em nossa direção.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- RECUAAAAAAAARRRRR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>A multidão ensandecida agia por conta própria. Eles não notaram a nova movimentação da polícia, concentrados que estavam na fileira. Caralho, muito foda, puta que pariu!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Parei. A coisa tinha ido longe demais. Iam começar a matar pessoas. Senti uma pancada muito forte no rosto e desmaiei ali, na linha de frente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>***********</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Me arrastavam pela perna, meu tronco raspava no chão. Sentia o sangue grosso escorrer do rosto. Tinha sido uma bomba de efeito moral a bater no rosto, soube depois. Pelo menos não tinha explodido, senão estaria desfigurado. Eu ainda estava grogue. Eram o Darth e o Pedro a me puxar. Eles tinham ouvido a ordem de recuo e me puxaram do meio dos policiais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Eu ainda ouvia os tiros sendo disparados, em cima do viaduto e pude contemplar o céu azul sem nuvens, enquanto era arrastado pelo chão. Outros punks vieram e ajudaram a me carregar até um lugar seguro, longe da polícia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Jogaram-me atrás de um container de lixo. O Darth olhava pra mim, pupilas dilatadas, rosto suado e também sujo de sangue.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Vencemos? – perguntei, minha voz era um fio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Não. Mas foi lindo mesmo assim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Estamos em extinção, meu amigo, em extinção.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>- Mas o que importa é que ainda não estamos extintos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>E eu fechei os olhos, ardidos pelo gás de pimenta, passando o lenço preto pelo rosto ferido. Tudo estava ensangüentado. Soltei uma grande, retumbante gargalhada e antes de perder de novo os sentidos ainda pude ouvir o coro da multidão pedindo a cabeça do FHC. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span>Bons tempos aqueles, bons tempos. Tempos de uma história que não foi contada, pois os vencedores não participaram dela. E nós, os vencidos, sobreviventes, guardamos as cicatrizes e a certeza de que lutamos para mudar o nosso tempo, contra a tirania dos neo-liberais. Mas lutamos e isso importa. Muito.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:27pt;line-height:150%;"><span> </span></p>
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